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Julio Lobo Pimentel

Julio Lobo Pimentel

Teresa Guilherme: "O Cláudio está a apresentar um programa que não é meu, mas que sou eu" /premium

Há 20 anos, Teresa Guilherme tomava posse como autoridade máxima dos reality shows em Portugal. Há dois, renunciou ao posto. Agora, pela primeira vez, assiste ao Big Brother a partir de casa.

Sabia que a entrada dos concorrentes na casa, no primeiro Big Brother, foi gravado um dia antes da estreia? Pois, nós também não. Inconfidência de Teresa Guilherme, que além de monstro da televisão portuguesa e rainha dos reality shows está, por estes dias, a terminar um livro com segredos de bastidores. Diz que o Zé Maria nem sequer era para participar, o mesmo que alentejano de Barrancos que ganhou a primeira edição do programa, há 20 anos, e que já lhe ligou várias vezes durante o confinamento para saber se está tudo bem.

Deste lado, ficámos ligeiramente cansados só de saber da preenchida agenda da apresentadora, mesmo sem sair de casa. Exercício físico, meditação, cursos e palestras à distância, leituras, o dito livro, alguma Netflix e uma horta — Teresa praticamente não para e justifica a hiperatividade como estratégia de adiamento da velhice, porque envelhecer é já não querer ir nem fazer.

Como apresentadora de televisão soma já três décadas de carreira. Começou com Eterno Feminino, programa muito à frente para a época. Depois, saltitou entre canais. Conhece bem o ringue das audiências e vê o recente fracasso da TVI como mais uma volta de uma mesma roda. Quanto ao programa, não há como negar saudades, ainda que a decisão de deixar o leme do Big Brother continue a fazer-lhe sentido hoje.

Conversámos com Teresa Guilherme durante mais de uma hora, já depois da estreia de Cláudio Ramos na condução do novo Big Brother. Recusa-se a avaliar a prestação do colega, pelo menos de forma expressa. Prefere antes recordar que o ajudou a nascer como concorrente e que viu de perto o seu crescimento como apresentador. Esta é uma edição histórica — para Teresa, que pela primeira vez assiste ao Big Brother a partir de casa, e para o país, que a vê a ela.

Ouça aqui o audio da entrevista.

“Sou amiga do Cláudio, ele nasceu na minha mão como concorrente”

Antes de mais, como está a correr esta quarentena?
Já passei por várias fases, mas acho que não está a ser diferente da de toda a gente. No início, foi um choque grande. Estava a fazer os “Monólogos da Vagina”. Já tinham marcado mais 19 datas para Lisboa e estávamos de malinha feita para ir em tournée — eu, a Carla Andrino e a Vera Kolodzig — quando, de repente, tivemos de vir para casa. Foi tudo remarcado, vamos lá ver como. Há coisas que passaram para o ano que vem, muitas ficaram já para junho, que é quando vão abrir os teatros. Mas como é que vamos representar? Com uma pessoa numa cadeira ali, outra acolá? São novas experiências, prefiro encarar assim.

Também tinha uma palestra marcada para 18 de abril, no Porto. Estava tudo certo, bilhetes comprados. Ninguém pediu o dinheiro, preferiram esperar pela próxima data, que ainda não sei quando vai ser. Provavelmente, vai ter de ser para menos pessoas. Estas coisas também nunca dão muito lucro, a não ser que faça para 14 mil pessoas como o Tony Robbins, mas não estou nessa fase.

“O primeiro [Big Brother] de todos também foi gravado. Foi a única vez. Gravámos num sábado a entrada na casa e isso só apareceu no domingo, e não veio mal ao mundo. No livro, conto o porquê de isso acontecer".

Depois, estivemos a falar de ter um programa ligado ao Big Brother, que seria de entrevistas com os pais. Eu sempre adorei entrevistar os pais, confesso. O senhor Fernando, pai da Fanny, foi o meu “primeiro amor”, um amor de pai. A partir daí, falei com muito namorado, muito pai, muito concorrente já cá fora. Tudo o que se vive cá fora é outro programa e nunca havia muito tempo para fazer as duas coisas, por isso, fiquei estes anos todos com água na boca para falar com as famílias, que estão com as emoções ali ao rubro, com muito riso, mas também muita lágrima. Lembro-me, por exemplo, da mãe da Elisabete, que ganhou uma Casa dos Segredos. Perguntava-lhe: “Então, como é que é ver a sua filha debaixo do edredão?”. Ela encontrou uma solução para ser simpática comigo, então cantava-me um fado.

Mas adiou-se. Aliás, o próprio Big Brother está noutros moldes. Talvez ainda se componha. Mas a minha primeira reação na quarentena foi de tristeza. Foi a perda da liberdade, por não poder sair, dos abraços, o que mais falta me faz — até já tenho saudades de uma palmadinha nas costas, quanto mais de um abraço –, e destes trabalhos que eram todos muito agradáveis.

Teresa Guilherme com Carla Andrino e Vera Kolodzig, na peça "Monólogos da Vagina"

Imagem cedida por Teresa Guilherme

O único trabalho agradável que pude continuar é um livro sobre segredos de bastidores, coisas que aconteceram em muitos programas e peças de teatro. O que se vê é uma coisa, mas o que lá vai dentro é outra. Agora perguntam muito: “Ah mas porque é que o Big Brother foi gravado?’. As pessoas é que estão a olhar para o que não devem porque o primeiro de todos também foi gravado. Foi a única vez. Gravámos num sábado a entrada na casa e isso só apareceu no domingo, e não veio mal ao mundo. No livro, conto o porquê de isso acontecer. O Zé Maria, por exemplo, não era para entrar. Também conto porque é que entrou e como é que aconteceu.

Mas tem andado ocupada?
A primeira coisa que fiz foi marcar aulas com a minha PT. Vinha cá a casa duas vezes por semana, agora passei a tê-la cá por WhatsApp todos os dias, acho que falhei ontem. Deixei de jantar, porque cheguei à conclusão de que ia engordar. Percebi que tinha mais tempo, então comecei a meditar mais e acabei por me juntar a dois grupos de meditação via Zoom.

Comecei a seguir vários lives e pensei que podia também ajudar as pessoas ao conversar com elas. Então, todos os dias tenho um coach, um médico, um nutricionista ou alguém conhecido. Ontem falei com a Sofia Ribeiro, este fim de semana vou falar com o [João] Baião, no Dia da Mãe vou falar com a Ritinha Pereira. Depois toda a gente te começa a convidar para entrar nos lives. Já entrei em 3.840 para falar de todos os assuntos e mais alguns.

Fiz um curso de inteligência emocional com o José Roberto Marques do Brasil. E outros. O meu agente desafiou-me a dar um curso de comunicação online, portanto a ensinar os outros a comunicarem online, online. Como esgotou em dois dias, vou ter de fazer outro dia 12. Acho que as pessoas podem melhorar a maneira de pôr as coisas cá para fora e de apresentar as ideias que têm, seja numa reunião de trabalho, a vender uma casa, o que for.

Muito pouca Netflix, que estava à espera de ver muito mais. Acho que o que vi com mais amor e carinho foi a “Casa de Papel”, que já vinha de trás, e um ou outro filme. É claro que fui ver o “Milagre na Cela 7” — não me largavam e fui ver. Não chorei muito, chorei um bocadinho.

E tem uma horta, agora.
Como tenho espaço exterior e as pessoas começaram a dizer-me para plantar umas coisinhas, pedi ao jardineiro aqui ao pé para me trazer umas sementes, coisas que fossem fáceis. Fiquei surpreendida com a maneira como algumas coisas nascem. Sendo nascida e criada em Lisboa, sou uma horrorosa urbana que não sabe nada disto. Há alfaces, que são fáceis, e os tomateiros também são fáceis. Não sabia que os morangos nasciam assim rentinhos à terra, fiquei surpreendida. A única coisa que ninguém me convenceu a fazer foi cozinhar. Sou péssima cozinheira, nem os amigos me convencem. Todos os dias pergunto o que é que posso fazer mais, mas já tenho muito pouco tempo.

“Saí dos reality shows porque quis. Achei que era melhor para mim parar e dedicar-me a outras coisas. Foi a decisão da altura e é a decisão que se mantém até agora […] é claro que tenho saudades de estar envolvida numa montanha russa como aquela".

E agora com o início do desconfinamento, vai continuar em casa?
Vou fazer exatamente a mesma coisa. Convidaram-me para ir entregar alguns cabazes a famílias em Colares, já disse que sim. Mas se não for precisa na rua, não vou lá fazer nada.

Falou com bastante carinho de pessoas que conheceu em reality shows. Sente falta do formato, agora que não está ao leme desta nova edição do Big Brother?
Saí dos reality shows porque quis. Achei que era melhor para mim parar e dedicar-me a outras coisas. Foi a decisão da altura e é a decisão que se mantém até agora. Sempre tive carinho pelos meus concorrentes e pelas famílias. E muito respeito, até porque a imprensa sempre os tão tratou mal, que os encarei um bocadinho como da minha responsabilidade, embora não fossem. Com alguns mantive relação. O Zé Maria, lá do seu Alentejo, já me telefonou uma quantidade de vezes a perguntar se estou boazinha. O Telmo também me ligou. O Marco ou a Fanny, por exemplo, são amigos mais chegados.

Teresa Guilherme com Zé Maria, vencedor da primeira edição do Big Brother, em 2000

Imagem cedida por Teresa Guilherme

Claro que gosto deles e que tenho saudades da alegria e da agitação que é conduzir um programa destes. A minha intenção sempre foi tornar aquele programa, que tem muitos pontos difíceis — as pessoas zangam-se, batem-se, discutem –, o mais familiar possível. É um programa que tem de ter uma comunicação transversal. Acredito que deve ter emoções mas também tem de ser divertido. E é claro que tenho saudades de estar envolvida numa montanha russa como aquela. Quando me convidaram para visitar a casa, fui toda contente. Visitei as outras todas, achei muito bem ir a esta. Gostei de estar lá com as pessoas e de ver a equipa toda de escafandro, como lhes disse. Mas não fiquei triste, não é a minha vida agora. Quando o Nuno [Santos] me convidou para fazer este programa, pensei que seria uma coisa engraçada mas sem a responsabilidade e a trabalheira das galas de domingo e das expulsões. Se vai acontecer, não sabemos.

Diria que é preciso um apresentador com características especiais para conduzir este programa?
Para se ser apresentador é preciso ter características especiais. O que posso dizer é que este tipo de programa é muito, muito difícil de apresentar. O apresentador é o eixo entre o público e os concorrentes, que ainda por cima não o veem. Sem imagem, o que ali fica é o tom. Tem de haver uma comunicação falada muito boa, como na rádio. E há que saber dominar a ansiedade dos concorrentes. No início são umas peras doces, mas depois ficam fechados e agora sabemos por nós que isto de ficar fechado deixa-nos na pontinha dos nervos. Estamos no limite e qualquer coisa toma proporções muito grandes. Com eles também. Acho que o Big Brother, neste momento, ainda nem sequer começou, porque o que toda a gente quer ver é o encontro das pessoas e a maneira como se vão relacionar. Por vontade da TVI, eles já estariam seguramente todos dentro da casa e há muito tempo.

É preciso uma boa dose de psicologia para lidar com essas emoções?
É preciso jogo de cintura, claramente. É preciso saber lê-los, saber ouvi-los, gostar deles. E preciso estar com atenção para fazer brilhar o melhor que há neles. Rir com eles e não rir deles. E é preciso rapidez de raciocínio e falar bem português.

“Sou amiga do Cláudio, ele nasceu na minha mão como concorrente […] Houve muita coisa ali que o pode ter perturbado, como o facto de não ter público. Para mim seria exatamente igual ao litro […] Não terá sido muito próximo daquilo que ele sonhou".

Esta quinta edição é histórica por ser a primeira que não é conduzida pela Teresa. Certamente que assistiu à estreia.
Assisti com muita atenção ao início, mas depois não vi até ao fim.

E como é que avalia o desempenho do Cláudio Ramos?
Não me cabe a mim avaliar o trabalho de colegas. Por mais que o diga, sou sempre mal interpretada. Sou amiga do Cláudio, ele nasceu na minha mão como concorrente e, como apresentador, ainda trabalhámos juntos. Mantivemos sempre um relacionamento não muito próximo, mas um bom relacionamento. Portanto, sou suspeita a falar dele. Houve muita coisa ali que o pode ter perturbado, como o facto de não ter público. Para mim seria exatamente igual ao litro, porque é tudo preparado na nossa cabeça. Mas pode ajudar ter lá o público a bater palmas, o calor humano, a reação. Não terá sido muito próximo daquilo que ele sonhou. Ele fez o que pôde com aquilo que teve, portanto está perfeito.

E o Cláudio foi escolhido pelo diretor de programas e aceitou, é o que é. Se disser bem, as pessoas vão dizer que é porque não sei quê. Se me passasse pela cabeça dizer mal, que nem há motivo para isso, diziam que estava com dor de cotovelo. É uma posição ingrata. Ele é uma pessoa que conheço bem e que está a apresentar um programa não que é meu, mas que sou eu. Aquele programa nasceu na minha mão e está lá muito de mim.

Ninguém falava com os concorrentes dentro da casa, a não ser o próprio Big Brother. As galas eram feitas a falar com ex-concorrentes, com os pais e com psicólogos. Para resolver uma série de coisas, acabei por fazê-lo logo na primeira terça-feira e as pessoas divertiram-se tanto nessas nomeações que voltei a falar. Depois, os formatos no mundo inteiro acabar por passar a incluir ligações para dentro da casa. E como o Zé Maria era sempre o último — porque falávamos com eles pela ordem em que tinham entrado –, esperava sempre toda a gente para ver o confessionário dele. Era o pão-de-ló da festa, logo desde o momento em que disse que queria nomear o César e não havia nenhum César dentro da casa. O carisma tem muita força.

Imagem cedida por Teresa Guilherme

O Cláudio procurou-a para pedir conselhos?
Isso não. Mandei-lhe os parabéns quando ele foi para a TVI. Depois, no próprio dia, mandei-lhe uma mensagem, à qual ele também respondeu. Temos trocado mensagens, não sobre o programa em si, mais sobre o momento que estamos a viver.

Disse que a imprensa maltratava os concorrentes. Porque é que acha que isso acontece? Diria que há sempre um preconceito em relação a quem participa nestes programas?
Sem dúvida nenhuma. Isto passou por muitas fases, mas desde o início que é um programa polémico. É legítimo ou não espreitar as pessoas dentro de casa? O programa tem 20 anos, o YouTube só surgiu há 15. Neste momento, passamos a vida a olhar para dentro da casa um dos outros. Está toda a gente a ver toda a gente em todas as circunstâncias. As redes sociais trouxeram isso. Passámos a espreitar a vida dos outros e a mostrar a nossa na medida do que quisermos e essa é a grande diferença para os reality shows — podes ver o que quiseres, a qualquer hora. Toda a gente se passou a mostrar, não só quem ia para dentro da casa.

“Não é o Big Brother que está desgastado, é a televisão”.

Mas sim, sempre houve polémica à volta dos concorrentes. Não se notou tanto no início, porque o programa foi um êxito, muito inovador. Notou-se muito mais na Casa dos Segredos, que também funcionou com amores e ódios. A segunda edição era muito rica em pessoas variadas, mas muito novas. Aí começou a haver aquele preconceito com os armários, com o facto de as pessoas serem todas do Porto. As redes sociais encheram-se de ódios e de emoções exacerbadas, desproporcionais até. E na quinta edição, que foi para aí há cinco anos, foi o descalabro. Tiraram o programa das nove. Passámos a ter o compacto às sete horas, onde não podias mostrar nada que fosse conflito, e um à meia-noite, onde podia haver alguma relação com os concorrentes. Víamos sexo ou conflito, não havia tempo de mostrar outra coisa. Eles quando saíam até ficavam surpreendidos — “Mas não foi só isto que fiz na casa”. Quem fez isso assassinou uma parte dos programas e assassinou também a parte boa dos concorrentes, porque começou a mostrar um perfil deles altamente atacável.

Isso inviabilizou a continuidade do formato?
Não sei. Quando saí já foi por causa disso e ainda houve outra edição. Os compactos das nove fazem falta para mostrar a casa no seu normal, não sei se este Big Brother tem ou não. A primeira apresentação não foi muito clara, porque provavelmente também não há instruções muito claras, estamos todos a navegar à vista.

O Big Brother já tem 20 anos. O que veio entretanto — redes sociais, exposição total — enfraqueceu de alguma forma o formato de reality show?
Foi mais a naturalidade com que as pessoas o veem. Espreitar pelo buraco da fechadura passou a ser a nossa prática. Mas não é só este formato que está enfraquecido, a televisão está enfraquecida. Os jornais e as revistas desapareceram, a força pelo menos. Não é o Big Brother que está desgastado, é a televisão. A televisão prepara-se para ser uma aplicação, não digo que seja hoje ou amanhã, mas é o que vai acontecer. Vai tudo ser uma gigante Netflix. O primeiro Big Brother tinha três milhões de espectadores, agora há um milhão e tal. Nem vi a estreia em direto, puxei para trás. Fui vendo as apresentações dos concorrentes, mas nem vi tudo. E é assim que as pessoas veem televisão. Na televisão, no computador, no dia a seguir, com outra atenção. Aquele culto de sentar e ver é mais difícil agora.

Vê-se a ter um papel nesse futuro da televisão?
Não sei quando é que será esse futuro. Vejo-me a ter um papel no online agora, onde me estou a estabelecer, com o meu trabalho, como palestrante e a chegar-me às pessoas com uma comunicação diferente. Não sou barra em todas estas 3.800 ferramentas que existem, mas adapto-me com facilidade. Quando dei a primeira aula no Zoom, há dois anos, achei que ia ser horrível. Mas adorei, achei que era uma forma muito próxima. Comunicar é comunicar. A televisão também é um meio longínquo, portanto não me aflige não ter as pessoas ali ao pé. Embora adore o teatro. Dá para tudo.

Ter uma carreira na televisão foi sempre um projeto um vida?
Não, de todo. Era produtora, sempre fui. Comecei na rádio com 22 ou 23 anos, já não sei. Depois, comecei a produzir eventos, era relações públicas em alguns sítios. Fui inventado isso tudo, porque não havia eventos, não havia relações públicas, não havia a palavra produtora, não havia nada disso. Produzi espetáculos, produzi tudo menos cinema.

Entretanto, comecei a produzir e a escrever programas para televisão. Essa continua a ser a grande diferença entre mim e outros apresentadores — a minha experiência é global, vai da produção à escrita, a criar formatos, a escrever guiões, sei fazer tudo. E a produção de um programa — pegar numa ponta, numa ideia, e produzi-la. E também sou apresentadora. Propus um programa à RTP, um programa semanal que nem era para ser apresentado por mim. Acabaram por dizer que o programa era giro se fosse diário, em direito e comigo a apresentar. E fui. Claro que entre dizer que sim e ir foram três meses a aprender o mais que pude sobre comunicar com o público, porque na altura estava nos bastidores, eu era o bastidor.

Teresa Guilherme com Manuel Luís Goucha, em 1992

Imagem cedida por Teresa Guilherme

Pensei que não ia fazer grande diferença na minha vida porque era um programa às cinco da tarde e no canal dois, mas fiquei logo conhecida e já havia imensas pessoas a dizer mal de mim, imensas pessoas a dizerem bem. É como se começa uma carreira. Não seguia muito os parâmetros da altura e talvez esse tenha sido o meu programa mais inovador de todos. Era o “Eterno Feminino”, falava para as mulheres, já há 30 anos, e tinha colaboradores que falavam de sexualidade, de nutricionismo, que nem havia a palavra, de astrologia, de decoração. Ainda me lembro de ir o Pedro Choy falar de acupuntura, uma ciência completamente desconhecida na altura. Levei muita dessa informação para as pessoas poderem viver e pensar melhor. Psicólogos, que ainda eram um tabu também. Ainda hoje aquilo é um típico programa da tarde. Fui eu que inventei e correu muito bem. Fiquei conhecida e a partir daí nunca mais saí da televisão.

Além do formato inédito, também o foi a chegada de uma mulher capaz de produzir, escrever e apresentar?
Sim e isso ajudou-me muito. Compreendia bem o meio televisão, como produtora e como autora, e depois usei aquela ainda incipiente apresentadora da forma que achei que ela podia ser melhor, completamente natural, o que não era habitual. E as pessoas continuam a não ser naturais. Estou sempre a dizer o que se passa à volta, sou na televisão exatamente aquilo que sou em casa. Bem, falo um bocadinho mais alto talvez.

“A Teresa Guilherme produtora serviu muito o público e a apresentadora era o que tinha ali mais à mão e era um bom produto. Sou um bom produto”.

Acho que por vir dos bastidores, sempre tive a consciência de passar a ideia de que, para fazer um programa, são precisas 50 pessoas. Está ali o trabalho de muita gente, desde a senhora da limpeza, que se não limpar bem o estúdio vê-se na imagem, ao apresentador que tem de equilibrar tudo. Sempre tive esse coleguismo muito presente, o que é difícil para uma pessoa tão controladora como sempre fui. Comecei logo com diretos. Não havia muitos na altura, eram os jornais e pouco mais. Acabei por fazer também programas gravados, mas sempre detestei por que se paras perdes a energia toda. Mas sim, a Teresa Guilherme produtora serviu muito o público e a apresentadora era o que tinha ali mais à mão e era um bom produto. Sou um bom produto.

Como é que vê este domínio da SIC, que conquistou a maior fatia de audiências mesmo na noite de estreia do novo Big Brother?
Saltei de televisão para televisão a vida inteira. Comecei na RTP 2, depois fui para a RTP 1 fazer um programa com o Manuel Luís [Goucha], o “Olha que Dois”. Lá me aborreci e entretanto apareceu a SIC. Lá me convidaram e fiz parte da luta para pôr a SIC em primeiro lugar. Conseguiu-se com a ajuda das novelas brasileiras que deixaram a RTP, mas conseguiu-se com o trabalho dos portugueses, com o jornalismo. A RTP começa a ser coisa nenhuma ou a ser muito pouco comparada com o power da SIC. Lembro-me perfeitamente a estreia do “Ai os Homens” com 84% de share.

Essa maluqueira de as pessoas preferirem um canal e largarem o outro, neste caso a RTP onde tinham estado toda a vida, é normal para mim. Depois da SIC, voltei à RTP. Saí da RTP, quando ainda trabalhava para a SIC como produtora, e fui para a TVI apresentar o Big Brother. E o que é que ele fez? Deu um encontrão rápido na SIC. A TVI tinha 14% de share, nada, e já lá estava o Moniz há quatro anos. Limpou o prime time, o que era impensável, e levou depois dez anos a ganhar totalmente o day time, não foi de um momento para o outro. Não foi como agora.

O que a SIC fez foi inteligente. O que a TVI fez no início do ano passado não foi — tentou salvar o que já estava perdido, porque a saída da Cristina ia fazer mossa obviamente. Poderiam ter segurado o prime time e não seguraram. Portanto, não seguraram nada e aquilo desmoronou-se como um castelo de cartas e num mês, que é uma coisa impensável. A SIC levou dez anos para perder o dia todo, a TVI teve ali um colapso e num mês começou a perder sem nunca mais se endireitar. Nesta fase, há uma grande boa vontade em relação à SIC — qualquer produto na SIC vai funcionar e nada vai funcionar na TVI. É a televisão, mas tudo isto dá voltas. Vamos ver o que é que vai fazer a TVI levantar a cabeça.

Teresa Guilherme, depois de um workshop dado à distância na última semana

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Considera-se uma mulher com olho para detetar talento em televisão?
Não me considero, tenho a certeza absoluta. A Filomena Cautela diz que sou a mãe dela na televisão. A Luciana Abreu, com todas as suas polémicas, é uma miúda super talentosa. O João Paulo Rodrigues. Ou a própria Cristina. Ela era minha aluna e há umas imagens muito engraçadas nossas. Eu estava a substituir o Manel de manhã e levei dois alunos meus — ‘Agora vamos ter aqui uma repórter, a Cristina Ferreira, que vai ter um grande futuro na televisão’. Demos um high five e ela começou. Não sou o Júlio Isidro, que me descobriu a mim, mas já dei oportunidade a muita gente. Não os descobrimos, eles apresentam-se e vê-se. O talento brilha, não é assim tão difícil de descobrir.

Este mote das suas palestras — ‘A arte de levar empurrões sem cair’ — é uma lição aprendida na televisão?
Não, é uma lição da vida. Ela dá-nos muitos encontrões, uns pequenitos outros muito grandes. A palestra é sobre o tempo que ficamos no chão. No veneno está o antídoto, é o que quer dizer. Considero que todos somos invencíveis, senão não tínhamos já vencido tantas dificuldades ao longo das nossas vidas. E quando escrevi esta palestra ainda não estávamos a passar por isto tudo. Um mês antes, íamos dizer que não conseguíamos ficar fechados em casa. Afinal, toda a gente consegue. As minhas palestras servem para melhorar a autoestima das pessoas e mostrar-lhes a força que de facto têm.

Acredita em sucessos e fracassos?
Sim, mas não acredito em fracassos, ponto. Acho que são mais desilusões. As vitórias e sucessos são coisas que devemos acarinhar e que muitas vezes as pessoas não celebram — nós portugueses somos pouco de celebrar seja o que for. E somos muito de nos agarrar à dor do que corre menos bem, o chamado fracasso, que vai marcar a nossa vida no futuro se deixarmos, com mais medos e reticências em avançar. Até no amor, não estou a falar só de trabalho. Há muitos fracassos amorosos que nos levam a ter medo de nos envolvermos outra vez. O gato que se escalada até da água fria tem medo. É isso que temos de combater.

“O que a TVI fez no início do ano passado não foi [inteligente] — tentou salvar o que já estava perdido, porque a saída da Cristina ia fazer moça obviamente. Poderiam ter segurado o prime time e não seguraram […] e aquilo desmoronou-se como um castelo de cartas e num mês, que é uma coisa impensável”.

São lemas que foi adotando ao longo da vida ou passou por uma fase de descoberta?
Toda a minha vida adorei a ideia de pensamento positivo. As pessoas acham que foi uma coisa inventada agora e não foi. No início do século passado, já havia quem dissesse que somos aquilo que pensamos. Sempre me interessei, mesmo durante estes anos todos em televisão. Lembro-me de entrevistar o Deepak Chopra, quando o Deepak Chopra ainda não era o Deepak Chopra. Até o achei lento e um bocadinho chato a falar, vê lá.

Sempre li, sempre fui a palestras, sempre me interessei pelo autoconhecimento, como se chamava, pelo pensamento positivo, pela alimentação, pela saúde — todos os conceitos que agora estão no topo. Por isso é que quando me perguntam o que é que é preciso fazer para chegar aos 60 como eu, digo que é preciso começar aos 30, pelo menos. Quando decidi deixar os reality shows e a televisão, fiquei com tempo para ir a palestras, fazer cursos, viajar e ir assistir ao Tony Robbins e a outros. Fiquei com mais tempo para estudar e aproximei-me destas temáticas de uma forma mais séria. Mesmo assim, há seis meses não achava que pudesse ser palestrante, até que depois me aconteceu.

O passar dos anos intimida-a?
Claro, envelhecer é uma coisa terrível. Aquela história da sabedoria, disto e naquilo… Até podes ficar mais calmo, mas o estigma posto pela sociedade é tremendo. E tens de tirá-lo de dentro de ti. Cola-se a ti, tu próprio começas a pôr em causa se vale a pena fazer. Um dos pensamentos mais estúpidos que tive nesta quarentena foi esse: se já vivi tanto, para quê viver até esta idade para ter de passar por uma experiência destas. Mas afinal, é uma experiência que vale a pena ser vivida.

Tem de se aceitar a velhice (as pessoas fogem muito dessa palavra, eu não fujo) porque não há alternativa. Qual é a alternativa a ficar velho? É morrer. Então, mais vale ficar velho do que morrer. E nós temos a idade da nossa saúde, portanto vamos lá preservá-la. E isso tanto vale para uma pessoa de 60 anos como para uma de 30 ou de 20. Mas não é uma coisa boa: perdes as tuas capacidades, não ficas mais bonito, não ficas mais nada, a não ser mais sensato, talvez. Mas é uma sensatez que vem pela falta de pipilância das hormonas. Envelhecer é a adolescência ao contrário, as hormonas exigem que te acalmes.

“Envelhecer é uma coisa terrível […] perdes as tuas capacidades, não ficas mais bonito, não ficas mais nada, a não ser mais sensato, talvez. Mas é uma sensatez que vem pela falta de pipilância das hormonas. Envelhecer é a adolescência ao contrário, as hormonas exigem que te acalmes”.

Se me perguntares para que idade é que gostava de voltar, voltaria aos meus 45 anos. Mais para trás é muito difícil, é muito difícil ser novo. Essa é uma idade já plena e achei muito cómico, quando mostrei imagens do primeiro Big Brother, ter havido gente a dizer-me que era muito gira com 20 anos. Eu tinha 45 anos. Por isso, se formos pensar assim, nesta altura não tenho 65, tenho os tais 45 que tanto gosto.

Já experimentou muitas coisas diferentes — televisão, teatro, palestras e livros. É curiosidade ou aborrece-se de fazer a mesma coisa durante muito tempo?
Não me aborreço, as coisas novas que vão aparecendo é que me vão entusiasmando. Quando aparece uma coisa nova que me interessa, vou atrás. E interesso-me por tudo. Envelhecer é já não querer ir, disse-me um amigo. Ainda não cheguei aí, ainda quero ir muito. É verdade, curiosidade será uma das minhas características mais produtivas.

Nunca teve receio de tocar vários instrumentos ao mesmo tempo e de deixar alguma coisa pelo caminho?
O meu único receio é não tocar os instrumentos todos os mesmo tempo. Sou de aceitar as coisas e depois preparar-me para elas. Depois, posso chegar à conclusão de que as coisas podem não me dar assim tanto prazer. Não me dão prazer, então não vale a pena fazer, é melhor mudar. Mas não tem sido assim. Quando me estreei no teatro já tinha 50 anos. Perguntaram-me porque é que estava a arriscar, mas tinha tanta vontade de viver aquela experiência que fui. Ia ter medo de quê? Mesmo que achassem que não era boa atriz e que era uma grande canastrona, não iam deixar de achar que era boa apresentadora e produtora. Umas coisas não poluem as outras.

Pau Storch

Retirar prazer tem sido um requisito obrigatório em tudo o que faz?
Retirar prazer no sentido de me divertir. Antes de entrar num programa de televisão ou numa peça de teatro, costumo dizer: ‘Então vamos lá brincar a isto’. É um prazer ligado ao divertimento, a rir e a sorrir, a entreter-me e aos outros. Talvez por ter começado a ser conhecida muito tarde, aos 35 anos, nunca deixei de ser espectadora de mim própria. Nunca encaixei muito esta personagem de famosa. Sei que sou conhecida, mas não acho que isso seja uma qualidade. Ao ser famosa, consigo concretizar projetos e chegar às pessoas com mais facilidade, é só para isso que serve.

Isso funciona também como escudo, à prova de ataques, mas também de deslumbramento?
Pode ser, o nosso inconsciente encontra muitas defesas. Tive muitas críticas muito más no início e descobri que a melhor forma de resolver isso era, simplesmente não as ler nem as ouvir. Ao mesmo tempo que descobri que isso é muito positivo, achei que era muito perigoso ler as boas. Então, passei a não ver nenhumas. As pessoas dizem que sou maravilhosa, mas entra-me por um ouvido e sai pelo outro. Achas que vi o Big Brother Vip? Fui dar a entrevista à casa, achas que fui ver? Não.

Então isso quer dizer que não vai ler esta entrevista.
Pois claro que não, podes ter a certeza disso.

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