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Teresa Couto Pinto ao lado do amigo António, em Lisboa

@ Teresa Couto Pinto

Teresa Couto Pinto ao lado do amigo António, em Lisboa

@ Teresa Couto Pinto

Teresa Couto Pinto, a mulher que conheceu e guardou todas as Variações de António /premium

Teresa Couto Pinto foi agente, fotógrafa e amiga de Variações. Em entrevista, fala do fã de Amália, Ramones e Né Ladeiras, do feitio e dos sonhos do artista: "Ele tinha arrojo, não tinha temor".

Não gostava de música brasileira — só Ney Matogrosso escapava. Gostava dos Ramones, dos Police, dos Talking Heads, mas também de música portuguesa: Amália, claro, mas também Né Ladeiras. No mundo musical de António Joaquim Rodrigues Ribeiro, que os portugueses passaram a conhecer dos anos 80 em diante como António Variações, cabia Portugal e o mundo, a cidade e a província, o pop-rock, o fado e a música ligeira. E poucos conheceram o seu mundo como Teresa Couto Pinto.

Teresa foi agente, fotógrafa pessoal e amiga próxima de António Variações. Ao longo de todos estes anos foi possível conhecer algumas das fotografias que lhe tirou, que procuravam captar e potenciar um universo estético que era só de António, que só funcionava com ele. Mas muitas fotografias e sessões ficaram inéditas, por revelar publicamente, assim como histórias de quem partilhou com ele uma galáxia à parte da Lisboa e do Portugal dos anos 1980.

Agora, as fotografias e algumas histórias deixaram de estar inéditas. Teresa Couto Pinto publicou em outubro o livro António Variações — Fotografias, uma obra que revela “fotografias inéditas e intimistas do cantor” mas no qual a autora conta também como se conheceram e como vivia António na Lisboa que viu emergir uma estrela pop em potência.

[A capa do livro:]

Esta é a capa do livro publicado em outubro por Teresa Couto Pinto (ed. Oficina do Livro)

A carreira demasiado curta, de apenas dois anos e meio — culpa em boa parte da morte prematura aos 39 anos —, não permitiu que o reconhecimento e a longevidade artística em vida fossem equivalentes ao talento, mas Teresa nota que “hoje quem o ouve sente aquelas letras e aquelas músicas como se fossem de agora, estão super atuais” e que “o António ainda hoje nos toca, mesmo já não estando cá, e isso é o futuro da carreira dele”.

Em entrevista ao Observador, Teresa Couto Pinto fala do amigo próximo e do artista de quem foi agente e fotógrafa pessoal. Lembra, por exemplo, como António “Variações” Ribeiro a desafiou a trabalhar consigo a tempo inteiro, recorda o frequentador do Bairro Alto que “não bebia, não fumava, não se drogava” e lembra os seus gostos musicais.

Teresa Couto Pinto diz ainda que não viu nem quer ver o filme feito sobre ele — amigos que o conheceram dizem-lhe que não vá ver porque se vai “enervar” com a “caricatura” — e recorda a pessoa “muito educada, muito doce e muito afável” que quando era insultada na rua “ia apertar a mão e falar com as pessoas que se metiam com ele, a dizer: ‘Não me diga que não gosta do modelito!” Desarmava e encantava a maioria dos que com ele se cruzavam, acrescenta a autora: “Os pescadores adoravam-no e as mulheres da praça que vendiam camarão na Feira da Ladra andavam com ele ao colo”.

No livro conta o episódio em que o António lhe corta o cabelo pela primeira vez. É um dos relatos mais curiosos. Acha que a ousadia que mostrou naquele momento, de ir até ao fim e de se colocar nas mãos dele, foi decisiva para a relação de amizade e proximidade que depois tiveram?
Não foi decisiva, mas foi importante. Eu nem sequer nunca me passaria pela cabeça fazer isso se não fosse aquele arrojo do António me ter perguntado: “Confias em mim?”. Eu respondi-lhe: “Claro!”. E ele rapou-me só metade da cabeça. Não foi isso que influenciou a nossa ligação, como é evidente, mas ajudou muito — a mim sobretudo — ter tido a coragem. Naquela altura os cabelos compridos era uma espécie de muleta a que nos agarrávamos e eu com a cabeça rapada senti-me nua. Mas adorei ver-me. Valorizou outras coisas que tinha, os olhos por exemplo. Ele sabia o que estava a fazer e saiu-lhe muito bem. Tinha-lhe dito que queria mudar de visual e ele achou que tinha de ser radical. Tinha mudado a minha vida e mudei ali de visual.

Perguntava porque a ousadia e o arrojo são traços que o António também tinha, pelos relatos que são feitos.
Claro. Ele passava muito isso às pessoas. Pelo menos a mim passou-me muitas vezes, essa não só ousadia como coragem de enfrentar as críticas, o que as pessoas pudessem pensar — porque isso não é importante, o que os outros pensam, o que interessa é o que nós queremos fazer e aquilo em que acreditamos.

Nesse momento ainda não tinham grande proximidade, mas isso poderá tê-lo feito ver na Teresa quase uma igual?
Eu temia um pouco o corte. Quando vi a máquina [de rapar o cabelo] na mão, o meu coração bateu [risos]. Mas pronto, deixei-o fazer. Ia confiar e ele deu-me aquilo que pretendia, realmente. Parecia que sabia o que estava na minha cabeça e isso foi muito bom.

"O António era uma pessoa muito educada. Mesmo quando o insultavam, ia apertar a mão", lembra Teresa Couto Pinto

Há outro detalhe do livro que achei curioso. Quando escreve que ele a convidou a dada altura para trabalhar com ele a tempo inteiro, diz que o António achava que era importante para levar o projeto musical a “outros palcos” e “outras audiências”. O que é que isto queria dizer? Ele referia-se aí a um público pop, a nichos específico, a locais de concerto específicos? O que é que significava este “outros palcos” e “outras audiências”?
Naquele tempo os espectáculos eram limitados, eram sobretudo feitos e organizados por emigrantes que iam à terra e financiavam as festas a que os cantores iam. A maior parte dos espectáculos até eram cantados em playback. Quando se começou a pensar em concertos em sítios como o Rock Rendez-Vous e etc, havia necessidade de bater à porta de espaços que estivessem mais virados para uma camada mais jovem de ouvintes. Portanto, quando me refiro a “outros palcos” é exatamente a isso, a ter alguns contactos e tentar desbravar esses palcos novos.

Antes de me ter a mim o António tinha o Manuel Melo [como agente], que foi importante no início dos espectáculos dele. Era distribuidor de bebidas, conhecia todas as organizações de festas e vendia [além das bebidas] os espectáculos do António. Eu não tinha esse percurso. Mas quando a coisa se tornou mais citadina, era natural que existissem palcos em Lisboa onde ele gostasse de atuar. Era o caso do Rock Rendez-Vous, que lançava imensa gente naquela altura. E a ida à televisão [à RTP] foi fundamental para abrir esses horizontes.

Que expectativas é que o António tinha artisticamente, não em termos do que poderia fazer mas quanto a como as pessoas do Portugal daquele tempo o iriam ouvir, interpretar, receber? O que é que ele pensava que poderia acontecer com a carreira dele nesse momento em que começa a trabalhar como agente dele?
Ele queria conquistar as pessoas, como é evidente — como qualquer cantor, qualquer ator, qualquer criativo quer conquistar um público. Não era fácil num país como o nosso daquela altura, muito pouco habituado a sons diferentes. Mas creio que não teve muito tempo para ter essa perceção. Se pensarmos, o António teve uma carreira meteórica mas durou dois anos e meio. Foi muito curta e o tempo estava constantemente ocupado com os concertos, com as marcações, com o trabalho na barbearia, com as gravações. Havia ali uma mescla de potencialidades que estavam distribuídas por muito pouco tempo.

"A doença foi um corte na vida do António. Tinha 39 anos, se não tivesse morrido naquela altura teria com certeza uma carreira fulgurante. Já era muito à frente do seu tempo e hoje quem o ouve sente aquelas letras e aquelas músicas como se fossem de agora, estão super atuais. Ainda hoje nos toca, mesmo já não estando cá, e isso é o futuro da carreira dele."

Era difícil prever naquela altura qual seria o andamento da carreira dele. A doença foi um corte na vida do António. Tinha 39 anos, se não tivesse morrido naquela altura teria com certeza uma carreira fulgurante. Tinha muito mais para dar e teria tido certamente o seu espaço, que agora valorizamos até muito mais do que na altura. A projeção aconteceu através dos tempos. Ele já era muito à frente do seu tempo e hoje quem o ouve sente aquelas letras e aquelas músicas como se fossem de agora, estão super atuais. Ainda hoje nos toca, mesmo já não estando cá, e isso é o futuro da carreira dele. Temos de imortalizar o carisma que  tinha e a pessoa que era.

Refere como o António estava à frente daquele tempo. Falámos de como o púbico o podia receber, mas a Teresa foi agente dele e pergunto-lhe: os outros artistas, os outros músicos — que eram os pares do António — acolheram-no bem?
Muito bem, muito bem. Se há uma coisa que os artistas são é generosos em palco. Cada um na sua casca, como costumo dizer — no seu estilo —, não alimentavam conflitos. Ele também não entrava em conflito com ninguém porque o António era único, não havia ninguém a cantar como ele. Sei lá, a Amália era a Amália, o Rui Veloso era o Rui Veloso, o António era o António… cada um tinha as suas características, ninguém se sentia ameaçado com carreira nenhuma. Não havia nenhum tipo de desconforto das pessoas que partilhavam palco com ele. Pelo contrário, até lhe achavam graça por ser tão diferente. Mas foi sempre muito bem tratado pelos seus colegas de palco, pelos técnicos, tudo. Era uma pessoa muito delicada e tinha uma postura muito doce e educada.

De “dar e receber [expressão que usou como título de um disco]”?
Exatamente, de dar e receber. Era a posição dele na vida. Não teve nunca conflitos com ninguém nem a nível musical nem a nível pessoal.

Duas fotografias reveladas por Teresa Couto Pinto no seu novo livro

Evidentemente a componente de fotografia tem um peso muito grande no livro, até pelo espólio de fotografias — muitas inéditas — que aqui apresenta. Mas ter sido agente do António Variações, como foi?
Foi um pouco por acaso. Éramos já amigos, estava sempre em casa dele ou na barbearia. Ele resolveu perguntar-me se queria. O Manuel Melo já não podia ser, até porque o António precisava de uma pessoa a tempo inteiro para receber chamadas e organizar as coisas — já não podia estar a contar só com o Manuel que muitas vezes viajava, ia entregar bebidas. Propôs-me a hipótese, disse-me: ‘és tão organizada, não queres trabalhar comigo?’

Eu na altura trabalhava na companhia de seguros Império, mas não estava nada satisfeita e ele sabia. Então, propôs-me ir trabalhar com ele. Disse-lhe: nem me digas duas vezes! [risos] Saí da Império e fui trabalhar com ele.

Fala-se muito do que os artistas exigem ou não exigem. Como era trabalhar com ele?
Não havia cá coisas dessas naquele tempo [risos]. Para já era tudo muito rudimentar — e cada vez que tinha de se fazer um teledisco, por exemplo, tinha de se movimentar uma equipa inteira de filmagens, não havia digitais, não havia telemóveis. Tudo isto que hoje em dia se passa, naquela altura não existia.

Ninguém sabia como encontrar o outro, mas já sabíamos todos quem frequentava aquele sítio ou o outro às tantas horas. Quando queríamos sair para a noite, sabíamos que se passássemos na Brasileira às 19h encontrávamos este, aquele e acoloutro e se fôssemos jantar ao Bota Alta ou a outro sítio qualquer do Bairro Alto estariam lá outras pessoas. Os circuitos eram feitos conforme os hábitos que conhecíamos uns dos outros. Ninguém telefonava para o telefone fixo a perguntar ao outro se queria ir para o Bairro Alto. Não funcionava assim, éramos figuras assíduas no Bairro Alto ou no Príncipe Real. Automaticamente sabíamos quem íamos encontrar se saíssemos para o Trumps, para outros sítios… havia um circuito.

"Não bebia, não fumava, não se drogava. Era a saúde personificada. Ia ao ginásio de manhã e à noite, tinha o culto do corpo, de se sentir bem musculado."

Muitas pessoas até podem ter uma ideia contrária, mas todos os que o conheciam dizem que o António não bebia, não fumava, era uma pessoa muito regrada…
Era. Não bebia, não fumava, não se drogava, nada. Era a saúde personificada. Ia ao ginásio de manhã e à noite, tinha o culto do corpo, de se sentir bem musculado. Era narciso, gostava de se ver, de escolher roupas, tinha orgulho do seu corpo e trabalhava-o.

Pode-se dizer que havia alguma vaidade?
Não era uma vaidade, acho que não tem a ver com a vaidade. Tem a ver com… por exemplo, a fotografia para ele era importante porque era um olhar de uma terceira pessoa. Quando uma pessoa se vê numa fotografia é diferente de quando se olha para o espelho. Todos temos isso: gostamos mais ou menos de nos ver nas fotografias. Ele tinha de ter a certeza que a imagem que via no espelho ou que estava na fotografia seria aquela que as pessoas de fora viam. Esse olhar de fora só a fotografia pode dar.

Para ele a fotografia era um elemento importante porque também era uma maneira de estudar conjuntos de roupa que pudesse usar em espectáculos. Por exemplo, ele mandava fazer os casacos, vinha para casa com as roupas e gostava de experimentar e de fotografar. As fotografias também eram muletas para se um dia precisasse de se vestir para ir aqui ou ali — já saberia o que é que jogava com o quê. Ele era realmente um esteta, usava coisas que à partida parecia que não combinavam umas com as outras mas depois ficavam fantásticas. Era um pouco instintivo. por exemplo, fazia camisas de dois lenços que comprava na Feira da Ladra: cozia os ombros, deixava o buraco para a cabeça, ficavam dois quadrados cozidos — transparentes —, que vestia por exemplo por baixo de um casaco da tropa. Eram estes contrastes que faziam a roupagem do António ser diferente das de outras pessoas. Parecia que nada ligava com nada antes de ele experimentar, mas no fundo tudo acabava por ligar, criava um modelo que era só próprio dele, que era original. Tudo isso o ajudou também a ser diferente.

"Tinha uma paixão pela Amália. A música brasileira não lhe dizia nada. Gostava, sei lá, dos Talking Heads, dos Police, dos Ramones, dos Echo & The Bunnymen. Gostava da Né Ladeiras, também."

Escreve no livro: “Falávamos de tudo: projetos, música, moda, amores, viagens”. No caso da música, quando se trata de artistas que criam universos musicais próprios nem sempre é fácil encontrar referências e não se fala tanto dos seus gostos. Lembra-se de algumas bandas, alguns artistas, algumas canções que entusiasmassem o António?
Amália, sobretudo.

Amália, claro.
Tinha uma paixão pela Amália. Por exemplo, a música brasileira já não lhe dizia nada. Tentei arrastá-lo várias vezes para os concertos do Coliseu [dos Recreios] naquela altura, porque vieram cá todos: Chico Buarque, Maria Bethânia, etc. Ele só achava mais graça ao Ney Matogrosso. Os outros dizia sempre: ‘São os baladeiros…’ Nunca consegui arrastá-lo a um concerto desses. O último que fomos ver foi da Nina Hagen. Mas ele gostava, sei lá, dos Talking Heads, de todos aqueles da altura, dos Police, dos Ramones, dos Echo & The Bunnymen… havia uma data de músicas que ouvia, mas gostava de música portuguesa, por exemplo. Ouvia até com agrado várias coisas que eu não ouvia.

Lembra-se de algum exemplo?
Assim de repente… era música que eu achava um pouco bimba, mas habituei-me a estar com eles em palco: o Vasco Rafael, a Cândida Branca Flor, a Ana, todos partilharam palcos com ele, cantaram nos mesmos dias em que ele foi atuar a vários sítios. Gostava da Né Ladeiras, também. Havia artistas um pouco mais fora de que ele gostava muito. Da Né Ladeiras gostava mesmo bastante, tenho aliás aqui um LP para ela com uma dedicatória dele. Ando há anos para lhe entregar, já estou farta de falar com ela sobre isso e ainda não lhe entreguei [risos].

António Variações em sua casa, fotografado por Teresa Couto Pinto

O gosto dele pela Amália tem um lado curioso, também. Aquela altura [pós-25 de abril e anos 80] não era uma época em que a Amália fosse totalmente consensual no meio mais artístico e intelectual, por questões políticas…
Não me lembro praticamente disso, sinceramente, não ligava muito. Mas o gosto do António pela Amália já vinha de trás. O som da Amália era para o António um som de infância, de adolescência. Creio que deveria ser uma das músicas que na tropa se ouvia bastante. Acho que tem tudo a ver com isso, com o passado dele, e eu nessa altura passada não estava lá. Creio que isso vem de trás. O fado era uma música compreensível. Tinha aquele timbre e aquela sonoridade toda — e acho que o António tinha um encantamento especial pelo fado.

Perguntava isto pela conotação e pelo estigma que o fado ainda tinha, nessa altura, como banda sonora do regime anterior. Estava a tentar perceber se o António era imune a essas questões desse tempo.
É engraçado porque nunca falámos de política. Aliás não se falava muito de política naquela altura. O 25 de abril veio abrir uma porta e as sucessivas mudanças de Governo… acho que nenhum de nós estava muito virado para a situação política, estávamos noutras descobertas. O António para já viajava imenso naquela altura. Foi muitas vezes à Holanda — o namorado dele da altura era holandês —, foi a Nova Iorque, foi a Londres onde o irmão trabalhava como cabeleireiro… Viajou muito. Viajou pelas ilhas também, pela Tailândia…

Acho que essas viagens abriram-lhe outros horizontes que não os de aqui e quanto à parte política acho que qualquer um de nós já a tinha colocado um pouco por trás das costas. Eu por acaso sempre fui de esquerda, por influências familiares, mas na altura pouco ou nada ligávamos. Estávamos noutras descobertas. Convivíamos com uma data de criativos: arquitetos, pintores, escultores, pessoas que estavam a sair daquele cizentismo e que estavam a mostrar obra. O António não era o único que frequentava Lisboa! Tudo isso enchia-nos o dia-a-dia, a mente.

"Nós passávamos no Chiado e havia figuras que faziam virar cabeças. O António era uma delas, não era o único mas era uma delas. Havia um arrojo, uma ausência de temor de mostrar novidades e coisas novas."

Mais do que discutir-se, a liberdade exercitava-se e praticava-se, é isso?
A liberdade era vivida no meio desse mundo que se calhar era só nosso, porque a maior parte dos lisbonenses se calhar não saberia o que se passava no Bairro Alto. Ainda me lembro das pessoas vestirem-se todas de cinzento, verde tropa, castanho e preto. Não havia cores. Quando os anos 1980 surgiram com aquelas cores completamente abertas, só nós tínhamos coragem de as usar.

Era uma galáxia à parte da capital?
Completamente, completamente à parte. Nós passávamos no Chiado e havia figuras que faziam virar cabeças. O António era uma delas, não era o único mas era uma delas. Havia um arrojo, uma ausência de temor de mostrar novidades e coisas novas.

Os bares também começavam a abrir, o Manuel Reis [fundador do Frágil e de outros projetos empresariais] no Bairro Alto abriu para o mundo as portas de um ambiente fechado que ali havia. Na moda hoje já ninguém fala por exemplo das Manobras de Maio, que é muito anterior à Moda Lisboa e que eram os desfiles de rua. Foram importantíssimos no despertar da moda e em trazer para a roupa uma série de valores e de criações. Foi uma época muito bonita, muito engraçada, muito viva.

António Variações fotografado por Teresa Couto Pinto

Escreve no livro que o António tinha um feitio “autoritário” e “nem sempre fácil” — ainda que acrescente logo que ele era “atencioso” e “educado”. Que tipo de coisas é que o levavam a evidenciar esse feitio nem sempre fácil? O que lhe mexia mais com os nervos?
Comigo nunca evidenciou muito porque não tínhamos… ele ouvia até ao fim. Tinha essa coisa com as pessoas: ouvia. Acabava por fazer como queria, claro, porque se tinha uma ideia na cabeça raramente se conseguia dissuadi-lo de que não seria assim. E acabava por ter razão.

Às vezes irritava-se. Assisti de vez em quando o António a ficar irritado com a Matilde, lá do cabeleireiro, por qualquer coisa, coisas de trabalho. Mas passava-lhe logo, passado um bocadinho já estava a brincar com ela. Era um pouco autoritário. Com a irmã também assisti a várias coisas. Acontecia com pessoas com quem tinha confiança. E às vezes com clientes que chegavam lá e diziam ‘quero que me corte assim, assim ou assim’, ele respondia logo ‘eu é que sei como é que vou cortar, eu é que sei o que é que lhe fica bem’ [risos]. Às vezes era assim, sobretudo com aquelas pessoas que entravam lá com o penteado que costumavam fazer há 20 anos e a que se tinham habituado como uma muleta, como uma máscara.

"O António era uma pessoa muito educada, muito doce, muito protetora, muito afável. Mesmo na rua, quando o insultavam, acabava a apertar a mão e a falar com as pessoas que se metiam com ele, a dizer: 'Não me diga que não gosta do modelito!'"

“Do meu ofício sei eu”?
Era, era assim. Mas não era uma pessoa agressiva, nunca foi. Era uma pessoa muito educada — nunca o ouvi dizer nada fora do contexto ou desagradável com alguém —, muito doce, muito protetora. Era uma pessoa muito afável. Mesmo na rua, quando o insultavam, acabava a apertar a mão e a falar com as pessoas que se metiam com ele, a dizer: ‘Não me diga que não gosta do modelito!’

Imagino que não tenham sido poucas as pessoas que se meteram com ele.
Sim, mas olhe que por incrível que pareça nos passeios que dávamos pela província as pessoas gostavam imenso dele. Os pescadores, por exemplo, ou as mulheres da praça que vendiam ali camarão na Feira da Ladra e que andavam com ele ao colo. Adoravam o António porque ele tinha esta afabilidade com as pessoas, tratava-as sempre de maneira igual. Não distinguia ninguém, tratava todas as pessoas como pessoas e com o devido respeito — coisa que nem sempre faziam com ele.

"Não vi o filme nem vou ver, porque toda a gente que o viu e que o conhecia disse-me: não tem nada a ver com o António, não vás ver que te enervas imenso. Conheci o original e pelo pouco que vi em pequenos pedaços de filme, acho que é uma caricatura."

A reconstrução da história do António Variações tem vindo a ganhar capítulos novos. Este livro é mais um contributo, depois da biografia da Manuela Gonzaga, que aliás assina aqui o prefácio. Mas saiu também um filme biográfico que foi visto por muita gente, muito popular…
[Interrompendo] Não vi. Nem vou ver [risos].

Está respondido: ia perguntar-lhe se tinha visto e o que tinha achado.
Não, não. Não vi nem vou ver, porque toda a gente que o viu e que o conhecia disse-me: não tem nada a ver com o António, não vás ver que te enervas imenso. Portanto, não vou. Conheci o original e pelo pouco que vi em pequenos pedaços de filme, acho que é uma caricatura. Aliás, li o guião há dez anos quando o João Maia me mostrou. Disse-lhe logo: não reconheço o António em nenhuma destas páginas. A partir daí ele também nunca mais me consultou, creio que nem sequer seguiu pelo livro da Manuela.

Acho que as pessoas podem caricaturar as pessoas mas de uma forma positiva. Não se deve tirar o carisma das pessoas, aquilo que as distingue das outras. O que distinguia o António dos outros era exatamente não ter um certo tipo de atitudes: não andava à pancada, não era mal educado. Tudo isto que fazia parte da personalidade dele ali no filme nunca aparece. Tinha um ar doce, não tinha aquele ar duro de que todo o mundo lhe deve e ninguém lhe paga. Isso parece que está lá mas não tem nada a ver com o António. Portanto não me apetece ir ver.

António Variações fotografado por Teresa Couto Pinto

A Manuela Gonzaga escreve no prefácio deste livro que a última roupa que o António levou foi escolhida por si, Teresa, e que esteve com ele até ao fim, que acompanhou o processo final.
Sim, estive lá no hospital.

Imagino que tenha sido muito penoso ver uma pessoa tão próxima passar por aquilo. Naquela altura, foi possível quer a si quer a outras pessoas próximas do António — por exemplo, a irmã — quer ao próprio manterem a esperança até perto do fim? 
Não. Quando ele foi ligado à máquina, perdemos a esperança. Já estava muito magro. Eu durante dez anos ou mais deixei de dar entrevistas porque toda a gente me perguntava coisas sobre a morte dele. Queria falar era da vida dele, não da morte. Enquanto as pessoas não desgastaram o tema, não ficaram fartas do assunto, não dei entrevistas. Achei que o tema não interessava assim tanto — quero lá saber como é que ele morreu, o problema é que morreu.

A morte para ele, como digo no fim do livro e como falámos muitas vezes os dois, era sobretudo um corte nos projetos que se tem, um corte no tempo de vida que se tem para realizar esses projetos. A morte dele foi muito prematura, um azar da vida, mas não interessa nada se foi por isto ou por aquilo. Também há pessoas que morrem de cancro e ninguém anda a debater infinitamente a causa. Todos os dias morrem pessoas com uma coisa ou com outra, mas isso não faz das pessoas aquilo que elas são. Enquanto as pessoas não digeriram e não exploraram ao máximo, deixei de dar entrevistas. Não me interessava mais falar sobre esse assunto.

O António teve a preocupação de como seria recordado futuramente, de qual seria a marca que tinha deixado? Das conversas que tiveram, sentiu que era uma coisa que pensava?
Ninguém pensa nisso quando se está vivo, sobretudo quando ainda se está no começo. Ele batalhou bastante para chegar ali, foi um túnel grande que teve de atravessar. As coisas neste país são um pouco lentas às vezes, só o tempo que ele esteve na Valentim de Carvalho à espera de gravar foi um tempo precioso. Mas a verdade é que ninguém sabia muito bem como classificá-lo. Ele era de tal maneira diferente que se tornou um pouco complicado até para a própria editora definir onde o meter. Não era rock, não era música popular, não era pop, não era música pimba… havia uma dificuldade extrema em classificar a música dele.

António Variações fotografado por Teresa Couto Pinto

A minha dúvida era por aí: se o António Variações tendo-se apercebido que houve dificuldade em compreendê-lo, teria algum conforto com a ideia de que quando o país avançasse mais um pouco — fosse pelos costumes ou por ter já uma produção cultural mais variada — poderia ser mais compreendido.
Não, não teve tempo de pensar em nada disso. Estava ainda no percurso de construir e não estava a pensar que fosse morrer. Desde que ficou doente até ao dia da morte, distou um mês e meio. Não houve sequer tempo para digerir uma situação dessas ou para se preocupar com isso. Quando as pessoas estão vivas e são novas não pensam em como vão ser compreendidas depois de morrerem. Ele esperava que isso acontecesse progressivamente, porque demorou tempo a impor-se e estava a conquistar um novo espaço na música portuguesa. Gravou dois discos em dois anos e ainda um maxi-single, muito mais do que outros artistas no começo. De aparecer até aquela altura foi uma ascensão meteórica.

O Júlio Isidro foi realmente uma das peças mais importantes para lançar o António. Se o Júlio Isidro não o tem levado à televisão e se não tem havido uma aproximação do público em geral por via daquele programa… porque o António não gerava indiferença, nunca. No dia seguinte àquele programa toda a gente falava, bem e mal. Nunca causou foi indiferença a ninguém. Aquele momento foi o percursor na sua carreira — que durou muito pouco tempo. Mas quando faleceu, o que rodeou a morte foi muito mais mediático que o disco que tinha acabado de lançar [o segundo e último editado em vida], que saiu quando ele já estava na cama de hospital. Por isso é que deixei de dar entrevistas.

A vontade à época não era compreender o artista?
Exato. A vontade era falar da morte, de como é que tinha sido ou não sido — se tinha sido SIDA ou não. Acho que foi uma coisa demasiado explorada. Senti isso e não me senti à vontade para falar.

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