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Rita de La Bletière, 31 anos, fundadora da marca Le Petit Chifon. Mãe do Pedro (3 anos) e da Maria Clara (4 meses)

Comecei como jornalista. Estagiei na revista Vogue e fui contratada pela GQ, tinha 23 anos. Entretanto a direção mudou e eu própria quis sair. Pouco depois surgiu a hipótese de trabalhar em catering. Trabalhei nessa área durante três anos, era o braço-direito da chef Maria Fernandes Thomaz. Ela é irmã do padrinho do meu filho, adoro-a, mas quando ele nasceu, comecei a perceber que não ia dar para continuar, porque tinha uma vida completamente louca. Trabalhava noites, fins de semana, quando era altura de casamentos saía sábado às seis da manhã e voltava na madrugada do domingo seguinte. Segunda-feira já estava a trabalhar outra vez, com outros eventos, orçamentos. Isto já grávida do Pedrinho, trabalhei até aos sete meses.

Quando ele nasceu, comecei a ficar angustiada, a pensar que não ia ser capaz de o pôr numa creche tão pequenino, e que não ia dar para continuar com a vida louca que tinha. E comecei a ver que outra coisa é que podia fazer. Como sempre gostei de moda e sempre quis ter o meu negócio, percebi que o que gostava mesmo era de ter uma oferta para crianças, que fosse diferente do que havia, com qualidade, e ao mesmo tempo importante para o conforto deles e o ambiente. Foi aí que comecei a pensar criar uma marca de algodão orgânico para bebés, porque cá não se via muito. Lancei a marca quando o Pedro tinha seis meses, não foi fácil porque no início ele não fazia sestas, só dormia ao colo. Também não foi fácil encontrar uma fábrica que quisesse trabalhar comigo. As que encontrava estavam habituadas a trabalhar para fora, só com grandes quantidades, e eu não tinha investimento para isso.

Lancei quatro peças à experiência e fiquei surpreendida porque comecei a ter imensas encomendas e as pessoas começaram a elogiar a qualidade. Na segunda coleção – eu chamo coleção, mas as peças ficam para sempre, porque são modelos básicos que no fundo vou acrescentando – criei o site e comecei a vender em mercados. Nessa altura tentei virar-me também lá para fora e comecei a mandar coisas para bloggers. Houve um dia em que recebi um email da Vogue inglesa a convidar-me para entrar na revista, e isso abriu-me imensas portas. A seguir à Vogue veio a Tatler e a marca começou a crescer.

Nunca teria lançado a Petit Chiffon se não tivesse tido filhos, porque tudo o que criei foi pensando sempre o que é que me fazia falta. Desde o início sou eu quem trata de tudo: desenho as peças, faço a contabilidade, falo com os fornecedores, trato das sessões fotográficas. Trabalho sozinha, até porque tenho uma marca pequena.

Rita com os dois filhos, ambos vestidos com roupa da sua marca, Le Petit Chiffon. © Gonçalo F. Santos

O Pedro só entrou na creche aos três anos. Até lá fiquei com ele em casa, portanto tudo isto foi sempre com ele à perna. Quando tinha de ir ao Porto, visitar as fábricas, ele ia comigo. Também ia comigo aos correios tratar das encomendas. Se vou engomar uma peça que está amarrotada antes de enviar, ele vai buscar o ferro dele para também engomar qualquer coisa.

Antes de tomar esta opção, pensei em duas coisas: quero ser mãe/ educadora e quero ter a minha marca, quero andar com as duas coisas para a frente. Sei que isto é injusto de dizer e que há pessoas que não têm a oportunidade que eu tive, mas para ter filhos… não me apetece ter filhos para dar aos outros para educar, pelo menos nos primeiros três anos, da chamada primeira infância. Por isso, pensei: já que tenho esta sorte, vou agarrar nela e vou dar ao meu filho aquilo que se calhar imensos pais gostariam de dar e imensos filhos gostariam de ter e infelizmente não podem.

Ao início fui criticada. Antigamente íamos com três anos para a escola, mas hoje em dia não é assim e muitas pessoas não entendiam. Diziam que se calhar o Pedro precisava de ir socializar, e eu tinha logo a minha mãe, que é psicóloga de crianças, a dizer que os bebés até aos dois anos e tal não socializam, estão muito virados para si próprios. Sentia-me criticada, mas nunca pensei fazer de outra forma, porque para mim o importante era aquilo, era o meu filho estar em casa. Atenção que o estar em casa significa que temos de estar disponíveis, não é estar em casa e metê-lo à frente de uma televisão o dia todo porque não nos apetece ou temos outras coisas para fazer. Por isso é que eu digo que ter filhos não é só fazer visto, é preciso querer mesmo, estar emocionalmente disponível para eles. Acho que, um dia mais tarde, o tipo de pessoas que eles vão ser também tem muito a ver com a infância que tiveram.

Até aos dois anos o Pedrinho nunca viu televisão, nunca lhe dei um tablet. Porque está provado que não é bom uma criança com menos de dois anos ter tanto contacto com os ecrãs. As minhas amigas ficavam admiradas e sempre me perguntaram o que é que fazia com ele o dia todo. Às vezes eu própria me surpreendo, porque nunca tive jeito nenhum para as artes e fiz isto  [agarra numa guitarra elétrica em espuma, azul e vermelha].

Desde o início sempre brinquei com ele e tentei estimulá-lo. Comecei a ler sobre vários métodos pedagógicos de que gosto e que acho que são os certos para as crianças — Montessori, Waldorf e o Movimento da Escola Moderna — e tentei estimulá-lo na pintura, na música, nos livros… Quando ele se começou a sentar fiz um mini-parque infantil na varanda e almoçávamos ali, fazíamos piqueniques, pintávamos lá fora. Há dias em que não apetece brincar, ou a paciência é menor, mas íamos para o jardim ou fazíamos um bolo. Quando ele era pequenino, li um livro que até foi a minha mãe que me deu, Educar com Mindfulness, da Mikaela Övén, e comecei a perceber que era importante aproveitarmos os momentos todos, no presente, e não estar a pensar no que pode acontecer, no “e se”. Espero que continue a correr tudo bem com o meu negócio porque quero fazer o mesmo com a Maria Clara, que nasceu no dia 3 de janeiro.

Acho que ele só ganhou, vê-se no dia a dia. Até dezembro do ano passado nunca tinha estado doente, nunca tinha tomado um antibiótico. E é um miúdo super seguro, super grato. Carinhoso, está sempre a elogiar-nos, a dizer que nos adora. E mesmo com a irmã: todos os dias de manhã entra no meu quarto e diz uma coisa diferente: olá minhas bonecas, olá minhas queridas. Ele sente a sorte da vida que teve e que continua a ter, porque como eu trabalho a partir de casa e o meu marido está no negócio imobiliário, ambos podemos gerir o nosso horário e vamos juntos pô-lo à escola, jantamos todos em casa, tomamos o pequeno-almoço nas calmas. Como não temos horário de entrada não abdicamos disso.

Nunca pensei em deixar de trabalhar. Acho que para nos sentirmos realizadas também precisamos de qualquer coisa. Fora isso, um dia os filhos crescem, vão-se embora e não temos nada. Dá-me imenso gozo ter a minha marca. Em Portugal às vezes é difícil e por isso estou sempre a tentar fazer coisas novas e puxar-me lá para fora, mas era o maior desgosto da minha vida se um dia isto tivesse de acabar.

Financeiramente tinha algum dinheiro para investir e a minha mãe, como sempre me incentivou, acabou por entrar neste projeto comigo. Mas é preciso fazer opções: esquecer as empregadas, esquecer compras, esquecer os luxos. Saber que se quero isto, vou ter de abdicar das outras coisas, e para mim as outras coisas não eram importantes. Peço às mães para fazerem contas, caso gostassem de fazer a mesma coisa. Somem creche, mais uma empregada, mais um prolongamento ou alguém que tenham de ter em casa porque não conseguem ir buscar os filhos a tempo. Somem isto tudo e vejam se de facto faz sentido, se compensa.

Outro conselho: se conseguirem mudar um bocadinho a vida — não estou a dizer para irmos todos criar marcas, senão vamos todos ao fundo e ninguém tem dinheiro para comprar [risos] — mas se conseguirem adaptar alguma coisa… Se calhar há formas, se calhar há dias em que não é preciso sair tão tarde, se calhar até dá para procurar outra coisa, ou ter um trabalho em part-time, um dos pais. Não é viver em função dos filhos, mas pensar que eles precisam um bocadinho disso.

Marta Silva, 41 anos, fundadora da marca de bonecas La Petite Collection. Mãe da Madalena (13 anos), da Inês (9) e da Luísa (7)

Antes de fazer bonecas trabalhava em biologia molecular, num laboratório. Tirei química aplicada na área de biotecnologia e ao mesmo tempo sempre estive ligada a uma empresa de marketing. Quando a Madalena nasceu, tive uma proposta para ir para essa empresa como gestora de recursos humanos e de clientes. E foi aí que comecei a pensar que aquele tipo de horário muito rígido, das nove às seis — que acabava por ser das nove às sete — era impossível de manter. Chegávamos sempre tarde a casa, ela estava sempre doente e até acho que tinha que ver com aquele stress. Nós não tínhamos tempo. A Madalena era das primeiras a entrar e das últimas a sair. E, mesmo assim, na escola dela havia muitas crianças a sair ainda mais tarde, foi uma coisa que me começou a preocupar muito.

Quando engravidei da Inês, decidimos que isto tinha de levar uma volta e comecei a reduzir o horário. Negociei e fazia só meio-tempo. Foi o início da mudança.

Cerca de seis meses depois de a Inês nascer, surgiu a oportunidade de voltar ao laboratório e trabalhar com sobreiros em biologia molecular, que é a minha paixão. Mas rapidamente voltei ao horário completo, sem margem de manobra, e estive assim até nascer a Luísa, quando resolvi fazer uma pausa na bolsa. Nessa altura, já estava a fazer bonecas.

Comecei a fazê-las quando fiquei grávida da Madalena, há 13 anos. O que eu queria era uma coisa só à base de materiais naturais, lã e algodão, e manual. Fartei-me de procurar, mas não encontrei nada. Ou encontrei, mas industrial. E por isso comecei a fazer para ela. Não tinha formação nenhuma, mas a minha mãe ofereceu-me uma máquina de costura e comecei a fazer moldes e roupinhas. Normalmente quem faz este tipo de bonecas Waldorf tem formação em artes plásticas, sabe esculpir, mas no meu caso foi tudo autodidata. Depois foi um processo muito simples: comecei a oferecer as bonecas às minhas sobrinhas e a pôr algumas na loja PR21, no Príncipe Real. As bonecas foram muito bem aceites, abri a loja online na Etsy e às tantas já não tinha mãos para as encomendas. Ou seja, quando fui acabar o trabalho da bolsa, já foi com a ideia de não voltar nem para o laboratório nem para a empresa de marketing, mas dedicar-me completamente às bonecas e às minhas filhas, que estavam desesperadamente a precisar. Aliás, estávamos todos.

Marta, as três filhas e algumas bonecas. © Gonçalo F. Santos

Quando parei — a Luísa tinha um ano — não parei com a perspetiva de nunca mais voltar ao laboratório, ou nunca mais voltar a trabalhar fora. Era o que precisávamos naquele momento. Passado uns anos fui contactada para voltar para o laboratório e foi aí que percebi que já não queria. Nessa altura, as bonecas já estavam a correr muito bem, era uma coisa que estava a crescer e que me dava imenso prazer. Para além disso, a nível familiar deixámos de ter a problemática que a maior parte das famílias tem: ir buscar à escola, precisar de ter apoio ou até mesmo contratar alguém. Mas nem sempre foi fácil: no ano passado, elas estavam cada uma na sua escola, cada uma com o seu horário, e eu parecia o autocarro. Este ano felizmente está mais calmo e a Madalena já vai sozinha.

Quando comecei a trabalhar em casa, um dos maiores problemas que tive foi o da organização. Porque é difícil, há sempre coisas para fazer. Tive de aprender a criar rotinas e agora faço quase um horário das nove às cinco sem ter pedido, porque elas saem às 17h30 [risos].

Num dia normal vou deixá-las à escola e, quando venho para casa, isto funciona como o meu atelier. Quando elas saem, temos o nosso tempo, e às vezes depois de se deitarem ainda volto para as bonecas mais um bocadinho. Cá em casa, e até para não voltar ao antigamente, temos a regra de não trabalhar ao fim de semana. E é um trabalho de equipa: quando o meu marido, que é professor do ensino secundário, estava a fazer o doutoramento, era eu que assegurava quase tudo. Quando há picos de encomendas, em alturas como o Natal e a Páscoa, em que ainda por cima elas estão de férias, trocamos e é o pai que segura o barco.

Deixámos de andar a correr e isso mudou tudo. Antigamente éramos acelerados, agora somos muito mais calmos. Elas nem têm bem noção disso, mas o que nós ganhámos foi tempo e com o tempo vem a qualidade de vida. Às vezes são aquelas pequenas coisas: poder cozinhar com elas ao fim do dia, poder ir buscá-las mais cedo e irmos dar um passeio, ou deitarmo-nos na cama a conversar. Esta disponibilidade e esta facilidade de gerir os horários são muito importantes. Acho que também melhorámos na alimentação, porque começámos a fazer uma série de coisas que antes eram impossíveis. A Madalena era uma criança que só chorava, não comia, tinha imensas alergias, e com a Luísa foi tudo muito mais tranquilo.

Claro que houve implicações financeiras. Por um lado deixei de receber um ordenado fixo e tivemos de reajustar o nosso orçamento. De início, quando ainda não estava tudo rotinado e ainda não conseguia prever o que é que ia conseguir pôr à venda, financeiramente foi um golpe grande. Passámos de uma situação em que não tínhamos de fazer contas para uma situação muito mais restrita. Estivemos para sair da casa onde morávamos porque a renda não era comportável a longo prazo. Houve muitos reajustes: os jantares fora, os cafés, as compras… Ainda hoje. Elas são três, há muitas despesas, é tudo mais controlado. É uma questão de prioridades, de pensar no que é importante. Não comprar tudo e apostar na qualidade em vez da quantidade, o que com crianças pequenas pode ser complicado porque elas são bombardeadas com publicidade por todo o lado — é sempre mais, mais, mais, querem porque é novo. Para mim é ao contrário: é importante que elas valorizem as coisas, o trabalho de quem fez, o tempo que demora.

Cada vez mais tento fugir para o manual, para o que é feito artesanalmente, e tento evitar caixas enormes que trazem brinquedos minúsculos. E a verdade é que, por mais coisas que tenham, elas acabam por voltar sempre ao básico: aos desenhos, aos legos, aos livros, à cozinha de brincar. Claro que gostam do tablet e da televisão — a Madalena tem 13 anos e gosta de estar no WhatsApp –, mas elas próprias voltam a estas brincadeiras mais imaginativas, mais do que propriamente àqueles jogos em que já está tudo predeterminado e é só carregar num botão. E as bonecas continuam a ser um sucesso.

Os testes que faço vão ficando para elas. Porque não quero viver só de encomendas nem quero voltar ao trabalho rotineiro, também gosto de ir testando novidades. Noventa e cinco por cento das minhas vendas são para fora. Agora que a logística da escola está mais calma, estou a tentar juntar alguma produção para poder fazer pelo menos um mercado onde as pessoas possam ver e tocar nas bonecas, para perceberem esta questão do manual e dos materiais. Só não trabalho com prazos apertados porque não quero voltar ao sistema de não ter tempo para mim nem para elas.

Joana Diogo, 32 anos, fotógrafa e co-autora do site Fox & June. Mãe do Sebastião (2 anos)

Tirei uma licenciatura em imagiologia, antiga radiografia, não tem nada a ver com o que faço agora. Bom, era fotografia do corpo humano. Ainda trabalhei dois anos num hospital em Lisboa e depois fui convidada a dar formação sobre o equipamento. Gostei mais dessa parte — foi através disso que conheci o meu marido, o João — mas chegava a passar três semanas na Alemanha. Ele também estava muitas vezes fora e quase não nos víamos, por isso quando houve uma reestruturação na empresa e dispensaram as pessoas contratadas há menos tempo, confesso que senti um alívio.

Entretanto fiz dois workshops de fotografia com a Catarina Macedo Ferreira. Foi aí que se deu duplamente o click. Já gostava de escrever, mas percebi que tinha uma veia criativa e não queria voltar a estar fechada numa sala, sem janelas, a fazer TACs e ressonâncias, às vezes um dia inteiro sem ver o sol. Foi um erro de percurso ter tirado aquele curso e foi pena ter-me apercebido tantos anos depois, mas ao menos apercebi-me.

Nunca gostei de estar sentada num sítio das nove às seis, por isso quando comecei à procura de trabalho tentei encontrar alguma coisa que me desse flexibilidade de horário. Vi uma proposta na área da dermocosmética para delegado de vendas, na zona de Lisboa, e fui escolhida. Nos primeiros tempos gostei de lá estar, mas rapidamente a zona de Lisboa passou a incluir também o Alentejo. E depois também o Algarve. E aí tinha de estar uma semana fora porque não compensava ir e vir no mesmo dia. Entretanto, casei-me com o João e a primeira conversa do meu diretor foi: “Mas não vais ter já filhos, pois não? Tens de aproveitar o casamento.” Uma lavagem psicológica muito infeliz.

Joana Diogo no quarto de Sebastião. © Gonçalo F. Santos

Quando fiquei grávida, surgiram outros problemas: apesar de estar combinado um horário flexível, se tinha uma ecografia às três da tarde pediam-me para comprovar que tinha estado na consulta, começaram a marcar-me reuniões às cinco e às seis, e aquilo estava a desgastar-me muito. Comecei a ficar tão ansiosa que pouco depois da ecografia morfológica, a meio da gravidez, o meu médico viu que o Sebastião estava com um percentil muito baixinho e mandou-me para casa mais cedo.

Ele nasceu saudável, correu tudo bem, e gozei a licença de maternidade. Tirei oito meses, para adiar ao máximo a ida do Sebastião para a creche, e a minha ideia era voltar ao trabalho. Não sou de desistir das coisas facilmente. Mas ao regressar começou a minha fase mesmo infeliz. Deixava-o de manhã, à pressa, marcavam-me reuniões à tarde, queria ir buscá-lo às quatro e acabava por não conseguir. Muitas vezes fazia o caminho a chorar, porque sentia que estava a falhar, tanto no trabalho como com ele.

Passados três meses despedi-me.

O Fox & June começou a ganhar forma durante a licença. Ao início, as house tours até foram ao fim de semana e estranhamente, apesar de estar a abdicar de duas ou três horas em família, já não me sentia culpada. Lancei o site com a Francisca, conhecemo-nos através dos blogues que ambas tínhamos. Ela tinha sido colega do João na escola e foi empatia imediata: também estava infeliz no trabalho, também queria ter novas experiências. Percebemos logo que tínhamos o mesmo sentido estético e queríamos a mesma coisa: um site inspirador para falar de slow living, maternidade, viagens, decoração, sítios a visitar.

O site foi lançado em abril de 2018 e tem crescido gradualmente, mas o investimento ainda é todo pessoal. No primeiro ano, o nosso objetivo era conquistar um espaço e uma audiência, agora lançámos um serviço de home staging para casas de aluguer de longa duração, em que a ideia é torná-las mais apelativas e ter fotografias com qualidade. Temos muitas outras ideias.

Através do Fox & June fui contactada por uma empresa de dois designers que fazem remodelações de casas. Eles querem que eu comece a fotografar os projetos deles. É uma coisa palpável. Além de estar muito mais feliz desde que tomei esta decisão, parece que o Universo conspira e as coisas estão a correr melhor.

Não sei a onde é que isto me vai levar. Espero que a algum sítio. Não quero é que o Sebastião olhe para trás, quando já tiver idade para tomar decisões, e pense que tem de ir para uma coisa só porque toda a gente diz que sim. Ainda há muito essa pressão, até da família próxima. Eu tive de ‘trabalhar’ os meus pais e os meus sogros para tomar esta decisão. Eu, uma mulher adulta.

O João sempre foi a primeira pessoa a dizer-me: se não estás feliz, vai-te embora. Tu tens talento, liberta-te. Sentámo-nos, fizemos contas, abdicámos de muita coisa. Tenho imenso apoio familiar, mas há dias em que acordo e penso “o que é que estou a fazer?”. Nem sempre é fácil sentir-me leve com a decisão que tomei. Antes ficava envergonhada quando me perguntavam o que fazia. Agora respondo que comecei um projeto, que estou a construir um caminho. Já não tenho vergonha nenhuma.

Hoje em dia vou deixar o Sebastião às 9h30 e vou buscá-lo por volta das 16h. Há pais que os vão buscar às 19h. Alguns estão lá desde as 8h. Bebés pequeninos. Desde que o vou buscar até que o deito, não faço mais nada, impus isso a mim própria: ponho o telemóvel no silêncio, virado para baixo, e não abro o computador à frente dele. Não quero que ele olhe para nós e nos veja sempre a olhar para ecrãs. Muitas vezes pego na nossa cadela e vamos passear. Ou vamos para a areia ou para o parque infantil. Em casa sento-me no chão com ele a brincar, ponho-o num banco ao pé de mim a fazer a sopa, vemos meia hora de desenhos animados, escolhemos a roupa do dia seguinte juntos. Estou disponível para ele, e isso é das coisas que mais paz me dá.

Houve uma frase que me disseram há um tempo e que me fez muito sentido: “Senta-te em frente ao teu chefe. E pensa: daqui a dez anos, queres ser como ele? Se quiseres, estás no sítio certo. Se não, começa a trabalhar no teu caminho.”

Rita Matos, 32 anos, enfermeira e influenciadora. Mãe da Benedita (2 anos)

Tirei enfermagem no Porto, mas como não arranjei logo emprego, cinco meses depois de acabar o curso fui para Londres. Tinha lá uma amiga e quando cheguei houve um problema com os papéis da Ordem dos Enfermeiros de lá, por isso ainda trabalhei numa loja de bolachas. Também serviu para me familiarizar com a língua e a moeda. Apesar da minha mãe ser professora de inglês, eu sempre fui uma nódoa.

Estive lá seis anos, mas sempre vim muito cá, até porque o Zé, meu marido, ficou no Porto. De uma das vezes em que vim fiquei grávida, não foi planeado e descobri já no hospital, num dos turnos da noite. Lembro-me que foi no dia 28 de abril, às quatro da manhã, depois de ter comido o mesmo pão com tomate de sempre e de ter achado que estava ótimo. A nível profissional estava muito bem, num hospital privado na área da cardiologia, mas foi o pretexto que faltava para voltar. Não há dinheiro que pague chegar a casa depois do trabalho e termos a nossa família.

Rita Matos, Benedita e o buldogue francês Nabo. © Luís Ferraz

A Benedita nasceu à meia-noite do dia 1 de janeiro de 2017, foi a bebé do ano, apareceu em todo o lado. Eu estava a arranjar-me para uma festa de passagem de ano em casa de amigos quando me rebentaram as águas. Ainda tomei banho, pus umas pestanas postiças, maquilhei-me… A minha mãe sempre me tinha dito: “tu põe-te bonita para depois não ficares com aquele ar doente”. Quando cheguei foi só o tempo de levar a epidural e ela nasceu à meia-noite e dez segundos. No dia a seguir apareceram as televisões, os jornais… E o conselho da minha mãe resultou: eu estava com a cara quadrada mas notavam-se as pestanas.

Ela já tinha um ano e meio quando voltei a trabalhar. Por opção surgiu esta oportunidade de estar num laboratório de análises clínicas e de exames, só de manhã. Levanto-me todos os dias às seis mas só trabalho até às 11h30. É a recibos verdes mas como não tinha descontado aqui em Portugal, neste primeiro ano ainda estou isenta de tudo, por isso compensa minimamente. Há certos luxos que se calhar deixei de ter, mas prefiro este tempo extra para ela, para mim, até mesmo para a página de Instagram [@13.thirteen.treze] e para as parcerias que vou fazendo e que também já me dão algum rendimento.

Por volta das quatro e meia, às vezes mais cedo, vou buscá-la à creche e se estiver bom tempo vamos dar um passeio, vamos a pé até à Foz, ver o mar, às vezes dá para pôr os pés na areia. É raro ver outros pais a fazerem o mesmo, as pessoas saem cada vez mais tarde. Se estiver mau tempo vimos para casa, ela gosta de brincar com legos e brinca muito com o Nabo, o nosso cão.

O meu marido trabalha numa empresa de eventos, está muitas vezes fora e chega sempre tarde a casa. Isso era o que me assustava mais na perspetiva de continuar num hospital: perder o jantar, os fins de semana, o Natal. Depois do verão vou ter de começar a procurar outra coisa, mas gostava que desse para continuar a conciliar tudo. Quando digo que não quero voltar a fazer turnos, perguntam-me qual é o problema de deixar a Benedita com a minha mãe. Mas eu penso que não vou estar lá para a ouvir dizer as primeiras coisas.

Artigo originalmente publicado na revista Observador Lifestyle nº 3 (março de 2019).