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Listas destas servem para três coisas diferentes: para concordarmos com as escolhas; para podermos considerar estas mesmas escolhas absurdas; e para, eventualmente, chegarmos à conclusão que houve coisas que nos passaram ao lado. De certeza que toda a gente descobriu o génio de Rachel Bloom em “Crazy Ex Girlfriend”? E estamos mesmo todos de acordo em relação a “Black Mirror”. Não, é claro que não. Por isso elencámos as séries que merecem a nossa atenção em todos os capítulos, aquelas que devemos evitar e os episódios que estamos autorizados a ver vezes sem conta, como se fossem obras isoladas.

12 fotos

Ana Markl

Melhor série: “Stranger Things”

No ano em que morrem alguns heróis da geração que cresceu nos anos 80, “Stranger Things” vem ao encontro dessa criança velha dentro de nós. Passa muito pela nostalgia o sucesso desta série, sobretudo se atentarmos aos constantes piscares de olho aos clássicos da altura e que determinam um tom que é só seu, entre a ingenuidade de E.T. e o terror de Alien. É uma série mais consistente do que perfeita e, mais do que episódios antológicos, tem cenas e detalhes memoráveis — funciona bem vista de rajada. Fala de coisas do nosso mundo através da criação de um mundo que é o seu avesso e aborda o sobrenatural com uma ingenuidade pouco adequada aos espectadores obcecados com os ditames do real. Chicos-espertos, como se diz na gíria. A criança dentro desses, seja como for, já morreu.

https://www.youtube.com/watch?v=XWxyRG_tckY&t=1s

Melhor Episódio: “San Junipero”, “Black Mirror” (T3)

Numa série que nos apresenta mais cínicas distopias, este episódio de “Black Mirror” é um novo fôlego no meio do pesado ar dos tempos que as perpassa. A tecnologia, que ao longo de “Black Mirror” só afasta e ameaça, é aqui substituída por uma espécie de “machines of loving grace” como as do poema de Richard Brautigan. A história é de amor, encontramo-la nos anos 80 (outra vez), embrulhada numa reconstituição estética, cultural e emocionalmente rigorosa. E convém não revelar mais do que isto para que o efeito Charlie Brooker se faça sentir: ele, que em tempos foi crítico de televisão, é agora um exímio gestor de narrativa, na tradição dos melhores episódios de “A Quinta Dimensão”. “Ah, e tal, o crítico é um autor frustrado”, costumam dizer as vozes da reacção. Não sabemos como seria uma série escrita por Eduardo Cintra Torres, mas Brooker está ilibado de tal acusação — no conteúdo deste episódio, como na sua forma de criar, coloca a razão ao serviço do coração e faz história da televisão. E quem está do lado de cá acaba a chorar as tripas.

Pior série: “Marseille”

São tantas e, no entanto, que propriedade tem uma pessoa para dizer mal sem ter tido vontade nenhuma de passar do primeiro episódio? Entenda-se, portanto, que este juízo se refere precisamente ao primeiro episódio da primeira produção francesa para o Netflix, uma espécie de “House of Cards” dos pobres (de espírito, porque dinheiro até abunda) com Gérard Depardieu no papel principal. Uma cena que fica na memória e que resume bem a subtileza de elefante de Marseille é aquela em que uma senhora incauta decide sentar-se para conversar com dois mânfios, de costas para uma falésia. Este texto não contém spoilers, mas duvido que lá em baixo esteja o tiroliroliró.

https://www.youtube.com/watch?v=8WvqgV7-kSc

André Almeida Santos

Melhor série: “The Crown”

Alguns minutos do meu 25 de Dezembro foram passados a assistir à mensagem de Natal da Rainha de Inglaterra com a expectativa de que Sua Majestade oferecesse algumas indicações sobre a veracidade de “The Crown” ou até deixar algumas palavras de apreço. Tal não aconteceu, o capítulo de “The Crown” ficou em branco no seu discurso e, por isso, sou levado a acreditar que grande parte do que acontece nesta produção da Netflix é verdade.

A verdade importa em “The Crown”, mesmo que seja uma porção da verdade. A porção que menos importa da verdade é aquela ligada à sua vida privada, algo que na série é abordado com alguma contenção e, quando se estica, acontece com um propósito longe da controvérsia e a favor da narrativa. A parte da verdade que interessa é a histórica, os eventos, de como cada episódio pega num acontecimento marcante e se serve dele para marcar a importância da coroa britânica e da relevância da Rainha nos primeiros anos do reinado: ainda pouco treinada para o cargo, com o peso de um país acabado de sair de uma Grande Guerra e com situações algo caricatas na sua família.

Tudo isto é trabalhado com uma classe extrema. A sua relação com Winston Churchill é, à falta de melhores palavras, adorável. O mútuo reconhecimento da importância do papel de ambos é apresentado com uma delicadeza que serve na perfeição 2016. Num ano de Brexit, de Trump, de crescentes ideias nacionalistas contraproducentes, foi um deleite ver duas personagens num diálogo constante a terem perfeita noção da história, da importância da história e de como ignorá-la é sinal de um futuro merdoso (se o palavrão for demais, usar “nebuloso”).

Por isso, por episódios magníficos (“Act Of God”, “Smoke And Mirrors”, “Assassins”) e por ser uma série bem mais sobre o presente do que à partida possa parecer, “The Crown” foi a melhor surpresa neste último trimestre e uma das melhores estreias de 2016. Ver do início ao fim é obrigatório. Alguma vez deixou um Cornetto a meio?

Melhor episódio: “Hated By The Nation”, “Black Mirror” (T3)

Sim, toda a gente fala em “San Junipero”. Sim, é aquele episódio “feliz” de “Black Mirror” e talvez aquele que serve melhor as tendências de 2016. E, sim, a nível de argumento e de realização é um trabalho fenomenal e um que deveria ser dado a alunos nas escolas para saberem aquilo que devem almejar. Mas é um episódio fácil, é aquele que quebra as regras para ser o adorado. É o patinho feio que afinal é bonito. É aquele que toda a gente tem que gostar. Escolher “Hated By The Nation” não é ser do contra, é agradecer a Charlie Brooker por aquilo que deu ao longo de três temporadas (e um especial de Natal) de “Black Mirror”. A primeira temporada começa com “The National Anthem”, um episódio em que para a princesa ser salva, o primeiro-ministro tem de ser filmado em directo a sodomizar um porco. Quando a transmissão começa ouve-se em voz-off a advertência para se desligar a televisão e não se assistir àquele acto de indecência. Na altura em que foi originalmente transmitido parecia algo “tipicamente britânico”. Agora, essa advertência, parece um lembrete de como parece impossível ignorar esses actos de indecência. Não vê-los é estar de fora.

“Hated By The Nation” é o único episódio em que Brooker trabalha a morte como algo sério. Ela está presente noutros episódios, ela é essencial para alguns argumentos, mas ela só é real em “Hated By The Nation”. “É a última consequência”, é aquilo que se quer evitar, que se tem medo mas, simultaneamente, o ódio que as redes sociais criam e permitem tornam o desejo da morte de terceiros em algo banal, idealmente sem efeitos secundários. É fácil desejar a morte sendo anónimo, é fácil esquecer as consequências.

Charlie Brooker em cerca de noventa minutos faz uma análise perfeita do “crime e castigo”, de como a facilidade de fazer tudo oferece uma crença de poder absoluto ao indivíduo e o enche de uma impunidade irreal, impossível. E no fim há o castigo, tão perfeito quanto desolador: a última temporada de “South Park” também andou à volta do mesmo, mas não o fez tão bem. Um episódio como “Hated By The Nation” vem confirmar que Brooker é mais do que alguém que escreve séries de entretenimento, é alguém que tem de ser enfiado na grande tradição britânica de documentaristas/realizadores/argumentistas que trabalharam para televisão e mostraram o mundo como poucos o querem ver: Peter Watkins, Ken Loach, Peter Greenaway, John Burke, Adam Curtis, Chris Morris, etc. “Hated By The Nation” é, também, uma assimilação perfeita da carreira de Charlie Brooker, tanto pelo seu trabalho como crítico e de opinião, para imprensa escrita e televisão, como o de escrita para televisão (desde “Brass Eye” até “Black Mirror”). Ouro.

Pior série: “Love”

“Love” é o exemplo maior em 2016 de quando uma tendência está em decadência, de quando o trabalho em volta de personagens marginais, preparadas com o imposto de “geek” ou “nerd”, é tão preguiçoso quanto gasto, preso a fórmulas desenvolvidas pelos tipos que realmente tiveram que partir o código e mostrar ao mundo que isto afinal podia ser dos nerds. Talvez não estivessem preparados para esta ideia de que ser nerd é uma moda. Ser nerd não é uma moda (talvez para os que se esforcem seja), é uma tendência dos tempos, de uma geração que cresceu com videojogos, com umas quantas séries de televisão, com uma cultura literária que descobriu que tudo era possível e com filmes que podem ser vistos quando e onde se quiser.

“Love” é um efeito de terceira geração desta leitura nerd e é tão sensaborão quanto as suas personagens. A sério, por mais que um nerd ou uma tipa que julga que tem problemas se reconheçam ali, guess what?, há coisas bem melhores sobre isso por aí. Aliás, vocês já viram coisas bem melhores, pertinentes, bem escritas e com piada dentro do género. Ver “Love” do início ao fim foi como saber que a comida está rançosa, comer até ao fim e lamber o prato na expectativa de que houvesse para ali algo mesmo bom. Com certas cozinhas nunca se sabe. Mas não, estava só rançoso.

https://www.youtube.com/watch?v=Ym3LoSj9Xj8&t=1s

Pedro Vieira

Melhor série: “Narcos” (T2)

Imagine que alguém decide criar um produto audiovisual baseado em factos verídicos, escolhendo para protagonista um estrangeiro que não fala a língua de origem do principal biografado. Sei lá, é como se alguém escolhesse um italiano, por exemplo, para fazer de Salgueiro Maia ou coisa que o valha. Ridículo, não é? O que é que passa pela cabe… Oi? A Maria de Medeiros já fez um fi… Adiante.

A produção da série “Narcos” escolheu um brasileiro, Wagner Moura, para interpretar um colombiano, Pablo Escobar. E se a primeira temporada trouxe um actor a patinar no castelhano, o que em parte lhe prejudicou o desempenho e o fulgor da narrativa, a segunda deve muita da sua qualidade ao Pablo Moura. Ou Wagner Escobar. Tornou-se impossível distinguir estes dois malparidos. A forma como o protagonista, agora com o castelhano limado, conduziu os últimos meses da vida do narcotraficante foi exemplar e não deixa de ser curioso observarmos como foi possível criar empatia em relação a um assassino sem escrúpulos.

Este fenómeno não é novo — de Jack o Estripador às personagens de Tarantino, os apóstolos da violência sempre seduziram muitos fiéis improváveis — mas este Escobar conseguiu impor o carisma, introduzir tropos como “plata o plomo” e relativizar os banhos de sangue. E os seus últimos quatro meses de vida, retratados em velocidade de cruzeiro e em registo animal acossado, são um achado desta época de ouro das séries. Os episódios vêem-se como as cerejas. E um dos homens mais poderosos do mundo acabou falido e abatido, quando já só contava com um pobre escudeiro chamado Limón. No fundo, Escobar viveu como o BPN. Esteve nos píncaros graças a práticas ilícitas e caiu com estrondo. Felizmente para os colombianos, nunca foi nacionalizado.

https://www.youtube.com/watch?v=nkOKkS7mKfY&t=1s

Melhor episódio: “Chapter 43”, “House of Cards” (T4)

É uma das duplas mas odiadas, logo acarinhadas, dos últimos anos. Claire e Frank Underwood, cuja sede de poder ombreia com a de qualquer líder concelhio do centrão português. Só que com mais classe e fatos caros. Ao quarto episódio da quarta temporada foi revisitado um dos temas mais pop da política americana: a possibilidade de se ter o presidente assassinado. Não seria a primeira, nem a segunda, nem a terceira, nem a quarta mas a quinta vez que algo sucederia, mas apesar do aparato e do suspense bem urdido, a ficção não cedeu à tentação de prescindir de um protagonista.

Afinal, isto não é o “Game of Thrones” dos tempos áureos. A questão do atentado à vida do presidente marca sim um antes — em que o casal entrara em ruptura, também por via da ambição — e um depois, no qual Claire assume as rédeas do poder a partir de uma sombra mais ou menos luminosa. É curiosa a forma como os media na série tratam o assunto. A sobriedade é máxima, o que parece deslocado numa era de sensacionalismo e de televisão tablóide mas parte do apelo da série também passa por este namoro com a sofisticação, mesmo quando são retratados os golpes mais baixos. Neste episódio despedimo-nos também de uma personagem secundária marcante, um guarda-costas que acaba por deixar a sua marca na Casa Branca, depois de um diálogo cúmplice e canhestro sobre arte e simbologia política. Sem o sabermos, estávamos a assistir a uma despedida muito bem escrita, sem sensacionalismo. Este é então um episódio chave para a ascensão de Claire, curiosamente realizado pela própria actriz Robin Wright.

Pior série: “Black Mirror” (T3)

Cometo o pecado da soberba em época de concórdia, o que provavelmente é grave. Mas “Black Mirror” foi aquela série que não vi mas não gosto. Aliás, vi o primeiro e famoso episódio, no qual um primeiro-ministro britânico acede a fazer sexo com um porco, o que é, digamos palerma. Não porque seja inverosímil (já vimos chefes de governo a praticar actos mais condenáveis, pelo menos alegadamente) mas porque o arco narrativo que suporta a bestialidade é fraquinho. Desde os tempos de Rapunzel que ninguém se sacrifica desta maneira em nome de uma princesa e a suposta perversão demonstrada pelo público, que se sente repugnado mas que não consegue deixar de assistir ao grotesco em directo, é coisa que já temos por adquirida há muito. Afinal, de que outra forma seria possível manter no ar sucessivas temporadas da Casa dos Segredos?

Rodrigo Nogueira

Melhor série: “The Night Of”

O britânico Riz Ahmed entra no filme número um na América, “Rogue One”, e no álbum número um, a mixtape do musical “Hamilton”. O ano dele foi bem marcado também por “The Night Of”, um remake americano de uma minissérie britânica (“Criminal Justice”) que esteve anos para ser desenvolvida – era um projecto próximo do coração de James Gandolfini, cujo papel acabou por ser interpretado por John Turturro, que fez maravilhas. Ahmed faz o papel de Nasir Kahn, um estudante de origem paquistanesa em Nova Iorque que, ao levar o táxi do pai sem autorização para ir a uma festa, vê a sua vida ao contrário quando é acusado de homicídio (após uma história nada simples). A história gira em volta daquilo que a culpa pode fazer a alguém e deu alguns dos melhores momentos de televisão do ano — mesmo que algumas pessoas não tenham adorado o final.

Melhor episódio: “B.A.N.”, “Atlanta”

Há umas semanas, Donald Glover foi ao “Tonight Show” para, de tronco nu e com o seu bigode de Lando Calrissian (para o próximo capítulo de Star Wars), interpretar “Redbone”, do seu álbum Awaken, My Love! como Childish Gambino. Foi inacreditavelmente bom, mas é possível que não esteja entre o melhor que Glover fez em 2016. Isto para dizer que o cómico/músico/rapper/argumentista/actor faz muita coisa e faz muito bem. Este ano, criou a brilhante “Atlanta”, uma série em que faz de primo e manager de um rapper de Atlanta, Paper Boi. “B.A.N.” é um episódio fora do baralho na série, centrado exclusivamente na participação de Paper Boi (uma interpretação brilhante de Bryan Tyree Henry, com quem o Observador falou) num debate televisivo. É o episódio mais hilariante da série.

A pior série: “Vinyl”

Ter feito bom trabalho no passado não é garantia de se fazer bom trabalho no presente, mesmo que se volte a colaborar com pessoas com quem já se encontrou ouro antes. Prova disso é “Vinyl”, série com um orçamento multimilionário que saiu das cabeças de Mick Jagger, Rich Cohen, Martin Scorsese e Terence Winter e que girava à volta do negócio da música na Nova Iorque dos anos 1970 – o falhanço foi tanto que foi renovada para uma segunda temporada, mas depois a HBO voltou atrás. Talvez o problema esteja na perspectiva: não é, de todo, nova nem fresca. Mas a mil vezes mais foleira e exagerada – e com muito mais vida – “The Get Down”, o projecto de Baz Luhrmann para a Netflix sobre os primórdios do hip-hop, deu-lhe 20-a-0 e foi bem melhor a integrar personagens verdadeiras na trama de uma forma bem menos ridícula.

Susana Romana

Melhor série: “Crazy Ex Girlfriend”

Depois do caminho aberto à catanada (pelo menos de modo mais visível) por Tina Fey e Amy Poehler, mulheres a fazer boa comédia televisiva já não são uma bizarria digna de circo. Porém, 2016 foi particularmente apetitoso no que diz respeito a projectos pessoais de portadoras de vagina que se arriscam a fazer piadas para ganhar a vida e a ascensão artística e criativa. “Mindy Project” de Mindy Kaling, “Insecure” de Issa Era e a justíssima promoção à primeira liga de Samantha Bee com o seu “Full Frontal”, são bons exemplos — mas destaco a chalupice (termo técnico) de “Crazy Ex Girlfriend”, de Rachel Bloom, cachopa que na viragem da década fez algumas músicas humorísticas virais para o “College Humour”, como “Fuck Me, Ray Bradbury”.

Numa mera sinopse descontextualizada, “Crazy Ex Girlfriend” parece de fugir: a saga de uma protagonista claramente descompensada que muda a sua vida de Nova Iorque para o minúsculo subúrbio californiano de West Covina para tentar reatar com um ex-namorado da adolescência. Ah, e é um musical. Mas descansem, que não é para recomendar àquela ex-colega de secundário que só lê Nicholas Sparks e ainda vê o “Coyote Bar” quando dá na SIC. “Crazy Ex Girlfriend” tem crueza, tem demência, tem honestidade e tem muita, muita piada. Temas como a depressão (com a qual a própria Bloom se debate) ou o aborto são abordados como uma normalidade rara. Ah, e as sacanas das músicas são tão divertidas como orelhudas.

https://www.youtube.com/watch?v=Od9mD6JmYHo

Melhor episódio: “A Jury In Jail”, “American Crime Story: The People Vs OJ”

Autêntica cápsula do tempo dos anos 90, a série que acompanha o julgamento da estrela do desporto mais querida dos Estados Unidos (pensem em “e se o Cristiano Ronaldo fosse suspeito de matar a Nereida, ou lá como se chama esta agora”) é também um tratado sobre a tensão racial nos Estados Unidos. Estreada num ano marcado pelo alt-right e por casos de brutalidade policial, “American Crime Story” é essencial para perceber os contornos desta tensão. E nenhum episódio o exemplifica tão plenamente como este, no qual as equipas da Defesa e da Acusação tentam criar o mosaico de júri que lhes seja mais favorável ao veredicto final (leia-se: aquele que tenha mais ou menos negros que possam achar que o Homem Branco quer é tramar o OJ).

O jogo de bastidores de trocas e baldrocas de jurados (alguns por motivos tão relevantes como “trabalha numa rent-a-car à qual o jogador foi uma vez e tirou uma foto com ele”) é fascinante e até gingão, ao som de “Another One Bites The Dust” dos Queen. A isso junte-se o estado generalizado de paranóia dos jurados, trancados meses a fio (os originais dois passaram a mais de oito) num hotel de luxo no qual não podem usar a piscina, ver televisão, ler, telefonar ou sequer sair do quarto sem autorização. Uma hora de televisão tão boa que até nos relembra que o John Travolta nem é assim tão mau actor (mas não se iludam: a série é da incrível Sarah Paulson).

Pior série: “Mozart in the Jungle”

Provavelmente, vi piores séries em 2016 do que “Mozart in the Jungle”, mas a comédia da Amazon é um desperdício tão grande de potenciais vários que foi de longe a que mais me irritou. Como é que se pega em nomes como Gael Garcia Bernal, Malcolm McDowell (escusam de ir ao Google: é o protagonista da “Laranja Mecânica”) ou Roman Coppola e na própria Orquestra Sinfónica de Nova Iorque e se faz uma coisa tão baça e chata? A sério que é este o grande trunfo da Amazon para combater o império Netflix? Dá a sensação que atiraram dinheiro e pessoas talentosas para uma cave no Cacém e se marimbaram no resultado final.

A terceira temporada, a que estreou este ano, é a mais fraca. E sim, está na terceira temporada mesmo sem estar ninguém a ver. Bernal parece uma caricatura de si próprio (como se todos os não-americanos fossem criaturas excêntricas e bizarras) e a protagonista feminina com a qual é suposto estarmos sempre a pensar “vão ou não enrolar-se?” tem a likeability de um esfregão da loiça. Uma série pato bravo, como muito investimento e pouca cabeça para ser rigoroso com ele.