Tondela. Odete e Máxima eram parceiras de sueca, só uma sobreviveu

15 Janeiro 2018207

"O meu filho puxava-me, mas eu tinha gente em cima das pernas, não conseguia sair." Odete foi salva pelo filho. A sua parceira de sueca, Máxima, não escapou.

Odete Gonçalves, 50 e poucos anos, ajuda a mãe a lavar roupa no tanque. A casa onde mora com a mãe e com o filho, de 18 anos, é paredes-meias com a junta de freguesia de Vila Nova da Rainha. Está com pressa, os gestos são rápidos, corre de um lado para o outro, fala num tom apressado. “Já estive ali a lavar o meu casaco, o que usava naquele dia, cheirava tanto a queimado que não se podia”, conta. O casaco ali estava a secar, depois de ter sido a “salvação” de Odete na fatídica noite de sábado, quando jogava sueca na associação. São 13h00 de segunda-feira, passou apenas um dia, mas Odete não se dá ao luxo de ficar em casa: passou para comer uma “sopinha” com a mãe, mas logo ia voltar ao trabalho.

Odete salvou-se graças ao casaco esquecido e graças ao filho, que a puxou, literalmente, do emaranhado de corpos na Associação Recreativa de Vila Nova da Rainha . Mas Maria Máxima, de 52 anos, não teve a mesma sorte — “porque foi na frente”. Máxima era a parceira de Odete no torneio de sueca e está entre os três corpos que esta segunda-feira chegaram à igreja da vila para serem velados.

“Costumo participar todos os anos no torneio de sueca, e este ano a dona Máxima convidou-me para fazer par com ela”, conta. Era a primeira vez que iam jogar juntas, porque no sábado anterior, sábado da estreia do torneio, Odete teve de faltar por motivos de saúde.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Não jogaram muito tempo. “Começámos a ver uma chama pequena encostada ao tubo de inox da salamandra, no teto, e alguém gritou ‘fogo’. Mas o teto já estava a derreter e a cair. Daí até ficarmos sem luz foram segundos”, diz, numa tentativa de reconstruir os acontecimentos. Fala de forma apressada, diz que ainda está “meio atordoada”, mas parece que a velocidade lhe dá vida. Se parar, é pior. Tem os detalhes na ponta da língua e quer contá-los. A sua mesa de jogo, e de Maria Máxima, era a mesa nº 15, uma das mais afastadas da porta — junto à varanda “lá do fundo”. Quando se aperceberam do fogo e do fumo — sobretudo do fumo –, todos se precipitaram para as escadas, que era a única saída possível. Máxima fugiu logo, mas Odete Gonçalves, quando estava prestes a chegar à escada, lembrou-se que se tinha esquecido do casaco: “Foi a minha sorte”.

O que a levou a achar que o casaco era importante naquele momento de aflição, não sabe. Mas sabe que se não tivesse ido para trás possivelmente não tinha sobrevivido. “Pior ficaram os primeiros, os que foram na frente, e que ficaram esmagados pelos outros nas escadas”, diz. Máxima, tal como Vítor, Bernardo, Anselmo ou Sérgio, estão entre os que foram mais rápidos e, por isso, ficaram presos no emaranhado de corpos. O efeito foi de dominó. Um homem, que é descrito como “forte”, mas do qual os moradores com que o Observador falou não se recordavam do nome, ainda tentou bloquear o acesso à escada, com a força do seu corpo. O objetivo era impor alguma ordem na descida. Teve sucesso nos primeiros momentos, mas depois também ele foi abalroado. “Conseguiu até aguentar”, ouve-se na vila.

Se não fosse o casaco esquecido, também Odete tinha sido abalroada, acredita, a avaliar por aquilo que viu. Também ela teve de “empurrar algumas pessoas”, admite. Quando chegou à escada “já estavam todos uns em cima dos outros”. Ficou mais no topo, sem conseguir passar nem mexer-se para lado nenhum. “Ainda houve pessoas que passaram por cima de mim, e eu cheia de dores porque fui operada à coluna há três meses”, conta. “Cada um se safa como pode”, diz. Mas dali da escada já não conseguia passar.

As cordas que foram usadas para arrombar a porta ainda se encontram no chão do largo da associação (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Estava com as pernas presas, com o peso dos corpos amontoados, quando a porta ao fundo da escada, a tal que abria para dentro, foi arrombada — com recurso a um jipe e uma cinta de cordas. Do lado de lá viu o seu filho, de 18 anos, que a avistou de imediato. “Ele tentou logo puxar-me, mas eu estava presa, não conseguia sair. Só que depois tentei desprender-me, consegui descalçar-me, e ele lá me puxou”, conta, dizendo que por essa altura já estava a ter dificuldades em respirar devido ao fumo intenso.

Uma pedra, um escadote e um extintor que não valeram de nada

O relato que Odete faz é idêntico ao de todas os cerca de 60 pessoas que naquela noite estavam no andar de cima da associação recreativa de Vila Nova da Rainha. Esta segunda-feira, no largo António Rodrigues Borges, em frente ao que resta do edifício da associação, ou no café “Rainha”, no cimo da rua, ainda se reuniam lá muitas pessoas, e o tema de conversa era só um. Na verdade, o filho de Odete Gonçalves é uma espécie de “herói”: foi ele que foi buscar a cinta de cordas — daquelas que se usa para prender carga num capot de um carro –, e foi ele que, juntamente com o dono do café da vila, partiu o vidro e entrou para o primeiro andar do edifício.

António Carvalho, conhecido por Tó, é o dono do café. Naquela noite estava a ver o Sporting de Braga-Benfica, quando um cliente se apercebeu do fumo que saía da associação, a escassos metros de distância. A primeira reação que teve, conta ao Observador, foi pegar no extintor que tinha no café, e num escadote que alguém entretanto tinha ido buscar, e entrar lá para dentro. “Pedi que mandassem pedras para partir o vidro e entrei, disseram para não ir, porque podia haver fogo, mas não havia fogo nenhum, o extintor nem serviu de nada”, conta. O que encontrou lá dentro foi apenas fumo, muito fumo, e muita gente “amontoada nas escadas”.

António Carvalho, Tó, é o dono do café ao lado da associação. Foi ele que partiu o vidro para tentar socorrer as pessoas no edifício (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

“Algumas ainda falavam, eu disse para terem calma, que os bombeiros já estavam a chegar”, conta, explicando que não conseguia tirar ninguém porque o acesso estava entupido. Primeiro viu um amigo seu, “o Chico”, ainda falou com ele, viria a sobreviver; depois o “Bernardo”, que “já estava morto”. Depois viu um senhor, amputado de uma perna, que só lhe fazia um pedido: que lhe tirassem a prótese da perna, que estava a queimar. Mas não conseguia chegar até ele. “Só se viam braços para um lado, pernas para o outro, cadeiras e mesas”, conta, visivelmente consternado. Um dos homens, descreve António, até estava sentado numa cadeira, que por sua vez estava posicionada num degrau da escada. A temperatura da cadeira, ou do próprio corpo, fez com que ficasse colado — e os bombeiros tiveram de o retirar do local naquela mesma posição, sentado. Tó, como é conhecido, ficou lá, no cimo da escada, até a porta ser arrombada, e os bombeiros terem começado a tirar as pessoas uma a uma. Fala enquanto tira cafés, e diz que é uma imagem que não esquece.

Esta segunda-feira o céu já amanheceu azul em Tondela e em Vila Nova da Rainha. O nevoeiro com que tinha acordado na véspera dissipou-se, ficou o frio. Era tempo de receber os mortos, terça-feira é dia de enterrá-los. Foi uma “tragédia em dois atos”, como resumiu ao Observador o padre António Flor, que serve aquela paróquia: primeiro os danos materiais dos fogos de outubro, que destruíram duas casas de primeira habitação e muitos barracões naquela freguesia de Tondela, e agora as vítimas humanas. Vila Nova da Rainha ainda não tinha recuperado de uma tragédia e já estava a sofrer outra. “Ainda na quarta-feira o presidente da câmara tinha estado aqui a pedir aos velhotes para preencherem o formulário do levantamento dos danos materiais dos incêndios”, diz António Marques, morador da freguesia.

Certo é que a associação recreativa de Vila Nova da Rainha era a mais “dinâmica” da zona. Jorge Coimbra, o presidente da associação desde 1999, nem queria candidatar-se a mais um mandato, mas a população insistiu tanto que lá ficou. “Ele era a alma disto”, conta-se na rua, enquanto Jorge passa visivelmente abalado pelo choque. Era ele que organizava excursões, passeios e almoços, eventos com os quais angariava algum dinheiro para ir “melhorando a associação”. “Ainda em agosto tínhamos feito um passeio ao Douro com 200 pessoas”, diz. Jorge Coimbra não nega a falta de extintores no estabelecimento, não nega que não tenha soado qualquer alarme de incêndio, mas diz que estava tudo legal e em dia — na verdade só pensa nas vítimas. “Estávamos todos os anos juntos neste torneio, conhecíamo-nos todos, éramos uma família.”

Noutra povoação ali ao lado, em Gandara, também costumava haver uma associação semelhante — mas ficou destruída pelos fogos. Ou seja, ao sábado e ao domingo todos os caminhos iam dar à associação de Vila Nova. Era também esse o caso de Lara Pacheco, de 15 anos, a mais jovem entre os feridos. Segundo apurou o Observador junto de amigos e familiares, a adolescente ia frequentemente à associação, e este ano até tinha decidido participar ela própria no torneio de sueca, desafiada por David, que viria a ser o seu parceiro. O pai, Miguel Pacheco, é secretário na junta de freguesia, além de guarda prisional, e não quis falar com o Observador sobre a filha. Esta segunda-feira andava para trás e para a frente, no seu carro, a visitar as famílias e os feridos. Do hospital Dona Estefânia, em Lisboa, surgem notícias de que Lara está “com prognóstico favorável”, apesar das queimaduras ao nível da cara.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

A noite de sábado já lá vai. Para trás fica a imagem de uma noite fria, com chuva forte que, quando parava, dava lugar a um nevoeiro cerrado. Pelas 2h00 da manhã daquele sábado, quando o Observador chegou ao local, ainda havia quem não soubesse dos seus familiares. Era o caso de Maria de Fátima Quintão, que pedia ao guarda da GNR que lhe desse informações sobre o seu marido — já tinha corrido tudo à procura dele. “A última vez que falei com ele foi às 20h30, são 2h30 da manhã e não sei nada. Já fui ao hospital de Viseu, ao de Tondela, já ligámos para Coimbra, não está lá”, contou ao Observador.

O GNR que naquela altura guardava o perímetro, já que os corpos ainda estavam a ser retirados do local, apenas lhe conseguia dizer que na escola primária havia uma lista com os nomes e respetivas situações. Mas Maria de Fátima continuava sem respostas, e não queria encarar o que parecia ser óbvio: o pior cenário. Antes, tinha estado no hospital de Viseu bastante tempo. “Demorámo-nos lá muito tempo, porque havia a indicação de que ele estava lá”, conta ao Observador. É que Horácio, o seu marido, era amputado de uma perna, e no hospital de Viseu estava uma pessoa com a mesma característica. Mas não era ele.

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