Tânia Trindade: “As pessoas que eram desprezadas na RD do Congo passaram a ser importantes” /premium

01 Setembro 20191.360

Tânia Trindade é engenheira aeroespacial, surfista e música com ouvido puro. Criou o Bana Congo, um projeto musical que apaixonou Joss Stone, e ajuda milhares de crianças subnutridas em risco de vida.

Tânia Trindade nasceu na República Democrática no Congo, mas a guerra trouxe-a para Portugal aos cinco anos. Formada em Engenharia Aeroespacial e fã de surf, a vontade de ajudar falou mais alto a certa altura da sua vida, aliada à paixão pela música e à necessidade de fugir das rotinas de trabalho. Juntamente com o marido e as duas filhas, Tânia voltou à sua terra natal. A adaptação foi difícil, os cenários que viu tiraram-lhe o sono durante várias noites, mas Tânia conseguiu encontrar um caminho com um povo “carinhoso e muito amigo”. Formou o Bana Congo, um projeto musical com crianças subnutridas na República Democrática do Congo que já chamou a atenção da cantora Joss Stone. Tânia Trindade juntou-se à lista de “Imperdíveis”, o programa de Laurinda Alves na Rádio Observador, todos os domingos, às 11h.

Tânia Trindade, trinta e quatro anos, engenheira aeroespacial. É uma coisa espetacular e muito impressionante esta condição. Música desde os cinco anos, surfista, multifacetada. Aliás, o seu nome, as suas iniciais, “TT”, já diriam que é uma pessoa todo o terreno (risos).
Ok (risos).

Criou um projeto absolutamente extraordinário chamado “Bana Congo”, e é por isso, aliás, que combinámos esta conversa. Como é que uma pessoa vai da música para a engenharia aeroespacial e depois vai para o Congo e volta da República Democrática do Congo, cria projetos e perde tempo a fazer surf e a surfar as ondas difíceis e fáceis. Como é que isto tudo começa, Tânia?
Nasci na República Democrática do Congo e vim para Portugal viver quando tinha cinco anos. Houve uma grande guerra que eles chamam as pilhagens dessa altura, em 1989, e comecei a estudar cá, fiquei com os meus avós do lado do meu pai. Os meus avós ficaram muito reticentes quando me viram a chegar com cinco anos, a minha irmã tinha seis. Ficámos aqui as duas.

Os pais ausentes mas muito presentes, tanto quanto sei.
Ausentes, mas muito presentes em tudo. Os meus pais regressaram para o Congo e a minha avó decidiu meter-nos em muitas coisas porque tinha muito medo que nós nos perdêssemos e éramos duas meninas muito pequeninas, mas já pensava nisso tudo.

Muitas coisas?
Além de entrar para a escola para a primeira classe, meteu-nos em imensos desportos. Começámos a fazer ténis, equitação, natação e meteu-nos a aprender piano.

Aos cinco anos?
Aos cinco anos.

Uma avó de coração grande e inteligente.
Exatamente. Muito, muito protetora e muito prudente também. Eu gostava muito de música e quando tinha nove anos concorri para entrar para o Instituto Gregoriano de Lisboa e também para o Conservatório de Lisboa. Entrei para os dois. O Conservatório fez imensa pressão para eu lá ficar porque conheciam a minha professora, também era uma professora conhecida que tinha também formado muitos alunos.

Muito bons.
Bons, mas depois a minha avó achou que o Conservatório era uma coisa muito grande e tinha um ar um bocadinho abandonado, já na altura, e teve medo. Achou que não era tão controlado como o Instituto Gregoriano de Lisboa, que era uma casa pequenina e que tinha muito bom nome. Então decidiu meter-me a mim e à minha irmã lá.

Então, uma vez no Gregoriano, aos nove anos, e tendo uma condição que é raríssima, que é ter ouvido absoluto…
Sim.

Muito poucas pessoas no mundo têm ouvido absoluto. Isto fez com que alguém tentasse que fosse solista, que seguisse a carreira de piano, não?
Exatamente, isso mesmo. Eu também, até entrar no Instituto Gregoriano de Lisboa sempre cantei no coro da igreja em Oeiras e muito cedo eu e a minha irmã também ficámos responsáveis pelo coro. Portanto, nós tínhamos muito contacto com a música.

Eram uma espécie de maestrinas também?
Exatamente, muito pequeninas e já tínhamos essa responsabilidade também. O ouvido absoluto ajudou a dedicar-me muito mais à música. Achava aquilo muito fácil, tudo com exceção do piano. O piano é uma profissão, entre aspas, e eu não era pianista de profissão mas quase, e dedicava muito tempo. Mesmo tendo ouvido absoluto tinha de praticar muito.

E o seu professor era o Eurico Rosado. 
Exato.

Irmão do célebre pianista António Rosado.
Exatamente.

E isso também criou alguma expectativa? Ele tinha uma expectativa grande em relação a si e outras pessoas se calhar também, por ter aquele professor.
Sim, o professor era muito exigente. Eu chorei imensas vezes durante a aula e fora da aula. Ele punha-me a auto-estima muito em baixo, eu, no fim, depois disse-lhe.

Isso é um clássico.
Achava sempre que era muito má a piano, mas depois as minhas notas também nunca foram muito altas, mas depois no fim percebi muito bem a mensagem. Era muito exigente comigo e, de facto, no fim, no exame final…

Ele pedia muito a quem sabia que podia dar muito.
Exatamente, e depois correu muito bem.

Mas aí a sua paixão pela música ficou para sempre, não é?
Ficou para sempre, sim.

Apesar do surf, apesar de tudo aquilo que faz em engenharia aeroespacial. Depois seguindo aqui, portanto, esta avó muito preparada e prudente…
Sempre muito presente e assim muito controladora.

Quando a Tânia pensou em escolher a sua carreira e a sua área de especialidade ficou na dúvida entre o piano e a engenharia aeroespacial.
Sim.

E entrou no Instituto Superior Técnico mas congelou a sua matrícula para poder fazer um ano de piano, só piano.
Sim, quando entrei no Técnico, em engenharia aeroespacial, coincidiu com o oitavo grau de piano, que era o último grau antes de também escolher se ia para a Escola Superior de Música ou não.

Já estávamos num high level, ou seja, na fasquia mais elevada de todas.
Queria ter uma boa nota e saber se, de facto, a minha vida seria o piano ou não. Tinha noção que era uma profissão muito solitária e não tinha a certeza se era esse caminho que eu queria tomar ou não.

Se tinha nascido para isso.
Exatamente. Congelei a matrícula no Técnico e dediquei-me um ano só a piano.

O que também implica uma coragem, uma perseverança e uma self awareness [autoconsciência], como hoje em dia se diz nas universidades, onde aplicamos muitos inglesismos. Mas esta consciência de si próprio, dos seus talentos e sobretudo numa pessoa que é multitalentosa não há de ser muito fácil essa escolha.
Não. Para além do piano eu também surfava e fazia outras coisas, mas sempre com muito medo porque tinha aquela responsabilidade. Tinha o exame e o surf e todos os outros desportos que eu praticava, as mãos estavam sempre muito expostas e foi um ano muito complicado. Não tive contacto com muitas pessoas, estava sempre fechada em casa.

Foi um ano muito solitário.
Foi muito solitário.

E isso pesou-lhe?
Sim, eu estudava piano oito, nove horas todos os dias.

Não falava com ninguém.
Não falava com muita gente.

Não tinha amigos ou os poucos que tinha não os podia ver?
Não e na altura não tinha telemóvel também. Cheguei ao fim do ano, fiz o exame final e acabei com 19.

"Sempre gostei muito de aviões e o meu sonho era ser piloto, mas os meus pais disseram-me logo: 'Esquece'. O meu pai é muito aventureiro e nunca me disse que não a nada, mas a minha mãe disse: 'Não, esquece, está fora de questão, nós não te vamos pagar o curso de piloto porque é uma coisa que eu tenho medo e, portanto, vai estudar que tu não queres é estudar, tu vai estudar os aviões'. E eu disse: 'OK, vou para engenharia aeroespacial'.

Espetacular.
Depois tive noção que, de facto, tenho mesmo jeito para isto, gosto mesmo disto, mas por outro lado não tenho coragem para seguir só isto. Sabia que a música poderia fazer sempre parte da minha vida, mas também sabia que tinha capacidades para outras coisas e, então, decidi arriscar.

E que coisas? Ou seja, quando arrisca, arrisca no curso que é mais difícil de entrar, o curso que hoje em dia, tanto quanto sei, chega a ter médias de entrada de 19.5 ou 19.7, nem sei. Então a opção da engenharia aeroespacial vem de onde?
Sempre gostei muito de aviões e o meu sonho era ser piloto, mas os meus pais disseram-me logo: “Esquece”. O meu pai não, o meu pai é muito aventureiro e nunca me disse que não a nada, mas a minha mãe disse: “Não, esquece, está fora de questão, nós não te vamos pagar o curso de piloto porque é uma coisa que eu tenho medo e, portanto, vai estudar que tu não queres é estudar, vai estudar os aviões”. E eu disse: “OK, vou para engenharia aeroespacial”.

Mas acho extraordinário que a mãe de uma filha com todas estas aptidões e provas diga  “Tu não queres é estudar”. Continua, como mãe, a pôr a fasquia muito alta, sabendo que é uma filha que tem muito para dar. Então e aí candidata-se, e na complexidade do piano e da solidão do piano passa para uma complexidade se calhar ainda maior e uma solidão se calhar mais complexa, porque o estudo também não é fácil.
Não foi nada fácil, foi uma solidão mais comunitária.

Uma solidão mais acompanhada.
Exatamente, muito acompanhada porque sentia que todos os meus colegas estavam na mesma situação que eu e estudávamos juntos. É uma solidão mais fácil de suportar.

E o que é que a fascinou neste curso de engenharia aeroespacial?
Gostava muito da parte do espaço, dos aviões, do ar. Sempre viajei muito. Entrava num avião e adorava saber aqueles sistemas todos e saber perfeitamente como é que aquilo funcionava.

E nunca teve medo, ao contrário da sua mãe?
Não. Gostava muito quando estava no avião e havia muito turbulência. Adorava, estava super contente.

Por acaso também gosto de turbulência, mas acho que é uma anormalidade, aqui entre nós.
Pois é.

Porque é a única parte divertida, não é? 
Menos monótona.

Deve haver pessoas chocadas a ouvir isto. Menos monótona, exatamente. Está a aprender a construir e a manter aviões mas há simuladores para isso também?
Quando eu fiz o curso não . Tive um bocadinho de desilusão porque eu pensei que poderia ser um bocadinho mais prático e foi muito teórico.

[Tânia Trindade e o marido prepararam um vídeo para receber Joss Stone em Kinshasa. Foi projetado durante o concerto e comoveu a cantora. A banda sonora é de Ottis Redding, um dos cantores preferidos de Joss Stone]

Mas ainda foi trabalhar na área, não foi?
Sim. Estive a estagiar na Portugália TAP, na secção de manutenção de aviões, e depois trabalhei um ano e pouco na Tekever.

E gostou da experiência? 
Gostei imenso. Aprendi muito.

Também há qualquer coisa que a fez não ficar, não permanecer.
Sim, sou uma pessoa que gosta muito de desafios de vida. Sou muito comunicativa, tenho muita necessidade de conviver com muita gente e de ajudar muita gente.

E ajuda muita gente, já lá vamos.
E não gosto muito de rotinas, o que não é uma qualidade.

E porque já estava farta das rotinas de Lisboa e, se calhar, do trânsito de Lisboa.
Exatamente. A5, Segunda Circular… Achava que podia dar muito mais em termos humanos, que era uma componente que eu não sentia no meu trabalho.

E, por isso, olhou para outras oportunidades fora de Portugal e desta rotina. Mas antes, ainda precisava de falar aqui de quando é que se apaixonou e se casou. Porque quando decidiu agarrar uma oportunidade fora de Portugal já ia casada.
Sim.

A surfista que só brincava com rapazes, só gostava de coisas de rapazes, que a mãe não percebia também porque é que não tinha nenhum namorado — como é que se apaixonou? 
A minha mãe estava sempre muito preocupada, a minha avó e a minha família toda [também]. Tinham medo que eu escolhesse a pessoa errada para mim e o ambiente do surf não era um ambiente que elas gostassem. A minha mãe perguntava-me muito: “Então e no Técnico, tantos rapazes, aquilo é só rapazes e tu não encontras ninguém?”, e eu dizia “Oh mãe, mas os rapazes do Técnico não têm nada a ver comigo, não me chateies com isso, não quero falar sobre isso”. Até que um dia estava numa aula de Termodinâmica…

Uma pessoa paga sempre pela língua, mais tarde ou mais cedo.
Pois é. E, então, reparei num rapaz que não tinha nada a ver com o protótipo que eu achava que eram os rapazes do Técnico, se calhar também erradamente, também era muito mais infantil do que sou hoje.

Sim, erradamente de certeza. Os rapazes do Técnico que nos ouvirem também não vão gostar de se ver reduzidos à expressão mínima. Mas, portanto, era o estereótipo que estava na sua cabeça.
Quando sinto pressão gosto muito de contrariar.

Um ato provocador.
É muito mau, sim, não é mau, mas não é tão bom. E, então, conheci o Pedro, ele era amigo de um amigo meu surfista, do Técnico, e houve ali logo um olhar…

O chamado amor à primeira.
Não foi bem, não foi aquela paixão à primeira vista porque, tanto eu como ele, não nos quisemos aproximar logo um do outro. Ele achava que eu tinha imensos pretendentes e que era muito convencida.

Giríssima, num mundo de rapazes, era uma espécie de rainha do Técnico.
Mas foi muito engraçada a maneira como nós nos apaixonámos porque o Pedro soube por esse amigo surfista que eu fazia música e ele também canta e toca guitarra e sempre gravou músicas. Então convidou-me um dia, passado mais ou menos um mês de nos conhecermos, para eu ir a casa dele cantar e ensaiarmos. Eu pensei que ele vivia com os pais e aceitei. Disse: “Tudo bem, vamos, mas como é que tu sabes que eu toco?”. “Ai, eu sei tudo sobre ti”. Eu lá aceitei, chego a casa do Pedro e ele não vivia nada com os pais, vivia sozinho. Então achei “Ah, aqui há qualquer coisa”. Ensaiámos muitas vezes e passado uns meses começámos a namorar.

E hoje em dia são pais de duas filhas.
Sim.

De quantos anos?
A Joana tem cinco anos e a Madalena um ano.

Agora que tivemos aqui este lado mais romântico, voltando ao momento em que decidem ir os dois para fora de Portugal: porquê voltar à República Democrática do Congo, onde deixou de viver, onde os seus pais viveram sem si no tempo da guerra e no pós-guerra?
Porque sempre fui muito ligada à República Democrática do Congo. Vim para cá aos cinco anos. Depois de passar aquele período da guerra eu e os meus irmãos íamos sempre lá passar férias com os meus pais, e há uma ligação muito grande entre mim e África e, principalmente, o Congo.

O que é que gosta no Congo especialmente?
Olhe, gosto da música deles, gosto do sorriso, gosto do cheiro quando eu saio daquele avião, aquele cheiro a húmido, a ar húmido, tudo, aquilo diz-me imenso.

"Diariamente, nós acolhemos 30 a 40 crianças e a maior parte está muito fraca, eles estão sentados ou deitados e só ouvem. Comecei a reparar no efeito da música sobre eles, a reparar no sorriso que começa a vir aos poucos. É um olhar muito mais otimista, é uma maneira de olhar para a vida diferente. É uma vontade de ficarem curados, de começarem a comer, porque, ao início, eles têm muita dificuldade em começar a comer, a aceitar a medicação e a acreditarem que é possível um dia estarem como os outros que já estão muito melhores e que já tentam dançar."

Ali era a sua casa, é isso?
Sim, exatamente.

Sentia o cheiro e o lugar.
E a maneira de ser dos congoleses é muito especial, ao contrário do que as pessoa pensam. As pessoas associam logo Congo à guerra e ao ébola. Tinha a certeza que ia conseguir falar de coisas boas do Congo. É um povo muito carinhoso, muito amigo. Só quem viveu lá ou quem lá vai é que compreende isto.

E chegada ao Congo, o que é que era a vossa oportunidade de trabalho?
Nós tivemos a oportunidade de ir trabalhar para uma empresa de madeira.

Portanto, nada a ver nem com o curso do Pedro que é engenheiro…
Mecânico.

E nada a ver com engenharia aeroespacial.
Diretamente não, mas a engenharia no Técnico deu-nos a capacidade de gerir e de poder fazer qualquer coisa. Eu e o Pedro sentimos que podemos trabalhar em qualquer área, porque basta estudar um bocadinho qualquer coisa e nós entramos… Não estou a ter a pretensão de falar em cursos específicos como medicinas.

Claro.
Mas em termos de gestão.

De ferramentas de gestão.
Exatamente. O Pedro foi fazer a parte da gestão de máquinas e a parte da manutenção de várias máquinas. Tem diretamente a ver com o curso dele, de máquinas de grande porte, e eu tive a oportunidade de fazer várias coisas, inclusive, que era o que me interessava, uma parte social muito grande, porque esta empresa tem uma componente social grande e eu fiquei responsável, para além de todas as outras funções na gestão de recursos humanos, na contabilidade, disto tudo, de gerir a parte social da empresa.

Tanto quanto sei, é uma empresa que tem um hospital, não é? 
Sim.

É um hospital de campanha?
De campanha.

E nesse hospital de campanha acolhe todo o tipo de doenças, todas as faixas etárias, mas sobretudo muitas crianças, jovens e adultos subnutridos.
Exatamente.

Que são aos milhões na República Democrática do Congo e em África.
Sim. Em África em geral, anualmente a UNICEF há dois anos apontou para um número de seis milhões de crianças que sofrem de subnutrição. O hospital tem todos os departamentos, tem bloco operatório, tem maternidade, tem pediatria, tudo, e a AMI que é uma ONG portuguesa, a “Assistência Médica Internacional”.

Este centro foi criado pela AMI?
O centro deste projeto de nutrição foi criado pela AMI em 2007.

E era aí que se confrontava diariamente com estas crianças subnutridas com aquele olhar pungente? 
Exatamente.

Nós olhamos para uma criança subnutrida e, entre o ventre inchado e aquele olhar que nos chama e que nos toca, deve ser impossível…Não lhe tirou o sono esta situação?
Tirou. Todos os dias lidava com aquelas crianças. Vi muitas crianças a morrer, principalmente quando entrei. Foi um domínio que tive de estudar também e para poder ajudar mais profundamente. Não consegui ficar indiferente. Todos os dias chegava a casa e dizia ao Pedro: “Não consigo, é tão duro estar a ver isto e não poder agir de uma forma mais direta, mas estou a fazer o que posso”, a parte da gestão hospitalar, mas não estava…

Não era suficiente para si.
Não, para mim não era suficiente.

E o que é que aconteceu, então?
Eu comecei a pensar como é que eu podia intervir mais diretamente e pensei “não falo a língua deles”, era uma grande distância que se punha, o dialeto. No Congo fala-se francês, mas naquela zona, naquela aldeia…

Que se chama Nioki.
… só se falava o dialeto, e pensei, que através da música, uma linguagem universal, ia poder comunicar melhor com as crianças e tentar fazer qualquer coisa.

E o que é que tentou?
Tentei ensinar-lhes música, músicas de natal inicialmente, muito simples.

O Natal fazia sentido para elas?
Não, não faziam ideia. Tinham uma ideia que era a data em que Jesus Cristo nascia, mas ficava-se por ali.

Mão têm nenhum culto, nenhuma tradição?
Não.

E também não têm neve e também não têm frio.
Exatamente.

E isso associado ao facto de não falar o dialeto criou alguma barreira, foi fácil, foi difícil?
Foi muito complicado, principalmente porque, culturalmente, eu também não os conhecia muito bem. Aquela é uma zona de crenças tribalistas de feiticeiros e coisas que para nós não fazem sentido nenhum, mas quando estamos lá temos que aceitar e temos de tentar compreender. Nós é que fomos para lá, não é?

Mas as crianças consideradas feiticeiras não são excluídas da comunidade?
São completamente excluídas, e há uma percentagem de crianças que chega ao centro de nutrição, subnutridas porque são postas de parte pelas famílias, que não os alimentam.

Ou seja, esses morrem de subnutrição não porque lhes falte, porque haja escassez, mas porque intencionalmente não são alimentados.
Exatamente.

É brutal.
É, é muito duro.

E é possível resgatar essas crianças, é possível trazê-las não para casa mas para um centro e alimentá-las?
Não é fácil abrir orfanatos no Congo, eu também tentei. Foi uma das coisas tentei abrir, mas aconselharam-me a não o fazer. Mas através do nosso hospital, como temos vários quartos que estão livres, essas crianças  alimentavam-se todos os dias no hospital até termos algum sítio como paróquias com padres ou madres que os acolhiam.

Mas estas crianças têm sinais exteriores ou passa pela cabeça dos adultos que este é feiticeiro?
Não, passa-lhes pela cabeça e normalmente [isso tem a ver] com alguma desgraça na família que coincida com o nascimento dessa criança. E eles associam [as duas coisas e dizem] que a culpa é da criança.

A Tânia Trindade tem trinta e quatro anos, é engenheira aeroespacial, é surfista, é música, tem ouvido absoluto, já tocou, já cantou com a Joss Stone, já havemos de lá ir mas, sobretudo, está aqui hoje a conversar sobre a realidade do Congo, a sua realidade, a sua biografia, mas também como é que ela se cruza no Congo com a realidade de milhares de crianças que através de um projeto que criou, o “Bana Congo”, de certa forma se foram resgatadas para a vida, para a alegria e muitas delas salvas de morrer subnutridas, certo?
Exatamente.

"Em 2015 construímos uma escola de música em que fizemos uma secção de piano, outra secção de guitarra. A guitarra fabricamos lá. Com desperdícios de madeira. Fomos ao YouTube ver como é que se fabricava uma guitarra e fizemos. Os congoleses têm uma característica espetacular que eu não vejo em lado nenhum: são muito desenvencilhados, fazem qualquer coisa e fazem-na bem."

Estas crianças estão subnutridas, profundamente infelizes e, se calhar, muitas delas condenadas à morte. Como é que foi o processo de criar um projeto que as resgata e que as devolve a vida?
Comecei a tentar ensinar-lhes músicas mas a subnutrição é uma doença que causa falhas a nível cognitivo: falta de concentração, de memória, isso tudo. E eu senti isso. Pensei que era só pelo facto de não estarem a aceitar por ser uma branca que estava ali um bocadinho a invadir o espaço deles, a dor deles, e tentei sempre ser muito sóbria, muito discreta. Passadas três semanas, senti que não havia ali nenhuma reação, não havia nenhuma interação, e desisti de ensinar-lhes músicas.

Que não é nada próprio de si. Não é nada uma pessoa de desistir.
Nada, não foi uma desistência definitiva. Pensei que não era a altura, precisava de mais tempo para eles me conhecerem noutros registos.

O que é que aconteceu depois?
Depois houve umas madres de uma congregação que estão lá, que me ouviram a cantar e pediram-me para eu ir ensinar música à escola delas. Eu aceitei. No projeto de nutrição há uma cozinheira que está permanentemente lá a cozinhar para os meninos. Ouviu-me a cantar com essas crianças e ouviu que essas crianças fora do hospital, claro, eram miúdos normais, estavam a cantar muito bem já músicas de Natal. Nós estávamos em outubro e ela chamou-me à parte e disse: “Não acho normal o que tu fizeste, tu abandonaste os miúdos que realmente precisam para ires ensinar música a miúdos que não precisam. Mas porque é que tu fizeste isto?”. Eu fiquei ali muito revoltada e disse: “Oh Janete, tu não me ajudaste também, eu parecia uma estranha ali, pensei que ninguém queria a minha presença, afastei-me porque achei que não era…”

Não era bem vinda.
Exatamente. E ela disse: “Nada disso, vamos tentar outra vez” e eu disse “Tudo bem”. Fiquei muito contente de virem atrás de mim, pensar que afinal não era uma estupidez minha e tornei a tentar mas disse à Janete: “Desta vez vamos fazer outra coisa, como eu sinto que eles têm vergonha de mim e não estão à vontade. Eu vou-te ensinar as músicas na presença dos miúdos, tu durante a semana, todos os dias, vais cantando um bocadinho e eu venho uma vez por semana só ao início para eles se habituarem a mim aos poucos e assim já me vão mostrar que já sabem qualquer coisa”. E funcionou muito bem.

Aos bocadinhos começaram a decorar as músicas, mesmo tendo aquelas fragilidades próprias da doença e do passado. Essa festa de Natal, em 2012, foi muito fraquinha, mas também não era esse o meu objetivo, [mas sim] que houvesse ali uma união diferente. Fizemos uma árvore de Natal que não era um pinheiro, foi um tronco em que decidimos colar fotografias de todas as crianças que faziam parte do projeto, de outras que tinham morrido entretanto e o espírito de Natal começou a criar-se, os miúdos começaram a aprender as músicas, a festa de Natal de 2013 já foi muito mais gira. Já conseguiram cantar qualquer coisa ao mesmo tempo e estou a falar de sete, oito crianças que estavam com mais forças e podiam integrar os outros meninos todos, porque, diariamente, nós acolhemos trinta a quarenta crianças e a maior parte deles está muito fraca, eles estão sentados ou deitados e só ouvem.

Comecei a reparar no efeito da música sobre eles, a reparar no sorriso que começa a vir aos poucos. É um olhar muito mais otimista, é uma maneira de olhar para a vida diferente…

E é uma energia, não é?
É uma energia, uma vontade de ficarem curados, vontade de começarem a comer, porque ao início eles têm muita dificuldade em começar a comer, a aceitar a medicação e a acreditarem que é possível um dia estarem como os outros que já estão muito melhores e que já tentam dançar.

Então desde o momento em que se confrontou pela primeira vez com estas crianças subnutridas, em risco de vida até chegar ao ponto de Joss Stone ir cantar e saber e querer interessar-se por este projeto, o que é que aconteceu? As crianças todas podem ir, são só aqueles que estão muito doentes ou podem vir outros, podem-se misturar?
Inicialmente eram só as crianças do hospital e nós também cantávamos para outras crianças. Não era só subnutrição, era na secção de pediatria. Em 2015, as vozes começaram a ser ouvidas cá fora. Já tinham mais força para cantar e eu sempre que saía do hospital tinha um grupo de imensas crianças atrás de mim a perguntarem quando é que também podiam entrar. Antes estas crianças eram completamente desprezadas e gozadas por toda a gente. E os miúdos cá fora começaram a querer ser como os miúdos do projeto de nutrição, que era um dos grandes objetivos que eu tinha.

Ou seja, os ídolos passaram a ser os doentes, os subnutridos e não aqueles que aparentemente estavam saudáveis?
Exatamente.

Isso é extraordinário.
Eu comecei a pensar e a primeira vez não liguei. Na segunda vez cheguei ao pé do Pedro e disse “Estava a pensar numa coisa, se calhar vais achar completamente ridícula”.

O Pedro seu marido?
O meu marido.

O amor da sua vida.
Que me ajuda em tudo e que me dá imenso apoio e força com tudo e que está sempre pronto a dizer que sim aos meus sonhos e a acompanhá-los de todas as maneiras que pode. E então disse: “Olha, tens que me ajudar a abrir uma escola de música, fora do hospital”. As crianças que já estão curadas continuam a vir comer porque são órfãs — uma grande percentagem, 90% destas crianças,  são órfãs.

São órfãs de pai e mãe.
De pai ou de mãe e muitos de pai e mãe. E então [disse] “vamos abrir a escola fora do hospital, os miúdos vão começar a ir cantar com os miúdos de fora, vão-se misturar e já ninguém vai saber que eles eram miúdos doentes e vão estar completamente reinseridos”.

Naturalmente.
Naturalmente.

Através de uma linguagem universal.
Exatamente, mantendo sempre os ensaios para os meninos doentes que é o objetivo principal deste projeto e assim foi. Em 2015 construímos uma escola de música em que fizemos uma secção de piano, outra secção de guitarra…

E têm os instrumentos ou tiveram que os fabricar? 
A guitarra fabricamos lá.

Com desperdícios?
Com desperdícios de madeira. Fomos ao YouTube ver como é que se fabricava uma guitarra e fizemos. Os congoleses têm uma característica espetacular que eu não vejo em lado nenhum: são muito desenvencilhados, fazem qualquer coisa e fazem-na bem.

Quase tanto como os portugueses.
São muito artistas. Então, comecei a dar formação também a dois rapazes.

E o piano, como é que fez com o piano?
São pianos eletrónicos, não é? Levei de cá.

Um teclado.
Sim, teclados. E dei formação a dois rapazes que já sabiam bastante de música mas só por ouvido, e ensinei-lhes a parte solfejo, levei livros de cá, e começámos a ensinar assim.

E o som daquela comunidade, daquele hospital, daquela pequena vila, passou a ser outro?
Passou a ser outro e toda a gente começou a querer aproximar-se das pessoas que eram desprezadas, passaram a ser muito importantes para toda a gente.

[Trailer do documentário que conta a história de algumas crianças da Província do Mai Ndombe que sofriam de subnutrição severa, a maioria órfãs, e que não tinham mais esperança de uma vida melhor. Graças à música começaram a sonhar e a acreditar que era possível serem felizes e inspirar tantas outras crianças que continuam a sofrer]

O que é que isto quer dizer “Yoka”?
“Yoka” significa presta atenção. Nós é que compomos as músicas, eu em colaboração com o pianista e o guitarrista e em que os arranjos são todos feitos por mim e pelo Pedro. E, então, nós tentamos que as letras sejam muito didáticas, neste caso é “Presta atenção aos teus pais ou quem não tem pais, às pessoas que tomam conta de ti, às pessoas que sabem mais que tu, ouve-os
e tenta seguir os conselhos dos mais velhos que vais ser muito mais feliz e vais aprender tudo de uma forma muito mais inteligente”.

Isso é muito bonito. E isto são os instrumentos que vocês fazem? 
Sim e é tudo gravado em estúdio, um estúdio improvisado por nós também em que o material todo do estúdio é o meu marido que me patrocina (risos). Ele gosta muito da parte técnica toda e gravámos tudo em estúdio, um estúdio que não é um estúdio, é uma casinha de madeira, e  fizemos tudo.

Isto é o som dos instrumentos que vocês fabricam? Esta é uma guitarrinha, não?
Exatamente, uma guitarra que nós eletrificámos. Mas o piano não, o piano é o teclado…

E as suas filhas no meio disto tudo? Quantos anos é que elas têm?
Cinco e um.

Cinco e um. A de cinco participa?
A de cinco participa em tudo, sabe as músicas todas, sabe as danças todas e desde os seis meses que vai regularmente aos ensaios comigo, está sempre lá.

No meio disto tudo, teve uma filha que teve um problema também à nascença, não teve? 
Exatamente.

Um susto grande.
Chamam persistência do canal arterial e deveria ter fechado à nascença e não fechou.

E isto naquela circunstância, assustou-a? Ou nada a assusta, nem isso?
Sou muito otimista e comecei a ficar muito assustada porque quando ela a partir dos cinco meses começou a perder muito peso, assim repentinamente, e começou a ter muitas bronquiolites  atrás de bronquiolites, faltas de ar e no Congo, fui regularmente às consultas de pediatria e ninguém detetou nada. Vim cá no Natal, agora em 2018, (e não estava para ter vindo mas vim porque ela estava sempre muito doente, eram antibióticos todos os meses que ela tomava), e felizmente detetaram.

E ficou tudo bem.
E ficou tudo perfeito.

Durante o tempo em que veio a Portugal o projeto seguiu sempre?
Eu dei um telefone a cada instrutor da escola de música com WhatsApp, falamos diariamente por WhatsApp, eles têm internet e fui orientando sempre. E qual foi o stress? Foi que quando eu soube disto tudo, foi no final do ano, foi quando o produtor da Joss Stone nos contactou por acaso no Facebook e eu não acreditei, porque eu sempre fui fã da Joss Stone.

Ainda por cima…
E com a Madalena doente e com isto tudo foi assim muito stressante, mas eu consegui arranjar forças para gerir  tudo.

E o que é que era a mensagem do agente da Joss Stone?
O agente da Joss Stone mandou uma mensagem a dizer “Sou o produtor da Joss Stone, gostava de falar contigo porque a Joss Stone está a fazer a volta ao mundo e um dos países em que ela não conseguiu obter o visto porque as embaixadas dizem que é um país de grande risco, é o Congo, portanto, eu gostava de saber se era possível nós fazermos um projeto com o ‘Bana Congo’ no âmbito da volta ao mundo?”E eu não respondi porque achei que era tanga.

Que era algum amigo a gozar consigo (risos).
Exatamente, não respondi. Passado um mês…

É uma pessoa muito otimista, mas não tão otimista.
Não tanto.

Que ache que o agente do seu ídolo vai ligar a dizer “Eu quero gravar convosco”.
Exatamente.

Eu percebo.
E passado um mês ele tornou a insistir “Mas porque é que não respondes? Estou a falar a sério, se quiseres amanhã fazemos uma chamada com vídeo, vais ver que é verdade”. Aceitei e, de facto, era verdade.

E depois o que é que aconteceu? Vocês entretanto criaram uma ONG [Organização Não-Governamental], não é?
Criámos uma ONG, sim.

“Bana Congo” quer dizer o quê?
Crianças do Congo, “Bana” são crianças.

Criaram uma ONG, que tem este core business, o coração daquilo que vocês fazem é ensinar música e através da música ter aberturas terapêuticas, e melhorias de vida, e de nutrição, e de energia daquelas crianças e esperança também. E através dessa ONG foi mais fácil vocês funcionarem como facilitadores para obter o visto para a Joss Stone e para toda a sua crew.
Para a equipa, exatamente. Estava com um bocadinho de receio, porque eu estava sujeita às datas dela porque ela tinha a agenda super…

Portanto, no meio disto tudo a sua filha Madalena, muito bebé, com este problema…
Foi operada em janeiro e eu tive que ficar cá durante cinco meses para evitar infeções. Mas tive a sorte da data da Joss Stone ser no período em que o cardiologista, muito querido, me disse “Vai-te embora, podes ir, não estejas stressada”.

Ou seja, estamos a falar de maio passado?
Maio de 2019, este ano.

Este ano, em maio?
Exatamente.

E, portanto, voou para o Congo outra vez com a sua filha nos braços e a Joss Stone chegou a seguir, foi?
A Joss Stone chegou dez dias depois. Para mim foi muito stressante porque tinha que organizar a logística toda. Os miúdos estão numa aldeia a 550 quilómetros de Kinshasa que é a capital, tive que alugar um autocarro, tiveram que vir por estrada, mas a estrada é péssima, e demoraram quatro dias a chegar, e sem rede, e eu já muito stressada a pensar que tinha acontecido alguma coisa.

De quantas crianças é que estamos a falar?
No projeto inteiro de música são 80, mas só para o concerto foram 40. Foram mais a equipa dos adultos, que são cinco músicos que trabalham comigo, mais os “enquadradores”, não sei se se diz assim em português, já estou um bocadinho…

A equipa Bana Congo com a realizadora do documentário

“Encadreurs”
Já estou muito imigrante a falar.

Pois não, também não me ocorre a palavra mas não faz mal.
Os tutores, não é?

Os mentores.
Os mentores, exato, que vieram. Ao todo eram cinquenta pessoas.

É fazer uma picada de 500 quilómetros.
Exatamente, sem rede… preparar as roupas que eu queria que eles estivessem todos assim muito giros e muito chamativos, não é?

Claro.
E correu tudo muito bem.

E quem é que fez as roupas?
Nós temos alfaiates nessa aldeia que já fizeram várias vezes roupas para mim, para os meninos, porque fazemos concertos todos os anos e eu gosto muito de todos os anos arranjarmos umas roupas novas.

E de certeza absoluta que é por causa disso que a Joss Stone também conhece o projeto, é pela música e pela performance.
Exatamente.

E pela alegria e pela beleza.
Sim. E eles em termos musicais (sou muito crítica musicalmente) estão muito bem preparados. Estão mesmo mini-profissionais.

Isso é extraordinário. Então, chegamos ao momento em que a Joss Stone aterra e a conhece. Pode parecer assim um bocadinho ingénuo ou candura a mais: como é que é a Joss Stone como pessoa? (Risos)
É muito simpática.

Como é que foi esse encontro e o que é que aconteceu? Estas crianças sabem quem é esta cantora?
Em Nioki não há acesso a televisão, não há acesso a rádio, não há acesso a nada. São crianças que estão muito fechadas, sem conhecimento de fora. Em Kinshasa já é diferente. Quando soube que este projeto seria possível mostrei-lhes muitos clips da Joss Stone e músicas e preparámos músicas dela, inclusive. Eles depois começaram a ver nos clips a quantidade de audiência que ela tinha nos concertos e viram que ela, de facto, deveria ser alguém muito conhecida.

E ela foi uma pessoa muito fácil e muito próxima?
Foi muito próxima, vinha muito cansada porque veio do Tibete, tinha feito a volta à Ásia, tinha estado a cantar em muitos países seguidos e vinha assim um bocadinho out no primeiro dia, mas no dia seguinte muito querida, muito humana.

E sobretudo a perceber o enquadramento. São crianças órfãs, são crianças que viveram vidas dificílimas e que estão em processo de crescimento e em processo de abrir o seu coração para voltar a acreditar na vida.
Ela ficou muito admirada porque ao início estava a olhar para eles como se fossem “Ai, coitadinhos, estas criancinhas que não devem cantar nada, mas estou a fazer aqui uma obra de caridade”. Cheguei à conclusão que ela não os tinha ouvido ainda, foi o produtor dela que tratou de tudo, que ela não teve tempo.

Ah. 
Quando ela os começou a ouvir cantar foi assim uma emoção, começou a chorar e disse: “Nunca vi nada assim, parabéns, isto é incrível”. Disse que na volta ao mundo todo que foi a melhor performance que viu e que nunca se ia esquecer e que estes miúdos deveriam um dia encher um festival em Inglaterra, estas foram as palavras dela.

E acha que vão?
Acho que é possível.

Uma vez aqui chegados já não há nada nem ninguém que possa dizer “Não, isso não é possível”?
Sabe que eu tinha muita medo porque gosto muito deste tipo de música, é música do mundo e pensei: “A língua é diferente, as melodias são diferentes, se calhar as pessoas na Europa não vão gostar tanto”. Mas tenho tido um eco tão positivo…

É tão alegre e tão contagiante.
Sim, e o produtor dela que também é manager de muitas estrelas, disse que vai toda a gente começar a dançar e a cantar com esta música e que isto vai ficar viral.

E é verdadeiramente uma música do mundo para o mundo.
Sim.

O que é que tudo isto faz dentro de si? O que é que colhe desta riqueza, que é tão grande e certamente tão fecunda, que é a sua experiência cruzada de uma cabeça científica, prática da engenharia aeroespacial, de toda a sua experiência profissional, da vivência no Congo, da vivência com uma avó sem os seus pais porque a guerra estava a acontecer e foi uma guerra difícil, e viver longe dos seus pais? De repente está a ajudar crianças que são órfãs, não sendo órfã, em algumas alturas deve-se ter sentido próxima de quem tem saudades dos pais e quem não os pode abraçar. Como é que isto tudo trabalha, o que é que é o projeto da frente, como é que é o seu dia a dia? O que é que a faz acordar?
Isto tudo construiu-me a mim como pessoa, a minha família toda são pessoas muito boas de coração, dão muito de amor a muita gente e pensam muito nos outros e eu sempre fui criada assim também, sempre fui criada para não pensar só em mim e que tinha que dar aos outros, não estou a falar materialmente, estou a falar em gestos.

Dar de si, custa mais.
Exatamente, e o facto de ter tido também esta adversidade de viver longe dos meus pais, saber que eles estavam a fazer sacrifícios para nós podermos ter oportunidade de estudarmos e sermos pessoas, de termos oportunidades, fez de mim uma pessoa corajosa e também com o objetivo de que não sou feliz só de pensar em mim e na minha família. Sou tão feliz em fazer pequenos gestos todos os dias. Sei que faço tanta coisa pelos outros que se calhar cá em Portugal não é tão fácil porque há tanta burocracia e tantas regras, e fazer bem no Congo é muito fácil.

E é imediato.
É imediato e muda muitas vidas. Por exemplo, deste projeto do hospital já salvámos mais de 4.500 vidas desde o início só no projeto de nutrição, não estou a falar de todos os outros departamentos. E com este projeto da música as estatísticas que fizemos desde 2012 é que há um aumento da cura em 40%, o que é imenso só do facto de poder dar esta pequena coisa que, se calhar, não é nada mas o facto de poder estar a partilhar os meus conhecimentos de música com crianças que não têm nada, isto faz-lhes o dia e dá-lhes imensa esperança. Através da música, e a música é uma linguagem universal, poder dar a conhecer a outros países que se calhar não estão tão preocupados. São crianças e têm o direito também de serem conhecidos e olhados com outro olhar. Saber que estou a contribuir para isso e sendo portuguesa também me dá imenso orgulho.

E está. Como é que lida com a frustração, com os “nãos”, com as coisas que poderiam deitá-la abaixo e que aparentemente não deitam?
Nunca acredito num “não”, acho que é sempre tudo possível e uma escola do Congo muito boa foi saber lidar com o “não” e dizer não. Sempre fui uma pessoa que nunca consegui dizer não, o que também é muito mau,[mas] acho que não é preciso dizer a palavra “não”. Pode-se dar a volta. Vou sempre tentar fazer aquilo que acredito e  sei que é possível. E enquanto tiver saúde acho que tudo é possível.

Se pudesse trazer aqui alguém que admire muito, com quem tenha aprendido, que até poderia ressuscitar alguém, digamos assim, alguém que já tivesse morrido mas a quem gostasse de fazer uma pergunta, de dizer qualquer coisa, quem é que poderia ser?
Acho que a minha avó, que está viva.

Que se chama como?
Dulce.

Dulce é um belíssimo nome para uma avó, como a que descreve. Então e trazia a avó Dulce para lhe dizer o quê?
Ela teria muito orgulho. Acompanha este projeto de muito perto e dizer-lhe que não foi fácil viver com ela — ela sabe, porque controlava-me muito e era muito rigorosa, extremamente rigorosa –, mas que isso deu imensos frutos. E ela sempre sonhou que eu pudesse fazer um bocadinho de trabalho social. Ela era a pessoa que eu gostava que testemunhasse aqui que eu consegui trazer este projeto longe como nunca imaginei.

Onde é que está a sua avó Dulce?
Está aqui em Portugal.

Nós podemos ajudar este projeto? As pessoas podem ajudar este projeto? 
As pessoas podem ajudar, sim.

Como?
Temos algum material que precisamos, por exemplo, agora fiz um peditório mas que não teve assim muita… porque eu não tenho poder nenhum de marketing nem nada.

Não, mas quando sair o clip da Joss Stone pode arranjar, aí é uma janela de oportunidade. Mas como é que se pode ajudar?
Agora com a entrada do ano escolar preciso de mochilas, preciso de material escolar, preciso de uniformes para a escola.

Mas para onde é que as pessoas mandam?
Contactam, eu dei o contacto no Facebook.

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