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Super Bowl. O quarentão Tom Brady, que desafia as leis da Física, pode tornar-se o "campeão dos campeões" /premium

Numa liga que tenta forçar o equilíbrio entre as 32 equipas de futebol americano, os New England Patriots disputam a finalíssima pelo 3º ano consecutivo, contra os Los Angeles Rams. Temos jogo.

Os New England Patriots disputam neste domingo mais uma finalíssima da ultra-competitiva liga de futebol americano, a Super Bowl. Vencer os Los Angeles Rams é a única coisa que separa o quarterback Tom Brady, que está a poucos meses de celebrar 42 anos, do seu sexto anel de campeão, o que cimentaria o seu lugar na história da NFL como o jogador mais vitorioso de sempre. Numa liga que tenta impor, à força, a paridade entre as 32 equipas, como se explica que uma equipa — os Patriots — vá à finalíssima pela terceira vez consecutiva (tendo ganho há dois anos, contra os Atlanta Falcons, e perdido no ano passado, com os Eagles de Filadélfia)? E que armas têm os Rams, que ainda há três anos eram uma das piores equipas da NFL, para desafiar as odds das casas de apostas e levar a Super Bowl para a sua nova “casa”, em Los Angeles?

A Super Bowl é transmitida em Portugal em exclusivo pela Eleven Sports, a partir das 23h. A partida joga-se em Atlanta, mas a arena estará coberta, pelo que não se irão sentir os efeitos do frio gélido que está a afetar os EUA, sobretudo mais a norte.

Apesar da idade avançada, para um atleta de alta competição, Brady continua sem querer ouvir falar em pendurar o capacete, mesmo podendo a “batalha campal” desta noite ser o fechar de um círculo perfeito: foi, precisamente, contra os Rams que Tom Brady ganhou o seu primeiro anel de campeão, na Super Bowl de 2002. Essa foi a temporada da NFL que os norte-americanos acompanharam com o fanatismo que é habitual, mas com um gigante nó na garganta, no rescaldo dos ataques às Torres Gémeas do 11 de setembro (de 2001). Na altura, os Rams jogavam em St. Louis, no estado do Missouri, e perderam no último segundo do jogo com um pontapé certeiro do kicker Adam Vinatieri, que deu aos Patriots os três pontos de que necessitavam para vencer a primeira Super Bowl da sua história.

A caminhada no deserto dos Rams

Desde essa altura, os Rams fizeram uma longa caminhada no deserto. Só em 2017 conseguiram, finalmente, quebrar uma série de 10 épocas — consecutivas — em que acabaram com mais derrotas do que vitórias. O franchise mudou-se, após a época de 2015, para Los Angeles — cidade que há muito não tinha uma equipa na NFL, mas que, agora, se vê com duas: os Rams e os Chargers. Com a mudança de cidade veio um plano para dar a volta: os Rams contrataram aquele que continua a ser o treinador mais jovem da liga (Sean McVay acaba de fazer 33 anos) e empenharam o couro e o cabelo para ter o direito a ser a primeira equipa de todas a escolher um atleta saído das faculdades, no Draft de 2016. O escolhido foi Jared Goff, um quarterback, é claro.

Jared Goff já defrontou os Patriots uma vez na sua carreira. Foi em 2016, Goff estava no seu primeiro ano na liga. New England venceu por 26-10. (FOTO: Adam Glanzman/Getty Images)

Mas se o pacato Jared Goff entrou na NFL com honras de fora-de-série, a pedra fundamental do futuro de um clube histórico da NFL, Tom Brady chegou à liga como um dos últimos jogadores a serem selecionados — o que não é estranho, tendo em conta que aquele miúdo meio desengonçado nem sequer era titular indiscutível quando jogava pelos Wolverines da Universidade do Michigan. Essa foi a primeira vez que Brady desafiou as leis da Física.

Os Rams contrataram aquele que continua a ser o treinador mais jovem da liga (Sean McVay acaba de fazer 33 anos) e empenharam o couro e o cabelo para ter o direito a ser a primeira equipa de todas a escolher um atleta saído das faculdades, no Draft de 2016. O escolhido foi Jared Goff, um quarterback, é claro.

Thomas Edward Patrick Brady contou até 199 antes de ouvir o seu nome a ser chamado, só na sexta ronda do draft. A certa altura, revelou mais tarde, admitiu que não iria ser escolhido por ninguém e teria de abraçar uma carreira como mediador de seguros. Isto porque os treinadores viram maior potencial em 198 jogadores que foram escolhidos à sua frente — e, quando se fala na posição mais importante da modalidade, os quarterbacks, houve seis “generais de campo” escolhidos antes de Brady. Nenhum desses seis acabaria por ter uma carreira digna de nota na NFL e alguns deles estão, hoje, a dedicar-se à agricultura. Literalmente.

Apesar de toda a ciência envolvida no processo do draft — os olheiros, as conversas com a família, com os treinadores universitários e com a polícia local –, a história é fértil em tiros ao lado. O mais divertido, exceto para os clubes envolvidos, é recordar como alguns jogadores entraram na liga como escolha número 1, 2 ou 3 e nunca serviram para mais nada do que para vender umas camisolas a fãs esperançosos que, pouco tempo depois, ficaram com o coração despedaçado. Brady, por seu lado, tardou a ser chamado à pista de dança, mas acabaria por dominar o baile, logo desde o momento em que uma lesão encostou às boxes o QB que era titular dos Patriots quando Brady chegou — Drew Bledsoe. Nesse dia teve início uma dinastia.

No "draft" em que foi escolhido, na 199ª posição, houve seis "quarterbacks" escolhidos antes de Brady. Nenhum teve uma carreira digna de nota na NFL e alguns estão, hoje, dedicados à agricultura. Literalmente.

A ordem inversa no draft é uma das principais formas que a NFL tem de promover o equilíbrio entre as equipas. Em cada uma das (sete) rondas, a equipa que teve o pior resultado na época anterior é a primeira escolher, e vice versa. No ano em que Goff foi escolhido, os Rams não tinham sido a pior das piores, mas conseguiram convencer os Tennessee Titans — lanterna vermelha da época anterior — a abdicar da primeira escolha, a troco de um ramalhete generoso de outras picks menos valiosas.

Mas a pick que os New England Patriots usaram para escolher Tom Brady, a 199ª, acabou por se afirmar como o melhor investimento de sempre na história da NFL. Ao fim de uma mão cheia de jogos, depois de render Bledsoe, Brady já tinha sacudido o nervosismo inicial e distribuía a bola com mestria pelos receivers. Os Patriots conseguiram qualificar-se para os playoffs e chegaram à Super Bowl — a tal, contra os St. Louis Rams, em fevereiro de 2002.

A estrela que já prescindiu de 60 milhões em salários pelo treinador

Depois disso, continuou a fazer história: a calma metódica de Brady, que à saída da faculdade muitos olheiros confundiram com desinteresse, era, afinal, uma mistura de auto-confiança com uma elevada dose de devoção a uma modalidade onde nunca quis ser outra coisa que não o melhor de sempre. A precisão cirúrgica no passe, rápido, e a inteligência na leitura de jogo bem acima da média tornaram-no um QB verdadeiramente especial: a genialidade do treinador que sempre o acompanhou, Bill Belichick, fez o resto (há quem defenda que sem Belichick Brady teria sido bom, mas nunca a lenda viva em que se tornou).

Teria Brady tido a mesma carreira caso não tivesse sido escolhido pelos Patriots e pelo génio de Bill Belichick?

Mas uma das razões que ajudaram os Patriots a construir essa dinastia, que já chegou a oito finalíssimas e venceu cinco, foi o facto de Tom Brady ter ajudado a equipa de Foxborough, arredores de Boston, a manobrar a principal arma que a NFL usa para nivelar as equipas — o impiedoso salary cap, o limite salarial comum a todos. À medida que Tom Brady negociou os sucessivos contratos que o mantiveram em New England durante toda a carreira, o marido da supermodelo brasileira Gisele Bundchen aceitou sempre receber menos dinheiro do que o mercado estaria disposto a pagar por ele — o que permitiu aos Patriots poupar na massa salarial e ter margem para reforçar a equipa com talentos noutras posições, tanto na equipa ofensiva como na defesa.

Cálculos recentes feitos pela Business Insider revelam que Tom Brady terá prescindido de salários num valor total de 60 milhões de dólares, ao longo da sua carreira, para nunca jogar noutro lado que não em New England e nunca atuar sob a alçada de outro treinador que não Bill Belichick. 

Esse “desconto” não o impediu de ser um dos atletas mais ricos do mundo, em parte graças aos trabalhos publicitários que foi fazendo ao longo dos anos. Mas cálculos recentes feitos pela Business Insider revelam que Tom Brady terá prescindido de salários num valor total de 60 milhões de dólares, ao longo da sua carreira, para nunca jogar noutro lado que não em New England e nunca atuar sob a alçada de outro treinador que não Bill Belichick. Mesmo assim, os cálculos estimam que Brady tenha recebido dos Patriots muito perto de 200 milhões de dólares desde que foi escolhido no draft.

A Super Bowl que menos pessoas queriam ver?

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A Super Bowl é a finalíssima que coloca, frente a frente, os dois vencedores das finais das duas conferências que existem na NFL: a AFC e a NFC. Os Patriots são os campeões da AFC e os Rams venceram a NFC, derrotando, respetivamente, os Kansas City Chiefs e os New Orleans Saints. Para muitos adeptos da NFL, o confronto que marcará esta Super Bowl foi o menos desejável: Brady e os Patriots vão à finalíssima pela terceira vez consecutiva, o que induz algum aborrecimento, e o entusiasmante Patrick Mahomes (jovem QB dos Chiefs) ficou pelo caminho. Do lado da NFC, muitos queriam ver os Saints na Super Bowl para o que poderia ser uma festa de despedida de outro dos melhores de sempre: Drew Brees. Mas, na final da NFC, os Saints acabaram por perder num jogo que ficou marcado por algo pouco usual na NFL — uma decisão muito questionável por parte dos árbitros que, nos últimos minutos, deu a vitória aos Rams.

Outros quarterbacks menos bem sucedidos receberam contratos mais generosos do que Brady, o que ajuda muito na ótica do salary cap, já que a posição mais cara do plantel tende a ser, naturalmente, a do “general de campo”. Mas não é sempre assim: quando uma equipa consegue encontrar um bom QB no draft, capaz de liderar a equipa enquanto ainda está no primeiro contrato (de quatro anos, por regra) da carreira, isso dá-lhe um bónus que costuma ser decisivo. É assim desde que foi firmado o acordo sindical que introduziu uma tabela fixa para os salários dos novatos, por ordem da sua seleção, colocando um ponto final aos contratos loucos que estavam a ser dados a jovens quarterbacks que nunca tinham participado num único jogo na NFL.

Com este acordo salarial, um bom QB jovem, que ainda esteja no seu primeiro contrato (ou seja, só a partir do segundo contrato é que o seu salário tenderá a explodir), dá uma margem enorme à respetiva equipa para investir no resto do plantel, sem exceder o salary cap. Alguns exemplos recentes: os Seattle Seahawks foram ao draft de 2012 buscar o seu atual quarterback titular, Russell Wilson, e durante o seu primeiro contrato foram à Super Bowl duas vezes (venceram uma). Porém, desde que lhe tiveram de pagar, num segundo contrato, nunca mais foram favoritos para ir longe e nos últimos dois anos só jogaram um jogo nos playoffs (uma derrota, este ano, face aos Dallas Cowboys).

Outro exemplo: os Baltimore Ravens ganharam a segunda Super Bowl da sua história em 2012, no último ano do primeiro contrato do QB Joe Flacco — mas, no verão que se seguiu, a equipa teve de lhe dar um contrato de 120 milhões de dólares para o manter e, desde então, a equipa só venceu um único jogo nos playoffs.

Esta é a janela de oportunidade que os Rams estão a tentar aproveitar. Jared Goff ainda está a jogar ao abrigo do seu rookie contract e isso permitiu aos Rams investir noutras posições, como ir “roubar” aos Cincinnati Bengals o esteio que passou a assegurar o lado esquerdo da linha ofensiva que protege o QB (o left tackle Andrew Whitworth) e renovar o contrato do hiper-talentoso defesa Aaron Donald, que esta época voltou a ser uma autêntica bola de demolição no centro da linha defensiva dos Rams.

A “folga” no salary cap permitiu aos Rams oferecer, também, um contrato recorde ao seu running back, Todd Gurley, que é provavelmente a sua arma ofensiva mais perigosa (mas que teve uma época atormentada por lesões). Não será muito arriscado dizer que, caso os Rams não aproveitem esta oportunidade, nos próximos anos arriscam perder Jared Goff ou terão de lhe pagar bom dinheiro, eliminando a capacidade para rechear o resto da equipa com talentos acima da média. A dada altura, como qualquer adepto da NFL bem sabe, as leis da Física — neste caso, o salary cap — acabam por puxar todas as equipas para baixo, como a lei da gravidade.

Os pontos baixos de uma carreira cheia de pontos altos

Não é justo dizer, porém, que os New England Patriots só têm tido sucesso por causa desse “desconto caseiro” que lhes tem sido dado pela super-estrela Tom Brady. Os Patriots também têm conseguido vencer a Física do salary cap porque têm sido capazes, como nenhuma outra equipa, de aproveitar o refugo de outras equipas e atletas supostamente em declínio para manter a equipa a jogar um futebol consistentemente competitivo. Esse mérito pertencerá, mais do que a Brady, a Bill Belichick, o treinador principal dos Patriots (que é, também, diretor-geral).

Pela mão de Belichick, se Tom Brady ganhar a Super Bowl deste domingo passará a precisar de uma segunda mão para colocar todos os anéis de campeão que acumulou ao longo da carreira. Neste momento, as suas cinco vitórias na Super Bowl são igualadas por um antigo defensive end, Charles Haley, que ergueu cinco troféus no final dos anos 80 e na primeira metade dos anos 90, ao serviço dos San Francisco 49ers e dos Dallas Cowboys. Brady já é o quarterback mais vitorioso da história (a “lenda” Joe Montana ganhou quatro Super Bowls) mas, se vencer este domingo, passa a ser o jogador da NFL com mais títulos de sempre.

Mas, apesar de todo o sucesso, Brady não é um jogador consensual. Os seus críticos acusam-no de ser protegido pela liga e pelos árbitros. E, por vezes, perde a cabeça quando as coisas não lhe estão a sair bem — um exemplo foi quando, num jogo em que estava prestes a ser eliminado, enquanto deslizava para o chão levantou a perna de forma aparentemente intencional, lesionando na anca um defesa adversário, o futuro Hall of Famer Ed Reed. A NFL é uma liga onde se joga com muita agressividade, mas há regras muito claras sobre o que se pode e não se pode fazer — e esse golpe baixo, que basicamente arrumou com a carreira histórica de Ed Reed, é uma mancha no currículo de Brady.

Outro ponto baixo, numa carreira cheia de pontos altos, está relacionado com outra lei da Física que Tom Brady terá tentado vencer, essa de forma menos própria: as leis da pressão atmosférica. Num caso que ficou conhecido como o Deflategate, Tom Brady foi acusado de ter um acordo com um funcionário da equipa para dar pouco ar às bolas que usava, o que ajuda a ter uma boa aderência, sobretudo em quarterbacks com mãos comparativamente pequenas como é o caso do californiano.

Em cada jogo, há dois sacos de bolas, um para cada quarterback (de cada equipa). Quando a defesa sai de campo e entra a ofensiva, passa-se para o outro saco de bolas. Existe uma banda permitida para a pressão das bolas, mas um defesa dos Baltimore Ravens e, depois, um dos jogador dos Indianapolis Colts, aperceberam-se que algo não estava bem quando intercetaram passes de Brady, nos jogos dos playoffs de 2015 — as bolas tinham pouco ar. A queixa junto da liga originou um processo longo e controverso que chegou aos tribunais federais.

Brady acabou por ser considerado culpado e foi suspenso por quatro jogos. Nada que o tenha impedido de, nesse mesmo ano, vencer a Super Bowl contra os Atlanta Falcons (a equipa que joga na cidade que vai acolher a finalíssima deste domingo).

Na mesa da família Brady não entram laticínios nem bebidas alcoólicas. Brady não come tomates nem pimentos, por conterem solanina, uma substância que se acredita ser tóxica para o corpo humano. Os hábitos alimentares de Brady, que já deram um livro best seller, não permitem, também, o consumo de cogumelos nem de produtos feitos à base de farinha branca ou contendo açúcar branco. 

O principal desafio às leis universais, porém, é a forma como continua a manter o mesmo nível de sucesso quando já se dirige, em velocidade de cruzeiro, para a meia-idade. Brady é conhecido por seguir uma dieta rígida, preparada por um cozinheiro pessoal que se dedica em full time a preparar refeições não só para Tom Brady como, também, para o resto da família (Brady tem três filhos, o mais velho dos quais de uma relação anterior com uma atriz).

Na mesa da família Brady não entram laticínios nem bebidas alcoólicas. Brady não come tomates nem pimentos, por conterem solanina, uma substância que se acredita ser tóxica para o corpo humano. Os hábitos alimentares de Brady, que já deram um livro best seller, não permitem, também, o consumo de cogumelos nem de produtos feitos à base de farinha branca ou contendo açúcar branco. A dieta do QB dos Patriots inclui, também, batidos de proteínas com electrólitos, para acompanhar os treinos físicos intensos que continua a fazer, apesar do avançar da idade. Ser uma lenda tem custos.

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