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Philippa Perry é psicoterapeuta, autora, jornalista e até apresentadora de televisão no Reino Unido

Danny Martindale/WireImage

Philippa Perry é psicoterapeuta, autora, jornalista e até apresentadora de televisão no Reino Unido

Danny Martindale/WireImage

"Temos tanto medo dos sentimentos das crianças que lhes damos tudo o que elas querem", diz autora de um dos livros mais vendidos de 2018 /premium

A infância que tivemos pode influenciar a infância que vamos dar aos nossos filhos. Não faz mal os pais errarem e os filhos não precisam de ser sempre felizes. Entrevista à autora Philippa Perry.

“O livro que gostaria que os seus pais tivessem lido”. O título do mais recente livro de Philippa Perry — psicoterapeuta, autora, jornalista e até apresentadora de televisão no Reino Unido — salta à vista em qualquer prateleira de qualquer livraria. Ao mesmo tempo que desperta alguma nostalgia e nos transporta para a nossa própria infância, serve de alerta na forma de uma pergunta: o que é que podemos fazer de diferente quando chega a nossa vez de sermos pais?

Para Perry, que colabora com alguma frequência com o britânico de The Guardian, é natural que os pais cometam erros e ainda mais natural que peçam desculpa aos filhos. Em entrevista por telefone ao Observador, a autora daquele que, segundo a editora Arena, é um dos livros de não-ficção mais vendidos no ano passado (mais de 200 mil exemplares) fala sem complexos ou preconceitos sobre a relação entre pais e filhos e deixa, essencialmente, três conselhos:

  • é fundamental validarmos as experiências e os sentimentos dos nossos filhos;
  • é importante recordarmos a nossa própria infância de forma a sermos mais empáticos e perceber que há padrões de comportamento que passam de geração em geração;
  • e não podemos delegar a terceiros o amor e o interesse que as crianças precisam, uma vez que na parentalidade “não há atalhos”.

O livro editado em Portugal pela Arena custa 17,70 euros

Antes de mais, porquê este título?
Porque realmente explica o que sinto em relação ao conteúdo. É o livro que gostava que os meus pais tivessem lido para que me tivesse sentido mais confiante, para que não houvesse mal em ser eu própria e ser ok sentir tudo o que senti. [Para que eu achasse] que era boa o suficiente para ter uma relação normal com os outros, [para que me sentisse] uma pessoa aceitável. Ter-me-ia poupado 20 anos de terapia se os meus pais tivessem lido este livro. Não é que eles sejam más pessoas. Na minha prática de psicoterapia muitas das pessoas que me procuram não tiveram pais terríveis ou traumáticos, nem passaram por abusos físicos ou emocionais. Estamos a falar de pais que quiseram que os filhos fossem felizes a tempo inteiro — e isso é uma tarefa impossível. Se uma criança disser que não está feliz o tempo todo, os pais pensam, em parte, que estão a fazer alguma coisa de errado. [A questão é que] há pais que não foram capazes de aceitar os filhos em todos os seus estados de espírito com pressa para que estes fossem felizes.

"Na minha prática de psicoterapia muitas das pessoas que me procuram não tiveram pais terríveis ou traumáticos, nem passaram por abusos físicos ou emocionais. Estamos a falar de pais que quiseram que os filhos fossem felizes a tempo inteiro -- e isso é uma tarefa impossível".

Outra coisa que as pessoas não se apercebem é que também precisamos de ser amigos dos nossos filhos, além de figuras de autoridade, naturalmente. As pessoas tendem a pensar que é uma questão de “ou” e não “e”. É muito importante que tenhamos amor e limites, não uma coisa ou outra. Não temos muito o hábito de descrever o que sentimos quando criamos limites, pelo que habitualmente dizemos coisas como “Já brincaste o suficiente no parque” em vez de “Tenho frio e estou cansada/o, pelo que vamos embora daqui a nada”. São coisas assim que podem mexer um pouco com a saúde mental das crianças, pelo que pensei em escrever o livro que gostava os meus pais tivessem lido para que estas pequenas coisas pudessem ser corrigidas em vez de originar riscos em relações.

Uma das principais mensagens do livro parece ser esta: para sermos pais ou mães é preciso conhecermos a própria infância.
Essa é uma parte importante. É a primeira parte do livro que defende que as pessoas devem perceber-se a si próprias: o que é que pertence ao passado e o que é que pertence ao presente. Se não fizermos esse exercício há o perigo de o passado revisitar o presente. Isso acontece quando pensamos que estamos a reagir ao presente [em questões do dia-a-dia] e estamos, de facto, a reagir ao nosso próprio passado.

São as respostas automáticas versus a reflexão de que fala no livro?
Exatamente. Nós sabemos quando estamos a ter uma resposta automática. Quando algo parece ser muito desproporcional é porque, provavelmente, tal pertence ao passado e não ao presente.

Às vezes, em vez de sermos empáticos numa situação de stress, zangamo-nos com as crianças. Somos até capazes de sentir raiva e frustração, isto de acordo com o que escreve no livro. É possível que estejamos a projetar coisas que já sentimos nos mais pequenos?
Se os nossos pais nos acordaram a gritar “ACORDA! VAIS CHEGAR ATRASADO!”, nós também podemos revisitar isso com os nossos filhos. Mas, se pensarmos bem no assunto, percebemos que não gostávamos mesmo nada de quando isso acontecia.

Mas como é que a infância que tivemos pode moldar o nosso estilo de parentalidade?
No livro dou dois exemplos. Um deles é sobre uma mãe que também é uma psicoterapeuta e que está muito ciente do passado. Todos nos zangamos e isso pode voltar-se contra nós. Ela descobriu que tinha ciúmes da filha por esta poder subir na rede de escalada [estrutura presente em parques infantis]. Quando a filha pediu ajuda na rede, a mãe gritou com ela — naquele momento estava muito furiosa, mas não conseguia perceber o porquê. Mais tarde percebeu que quando era criança não a deixavam usar a rede de escalada, isto quando tinha a idade da filha. Percebeu que tinha ciúmes da filha e foi capaz de admitir isso e de pedir desculpa. O importante não é o facto de cometermos erros, mas sim a forma como os corrigimos.

NIC BOTHMA/EPA

Há um exemplo ainda maior no livro, que é a história de Mark. Quando o seu filho tinha dois anos, Mark pensou “Não quero mais ser pai, não fui feito para isso”. Ele estava muito relutante em saber o que lhe aconteceu quando tinha dois anos porque era um capítulo muito penoso, apesar de ele dizer coisas como “Não me interessa que o meu pai me tenha abandonado quando eu tinha dois anos”. Quando se permitiu a entrar em contacto com esse passado, ficou furioso e percebeu que se revisitasse esses sentimentos de abandono seria muito doloroso, pelo que estava preparado para fazer ao seu filho o que o pai lhe fizera anos antes e o que, por sua vez, fora feito ao seu pai. Nós passamos estes padrões. Se estivermos a fugir dos nossos filhos ou se os acharmos muito irritantes [frequentemente], a certa altura é preciso perceber o que nos aconteceu quando tínhamos a idade deles. Se nos atrevermos a revisitar esses sentimentos, é muito menos provável que os nossos filhos passem pelo mesmo que nós passámos. Muitas vezes, quando os nossos filhos fazem fita “Eu não quero, tenho medo”, é quando nos sentimos mais zangados porque odiamos ser recordados de como nos sentimos vulneráveis e com medo.

Há, efetivamente, padrões de comportamento que se podem perpetuar de geração em geração…
Os padrões podem passar por muitas gerações. Os traumas geracionais fazem parte do dia-a-dia da parentalidade. Quero abrir essa porta para que isto se torne parte da conversa. Quero que seja um tópico mais conhecido.

Falando de exemplos concretos espelhados no livro: às vezes é fácil pensarmos que determinada criança é um “menino mimado” quando, no fundo, ela ainda não sabe gerir as suas prioridades. Temos expectativas irrealistas em relação aos nossos filhos?
A palavra “mimado” é engraçada. Se uma criança recebe vários bens materiais, incluindo presentes, não é culpa da criança, pois não? Ainda assim, a forma como dizemos as coisas é como se fosse. Muitas vezes, damos a atenção errada aos nossos filhos porque é mais rápido do que realmente darmos a atenção e a compreensão de que eles precisam. Quando não lhes damos a atenção certa suficiente, eles podem, de maneira a consegui-la, tornar-se irritantes. E depois culpamo-los por serem irritantes. Se temos um problema com o nosso filho, não deveríamos apenas focar-nos nele, mas sim na nossa relação, em como nos estamos a relacionar com ele. Porque é aí que vamos encontrar as respostas. Não há nada de errado com a criança, mas sim com a forma como ela se está relacionar.

"Muitas vezes, damos a atenção errada aos nossos filhos porque é mais rápido do que realmente darmos a atenção e a compreensão de que eles precisam. Quando não lhes damos a atenção certa suficiente, eles podem, de maneira a consegui-la, tornar-se irritantes. E depois culpamo-los por serem irritantes".

Se vamos ter um filho, então vamos precisar de tempo para ele. Temos de ter tempo. Podemos fazê-lo cedo e de forma positiva ou mais tarde e de forma negativa. Quanto mais investirmos ao darmos aos nossos filhos uma atenção sintonizada, a compreendê-los, a aprender sobre eles e a ajudá-los a encontrar formas apropriadas de se expressarem, mais tempo poupamos. Não há atalhos na parentalidade e não há forma de fazer com que isto acabe mais cedo. Se delegarmos o cuidado deles a outros, isso vai voltar-se contra nós. Claro que podemos delegar algum cuidado, mas não podemos delegar o amor e o interesse de que eles necessitam.

Qual é a importância de um pai admitir que errou e pedir desculpa ao filho?
É irrealista pensar que nós, enquanto adultos, não cometemos erros. Se fingirmos que nunca fazemos nada de errado, que nunca falhámos a compreendê-los e que nunca gritámos, quando a criança se sentir um pouco “esquisita” vai pensar que a culpa é dela. E a criança pode estar a sentir-se mal porque nós tivemos um dia mau e descarregámos nela. Talvez tenha sido lenta a atar os sapatos e nós respondemos “Oh! Deixa-me ser eu fazer!”, coisa que a pode fazer sentir-se incompetente. É mesmo muito importante recuar e pedir desculpa.

A outra coisa, a surpresa, é que as crianças aprendem a pedir desculpa. Se os pais pedem desculpa, os filhos também aprendem a pedir desculpa. Nunca me vou esquecer… Nunca pensei que isso fosse acontecer por eu pedir desculpa, mas quando a minha filha tinha cerca de quatro anos — lembro-me que ela estava na cozinha a comer uma banana — disse-me “Desculpa ter sido resmungona no carro, mamã. Estava com muita fome. Agora estou bem”. Pensei “Isto é maravilhoso!”. Eu nunca lhe disse para pedir desculpa. E aqui está ela a pedir desculpas naturalmente e de forma apropriada. Não defendo que temos de dar às crianças tudo o que elas querem para pararem com as birras, defendo que elas devem encontrar formas apropriadas de se expressarem. Temos tanto medo dos sentimentos das crianças que lhe damos tudo o que elas querem até se transformarem em pequenos príncipes e princesas ou, então, ignoramo-las. Deveria ser o intermédio.

Imagino que esse conselho retire muita pressão à parentalidade.
Se dissermos que temos razão mesmo quando não temos, estamos a interferir com os instintos deles [dos filhos]. É fazer a pergunta a qualquer pai: quer mesmo tornar mais lenta a inteligência do seu filho? Os pais são capazes de responder: “Neste momento quero, mas a longo prazo claro que não”. É isso que vamos estar a fazer se tivermos sempre razão. Ao fazê-lo, estamos a retirar-lhes o seu sentido de identidade.

E também a intuição. É por isso que escreve que os filhos não precisam de pais que estejam sempre certos, mas que sejam autênticos e verdadeiros?
Os pais não vão estar sempre certos de qualquer forma. [risos] Sermos autênticos e reais é a melhor forma de fazer as coisas.

Há uma questão muito importante que falta abordar: apela a que se desista dos rótulos de “bons” e “maus” pais. Porquê? Tendemos a criticar os outros por medo que façamos coisas mal na parentalidade? É este um mecanismo de defesa?
Sim. Faz-nos sempre sentir muito bem criticar os outros, mas é um pouco maldoso e não devíamos fazer isso. Não sabemos pelo que passaram aquelas pessoas. Os rótulos de “bom pai” e “mau pai”… a questão é que ninguém quer ser uma má mãe. O que estamos a fazer ao usar esses rótulos é construir defesas de maneira a ficarmos menos propensos a olhar para o nosso próprio comportamento quando as coisas não estão a funcionar e quando cometemos erros. E todos nós cometemos erros, isso não faz de nós maus pais. Somos os melhores pais possíveis para os nossos filhos porque eles só nos têm a nós — sejamos ou não pais adotivos. Ficámos tão agarrados aos rótulos de “bons” e “maus” pais que não conseguimos admitir esses erros. Por isso é que sou tão contra eles.

Outra mensagem importante é esta: não é a estrutura familiar que importa, mas sim como convivemos todos juntos. Porquê?
As pessoas que em casa convivem com as crianças são o seu mundo antes destas irem para a creche ou para a escola. A família e a família alargada representam o seu mundo e é tão melhor se essas pessoas se souberem dar umas com as outras do que se for um campo de batalha.

E não é só o modo como agimos com os filhos, é também o modo como falamos connosco…
É importante a forma como agimos com os nossos filhos e como somos com eles. Mas é também importante como falamos connosco. Se tivermos uma voz interior muito crítica, mesmo que pensemos que a guardamos só para nós… eles apanham isso, não sei bem como. É importante que trabalhemos na nossa voz crítica. Os nossos filhos são uma parte tão grande de nós que se tivermos uma voz interior muito crítica isso funde-se, de alguma forma, com eles e eles ficam atormentados por isso.

"Os nossos filhos são uma parte tão grande de nós que se tivermos uma voz interior muito crítica isso funde-se, de alguma forma, com eles e eles ficam atormentados por isso".

Eles correm o risco de também desenvolver essa voz interior?
De alguma forma essa voz interior passa para eles, não sei como. E dá aos nossos filhos coisas de que eles não precisam.

De acordo com o que escreve — e com o que já deu a entender nesta entrevista —, é mesmo verdade que queremos tanto que os nossos filhos sejam felizes que, por vezes, negligenciamos os seus sentimentos ou optamos por distraí-los?
Se só nos sentimos aceites quando estamos em determinados estados de humor — e não sentimos que podemos falar sobre outros estados de humor porque, se o fizermos, alguém tenta reparar isso de imediato ou tenta distrair-nos imediatamente –, não aprendemos a processar esses sentimentos. Imaginemos uma criança que tem sentimentos de ódio e que nunca lhe é permitido expressá-los ou falar sobre eles, o que acontece é que ela tende a pensar que é uma pessoa má por ter estes sentimentos. De alguma forma, não permitimos que os nossos filhos se sintam tristes. Se um filho disser “Tive de refazer o meu TPC tantas vezes…”, muitos pais respondem “Isso vai ensinar-te a estar atento”, o que não é uma coisa que diríamos a um parceiro. Suponhamos que a pessoa que mais amamos vai se ausentar e não sabemos quando volta, como é que ajuda ter alguém a tentar distrair-nos quando estamos a passar por aquela dor? Não é respeitoso. Precisamos de respeitar as nossas crianças e os sentimentos delas.

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O mesmo acontece em relação à atenção, isto é, se os pais não derem atenção suficiente a uma criança esta pode tornar-se numa pessoa que precisa constantemente de atenção?
Sim, é horrível sentir que não existimos a não ser que sejamos o centro das atenções porque nunca passámos por aquela fase de interiorizar a atenção não tóxica e ficámos bloqueados. Muitas vezes parece que uma criança recebe muita atenção, mas o que está a receber é atenção narcisista, no sentido em que um pai pode dizer “Olhem como ele consegue jogar futebol tão bem como eu” — o pai não está a amá-la por ser quem é, mas por ser como o pai. Não estou a dizer que isso é uma coisa má, mas se essa for a única forma de atenção que a criança recebe, então, ela não vai ser vista.

Imaginemos uma criança que diz que há monstros debaixo da cama. Não conheço um pai que não queira dizer “Não, não há!”. Mas é um erro dizermos isso. O que precisamos de dizer é “Diz-me mais sobre o monstro, como é que se parece, como é que se chama?”. Talvez os monstros debaixo da cama estejam relacionados com o facto de o pai ter estado de muito mau humor naquela noite. Mas porque as crianças gostam muito dos adultos — porque são os pais ou as mães — é muito mais fácil dividir os sentimentos de medo e de raiva e passá-los para o quer que esteja debaixo da cama. Se alguma criança disser que há monstros debaixo da cama, é nosso dever ouvir e não descartá-la. Isso é uma metáfora para todos os sentimentos que preferíamos que eles não tivessem.

Acha que estamos numa sociedade cada vez mais preparada e motivada para falar dos sentimentos e da saúde mental das crianças?
Não sei como é em Portugal, mas a saúde mental está muito na moda neste momento. É quase como uma medalha de honra. Assusta-me um pouco. O que me interessa é prevenir estas situações — prevenir problemas de saúde mental ao permitir que as crianças tenham todos os seus sentimentos validados. Muitas vezes afastamos as crianças — não necessariamente fisicamente, mas emocionalmente — inconscientes de que elas podem estar a passar por experiências traumáticas, como o melhor amigo ter ido viver para fora da cidade. E pensamos “Isso são coisas da infância”. Isto é exemplificativo de como plantamos sementes que as fazem sentir que não são importantes. Elas não crescem de repente e pensam “Ah, sou adulto, sou importante!”. Todas aquelas sementes de quando foram afastadas ou ignoradas — considerando uma mensagem regular — são transportadas para a vida adulta e é assim que surgem problemas de saúde mental.

"Muitas vezes afastamos as crianças — não necessariamente fisicamente, mas emocionalmente — inconscientes de que elas podem estar a passar por experiências traumáticas, como o melhor amigo ter ido viver para fora da cidade. E pensamos "Isso são coisas da infância"".

Será que fazemos com que as crianças sintam que não são tão importantes como os adultos?
Acho que isso acontece porque foi antes feito aos pais. É uma parte da cultura que vai passando [de geração em geração]. E se não nos recordarmos de como nos fizeram sentir, corremos o risco de passar isso outra vez. É muito mais fácil respeitar os nossos bebés, os nossos adolescentes ou os nossos filhos adultos se nos lembrarmos de nos pôr na posição deles.

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