Terrores noturnos, distúrbios alimentares e fobia. O que vai acontecer quando os 12 rapazes regressarem a casa? /premium

10 Julho 2018140

Terrores noturnos, distúrbios alimentares e fobia. Depois do drama na gruta de Tham Luang, na Tailândia, há um caminho longo a percorrer. Os especialistas alertam: o stress pós-traumático é um risco.

Entraram sem saber que podiam não voltar a sair. Ficaram confinados a um lugar escuro, húmido, isolado do mundo durante mais de duas semanas. Mas a equipa de futebol Moo Pa (Javalis Selvagens, em tailandês), composta por 12 crianças e um adulto, nunca estaria sozinha. O dramático resgate feito numa corrida contra o tempo ganhou escala global. A preocupação era retirá-los sãos e salvos, mas, uma vez cá fora, há todo um percurso pela frente. Afinal, que demónios ficam de uma experiência traumática como esta? As mazelas físicas não são o único motivo de preocupação: terrores noturnos, fobias e depressão são algumas das potenciais patologias clínicas apontadas por vários especialistas ao Observador. Dormir num quarto escuro, à porta fechada, pode não acontecer tão cedo para algumas destas crianças.

O trauma é igual para todos?

Não, não é igual para todos e pode nem acontecer. O grupo de rapazes, com idades compreendidas entre os 11 e os 16 anos, até pode ter passado pela mesma situação, presos numa gruta escura a quilómetros do exterior, mas a forma como vão lidar com o acontecimento depende dos “recursos internos” de cada um. “O stress e a ansiedade que estes rapazes possam sentir não depende do evento em si, antes de traços de personalidade como a autoestima, o temperamento, a resiliência, o autocontrolo e a própria história de vida”, diz ao Observador a psicóloga Rute Agulhas.

É ela quem explica que é possível dar três significados diferentes ao que se passou: a criança pode encarar as coisas como uma ameaça e projetá-la no futuro, o que alimenta consideravelmente o nível de ansiedade; pode olhar para o evento como uma perda, o que é capaz de gerar sintomas depressivos; ou encarar a experiência como um desafio, uma perspetiva bastante mais construtiva.

"O stress e a ansiedade que estes rapazes possam sentir não depende do evento si, antes de traços de personalidade como a autoestima, o temperamento, a resiliência, o autocontrolo e a própria história de vida."
Rute Agulhas, psicóloga

Os vários especialistas consultados pelo Observador asseguram que as crianças (neste caso pré-adolescentes e adolescentes) são mais resilientes, adaptam-se mais facilmente às circunstâncias e têm uma menor noção das consequências, o que poderá ser útil tendo em conta a gestão de ansiedade. “Temos crianças com uma garra e uma força genial, com uma capacidade de resiliência que muitos adultos não teriam”, afirma a psicóloga Bárbara Ramos Dias, acrescentando que é “mais fácil trabalhar a mente das crianças do que a dos adultos”, uma vez que os mais novos não têm uma série de “valores negativos associados a traumas e memórias” — pensamentos como “eu não consigo”, “eu não vou ser capaz”, “isso é muito difícil”, etc.

Já a pedopsiquiatra Carla Maia, secretária da direção da Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (APPIA), sublinha o facto de se tratar de um grupo com crianças na pré-adolescência — numa “idade aventureira” — e não descarta a possibilidade de a experiência ter sido vivida como uma “aventura”, o que poderá ter “ajudado a que tudo isto tenha sido gerido de uma forma não tão traumática”.

As primeiras 72 horas após o evento, que pode ou não constituir um trauma, são consideradas fundamentais. É nessa fase que se deve proceder à triagem. Rute Agulhas fala na necessidade de realizar sessões de grupo “para se perceber emoções, conhecer pensamentos e memórias”. Só assim se determina quem precisa e quem não precisa de apoio psicológico.

Familiares a rezar num templo perto da gruta de Tham Luang

As famílias e as equipas de resgate precisam de apoio semelhante. “Os familiares não estão na gruta, mas o impacto emocional não é menor”, atira Agulhas. Os mergulhadores e todos os técnicos envolvidos nas sucessivas operações de resgate podem posteriormente apresentar sintomatologia de traumatização vicariante, ou seja, podem ser vítimas indiretas do acontecimento traumático. “Estes profissionais têm de ser ouvidos em grupo. Têm de falar e de chorar. Muitos deles têm filhos e é natural que façam projeções. Já perderam um colega. Na verdade, eles entram na gruta sem saber se vão sair. Não sabem o que vão encontrar.  É um nível de stress muito grande.”

Stress pós-traumático? É possível e provável

Embora não o possa prever, Rute Agulhas alerta para o risco de os 12 jovens e o treinador poderem vir a sofrer de stress pós-traumático, o que se traduz em sinais e sintomas com uma duração específica. Ao Observador, a psicóloga clínica fala em alterações do sono e da alimentação, flashbacks, pesadelos e a “ativação de emoções negativas”. “O mais provável é terem uma reação de stress pós traumático, que inclui sintomas de ansiedade, perturbações de sono e diminuição do rendimento escolar”, acrescenta o neuropsiquiatra Bernando Barahona Corrêa.

Bárbara Ramos Dias, também psicóloga de formação, não tem dúvidas: “Estas crianças terão com certeza stress pós-traumático”. É ela quem alerta para a urgência de trabalhar o diagnóstico, para que os jovens não corram o risco de desenvolver fobias e patologias a nível psicológico. Para a especialista, é importante que as crianças passem por várias fases — zanga, raiva, culpa e aceitação — para poderem fazer o luto da situação. “Senão ficam lá memórias e histórias mal resolvidas que podem vir ao de cima a qualquer altura.”

Muitas vezes quando se vive o impensável uma pessoa não se apercebe do que está a viver. Só se começa a poder sentir à posteriori e, de preferência, a conta gotas o medo. Cabe a quem estiver à volta tentar deixar que o medo e a mistura entre o alívio e a tristeza possam ir chegando a seu tempo. Sem forçar, mas também sem pensar que a falta de demonstração traumática signifique que está tudo resolvido. Às vezes o maior barulho está escondido no maior dos silêncios”, assegura a psicóloga clínica Patrícia Câmara.

De acordo com o DSM 5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o stress pós-traumático consiste “na exposição a um episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual de uma (ou mais) formas”, incluindo vivenciar diretamente o evento traumático. Nesse sentido, e considerando sempre crianças acima dos seis anos de idade, existem diferentes “sintomas intrusivos” que se podem manifestar: lembranças e sonhos “angustiantes”, “sofrimento psicológico intenso ou prolongado”, “reações fisiológicas intensas”, esforços para evitar recordações, “estado emocional negativo persistente”, hipervigilânciaperturbação do sono e problemas de concentração, por exemplo.

A psicóloga Patrícia Câmara considera “que é praticamente impossível que não exista uma inscrição traumática”, mas “a maneira como se manifesta ou se manifestará pode ocorrer de diversas formas”. “O impacto da experiência não acaba no dia em que se sai da gruta. Na verdade, pode só começar a fazer-se sentir muito tempo depois”, diz a especialista ao Observador. Há dois fatores que podem ser determinantes para que as patologias traumáticas não se instalem, continua: o apoio que esta equipa de futebol terá à saída e o facto de lhes ser transmitida a ideia de que, mesmo nos momentos em que se sentiram mais sozinhos, havia alguém cá fora à procura deles.

"Temos crianças com uma garra e uma força genial, com uma capacidade de resiliência que muitos adultos não teriam."
Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica

Carla Maia tem uma visão mais positiva: acredita que nem todas as crianças irão ter “reações pós-traumáticas” nos próximos meses, uma vez que o desfecho — pelo menos ao que tudo indica até ao momento — foi positivo. “O mais provável é não terem stress pós-traumático. Não sabemos até que ponto foram sujeitos ao trauma ou se viveram esta situação como uma ameaça para a vida deles.” A pedopsiquiatra considera mesmo que “a maior parte destas experiências” em vez de “enfraquecer” pode “fortalecer” as pessoas. “Vejo muito mais as coisas a serem geridas de uma forma pacífica do que como algo traumático porque o grupo funcionou e tiveram uma figura protetora que foi o treinador.”

Os pais terão um papel fundamental na recuperação psicológica dos 12 jovens.

Medo do escuro e de espaços fechados. Que fobias podem ficar?

Pode acontecer que os jovens desenvolvam determinadas fobias, como o receio de permanecer em espaços fechados. A probabilidade é apontada por Bernardo Barahona Corrêa, neuropsiquiatra e diretor do CADIn (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil), que fala na possibilidade de alguns jovens evitarem a todo o custo regressar a uma situação que os obrigue a ficar, ainda que por um curto período de tempo, em lugares fechados. O especialista dá como exemplo a ansiedade que possa existir momentos antes de se entrar num elevador.

Maria Helena Estevão, pediatra na Associação Portuguesa do Sono, menciona também a hipótese de existir dificuldade em adormecer num quarto fechado e sem luz. “Como estiveram na escuridão tanto tempo, agora podem ter algum receio”, assegura. Mas a perturbação do sono não se fica por aí. Sono pouco contínuo, marcado por sucessivos acordares em situação de alerta, pesadelos ou terrores noturnos e agitação são uma possibilidade, sobretudo nos primeiros tempos. “O mais provável é que durante algum tempo tenham o sono perturbado, o que vai influenciar o desempenho deles no dia a dia. Dormir bem é essencial para o processamento de memórias. É essencial para recuperar do incidente. Uma consequência negativa é a tendência para o isolamento.”

Dormir sozinho, acrescenta Maria Helena Estevão, pode também representar um problema: “Estavam numa situação ameaçadora, dormir sozinhos pode trazer de volta essa memória”.

Tem de haver uma regulação das respostas emocionais, isto é, trabalhar as emoções face ao medo e ao pânico, caso contrário todas as situações em que estejam num ambiente escuro ou se sintam perdidos podem espoletar toda a ansiedade decorrente do trauma”, diz Bárbara Ramos Dias.

A psicóloga clínica Bárbara Ramos Dias enumera ainda outras fobias, como o receio de não existir comida, o que os pode levar a ter certo tipo de comportamentos – como armazenar alimentos ou não partilhar a comida com ninguém. Para a especialista, estas crianças têm “seguramente de ser acompanhadas”, até porque cada uma delas “irá ter um desenvolvimento emocional diferente” consoante a forma como vão lidar com o que se passou na gruta. Algo que será essencial para prevenir patologias que podem surgir mais tarde, como “perturbações do sono”, “isolamento emocional e afetivo”, “ataques de pânico”, “depressões” e até “ideação suicida”.

As operações de salvamento envolvem ajudas de diferentes nacionalidades e mobilizaram o país.

Quais as consequências físicas mais prováveis?

Uma vez cá fora, as crianças e o treinador sofram submetidos a uma série de exames médicos para garantir que estavam todos saudáveis. Até lá, ninguém podia chegar perto da equipa de futebol, nem sequer os familiares. Doenças como pneumonia, histoplasmose — infeção pulmonar provocada por um fungo e também conhecida por ‘doença da gruta’  –, leptospirose e melioidose — infeções bacterianas que podem ser contraídas através do solo e da água —  eram algumas das hipóteses levantadas por especialistas médicos consultados pela imprensa nacional.

O presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria, Jorge Amil Dias, compara a presente situação com o que os astronautas vivem no espaço: num sítio sem noite e sem dia, onde a atividade física é reduzida. O pediatra fala, referindo-se agora aos 12 jovens tailandeses, na perda de densidade óssea, mas esclarece que a recuperação física será relativamente fácil. Fala ainda na necessidade de readaptação à exposição solar, tendo em conta o ambiente de pouca luz onde os rapazes estiveram tantos dias (e onde alguns permanecem, incluindo o treinador de 25 anos).

A pedopsiquiatra Carla Maia destaca ainda a possibilidade dos rapazes terem os “ritmos circadianos” alterados por terem estado sem luz durante “um período de tempo significativo”. “Não sabemos se conseguiram dormir, se tinham relógios”, diz Carla Maia, acrescentando que, uma vez cá fora, será necessário orientar a “privação do sono”.

"É muito difícil terem tido a quantidade certa de água e de alimentos. Mas os jovens de maneira geral recuperam mais facilmente do que as pessoas mais velhas porque os órgãos são mais saudáveis. Qualquer agressão é melhor superada."
Maria José Ribeiro, pediatra

A desnutrição é mais do que provável, mas Amil Dias deixa um consolo: “É conhecido que nas situações de desnutrição graves, as crianças e os adultos não podem ser alimentados de qualquer maneira, situação que pode provocar desequilíbrios graves e até fatais, mas não me parece que seja a situação destas crianças”.

“Com crianças em crescimento temos que nos preocupar com o que faltou”, diz ainda Maria José Ribeiro, pediatra no IPO em Lisboa. A especialista ressalva que pouco se sabe sobre o estado de saúde destas crianças e do tipo de alimentação e hidratação que foram recebendo, mas acredita que devem estar pouco hidratadas e com ‘algumas carências’ a nível alimentar, o que poderá gerar “um estado ligeiramente confusional”. “É muito difícil terem tido a quantidade certa de água e de alimentos. Mas os jovens de maneira geral recuperam mais facilmente do que as pessoas mais velhas porque os órgãos são mais saudáveis. Qualquer agressão é melhor superada.”

E o treinador?

Falar das 12 crianças não é o mesmo que falar de Ekkapol Chantawong, o treinador de 25 anos. Não é por acaso que Teresa Lobato Faria, psicóloga clínica e pediátrica no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, refere o filme “A Vida é Bela” de Roberto Benigni: “No filme, o pai é a referência e explica as coisas de tal forma que a criança acaba por achar que não se passa nada de grave.”

Para a pedopsiquiatra Carla Maia, o facto de o treinador não ter podido “chorar”, não ter tido “margem para mostrar a sua fragilidade” pode levá-lo a desenvolver “quadros mais depressivos”, não estando imune ao stress pós-traumático e a fobias. “Quem se poderá tornar mais vulnerável acaba por ser aquele a quem foi pedida mais força.” Também Patrícia Câmara sublinha a importância de “fazer um trabalho com este treinador”, que não “pôde viver o pânico porque teve de gerir aquelas crianças que estavam na sua dependência”.

É importante ajudar o treinador a viver com essa culpa e a transformá-la em aceitação”, acrescenta Patrícia Câmara.

Para Bárbara Ramos Dias, o treinador teve um “papel crucial” na sobrevivência do grupo. “Se as crianças estivessem sozinhas, não teriam tido todo este positivismo que o treinador transmitiu.” De ressalvar a carta que Ekkapol Chantawong escreveu aos pais das crianças a pedir desculpa, o que denuncia um sentimento de culpa: “Vou tomar conta deles na melhor forma que posso… Peço as mais sinceras desculpas”.

A meditação na gruta ajudou. E vai continuar a ajudar?

O “sim” é a resposta mais provável e comum a todos os especialistas entrevistados. Sabe-se que o treinador Ekapol Chanthawong, responsável pelo grupo de jovens, é um ex-monge budista, com o hábito enraizado de praticar meditação — o próprio jornal norte-americano The Washington Post refere que a meditação budista terá sido essencial para criar um ambiente de relativa tranquilidade no interior da gruta. Psicólogos, pedopsiquiatras, neuropsiquiatras e pediatras concordam: se o treinador tiver influenciado os rapazes na prática da meditação, tal como anunciado na imprensa internacional, as consequências psicológicas serão menores a longo prazo.

A psicóloga clínica Rute Agulhas olha para meditação como uma estratégia válida para a redução de ansiedade. “As práticas religiosas podem ser muito importantes porque dão uma sensação de conforto [nestas situações]. Se aqueles jovens acreditam que há uma força superior, isso pode ajudar numa situação traumática enquanto fator protetor”.

"As práticas religiosas podem ser muito importantes porque dão uma sensação de conforto [nestas situações]. Se aqueles jovens acreditam que há uma força superior, isso pode ajudar numa situação traumática enquanto fator protetor."
Rute Agulhas, psicóloga clínica

Resultados comprovados de que a meditação pode ser benéfica para crianças é coisa que não falta a Fernando Emídio, que há cerca de seis anos é o responsável por um programa de mindfulness no agrupamento escolar da Marinha Grande, dirigido a crianças dos seis aos dez anos. “O facto de o professor praticar meditação pode fazer toda a diferença. Ele pode guiá-los, ajudá-los. A meditação pode deixá-los mais calmos e fazer com quem vivam momento a momento, sem pensar muito no futuro, no que vem depois”. Para este professor, é essencial que a prática continue já depois de todos terem sido resgatados, seja de forma formal (meditação tal como a conhecemos) ou informal (que corresponde à prática de mindfulness, isto é, estar ciente e presente de todos os momentos no dia a dia).

A equipa de futebol Moo Pa desapareceu a 23 de junho e só foi descoberta a 2 de julho. No vídeo que capta esse preciso momento é possível ver os jovens e o treinador de constituição frágil mas de sorriso no rosto, um estado de espírito que poderá ser mais facilmente explicado com a prática de meditação.

Bárbara Ramos Dias é da opinião que toda a “espiritualidade que existe na cultura oriental ajudou no processo de educação e no stress psicológico”, o que se tornou fundamental para a sobrevivência do grupo no interior da gruta.

O que os pais podem e devem fazer?

O papel dos pais é fundamental. Aos adultos cabe o papel de transmitir segurança e confiança, muito ao contrário do excesso de vigilância que pode decorrer do receio de “perder” novamente um filho. “Os pais têm de estar atentos às suas próprias ações”, assegura Inês Afonso Marques: é de evitar reações alarmadas, que possam potenciar medos e inseguranças, aquando do regresso à normalidade. A psicóloga infantil aconselha a reposição gradual da rotina, que se alastra ao sono, à alimentação, aos momentos de relaxamento e de socialização, e à criação de experiências positivas. A prática moderada de atividade física entra na lista de afazeres a promover, uma vez que liberta stress e gera sensações de bem-estar.

Os pais devem ainda dar espaço às crianças para falar, sem as forçar a tal. “Os pais devem deixar a criança falar, se quiser falar. Devem deixar que ela se expresse, que ela relembre a situação, mas sem forçar. Não devem perguntar nada”, considera a psicóloga Bárbara Ramos Dias. É essencial que os pais promovam “algum tipo de contacto e de conversa” entre os vários elementos da equipa de futebol para “gerirem entre eles” o que se passou. “Manter esta dinâmica de grupo é fundamental. Quanto mais conversadas forem as coisas, menos guardadas e traumáticas são”, acrescenta a pedopsiquiatra Carla Maia ao Observador.

“Os pais devem deixar a criança falar, se quiser falar. Devem deixar que ela se expresse, que ela relembre a situação, mas sem forçar. Não devem perguntar nada.”
Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica

As famílias não estão, no entanto, imunes a sequelas psicológicas. Há pais que podem ficar mais ansiosos de cada vez que se separam dos filhos e que podem ganhar maior dificuldade em confiar em terceiros para tomar conta dos mais novos. Mas mais importante, é preciso que não se esqueçam de valorizar o facto de terem conseguido ultrapassar este episódio, acrescenta a psicóloga Patrícia Câmara.

As crianças que, à semelhança de tantos adultos, estão a assistir à distância às operações de resgate da equipa de futebol também poderão ser, de alguma forma, afetadas. É uma questão de vulnerabilidade. “Nestes casos, os pais precisam de mostrar disponibilidade para responder às perguntas que elas possam ter e precisam de levar essas questões a sério, não correr o risco de as ridicularizar. Os pais devem dar respostas simples e verdadeiras”, diz ainda Inês Afonso Marques.

As crianças que assistem às operações de resgate podem desenvolver uma natural curiosidade sobre o sucedido e ficar mais vulneráveis.

Mediatismo: o acentuar do trauma?

Há vários dias que o mundo tem os olhos postos nestas crianças, no seu sofrimento e no seu resgate. Isto significa que, além do trauma, estes jovens terão de lidar com todo o mediatismo em torno da situação que viveram.

“É muito importante não haver nem demasiada traumatização, nem demasiada glorificação”, explica Carla Maia. Ou seja, é preciso “não expor” em demasia estes jovens, antes “respeitar o tempo deles” — serem eles a decidir o que contar e a quem contar — e não tornar “as coisas demasiado pesadas” para eles. “Torná-los heróis a nível mundial também pode ser pesado na idade em que estão.”

Eles precisam de voltar às suas vidas, ao seu quotidiano e às suas rotinas, integrando esta história”, acrescenta a pedopsiquiatra Carla Maia.

Para a psicóloga Cristina Valente, tratar estes jovens como “pequenos heróis” pode não ter um impacto negativo nas suas vidas, desde que eles não sejam tratados como “estrelas”. Já o excesso de “elogios” derivado do mediatismo poderá afetar “a construção da identidade destas crianças”. Em causa poderá estar uma “distorção da realidade”, uma vez que, nestas idades, as crianças estão “muito ancoradas nas pessoas que têm poder pessoal direto sobre elas”, isto é, os pais e os professores.

A psicóloga Bárbara Ramos Dias também é da opinião de que é necessário “respeitar o luto” e não estar “constantemente a relembrá-los da situação traumática que viveram”. “Quanto mais os fizerem lembrar da situação, maior será a revitimização.” A psicóloga, que acompanha crianças e adolescentes, sublinha que é importante deixá-los “respirar”, “elaborar o luto mental” e perceber não só “quais são os traumas associados ao desenvolvimento cognitivo” destas crianças, mas também de que forma esta experiência “afetou cada um deles”.

Patrícia Câmara sublinha ainda a importância de “não invadir o espaço” dos jovens, uma vez que ainda “é um tempo de descongelamento emocional”, mas há um lado positivo que não se pode descartar inerente a todo este mediatismo: “Há uma parte boa, o de se sentir querido, sentir que muita gente tentou ajudar”, afirma a psicóloga.

Agora que entramos em 2019...

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