Dark Mode 138kWh poupados com o Asset 1
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica. Saiba mais

Logótipo da MEO Energia
i

SANA HANDOUT/EPA

SANA HANDOUT/EPA

Terroristas: tudo o que há a saber já foi escrito

O que dizem os livros sobre os terroristas? Miguel Freitas da Costa foi à procura das respostas, descobriu centenas de páginas e a certeza de que não se ganha nada em ver o fenómeno como insanidadade.

“A polícia turca fez esta manhã uma série de raides em Istambul e na cidade costeira de Izmir. Foram detidas 13 pessoas. A polícia encontrou três espingardas de caça.” Os movimentos “terroristas” sempre se distinguiram pela economia de meios – embora normalmente mais destrutivos do que um punhado de “espingardas de caça”. Em Istambul, como em Bruxelas, os bombistas suicidas apanharam banalmente um táxi para o lugar onde iam morrer, matando. Este sábado, em Cabul, no Afeganistão, dezenas de pessoas morreram num atentado já reivindicado pelo Estado Islâmico. Mas também toda a gente já sabe que os atentados bombistas organizados – suicidas ou não – implicam “estruturas de apoio” não necessariamente armadas.

Tudo o que se pode dizer e perguntar sobre os bombistas suicidas está escrito. E está escrito há muito tempo. Podiam encher-se muitas páginas elucidativas alinhando uma mínima antologia dos muitos milhões de palavras que as mais sabedoras e autorizadas penas – se penas é a palavra – já escreveram. Quase que basta alinhá-las umas atrás das outras.

Não sei se precisamos de compreender os bombistas suicidas ou só aprendermos a defender-nos deles – mas é uma ambição que muita gente já quis satisfazer, mais ou menos em vão. Há, talvez, explicações a mais. Já lá vão mais de dez anos, em 2005, Louise Richardson, com a reticência de eminente especialista na matéria, retirou mais dúvidas do que conclusões de três dos livros que nesse mesmo ano foram publicados nos Estados Unidos e no Reino Unido (era no tempo em que tínhamos Reino Unido) e ela recenseou no Financial Times. O livro que a própria Louise Richardson escreveu no ano seguinte ainda é uma síntese lúcida e atual do estado da arte de explicar e responder ao terrorismo: What terrorists want (“O que os terroristas querem”). Uma coisa é certa: não se ganha nada em tomar o fenómeno por uma manifestação de insanidade de uns quantos tresloucados. Há método na sua temível “loucura’”.

what terrorists want

Os livros de que falava L. Richardson eram: Making Sense of Suicide Missions, uma coleção de ensaios de vários académicos, coordenada por Diego Gambetta, The Road to Martyr’s Square, de Anne Marie Olivier e Paul Steinberg, uma “viagem ao mundo do bombista suicida”, como se diz no esclarecedor subtítulo (“A Journey Into the World of the Suicide Bomber”: os autores visitaram os antros de bombistas e avistaram-se com suicidas em estágio – e testemunharam a sua exaltação, a sua “exuberância irracional”, o seu “êxtase” de prometidos esposos do apocalipse) e Dying to Kill: The Allure of Suicide Terror, de Mia Bloom, um título cuja facécia talvez já augurasse que o livro “pouco contribua para a nossa compreensão do fenómeno”, nas palavras da crítica – mas “mortos por matar” já veio à boca de outros especialistas de melhor reputação. É um jogo de palavras a que é difícil resistir.

A coragem do desespero

Uma coisa ela observava com segurança e pertinência: o bombista suicida “eviscerou”, muito simplesmente, “o princípio da dissuasão” que tantos serviços prestou na era MAD (da Mutual Assured Destruction). Em Os homens do terror – Ensaio sobre o perdedor radical (edição portuguesa de Schreckens Männer – Versuch über den radikalen Verlierer), Hans Magnus Enzensberger, mais literariamente, escreveu, nos mesmos e tão pródigos anos de 2005-06: “A forma mais pura do terror islâmico é o atentado suicida. Ele exerce uma atração irresistível sobre o perdedor radical; pois lhe permite expressar a sua mania das grandezas assim como o ódio a si próprio. De resto, cobardia é a última coisa pela qual pode ser censurado. A coragem que o distingue é a coragem do desespero. O seu triunfo reside no facto de que não se pode lutar contra ele nem castigá-lo, porque disso se encarrega ele próprio”.

"Os Homens do Terror", de Hans Magnus Enzenberger (Sextante)

“Os Homens do Terror”, de Hans Magnus Enzenberger (Sextante)

(Talvez com a ajuda de substâncias “controladas”?) Esse dilema tinha sido sucintamente expresso num romance de “Andy McNab” em 1999 (dois anos antes do ataque às Torres): “these people don’t care, survival isn’t an issue”. Falava-se da alegada inverosimilhança de um plano em que os terroristas às ordens de Bin Laden que supostamente preparavam um atentado contra a Casa Branca “nunca sairiam dali vivos”. “McNab” não é o nome de mais um teórico: é o pseudónimo de um antigo e condecorado sargento-comando e depois escritor do notável Bravo Two Zero sobre uma operação verdadeira na guerra do Iraque de 1991 (honradamente filmado para a televisão por Tom Clegg) e de numerosos thrillers de grande êxito.

“Mc Nab”, que se especializou em operações de anti-terrorismo e anti-guerrilha, participou em ações abertas e clandestinas dos Serviços Especiais na Irlanda do Norte, na América do Sul, no Extremo Oriente – e no Médio Oriente. Nas palavras dos próprios, “Eles amam a vida, nós a morte” – dizia uma proclamação da Al-Qaeda após o 9/11: “Venceremos”. Que querem os terroristas? Na versão que actualmente nos preocupa, o terrorismo “político” é, como observa Enzensberger, “apolítico”: não há nada que seja negociável. John Arquilla e outros tinham avisado que o terror estava a passar “from episodic efforts at coercion to a form of protracted warfare”. E como disse um combatente do Islão sobre as hipóteses de umas conversações de paz: “We don’t want peace, we want victory” ou ainda, na expressão de um antigo director da CIA, “Não querem sentar-se à mesa, querem partir a mesa”.

Louise Richardson chama aos bombistas suicidas "a arma terrorista por excelência". Ninguém sabe quanto tempo teremos de viver com eles. As palavras para salvar a humanidade estão todas inventadas. Só falta salvar a humanidade, como dizia Almada.

Nessa época ainda estava longe de ser proclamado – autoproclamado, como se tornou obrigatório dizer – o famigerado Estado Islâmico do Iraque e da Síria e o seu Califado, um salto no tempo, para tempos que até à aparição da Al-Qaeda estavam perdidos nas brumas do passado ou nas sombras de algumas prédicas mais ou menos clandestinas. (Mais ou menos: sem falar no Médio-Oriente, era um lugar-comum desde os anos 80 e 90 do século passado, por exemplo, chamar a Londres “Londonistão”; a mesquita de Finsbury Park e o seu capitão Gancho zarolho, Abu Hamza, eram bem conhecidos. Os jornalistas ingleses Sean O’Neill e Daniel McGrory que escreveram a sua história chamaram-lhe, em 2006 – outra vez – “The Suicide Factory”.)

Do espanto à rotina

Mas as características do terrorismo pós-moderno – dessa maneira de “ser moderno” (este importante livro de John Gray também foi traduzido para português: Al qaeda e o significado de ser moderno) estavam claramente definidas: a nova operacionalidade das “redes”, os meios tecnológicos, o uso dos media, a importância da “descentralização” e o papel do free-lancing na gestão do terror. É o ar do tempo: “As multinacionais do futuro – escreveu Peter Drucker – serão provavelmente governadas por uma estratégia – e a estratégia será o cimento da sua união. Cada vez mais haverá confederações cujos elementos serão alianças, joint ventures, participações minoritárias, acordos e contratos de utilização de know-how“. (Drucker não estava a falar do terrorismo, mas escrevia depois dos atentados do 11 de Setembro.) E é cada vez mais claro que se tornou especialmente nebulosa a fronteira entre política externa e interna.

on_suicide_bombing

“On Suicide Bombing”, de Talal Asad

O “terrorismo”, político ou milenarista, não nasceu ontem. É tão antigo como o mundo e a guerra. Esqueçamos de momento a mais intrincada discussão e todas as subtilezas da moralidade e da legitimidade comparativas do “terrorismo” e da aplicação da violência contra populações indefesas de que os Estados não estão inocentes (bons pontos de partida são On suicide bombing, do antropólogo Talal Asad, por muito que às vezes nos possa irritar tanta imparcialidade, ou as teses cínicas da “guerra sem restrições” de dois brilhantes descendentes de Sun Tzu, os coronéis chineses Quiao Liang e Wang Xiangui, que a CIA prestimosamente traduziu para inglês em 2002, com o subtítulo alarmante de “O plano chinês para destruir a América”).

Quando os aviões transformados em bombas embateram nas Torres, para “choque e temor” de todos nós, os atentados suicidas eram uma pavorosa rotina em Israel e tinham antecedentes noutros quadrantes como o Líbano ou o Iémen ou vários outros “pontos quentes” do mundo – não necessariamente islâmicos: até recentemente os Tigres Tamil do Sri Lanka, nacionalistas, ateus e “marxistas-leninistas” detinham o recorde dos atentados suicidas (Mas no caso do antigo Ceilão, só se matavam uns aos outros). O carro bomba também é velho. Em Buda’s Wagon, Mike Davis inicia a sua “breve história do carro bomba” com a carroça que o anarquista Mario Buda fez explodir em Wall Street em 1920. Guiados pelos suicidas, os carros-bomba, “a força aérea dos fracos”, são quase impossíveis de deter.

buda's wagon

“Buda’s Wagon”, de Mike Davis

Louise Richardson chama aos bombistas suicidas “a arma terrorista por excelência”. Ninguém sabe quanto tempo teremos de viver com eles. As palavras para salvar a humanidade estão todas inventadas. Só falta salvar a humanidade, como dizia Almada (e salvo erro se pode ler na parede da estação de metro de Lisboa que lhe foi dedicada).

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.