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Diana Quintela

Diana Quintela

"Tenho pequenas Greta Thunberg aqui em todo o lado" /premium

Desde outubro de 2018, a Casa do Impacto já acolheu 34 startups, todas com o objetivo de ter um impacto positivo na sociedade. "Deste lado, está toda a gente a tentar mudar o mundo."

“Se estás a trabalhar apenas pelo dinheiro e não com um propósito, a partir de um certo ponto acaba por ser insatisfatório”. Mar Michelle Hausler decidiu mudar de vida há nove anos, quando sentiu que o trabalho como consultora financeira em Londres, na altura da crise, não ia ao encontro dos valores que defendia. “Decidi sair para explorar a vida, viver no mundo todo e perceber algumas coisas”. Hoje, e em Portugal, Mar é responsável pelo Give & Take Lab e também quer ensinar a pôr em prática os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), definidos pela ONU, através de um jogo. E diz ter um propósito com o seu trabalho. O projeto que desenvolveu é uma das 34 ideias incubadas na Casa do Impacto, que abriu portas há quase um ano para acolher e impulsionar startups que querem mudar o mundo.

É no Convento de São Pedro de Alcântara, em Lisboa, que a Casa do Impacto acolhe, acelera e apoia projetos de empreendedorismo social, uma área que só há pouco tempo começou a ser discutida. Numa passagem pelos corredores do edifício, percebe-se que a arquitetura do convento do século XVII se mantém, mas que tudo isto convive agora com o frenesim do empreendedorismo. As salas transformaram-se em escritórios e espaços de co-work, rodeados de post-its com frases motivacionais e ideias apontadas. Ao todo, este projeto já acolheu mais de 200 empreendedores e realizou 60 formações e workshops.

“Neste momento, já estamos tão cheios que estou a pensar mudar aqui esta sala”, comenta Inês Sequeira, diretora da Casa do Impacto, enquanto faz uma visita guiada pelas várias salas que são utilizadas pelas startups. O projeto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem como missão acolher e impulsionar empreendedores que estejam a desenvolver modelos de negócio para resolverem problemas sociais e ambientais, alinhados com os ODS das Nações Unidas. As ideias aqui trabalhadas vão de temas como o ambiente à igualdade de género ou à melhoria do acesso à educação e saúde mental. O requisito principal? Todas as empresas têm de ter um objetivo social e um impacto positivo na comunidade onde se inserem.

7 fotos

Quando Inês Sequeira chegou a este convento para avançar com a Casa do Impacto, havia não só que planear e adaptar todo o espaço ao trabalho que seria feito, como o conceito de empreendedorismo social era desconhecido e alvo de alguns preconceitos. “Quando cheguei aqui, não havia nada. Não quis fazer apenas uma incubadora, quis criar todas as ferramentas que achava que eram fundamentais para dinamizar este ecossistema, daí termos aceleração, incubação, mentoria, avaliação de impacto e também a parte do investimento”, explicou ao Observador a diretora da Casa do Impacto.

O projeto conta com quatro programas de aceleração — Wact, Menos, Rise for Impact e Maze-X — e conta atualmente com 12 mulheres e 21 homens fundadores. Pelos corredores, os responsáveis e colaboradores das diferentes startups vão-se encontrando e trocando ideias. Aqui, todos se conhecem e, conta Inês Sequeira, não há competição, mas sim união entre projetos. “Não é a Casa do Impacto em si que interessa, mas as causas em que acreditamos todos aqui dentro. E só se consegue fazer isso em comunidade. As pessoas sentem isso”, refere.

“O que estas empresas acrescentam é muito mais do que dinheiro”

Colado numa das paredes da Casa do Impacto está um cartaz com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Erradicar a pobreza, apostar na ação climática e promover uma educação de qualidade são algumas das metas apontadas. É com estes objetivos em mente que estas startups guiam as suas ideias e é também a partir deles que o empreendedorismo social existe. Mas, admite Inês Sequeira, fazer com que este tipo de empreendedorismo seja valorizado não é uma tarefa fácil.

“Existe a ideia dentro do empreendedorismo global e dentro do mercado de investimento de que estas empresas não têm a mesma capacidade de escalar e de ganhar dinheiro como as outras. Uma das grandes dificuldades foi mesmo quebrar preconceitos. A narrativa do impacto social era completamente desconhecida no empreendedorismo e acho que o maior desafio foi esse, foi desconstruir uma narrativa, mostrar que não é pecado fazer dinheiro e ajudar pessoas “, explicou a responsável.

Margarida Carriço

No espaço de um ano, a Casa do Impacto realizou 67 eventos e conferências, todas centradas num tema de impacto e também com o objetivo de desmistificar ideias erradas. “Há a ideia de que, aqui, as pessoas não querem fazer dinheiro. Querem sim. Querem avaliar impacto, mas querem ganhar dinheiro para poderem aumentar esse impacto”, atira Inês. No entanto, acrescenta, a prioridade não é que a próxima startup aqui incubada se torne no próximo unicórnio (empresa avaliada em mil milhões de euros), até porque “o que estas empresas acrescentam é muito mais do que dinheiro”.

“Acredito que há empresas aqui que têm uma enorme capacidade de escalar globalmente, mas não acho que a maior ambição de uma empresa com impacto social tenha que ser fazer milhões. Tem é que saber que é necessário criar lucro para poder cada vez mais investir no seu próprio negócio e tornar-se cada vez maior e criar mais impacto. Acima de tudo, são empresas que mais do que dinheiro, têm a preocupação de impactar a vida das pessoas”, explicou ainda Inês Sequeira.

Programação nas escolas, investimento de impacto e ensino de hábitos de sustentabilidade: três das 34 startups que moram nesta casa

Caminhando pelos corredores da Casa do Impacto, há um escritório que tem os mesmos residentes desde o início. A <Academia de Código> é uma das startups fundadoras deste projeto e uma das empresas que Inês Sequeira diz ser uma “âncora” do empreendedorismo social e da Casa do Impacto. Fundada em 2015, esta empresa desenvolveu a ubbu, um software desenhado para ensinar Ciências da Computação a crianças dos 6 aos 12 anos e que no ano passado chegou a 40 mil alunos de escolas portuguesas, querendo este ano ultrapassar os 100 mil estudantes. O objetivo é dar a estas crianças o acesso a uma nova competência não só na tecnologia, mas também na resolução de problemas.

“Quando ouvimos a Inês, pela primeira vez, a falar da visão dela sobre a Casa do Impacto, dizendo que queria juntar todo o ecossistema num local, onde poderíamos ter eventos, divulgar projetos e ter uma série de sinergias, quisemos logo vir. Acreditamos que este projeto fazia todo o sentido e que iria dar um impulso grande ao impacto social em Portugal”, conta ao Observador João Magalhães, fundador e diretor da <Academia de Código>, que, ainda antes da ubbu, desenvolveu também um bootcamp para dar uma nova oportunidade profissional a pessoas desempregadas através de um curso de programação de 14 semanas. Já participaram neste curso 600 pessoas e tem uma taxa de empregabilidade de 96%.

Contando com uma parceria com o Ministério da Educação e com a Direção Geral da Educação, a ubbu dá formação, em primeiro lugar, aos professores sem experiência na área para saberem ensinar Ciências da Computação aos alunos. “A ideia é tornar muito fácil um professor ensinar uma nova competência. Depois, disponibilizamos um currículo e conteúdos para as crianças”, explica João. Os conteúdos são sempre sobre um dos objetivos de sustentabilidade.

Atualmente, a ubbu conta com uma equipa de 60 pessoas e quer expandir para outros países, prevendo que este ano, através de parcerias com revendedores, chegue a mais de um milhão de crianças em países como os Estados Unidos, África do Sul, Espanha, Holanda, Noruega, Cabo Verde e Brasil. Para o empreendedor, Portugal pode ser “um caso internacional, uma referência” no empreendedorismo social e de impacto. Mas, para isso, “é preciso fazer as coisas bem”. “O ecossistema não se faz só de investidores sem ter empreendedores e projetos de impacto social que façam sentido e que tenham atração. E começamos agora a ter instrumentos de financiamento que não existiam e a ter também a sensibilização das pessoas para o que é o impacto social”, acrescenta.

A mesma ideia de crescimento do empreendedorismo social é partilhada por Nuno Brito Jorge, responsável pela GoParity, uma startup fundada em 2017 e também incubada na Casa do Impacto. Esta empresa desenvolveu uma plataforma de financiamento colaborativo que funciona como os empréstimos (crowdlending) que permite a qualquer pessoa investir o seu dinheiro em projetos de sustentabilidade, ou seja, financiar e fazer acontecer ideias de impacto social e ambiental, com investimentos a partir dos 20 euros e retorno entre 4 e 6% ao ano. “O conceito de impacto é uma coisa nova, ainda não é mainstream, mas, claramente, é uma área que está em crescimento. E acho que há cada vez mais pessoas que percebem que já não faz sentido criar uma empresa apenas para enriquecer”, referiu.

A GoParity desenvolveu uma plataforma que permite investimentos em projetos de sustentabilidade

Atualmente, a GoParity conta com mais de três mil investidores registados, tendo chegado à Casa do Impacto no primeiro trimestre deste ano, depois de fazer o programa de aceleração da Maze. “Estamos muito orgulhosos de estar aqui”, confessou Nuno. O passo que dado com a criação da Casa do Impacto, acrescenta o empreendedor, foi “uma aposta arrojada”. “Foi a primeira vez que alguém tomou o risco de ‘Bora montar um sítio só para quem está a fazer isto’, sem ter muito bem a certeza se havia ou não mercado. E estamos a remar todos para o mesmo lado. Deste lado, está toda a gente a tentar mudar o mundo“, explicou.

Mas na Casa do Impacto não vivem apenas projetos de portugueses. Mar Michelle Hausler, a responsável pelo Give & Take Lab, que, em conjunto com a Spotgames (também incubada pela Casa do Impacto), está a desenvolver o Agentes2030, divide a nacionalidade entre Singapura e a Alemanha, viveu e estudou em Londres e criou um projeto no Brasil, estando agora a viver em Portugal.

“O ecossistema não se faz só de investidores sem ter empreendedores e projetos de impacto social que façam sentido e que tenham atração. E começamos agora a ter instrumentos de financiamento que não existiam e a ter também a sensibilização das pessoas para o que é o impacto social”, refere João Magalhães, fundador da ubbu

“Vim para Lisboa há cerca de um ano e comecei a trabalhar com novas formas de entender a sustentabilidade, o dinheiro, o bem estar e a economia. E encontrei o Give & Take Lab, que é um laboratório que ensina a lidar com o dinheiro de uma nova forma, ao dar e receber do mundo, e também a lidar com assuntos de sustentabilidade. Foi aí que o Agentes2030 nasceu”, explica ao Observador.

O Agentes2030 é um jogo que, através de um sistema de criptomoeda social, ensina os colaboradores a contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no seu dia a dia e leva-os a agirem. “Os problemas mundiais são tão grandes: temos o plástico nos oceanos, temos problemas na terra, pobreza, etc. e sentimos que não podemos fazer nada. Então, a ideia é levarmos isto a um nível em que as pessoas trabalhem com isto no dia a dia, que mudem os hábitos, percebam que cada ação pequena cria uma ação maior”, explica a empreendedora.

O Agentes2030 é um jogo que, através de um sistema de cripto moeda social, ensina os colaboradores a contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no seu dia a dia

Mar também acredita que o mundo do empreendedorismo está a mudar em direção a um propósito: “Quando olhamos para as gerações mais novas, elas não querem trabalhar com grandes organizações se não estiverem alinhadas com determinados valores, se não tiverem princípios em que acreditam”. Presente na Casa do Impacto desde o início deste ano, a empreendedora diz não sentir que o que faz é trabalho. “Antes [em Londres] era a partir das 5h da manhã em salas escuras até à noite e aqui toda a gente é simpática e temos muita colaboração”, explica.

O futuro: mais espaço, um fundo e uma propósito em todas as empresas

Com o crescimento que a Casa do Impacto teve num ano e com o desenvolvimento do empreendedorismo social, Inês Sequeira está confiante de que, no futuro, todas as startups passarão a ter uma preocupação social e de impacto. “Acho que o empreendedorismo social é uma clara tendência e que qualquer empresa, qualquer grande startup de futuro vai ter de criar impacto social de alguma maneira. Pode não ser o seu core business [negócio principal], mas vai ter de ter um propósito mais definido”, explica.

Inês Sequeira é a diretora da Casa do Impacto, um projeto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (Diana Quintela/Global Imagens)

Diana Quintela

A economia de impacto, refere a responsável pela Casa do Impacto, tem “uma mentalidade diferente porque o foco não é a competição, é mais a união”, mas o empreendedorismo social não pode ser visto como inferior a todos os restantes tipos de empreendedorismo, reforça.

No futuro, a diretora desta Casa já tem em mente o fundo de investimento que será lançado no final deste ano, mas também uma possível expansão do espaço situado no coração de Lisboa para receber mais startups. Inês Sequeira gostava também que o projeto apostasse em mais projetos dedicadas à saúde mental, bem como ao problema do envelhecimento da população e à área do ambiente.

Até lá, há uma certeza que diz ter: “As pessoas querem Gretas [Thunberg], eu tenho pequenas Gretas aqui em todo o lado, não são é conhecidas. Mas têm o mesmo potencial, não tenho dúvidas. Os líderes que precisamos são estes e acho que isso só se encontra no impacto social. Podes encontrar os grandes crânios da gestão, mas aqueles que têm o necessário para realmente salvar um pouco a humanidade são estes empreendedores”.

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