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Patrick Mahomes e Tom Brady. ILUSTRAÇÃO: Ana Martingo/OBSERVADOR

Patrick Mahomes e Tom Brady. ILUSTRAÇÃO: Ana Martingo/OBSERVADOR

Super Bowl. Vem aí um épico jogo de futebol americano: é uma questão de dinastias para provar se Brady é eterno /premium

Joga-se este domingo a finalíssima da liga de futebol americano, a NFL. Os campeões KC Chiefs, com Patrick Mahomes ao leme, defrontam Tom Brady, de 43 anos, que está agora com os Tampa Bay Buccaneers.

Na ultra-competitiva liga de futebol americano, a NFL, uma equipa – os New England Patriots – conseguiu a proeza de ir nove vezes à finalíssima, entre 2002 e 2019, levantando a Super Bowl seis vezes. Não há muitas palavras na língua portuguesa que sejam capazes de ilustrar quão extraordinário é esse feito, numa liga que está desenhada para garantir o máximo de paridade possível, desde logo com um limite salarial imposto a todas as 32 equipas (que impede a acumulação de demasiados galácticos num só plantel). O mérito do sucesso dos Patriots é tema de um aceso debate há anos: foi graças ao génio do treinador Bill Belichick ou ao talento singular do quarterback Tom Brady?

Mesmo antes de começar, a Super Bowl deste domingo já poderá ter ajudado a responder a esta pergunta. E se, no final do jogo sair vitorioso o quarterback que está a poucos meses de completar 44 anos – Brady – então a resposta terá sido dada com um ponto de exclamação no final. E porquê? Porque os New England Patriots de Bill Belichick não estarão presentes – nem sequer alcançaram os playoffs –, mas a nova equipa de Tom Brady, os Tampa Bay Buccaneers, assegurou de forma sorrateira aquela que será a 10.ª presença deste quarterback em finalíssimas.

Para terminar esta época atribulada, devido à Covid-19, preveem-se quatro horas de uma batalha épica que tem tudo para ficar muitos anos na memória de todos os fãs desta que é a modalidade desportiva mais popular nos EUA. No outro lado da barricada estarão os Kansas City Chiefs, os campeões do ano passado, liderados por Patrick Mahomes, um miúdo de 25 anos que arrisca tornar-se o mais jovem de sempre a conseguir o seu segundo anel (o troféu que simboliza as vitórias nesta finalíssima da NFL).

O jogo começa às 23h30. Os Kansas City Chiefs são os favoritos, de acordo com as casas de apostas, para a vitória na Super Bowl deste ano. Do outro lado vai estar Tom Brady e a sua nova equipa, os Tampa Bay Buccaneers.

Mahomes, indiscutivelmente o mais talentoso quarterback a chegar à NFL na última década, conhecido pelos seus passes sem olhar para o destinatário, tem como “maestro” Andy Reid, o treinador que é, provavelmente, a melhor mente ofensiva de sempre. Os dois, coadjuvados por vários jogadores que estão no top das respetivas posições – como o tight end Travis Kelce e o wide receiver Tyreek Hill – estão bem lançados para construir uma dinastia comparável à que os Patriots protagonizaram.

Já Brady, mudou-se de armas e bagagens para Tampa Bay, na Flórida – e até convenceu a sair da reforma antecipada velhos amigos como o “bom gigante” Rob Gronkowski e o (controverso mas genial) wide receiver Antonio Brown. Mas está mais do que provado que nos planos do quarterback estava tudo menos uma pré-reforma ensolarada. Até porque garante ser perfeitamente possível que continue a jogar até “bem para lá dos 45 anos”.

“Olá. Chamo-me Tom Brady e sou a melhor decisão que este clube já tomou”

Thomas Edward Patrick Brady contou até 199 antes de ouvir o seu nome a ser chamado no draft, o processo de recrutamento de jovens atletas, acabadinhos de sair da faculdade. Corria o ano de 2000 quando as 32 equipas da NFL viram maior potencial em outros 198 atletas que não Tom Brady. Foi escolhido na sexta ronda do draft, de um total de sete – ou seja, por pouco não acabou sem equipa.

Especificamente na posição de quarterback foram escolhidos seis jogadores à sua frente. Nenhum deles acabou por vingar na NFL – alguns nunca chegaram sequer a participar num jogo a sério, como aconteceu com Giovanni Carmazzi, o quarterback que nunca chegou a atirar um passe na liga depois de ter sido escolhido na terceira ronda pelos San Francisco 49ers (a equipa que era a favorita de Brady desde a infância e para onde ele queria ir, como admitiu posteriormente).

À saída do college football, Brady era visto como um pretty boy (menino-bonito) das praias da Califórnia que de atleta de alta competição tinha muito pouco – apesar de já na faculdade ter mostrado um jeito especial para saltar do banco (não era titular) e transformar óbvias derrotas em vitórias inacreditáveis, já na reta final. Apesar dessa fama de comeback kid (miúdo das reviravoltas) ninguém achava que conseguiria fazer o mesmo na NFL.

Tom Brady quando era "quarterback" (suplente) na Universidade do Michigan

Getty Images

É por este contexto que o dono da equipa dos Patriots, o milionário Robert Kraft, ainda hoje se recorda de como saiu intrigado da primeira interação que teve com Tom Brady. A fazer fé na descrição feita por Kraft, num dos primeiros dias de treino geral da equipa para preparar a época de 2000/2001, o presidente do clube foi abordado por um rookie magricela que trazia uma pizza debaixo do braço.

“Ainda me lembro da primeira vez que vi o Tom, um magricela, a descer as escadas do estádio, com uma caixa de pizza na mão. Dirigiu-se a mim e apresentou-se: ‘Olá, Sr. Kraft. Eu sou…’. Eu interrompi-o e disse: ‘Eu sei quem tu és, és o Tom Brady, a nossa escolha da sexta ronda do draft‘. Ele olhou-me nos olhos e disse-me ‘sou, sim, e sou a melhor decisão que este clube já tomou‘”. E não é que foi mesmo?

Sendo o draft fértil em “tiros ao lado” – atletas promissores que apenas encheram de mágoa os fãs das equipas que os escolheram nos lugares cimeiros de cada ronda – Tom Brady tornou-se o maior símbolo dos atletas que, por esta ou por aquela razão, só foram chamados à pista de dança no fim do baile mas que, depois, se tornaram estrelas.

“Ainda me lembro da primeira vez que vi o Tom, um magricela, a descer as escadas do estádio, com uma caixa de pizza na mão. Dirigiu-se a mim e apresentou-se: ‘Olá, Sr. Kraft. Eu sou..’‘. Eu interrompi-o e disse: ‘Eu sei quem tu és, és o Tom Brady, a nossa escolha da sexta ronda do draft‘. Ele olhou-me nos olhos e disse-me ‘sou, sim, e sou a melhor decisão que este clube já tomou‘”.

Na primeira época, como rookie, Tom Brady não fez mais do que aquecer o banco, já que o titular era o experiente Drew Bledsoe. Ainda assim, o jovem Tom impressionou nos treinos ao ponto de suplantar os outros dois quarterbacks suplentes que estavam à sua frente. Logo no início da segunda época, todavia, Bledsoe sofreu uma placagem dura por parte de um defesa dos New York Jets e teve uma hemorragia interna. Brady saltou do banco e o resto é história.

Ao fim de uma mão cheia de jogos, Brady já tinha sacudido o nervosismo inicial e distribuía a bola com mestria pelos receivers. Os Patriots foram aos playoffs e chegaram à Super Bowl. A finalíssima foi muito disputada mas Brady fez um jogo limpinho e, no final, liderou a equipa de forma destemida até a uma vitória sobre os St. Louis Rams (hoje Los Angeles Rams). Foi, na altura, o quarterback mais jovem de sempre a ganhar um anel de campeão e foi nomeado MVP dessa Super Bowl de 2001.

Foi a partir daí que a carreira de Tom Brady acelerou. Afinal era mesmo auto-confiança, e não desinteresse, e Brady aperfeiçoou continuamente a sua técnica irrepreensível e continuou a demonstrar a mesma precisão cirúrgica no passe e a mesma inteligência na leitura de jogo que desde cedo se tornaram evidentes. Os títulos sucederam-se e o sucesso também: alguns anos depois, Brady estava noivo da supermodelo brasileira Gisele Bündchen.

Tom Brady acompanhado pela mulher, a modelo brasileira Gisele Bundchen

Getty Images

Brady não é um jogador consensual. Os seus críticos acusam-no de ser protegido pela liga e pelos árbitros. E, por vezes, perde a cabeça quando as coisas não lhe estão a sair bem. Chegou a ser castigado após o escândalo que ficou conhecido pelo DeflateGate, em que Brady terá feito com que o staff técnico diminuísse a pressão das bolas que Brady usava (cada quarterback usa as suas) para uma pressão barométrica inferior aos mínimos – para ser mais fácil de agarrar para um quarterback que não tem mãos especialmente grandes.

Nesse ano de 2017, apesar dos quatro jogos de suspensão no início da época, os Patriots acabariam novamente por chegar à finalíssima e essa foi uma das maiores vitórias de Brady (na altura, a quinta), em que o comeback Kid fez das suas, frente aos Atlanta Falcons.

Qualquer um reconhece, porém, o talento fora de série, capaz de elevar o talento dos colegas que o rodeiam e, sobretudo, a ambição contagiante que o tornaram uma lenda da modalidade. Apesar de todos os títulos que acumula, Tom Brady continua insaciável na procura de mais e mais vitórias. Tanto que, quando o contrato com os New England Patriots terminou e Belichick não escondeu que queria seguir noutro rumo, Brady abalou para Tampa Bay – uma equipa perfeitamente mediana na última década e que, subitamente, é um dos clubes que disputam a Super Bowl que, por coincidência, se disputa este ano no seu estádio.

Ainda é estranho, para quem acompanhou a carreira de 20 anos de Tom Brady, mas o "quarterback" agora veste os tons encarnados de Tampa Bay

Getty Images

Os Buccaneers jogam em casa, têm Tom Brady, mas, ainda assim, são os Kansas City Chiefs que são vistos como favoritos pelas casas de apostas para vencer – o que, a confirmar-se, será o segundo título em dois anos. Só aconteceu oito vezes na história da NFL, desde 1966. E qual foi a última equipa a conseguir ganhar duas Super Bowls seguidas? Os New England Patriots, de Tom Brady, em 2003 e logo a seguir em 2004.

Os Chiefs não são imbatíveis – afinal de contas, terminaram a época com 14 vitórias e 2 derrotas – mas são inquestionavelmente a máquina mais bem oleada que se pode ver a jogar futebol americano ao mais alto nível. O jovem quarterback Patrick Mahomes concentra todas as atenções mas a realidade é que estes Chiefs são alquimia do treinador Andy Reid, lendário coach dos Philadelphia Eagles que nunca ali conseguiu ganhar uma taça (perdeu na Super Bowl contra Brady e os Patriots em 2004).

Tantos dos treinadores-adjuntos de Reid acabaram por se tornar treinadores-principais noutras equipas que é comum falar-se na “árvore de treinadores” de Andy Reid, provavelmente o mais criativo treinador de sempre pelo menos se falarmos na fase ofensiva do jogo. Por várias ocasiões nas últimas décadas, porém, a gestão dos icónicos Philadelphia Eagles roçou a disfuncionalidade e Reid acabou por sair – e foram os Chiefs que o acolheram de braços abertos, dando-lhe controlo total sobre a equipa e um novo começo que não podia estar a correr melhor.

Andy Reid também tem o seu “lado lunar” e, quando estava ainda em Philadelphia, gerou enormes anticorpos junto de alguns fãs da modalidade. Ainda hoje muitos recordam o dia em que Reid responsabilizou o seu kicker nos Eagles, o veterano David Akers, por ter falhado dois field goals que teriam valido 6 pontos (num jogo nos playoffs em que os Eagles saíram derrotados).

“Tinham dado jeito, esses seis pontos”, disse Andy Reid na conferência de imprensa. Mais tarde, percebeu-se que David Akers estava psicologicamente abalado pelo pior problema familiar que pode existir – a revelação recente de que a filha, então com seis anos, teria de ser tratada a um tumor maligno perigoso. Andy Reid sabia o que se estava a passar, mandou David Akers para o campo na mesma e, quando este falhou, pareceu crucificá-lo publicamente na conferência de imprensa após o jogo.

Patrick Mahomes com o treinador, Andy Reid, a caminho da segunda Super Bowl consecutiva

Getty Images

Quando virou a página e foi para os Chiefs, Andy Reid mostrou, porém, porque é que é dos mais talentosos treinadores da liga a construir um plantel completo. E no draft de 2017 caiu-lhe um diamante no colo: Patrick Mahomes, o quarterback que até nem foi o primeiro a ser escolhido nesse recrutamento anual (sim, os Chicago Bears ainda hoje se auto-censuram por ter preferido Mitch Trubisky, que continua a ser o titular mas claramente não tem uma fração do talento de Mahomes).

À chegada ao draft, o jovem Patrick era visto como um atleta talentoso mas demasiado dado ao improviso – uma espécie de “Maverick” que dificilmente alguma equipa técnica conseguiria domar. Estava bem fresco na memória de todos o caso de Johnny Manziel, que dominou a sua geração no college football e acabou selecionado (na primeira ronda) pelos Cleveland Browns – o seu talento puro nunca se converteu bem na NFL e a sua personalidade difícil (e gosto por boas festas) deitou tudo a perder.

Até certo ponto, Mahomes parecia ser um recruta com um potencial semelhante – um “tecto” elevado mas um “chão” bem fundo. A excelente capacidade de improviso demonstrada nas universidades impressiona pelos highlights mas quem tem a responsabilidade de gerir equipas na NFL não se impressiona com pouco – até porque na liga profissional o improviso é um fator positivo desde que não inviabilize que se construa uma equipa à volta.

Mahomes tinha ferramentas físicas relativamente boas mas havia muito receio, entre os olheiros, de que “nunca se adaptasse à NFL” – apesar disso, acabou por ser logo o segundo quarterback escolhido no draft. E ser escolhido pelos Chiefs foi como ganhar a lotaria para o jovem, que gosta de ser conhecido por Patrick Mahomes II, em honra ao seu pai – um antigo pitcher da principal liga de baseball. Pôde ir para uma equipa bem estruturada, apesar de uma sequência de épocas com resultados pouco impressionantes, gerida por um treinador que saberia, como ninguém, aproveitar e nutrir os seus dotes físicos e intelectuais.

E o melhor de tudo é que nem precisou de ser atirado aos lobos logo na primeira época, já que passou o primeiro ano a adaptar-se à NFL, serenamente, como suplente do sólido Alex Smith. Na segunda época, os Chiefs sabiam que Mahomes estava prontíssimo, agradeceram a Alex Smith pelos serviços prestados e logo nessa primeira época (a sério) o jovem quarterback mostrou ao que vinha: MVP da liga logo no primeiro ano como titular. Na segunda época? A primeira vitória na Super Bowl.

Patrick Mahomes II, em criança, ao colo do pai – Patrick Mahomes, que foi “pitcher” na MLB

Teremos este domingo a segunda vitória para Mahomes, em dois anos, e a confirmação de uma nova dinastia na NFL? Ou irá Tom Brady cimentar o seu estatuto de “Greatest of All Time” e demonstrar que foi o seu talento – mais do que o treinador Bill Belichick – que deu origem à dinastia dos Patriots?

A Super Bowl LV disputa-se a partir das 23h30 deste domingo, num estádio (Raymond James, em Tampa, Flórida) com capacidade para 65 mil pessoas mas onde estarão apenas cerca de 20 mil – incluindo 7.500 profissionais de saúde (vacinados contra a Covid-19) a quem a NFL ofereceu bilhetes.

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