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© André Correia

© André Correia

Trabalhar no duro e chegar ao fim sem nada

Lesões, más opções ou até a idade. Nada ajuda quando é altura de procurar clube. E não ajudou 46 jogadores que, este verão, apareceram no estágio da zona sul do sindicato de jogadores de futebol.

O carteiro toca sempre duas vezes, dizem. O azar, esse maldito, bateu três vezes à porta de Fábio. A caminhada prometia, mas houve sempre algo ou alguém a roubar-lhe o chão. A história, que mais parece mentira, aconteceu em 2009/10, quando tinha tudo acertado com o Nacional da Madeira, clube que havia garantido o acesso às competições europeias na época anterior, depois do quarto lugar, o primeiro dos que perseguem os três grandes.

O céu estava perto. O lisboeta com ascendência cabo-verdiana quase podia sentir o cheiro das estrelas. Mas Rui Alves, presidente do clube madeirense, a meros dois dias da apresentação do reforço, mudou de ideias. Decidiu que nada pagaria ao Odivelas e o sonho, o de Fábio, ficou por cumprir. Mas calma. Um jogador que esteve perto de atuar na Liga Europa não teria dificuldades em arranjar clube, certo? Parecia que sim. Pedro Martins, atualmente no Rio Ave e então treinador do Sp. Espinho, também achou. E quis observá-lo. Ao fim de uma semana de treinos, porém, Fábio voltou a ser traído. Agora, pelo joelho: o atleta rompeu o ligamento cruzado anterior. Nunca a expressão “do céu ao inferno” fez tanto sentido. Ficou quase um ano sem jogar.

E quando voltou a correr, a dar pontapés na bola e a fintar os outros com ela, acabaria no estágio do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF). Desempregado, como tantos outros, à espera que o telefone ganhasse vida e uma voz lhe trouxesse boas notícias. Nota mental: o telefone é o melhor amigo e o pior inimigo destes jogadores, os sem clube. A carreira do extremo até acabaria por dar uma volta bem interessante — chegou à seleção de Cabo Verde e andou pela primeira divisão da Ucrânia –, mas Fábio não sonhava que voltaria ao estágio do SJPF. Mais duas vezes.

A receção aos jornalistas do Observador no balneário foi pacífica. Uns apertos de mão aqui, uns olás ali e alguns sobrolhos a erguerem-se ao avistarem os dois intrusos. Havia alguma desconfiança. Lourenço, o luso-angolano formado no Sporting, que até esteve no plantel de Lázló Bölöni quando Cristiano Ronaldo surgiu na equipa principal (2002/03), era quem se fazia ouvir. Parecia estar em andamento a combinação de um ou dois jantares. O jeito carrancudo do avançado era o seu cartão-de-visita. Os outros equipavam-se serenamente. Rebelo, antigo capitão do Estrela da Amadora (1987-2001), agora uma das caras do SJPF, entrou e meteu-se logo com o avançado. “Olha, pergunta mas é ali àquele rapaz quem foi o melhor marcador da MediaCup.”

Este é um torneio de jornalistas, onde cada órgão de Comunicação Social recebe um ex-jogador, uma antiga estrela para brilhar no meio de quem antes reservou o jeito para escrever, falar ou relatar. Dani, Tuck, Fernando Mendes, Calado, Paulo Madeira e Paulo Santos são alguns exemplos que por lá passaram. Rebelo, na altura, representou A Bola e, admitamos, foi mesmo o melhor marcador. É, o homem que foi defesa central tem queda para a coisa.

Equipados de branco, à Real Madrid, lá fomos passear os números 11 e 16 para um dos relvados do Complexo Desportivo do Jamor, em Oeiras. A memória de tempos idos assaltou a nossa mente, mas ajudou-nos a saber como invadir o espaço dos jogadores. É uma equipa como as outras. Há bons e menos bons jogadores. Há bem-dispostos e os mal-humorados, ou os mais retraídos. Há quem queira muito aquela vida e outros que parecem não estar dispostos a lutar por ela até ao limite. Os mais velhos, que parecem acertar a cada palavra, e os mais novos, que decidem se a ouvem ou não. Nada mudou. É sempre assim em todas as equipas.

“Em Portugal há muitos mitos. Durante vários anos criaram-se preconceitos que depois se vão mantendo. Obviamente que um jogador com 33 anos está no auge da sua maturidade e, desde que se cuide e se treine de forma séria, joga tranquilo”, defendeu Carlos Dinis, treinador que tomou conta da última semana de estágio do sindicato.

Nesta, contudo, há diferenças. Nas motivações, objetivos e até nas piadas. Aqui não há pontos por conquistar ou canecos a recompensar uma vitória. “Aqui a missão é tentar motivar o mais possível as pessoas que estão em situação difícil e que, obviamente, em termos psicológicos, não estão no melhor momento da sua vida”, explica Carlos Dinis, o treinador convidado para encerrar o estágio. E por vezes isso nota-se. Como no final de um dos treinos, quando Lourenço, já descalço e protegido pela sombra do banco dos suplentes, cantarolou algo como: “Mais um dia que acaba sem dinheiro na carteira.” Tendo ouvido ou não o desabafo do ex-avançado do Sporting, a verdade é que o técnico reforçou que “a grande dificuldade é a motivação interior”.

Algo que parece não faltar a Fábio. Só pode. Basta olhar para as escalas que já fez — ou que os azares o obrigaram a fazer na sua viagem. As suficientes para haver um antes e depois da primeira lesão no joelho. Com 18 anos, um jovem extremo trocava o Estrela da Amadora pelo Benfica B, em 2005/06. Havia tempo e esperança para agarrar a oportunidade. “Tinha um contrato de dois anos e chegou a ser equacionado eu fazer a pré-temporada com a equipa principal no ano seguinte”, recordou Fábio, que na altura acatou ordens de João de Deus, homem que orientou o Gil Vicente até à 3.ª jornada da atual edição da Primeira Liga. Na época seguinte, porém, o Benfica acabou com a equipa B. E o luso-cabo-verdiano foi parar à segunda equipa do Tenerife, em Espanha, o clube onde mais gostou de jogar até hoje.

Mas não parou aí. Nem desistiu. Após a desventura do Nacional da Madeira e da lesão no Espinho, apareceu o Metalurg Zaporozhye. E lá foi Fábio para a Ucrânia. “Em termos financeiros, foi o melhor onde já estive”, garantiu. Jogou na primeira divisão, contra Willian, o hoje brasileiro do Chelsea — que “jogava um disparate” –, e mostrou-se. A seleção de Cabo Verde viu-o e chamou-o em 2011 para um encontro contra a Libéria, de qualificação para a Taça das Nações Africanas. Fábio “estava numa fase muito boa”, e foi logo nessa que o azar se voltou a lembrar dele — e outra lesão apareceu no ligamento cruzado anterior do joelho. Esperava-o outra operação e o extremo não quis arriscar. “Já tinha ouvido histórias de jogadores que tinham sido operados lá, ficaram com mazelas e não conseguiram voltar a ser o que eram antes”, explicou, ao justificar a decisão que tomou: regressou a Portugal, para “perto dos amigos e família”, e pagou todos os custos. Ficou sem clube. E, de repente, era a conversa que voltava ao sindicato.

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E quando se está na relva, no intervalo de um sprint ou de um exercício de posse de bola, há tempo para a conversa voltar a ficar em dia. “Eh pá, fui ao casino ontem. Fui apostando dez euros na cor, ou preto ou vermelho. Comecei a perder, mas lá recuperei. O meu plafond era 400 paus [euros]”, contava um jogador, a rir e a gesticular, enquanto se alongavam os músculos após as primeiras corridas. Até que um outro, desenvencilhado, roubou-lhe as rédeas. “Eu fui outro dia com a minha namorada. Às tantas estava a ganhar 180 euros, mas quis continuar… Comecei a perder e ainda lá deixei 100 euros”, começou por revelar. “E foi a mulher a insistir! Depois, no caminho para casa, nem falámos”, concluiu com uma gargalhada, antes de contagiar os três jogadores e os dois ‘intrusos’ que o rodeavam. As histórias e as risadas prometiam.

Há quem queira muito aquela vida e outros que parecem não estar dispostos a lutar por ela até ao limite. Os mais velhos, que parecem acertar a cada palavra, e os mais novos, que decidem se ouvem ou não.

À distância, discreto, silencioso, mas com uma presença que se fazia sentir, estava Alfredo Franque, o faz-tudo do SJPF. “O melhor do futebol é a amizade. O pior é isto que vemos aqui: chegar a esta altura, os jogadores dizerem que o telefone não toca, que não têm ninguém e que ninguém olha para eles”, disse. Franque está no sindicato há 12 anos, desde a sua criação. Foi este senhor que nos deu a farda à Real Madrid, mas, nesse momento, a sua história ainda estava escondida debaixo de um qualquer tapete. “Eu cheguei de Angola para o Benfica em 1969. Estive lá três anos, um como júnior e dois como reserva”. Na Luz, nunca teve hipótese de jogar. Calhou numa era de craques. Já as memórias do clube do coração, essas, tem-nas com fartura. “Nos juniores estive com jogadores fantásticos como Shéu, [João] Alves, Jordão…”

O treinador que deixou mais memórias foi Jimmy Hagan, inglês que deu ordens no Benfica entre 1970 e 1973. “Era o mais exigente. Era terrível. Não só no aspeto disciplinar, mas era correr, correr, correr. Era só correr! Era muito disciplinador”, disse, ao lembrar o técnico que depois seguiria para o Estoril Praia, clube que o defesa também acabaria por representar entre 1978 e 1981. “Estive no Estoril três anos, com uma célebre equipa, onde estavam Zé Torres, Mário Mateus Marinhos, Fernando Santos, Manaca, etc.” A carreira prometia quando saiu do Benfica para o Boavista, mas a tropa chamou-o e cortou-lhe as pernas, garantiu. E a referência? “Eusébio é Eusébio.”

Miúdo com jeito para a bola ou graúdo com experiência acumulada, há quem nunca tenha subido tão alto. E o Benfica, nesta escalada, é um dos cumes em Portugal. Vítor Moreno, quando ainda crescia “numa idade rebelde”, chegou a ter a oportunidade de “ir lá treinar”. Na altura, porém, quem lhe cortou “o sonho” foi a mãe, que com um ‘não’ castigou-o por ter chumbado o ano na escola. “E ficou por aí”, lamentou quem hoje, entre sorrisos, já conta 33 anos — e o primeiro verão passado a treinar com o sindicato. É dos mais velhos que por ali andaram. E dos mais experientes, também: quatro épocas na primeira liga, entre Estrela da Amadora, Vitória de Guimarães e União de Leiria.

Moreno é quem mais ampara os intrusos. É ele que ri com os sinais de cansaço e avisa que aquilo “não era nada comparado com uma pré-época a sério, num clube”. É ele que, talvez por pena, troca voluntariamente de lugar com um dos jornalistas, salvando-o da humilhação de, após deixar que uma bola lhe passasse entre as pernas, continuar no meio de uma roda de jogadores, a tentar impedi-los de trocarem passes (os famosos ‘meinhos’). E é ele que também se queixa. “O futebol português está a apostar nos jovens, portanto os mais velhos estão agora a ser encostados a um canto”, lamentou o trintão que ainda fez 41 encontros a época passada, com o Portimonense, na Segunda Liga.

É muito jogo, muita correria e muitos minutos. Ou demasiada idade, como Moreno prefere dizer. “Se tivesse 27 anos, talvez já teria arranjado clube”, suspeita, ciente de que, assim, desempregado, mas a dar pontapés na bola como sempre deu, fica “um bocado complicado”. Os minutos, os de conversa, ajudam a explicar porquê. “Tenho dois filhos e as contas, as prestações e tudo mais vão-se atrasando. E têm que se pagar”, revela. Moreno sabe do que fala. Já o sentiu na pele. E na cabeça, que andou preocupada com os ordenados que não recebeu durante os meses e meses que, entre 2005 e 2010, passou no Estoril, na Amadora e em Leiria. “Por mais que as pessoas tenham a ideia que se ganham grandes salários [no futebol], é mentira”, garantiu, sem tremer, ao reforçar que os “grandes ordenados” são fáceis de ver — mas só em “quem está num grande clube”. Moreno “nunca” viu um desses chegar-lhe à carteira “para ter uma vida de luxo ou de muito conforto”, assegurou.

"O futebol português está a apostar nos jovens, portanto os mais velhos estão agora a ser encostados a um canto."
Vítor Moreno

E conforto foi coisa que se perdeu quando, após as duas corridas da praxe à volta do campo, o treino a sério começou. Formaram-se triplas, a quem se pediu para fazerem vários exercícios de controlo de bola e técnica. No fundo, o que mais agrada aos jogadores: aquecer com bola. A tocá-la e correr com ela, a passá-la após um domínio de peito ou a mantê-la no ar enquanto se caminha rumo a um companheiro. Em sorte, calhou-nos Adilson Nascimento, um avançado de 25 anos que jogou em divisões modestas. As perspetivas, assume, não são boas. “Eu já joguei e trabalhei ao mesmo tempo. Se tiver que acontecer outra vez…”, disse, enquanto encolheu os ombros.

Os 16 que sobraram com “qualidade de sobra”

Adilson trabalhou num call center e numa loja da PT, depois de terminar o 12.º na escola secundária de Mem Martins. Agora, mais do que nunca, pondera voltar aos estudos. “Ainda pensei em arquitetura, mas deixei-me disso. Quero design, é uma área onde quem quer, trabalha”, atirou, ao desdobrar a conversa por entre uma e outra possibilidade laboral se o futebol não lhe der nada de volta. Adilson era um dos 16 jogadores que, na última semana de treinos do sindicato, sobravam do lote de 46 que arrancaram no estágio da zona sul. Uns deram nas vistas e arranjaram clube. Outros já o tinham e apareceram só para não deixaram a forma física fugir. E depois há os que sobraram. Ou “os menos prioritários”, como explicou Carlos Dinis, ao dizer que “os empresários interessam-se por jogadores com mais visibilidade e capacidade para arranjarem bons contratos”. Estes, lamenta, “são deixados para o fim da linha”.

Mas que nem por isso são piores ou menos conhecidos. Como os 31 anos de José Furtado, avançado que passou pelo FC Porto e Paços de Ferreira antes de se aventurar pela Bulgária, Grécia e Roménia. Ou Ito, nome do jogador que, com 23 anos, venceu a Academia BetClic e ingressou no Penafiel, a meio da época 2010/11. O tal que “se esquece de tudo”, como às tantas se ouviu entre uns desabafos de balneário, quando alguém recordou uma recente viagem conjunta a Amesterdão, na Holanda. Dito e provado, pelo próprio, o canhoto da gargalhada fácil, de tom grave, que enche um dos relvados do Jamor. “Deixei o telefone no comboio. Ah! E o carregador no quarto de hotel.” Pois.

Após o segundo treino na companhia dos jornalistas, Ito esqueceu-se das chuteiras vermelhas à porta do café que ladeava a entrada do campo — e que, para apimentar a brincadeira, foram roubadas por um outro companheiro de estágio, por obra e ideia de Eldon Maquemba, o nómada luso-angolano que andou por Inglaterra, Chipre, Vietname e Malásia. A verdade é que, com ou sem botas, o jogador, hoje com 27 anos, não apareceria no dia seguinte. O mesmo aconteceu com Hugo Carreira, o defesa que, em 1999, viajou até ao Mundial de sub-20 com Simão Sabrosa, Hugo Leal e Marco Caneira. O que se passou? Umas férias já marcadas com a namorada desviaram-no do Jamor. Mas foi ele quem chegou a ouvir o telemóvel a tocar, confirmou, enquanto se fazia a pausa no treino para beber água. O entusiasmo em redor do central foi genuíno. Afinal, estão todos juntos na mesma guerra.

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A pedalada dos treinos sofre altos e baixos, qual montanha-russa. Culpa de uns quererem estar sempre em alta rotação. E de outros olharem mais para o lado estratégico da coisa, como se estivessem pontos em disputa. “Isto é para treinar pá!”, desabafa um atleta. Mas é mais forte do que eles. Fábio, sempre que pode, aproveita para picar Lourenço, pois está “sempre a chorar” e a “mudar as regras do jogo” — depois pisca-nos o olho. As conversas à volta assinam por baixo. Os sorrisos são inevitáveis. Mas discretamente, okay? É que o ar sério de Lourenço quase intimida, o mesmo com que cobre a cara quando, a cada novo exercício, pede para “se explicar melhor o que conta e o que não conta”.

“Não é fácil, pois não?”, perguntou-nos Moreno, mais do que uma vez, num tom desafiador. A serenidade é a sua imagem de marca. A sua história, uma lição para os mais novos. Fábio é um verdadeiro atleta que, mesmo quando tem apenas dois, três toques para dar (regra que é normal perdurar até ao final de um treino), consegue fazer duas bicicletas (simulações) e acelerar o ritmo. Hugo Carreira é um líder natural, com dois morteiros nos pés, calibrados para fazerem passes que mais parecem remates do Erwin Sánchez, o antigo bombardeiro do Boavista. Lourenço gosta de rematar, tanto que chega a ouvir, uma e outra vez, “deixem-no chutar!”. Até que marca e não resiste: “Deixem chutar o Eusébio que ele marca!”. Frase que repete quatro, cinco… dez vezes?

A pedalada dos treinos sofre altos e baixos, qual montanha-russa. Culpa de uns quererem estar sempre em alta rotação. E de outros olharem mais para o lado estratégico da coisa, como se estivessem pontos em disputa. “Isto é para treinar pá!”, desabafa um atleta. Mas é mais forte do que eles.

Falham-se poucos passes. Na peladinha há jogadas bonitas. Um toca, o outro recebe, devolve a bola, um outro parte disparado, um passe chega-lhe e o golo aparece. Parece fácil porque, para eles, com anos disto, é mesmo. “Há muita qualidade aqui. Mas agora já é muito difícil entrarem para a Segunda Liga”, lamenta José Carlos, treinador e homem do sindicato. A culpa nem é dos jogadores, explica-nos, enquanto nos acompanha em corrida, durante uma volta ao campo. Por esta altura, final de agosto, muitos plantéis já estão fechados e de malas aviadas para enfrentar a temporada. “Mas aguentam facilmente um Campeonato Nacional de Seniores, têm qualidade de sobra para isso”, resumiu Zé Carlos, como é conhecido, e a quem os jogadores tratam como um deles. “Oh Zé, é para cruzar como cruzavas para a cabeça do Magnusson?”, brincou Lourenço, tirando o pó aos tempos em que o hoje técnico era lateral direito do Benfica, na década de 90.

Hoje, aos 48 anos, é responsável por orientar quem não tem clube. E há um caso que o deixa perplexo. É o de Tininho, que “ainda há dois anos fez 30 e tal jogos no Atlético”. Este lateral, com uma história interminável, cheia de acasos, não jogou na temporada passada. “O telefone não tocou”, disse-nos, com uma naturalidade que gela. Formado no Estrela da Amadora, começou a jogar no Torreense, do terceiro escalão, clube que acabaria por abandonar porque a tropa o chamou. “Era injusto para os outros: não treinar, chegar ao fim de semana e jogar. Decidi sair”, admitiu.

Depois de uma passagem pela distrital, no Damaiense, chegou ao União Micaelense, nos Açores, onde ficaria três anos. O salto para o Beira-Mar acontece depois, graças a “uma brincadeira”. Uns “conhecimentos” conseguiram que o fossem observar — um colega conhecia o adjunto de António Sousa, então treinador do clube aveirense. “Tá quieto, não inventes”, disse-lhe, quando resolveu pegar no telefone e ligar. Era mesmo verdade: Tininho ia ser observado. Essa tarefa coube a Rebelo, na altura olheiro do Beira-mar na zona Sul. “Dei boas indicações e o telefone tocou. Eu nem queria acreditar”, contou. Só faltava a rubrica num contrato de três anos e a aventura começaria. E assim foi.

Na terra dos ovos moles partilhou balneário com Mário Jardel, um dos melhores avançados da história do futebol português. “Era impressionante, parecia que tinha íman. Bola na cabeça não dava hipóteses; havia um ressalto e quem aparecia? Jardel. Nas peladas então até dava raiva, as bolas batiam, faziam tabela e sobravam sempre para ele: pimba, lá para dentro!”, recordou, sorridente e espicaçado, como se tivesse sido ontem. E deixa escapar: “Mas quando os cruzamentos não saíam, pedia ao Inácio para ir correr à volta do campo…”

O telefone voltaria a dar sinais de vida. A cantiga era das boas. O West Bromwich, do Championship (segunda divisão de Inglaterra), queria contratá-lo. E lá foi ele. “As condições são incríveis, como um grande de cá: têm um estádio grande, para 30 mil pessoas, e um centro de estágio com nove campos”, enumera, antes de lhe atirarmos a pergunta inevitável: e o salário numa segunda divisão inglesa? “É astronómico. As pessoas não têm noção”, respondeu. O lateral titular, que supostamente estava de saída, acabou por ficar e Tininho teve problemas para se impor. “Acabei emprestado um mês ao Barnsley. Foi bom para ganhar ritmo, estava a jogar, estava bem”, lembrou. Portanto, queria ficar por lá. Até porque “eles iam jogar a Anfield, com o Liverpool, para a Taça”, mas uma súbita lesão do tal lateral fê-lo regressar ao clube de origem.

O defesa considera que seria positivo haver essa possibilidade de haver empréstimos de curta duração, fora das janelas de transferências, em Portugal. “Tive de voltar ao West Brom. Estava a treinar bem, estavam muito satisfeitos comigo, mas acabei por me lesionar com alguma gravidade. Voltei a cair.” O clube acabaria por subir à Premier League e o português não entrava nas contas. Surgiu a hipótese de ser emprestado a um clube da League One (terceiro escalão), mas Tininho rejeitaria: “É a coisa que mais me arrependo. Devia ter ficado em Inglaterra. Fui burro”.

"Se soubesse o que sei hoje tinha tentado prolongar [os estudos] o mais possível. Não cheguei a terminar o 12.º ano. Fui para Artes, gostava de ter sido arquiteto, adorava desenhos"
Tininho

De malas aviadas para Portugal, o jogador tinha tudo certo com o Leixões, mas o empresário ligou-lhe com uma oferta bombástica, com um salário quatro vezes superior ao que se pagava em Portugal: três anos de contrato com o FC Moscovo, da primeira divisão russa. “Era aquele clube onde jogava aquele do Barcelona, um avançado loiro…”, desabafa, ao esfregar os cantos à memória. “O Maxi López?”, perguntamos. “Isso!”, confirmou. A oportunidade tornou-se num impasse, com trocas de emails e mensagens que em nada resultaram. Tudo se complicou, e Tininho acabou por perder as duas ofertas. E ficou sem clube. Depois, só em dezembro, apareceu o Belenenses. “Aproveitei para voltar, para relançar a carreira”, explicou. E a viagem do luso-moçambicano ainda o fez passar pelo Steaua de Bucareste, Leixões, Portimonense e Atlético.

Quando tinha 18 anos, no início, os mais velhos diziam-lhe que “isto passava muito rápido”. Nunca acreditou. Não ligava sequer. ” Já é a segunda vez, tenho 33 anos… isto passa mesmo depressa!”, disse, com um sorriso de quem sente que o futebol não lhe deu o que merecia. Se o telefone não tocar — lá está, sempre o telefone –, o defesa ficará mais um ano sem jogar. A lengalenga do Beira-Mar quase se repetia agora, em 2014, mas uma lesão não permitiu o final feliz. “O Rodolfo, um guarda-redes que estava aqui, foi para o Fátima e falou em mim. Eles vieram observar um jogo, mas eu estava lesionado”, lamentou. O futuro passa por “treinar com miúdos”, para lhes transmitir o que aprendeu. E que conselho lhes daria? “Estudem!” Não hesitou.

O outro lado da moeda

Pensemos num lago. Se os jogadores são como peixes à espera de agarrarem o isco, os clubes, treinadores e olheiros são uma espécie de pescadores, na faina, à procura da melhor solução para encaixar no plantel. O 1.º Dezembro, um clube de Sintra que milita no Campeonato Nacional de Seniores, recebeu três jogadores do sindicato. Mas sobram dois, Marco Bicho e Semedo. Porquê? “O terceiro esqueceu-se de vir da Guiné, veio três semanas depois. Não ficou connosco.”, revela Paulo Mendes, ou Paulinho, como sempre foi conhecido no mundo do futebol. Em 1989/90 este ex-central foi suplente de uma das duplas históricas do Benfica — Aldair e Ricardo Gomes. Bicho atuou as últimas duas temporadas no Atlético, enquanto Semedo, talvez o mais conhecido, que deu nas vistas no Estrela da Amadora (2000-2006), tem andado longe de Portugal, nomeadamente pela Roménia, Chipre e Azerbaijão.

Paulinho, treinador do 1.º de Dezembro, clube de Sintra, foi pescar três jogadores ao estágio do sindicato. Um deles apareceu tarde, os outros dois chegaram e ficaram, embora sem a mesma rotação dos que já lá estavam.

Com ou sem retornos tardios, três jogadores arranjaram em Sintra um clube interessado. “Não foi necessário observá-los porque conhecíamos os jogadores, conhecíamos os homens, mas normalmente há observação. Sabia o que eles valiam e encaixavam nas características que nós queríamos”, argumentou o treinador. Semedo e Bicho, os que apareceram, “não chegaram mal”, apesar de não terem nas pernas a mesma intensidade dos outros. “É normal”, aceitou Paulinho, quando, dias antes, Carlos Dinis nos dissera que os jogadores “não sentiriam muito” a diferença.

Para o antigo defesa, o estágio do sindicato “é importante para os jogadores” porque “estão numa pré-época” e assim ficam “mais perto da competição, embora desempregados”. Sem conhecer a estrutura do sindicato, Paulinho considera que seria importante para os atletas continuarem a treinar: “É muito melhor do que andarem a treinar sozinhos ou em ginásios”. É isto que espera aos jogadores que finalizaram o estágio sem encontrar um cantinho para fazerem o que mais gostam. Ou para pagar contas. Ao todo, foram 22 os homens que a 31 de agosto ainda não tinham arranjado clube. Já no estágio da zona norte contaram-se 13 dos 28 que se inscreveram. A sorte, por enquanto, repartiu-se por 24, a sul, e 15, a norte, para quem o estágio do sindicato foi apenas um ponto de passagem ou um trampolim. Como Miguel Garcia, ex-defesa do Sporting e do Braga, que aos 31 anos encontrou poiso na Índia, ou João Paulo, avançado de 34 anos que andou pela Roménia e seguiu viagem para o Famalicão.

Dois exemplos que, no Jamor, terão dado nas vistas durante os amigáveis que o sindicato foi realizando com equipas profissionais. O 1.º Dezembro, por exemplo, esteve em dois jogos contra o sindicato, que acabaram 3-2 e 3-0. Sempre para os sintrenses. “Estiveram bem. São um grupo, mas vão saindo e entrando atletas. Há jogadores com qualidade para jogar numa Segunda Liga. Aliás, há jogadores com propostas para essa divisão, mas que preferem esperar pelo estrangeiro”, rematou o treinador do 1º Dezembro. O problema é se a espera não acaba.

Para Miguel não terminou, por enquanto. Esse mesmo, o lateral, o outrora velocista, a surpresa que, em 2004 e 2006, encantou a Europa e o mundo a cavalgar pelo flanco direito da seleção nacional e do Valência. O tal que, aos 34 anos, e após dois anos sem dar pontapés na bola, por opção, resolveu aparecer no sindicato para recuperar a forma perdida. Não o vimos, mas é ele que dá a última prova para se ir buscar talvez o maior cliché: acontece aos melhores. Ou aos que já foram do melhor. Miguel terá sido dos poucos, um entre a “meia dúzia”, que foge à regra que Carlos Dinis aplica ao futebol em Portugal: fora dos grandes, os jogadores vão sobrevivendo. “É sempre na base da luta e das contas”, lamentava Moreno, a não ser que “se tenha sorte, arranje um bom clube, vá para fora singrar e não tenha lesões”, como desenhava Tininho. Ou tudo pode acabar em “frustração”, chegou a dizer-nos, a dois dias de um final anunciado: “Se não arranjarmos nenhum sítio para treinar, vamos perder todo o trabalho que fizemos aqui.” O fado de muitos destes jogadores é incerto. É sempre…

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