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Três Tristes Tigres: isto não é um regresso, é nascer de novo /premium

De onde vem o novo disco de um dos grupos mais criativos e misteriosos da canção pop portuguesa? "Mínima Luz" está quase a chegar e Ana Deus e Alexandre Soares apresentam-no em entrevista.

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Nunca ninguém soube começar. Hesita-se. Finge-se que se tosse. Pensa-se que talvez não acrescente nada ou que talvez possa só ficar para nós e para os amigos, dentro de casa. Tomar decisões sempre foi causa de grandes enxaquecas, essa é que é essa. No limite, os Três Tristes Tigres podiam nunca ter existido. Porém, talvez como um familiar que nos inscreve num programa de televisão para o qual não tivemos coragem de nos candidatar – só talvez, ok? –, Regina Guimarães (poetisa, letrista, dramaturga, cineasta, entre tantas outras ocupações) tratou de fazer com que eles existissem. É por isso que agora aqui estamos a celebrar o lançamento do terceiro single, “Língua Franca”, do seu novo disco Mínima Luz, que tem data de edição para daqui a uma semana, a 1 de Maio.

Voltemos a recuar. Estávamos no início da década de 90, no Porto, e Ana Deus era segunda voz nos Ban “e, pronto, a Regina andava sempre a dizer aquelas coisas do ‘faz mas é um disco tu, eu faço-te as letras’”. Empurrão puxa empurrão e Ana Deus lá se precipitou, lá decidiu avançar. “Foi a Regina que me motivou. Depois as coisas foram andando com várias parcerias na composição, fixou-se para o primeiro disco [Partes Sensíveis, 1993] a colaboração com a Paula Sousa, pianista. Entretanto o Alexandre – que já tinha participado no primeiro disco em alguns dos temas apenas – e eu, já sem a Paula, fizemos a versão do ‘Anjinho Azul’, do Variações e acabou por ser um bom começo porque ainda hoje gosto muito dessa versão. E a partir daí começámos a trabalhar juntos e à procura de uma comunicação entre os três, até hoje é um bocado isso a comunicação entre os três”, conta Ana Deus.

[“Língua Franca”:]

Alexandre Soares – que também confirma ter chateado bastante Ana Deus para fazer um projeto seu e largar os Ban, ainda antes de tocarem juntos – que fundou os GNR e que conhecia Ana Deus e Regina Guimarães da noite, da música e das ruas de um Porto menos sobrelotado, depressa integrou a banda e, com a saída de Paula Sousa, os Tigres voltaram a ser três. A Partes Sensíveis seguiu-se Guia Espiritual (1996), Comum (1998) e ainda uma compilação de vários temas a que decidiram chamar Visita de Estudo (2001). Depressa se percebeu que os Três Tristes Tigres tinham um selo distinto e inconfundível, uma exploração experimental que usava e abusava da união entre guitarras e eletrónica, sempre deitada sobre textos e letras de valor maior e ao som de uma voz com um nível de interpretação riquíssimo.

Que mundo é este aos pés dos Tigres?

Esta imagem talvez não ligue bem com a sua mais célebre canção (a par de “Zap Canal”, talvez), que sempre a si será associada e que pode, por ser tão distinta das outras – é uma coisa muito mais viva e colorida do que o restante material – induzir em erro. Os Três Tristes Tigres não são só pop, nem nunca vão ser. É um pouco como aquele ator com um currículo invejável que é constantemente abordado na rua por um anúncio publicitário que fez e que nada diz sobre o seu trabalho. E isso pode irritar, sim, mas não eternamente:

‘O Mundo a Meus Pés’ é uma canção feita praticamente a partir da voz e da letra, por isso é que é tão facilmente trauteada e é bastante diferente das outras todas, calhou ser o single e ter o vídeo e assim. Quando começámos a fazer os concertos depois do Guia Espiritual ela era tão diferente das outras, e de alguma forma não era o som que estávamos a fazer, que nunca a tocávamos. Nos concertos que fizemos em 2017 e onde juntámos uma banda Tigre para fazer isso, começámos a incluir ‘O Mundo a Meus Pés’ porque já não tínhamos essa questão, essa questão acabou com o tempo, o tempo tudo cura, as canções estavam todas para trás e já tínhamos possibilidade de fazer novamente e fazer de outra forma”, assume Ana Deus.

"Não tinha coragem suficiente para fazer melhor, pus-me em questão e depois resolvi ficar em casa mais tempo. A banda cresceu muito, as composições cresceram muito e eu e a minha voz não crescemos tanto como a banda. Acho que fiz bem."
Ana Deus

A coisa foi avançando, os seus rugidos foram ecoando e deixando marcas profundas nos melómanos portugueses dos anos 90. E depois, como uma planta que perde o fulgor e deixa de beber água, os Três Tristes Tigres acabaram. Foi pouco depois do último objeto editado, a tal compilação Visita de Estudo, portanto, pouco depois de 2001. Ana Deus já havia feito o Guia Espiritual grávida e a casa, a urgência em ser mãe (já lá iam três pequenos), chamava por si. Mas não só: “Comecei a achar, aos poucos, que a diferença entre os concertos e os discos era muito grande, comecei a achar que não estava a cumprir decentemente o meu papel e que não estava a fazer grande coisa. Isso aliado ao facto de ter a família em casa a precisar de mim… Foi um bocadinho as duas coisas, não tinha coragem suficiente para fazer melhor, pus-me em questão e depois resolvi ficar em casa mais tempo. A banda cresceu muito, as composições cresceram muito e eu e a minha voz não crescemos tanto como a banda”. “Acho que fiz bem”, confessa.

[“Galanteio”:]

E assim foi, o primeiro fim. Alexandre Soares virou-se para música para dança, música para cinema e teatro, pequenos espectáculos. Ana Deus começou a trabalhar menos e disse poesia umas vezes, apresentações que dispensam ensaios em grupo e muito tempo fora de casa. Cada um para seu lado. Mas os lados, ah os lados, os lados têm muito que se lhe diga, quantas vezes não viram centro, não se desviam sem que a gente saiba.

Juntos até ao tutano

As reuniões emergem sempre da inocência, talvez de uma certa ingenuidade em pensar que fazendo algo novamente juntos, que traga gosto e prazer, tudo ficará por aí. Alexandre Soares convidou Ana Deus para um concerto e puf: “As coisas começam sempre com uma situação concreta. E, a partir desse concerto, a coisa foi fixe, gostámos e então continuámos e achámos bem fazer aquele formato de guitarra e voz, só os dois, fazer uma coisa mais leve e foi bom porque me deu, novamente, alguma rodagem. Gosto particularmente de fazer coisas pequenas”, explica Ana Deus. E assim estavam formados os Osso Vaidoso, nova formação ou nova pele dos Tigres.

Alexandre Soares e Ana Deus, de volta enquanto Três Tristes Tigres, 22 anos depois do último álbum

Projeto mais reduzido, minimal, simples, que prova como nem todos os meses queremos o grande e a galáxia inteira. Daí saíram dois discos, Animal (2011) e Miopia (2016), e saiu também a vontade de prosseguir. Será que podemos dizer que foi o Osso Vaidoso o culpado por esta nova vida dos Três Tristes Tigres que agora se efetiva? “Ou os Tigres se calhar é que são uma segunda vida do Osso, pode ser mais isso, percebes? Já estávamos a trabalhar e depois falámos em trabalhar outra vez para uma coisa maior, desenvolver mais”, responde Alexandre Soares.

Percebe-se. Não queremos habitar a simplicidade uma vida inteira. “A vontade do som maior já existia, principalmente no Osso [Vaidoso], e a vontade de tocar com mais gente”, conta Ana Deus. Aquilo que antes era guitarra e voz estava a deixar de o ser no momento em que recebem um convite para tocar o Guia Espiritual no Rivoli, em 2017. “Fomos apanhados completamente de surpresa, estávamos num ensaio quando nos telefonaram e não estávamos a contar nada com aquilo, até porque temos aquela mania de não voltar atrás, a mania de não nos repetirmos, essa mania continua, agora a questão do nome [a questão de voltarem a atuar e a gravar como Três Tristes Tigres] tem uma carga… Tem um património e uma ligação com as pessoas, houve pessoas que cresceram com aqueles discos, que têm carinho por eles e há que.. não é aproveitar, mas respeitar isso”, diz a cantora.

A pós-vida do Osso Vaidoso

Assumimos, desde já, o nosso erro. Afinal, estamos sim perante a continuação dos Osso Vaidoso e não o regresso dos Três Tristes Tigres. Não estamos nada. Mas estamos, isso sim – e a sério – a reiterar que são as mesmas pessoas, aquelas que durante um período de dois anos, empurradas por esse concerto em 2017, voltaram a estúdio para nascerem outra vez: “A ideia foi mesmo fazer tudo de novo e procurar um som novo, um som que nos reflita hoje, que seja próximo daquilo que somos, que tenha esse reflexo, que não seja uma coisa ‘eu antes era assim e agora vou fazer assim’, sem esse discurso interno, no fundo. A Ana traz o que é hoje, eu trago o que sou hoje, com a eletrónica que faço hoje, que é muito diferente daquela que fazia na altura, que era muito baseada em sampler e que hoje é mais modular, depois samplo, depois processo, trato da mesma forma como trato as minhas guitarras, um bocado rude. Um som que concluíssemos que valia a pena”, clarifica Alexandre Soares.

"Estamos a ser otimistas e pode ser que no final do verão se consiga. E, entretanto, os temas estão disponíveis para ouvir e estarmos com o disco pendurado mais tempo não fazia sentido, assim estão em casa e vão ouvindo", dizem os Três Tristes Tigres.

Foi no passado mês de novembro que ficámos a saber que aí vinha este Mínima Luz. O primeiro single, “Galanteio”, é o tema de abertura do disco e reúne bem a linguagem de um objeto que, por sugestão de Ana Deus, gravita em torno da ideia de outro lugar, “fora do espaço e do tempo”, como se pode escutar logo aqui, uma não-realidade, onde não cheguem as notícias, a luz seja outra e os dias diferentes. E isso, para Ana Deus, manifesta-se, por exemplo, através da ideia de profecia:

“A profecia evoca e pode evocar coisas melhores do que aquelas que estão. É curioso, nunca tive a necessidade de justificar as letras de um disco ou dizer que nos queremos separar um bocadinho da realidade, talvez seja porque a realidade não fosse tão avassaladora. Não havia só um tema, agora estamos todos colados a um tema por dia, a um tema por semana – e agora até temos um tema para não sei quantos meses. Queríamos que fosse algo onde conseguíssemos coabitar os três e que passasse por cima de todas as coisas e dos tempos”.

Outra característica bastante evidente no disco é uma espécie de via-dupla, isto é, duas velocidades que quase que nos podiam – nestas manias muito irritantes de jornalista – fazer dividir o disco ao meio. Se “Galanteio”, “À Tona” (segundo single, disponibilizado no início de Janeiro), “Purpurina” (escrita por Luca Argel), “Estado de Espírito” e “Surrealina” (escrita por Ana Deus) parecem percorrer um terreno mais pesado, atribulado, rockeiro, “Jasmim”, “Língua Franca”, “Tigre”, “Curativo” entre outras, parecem ter sido feitas para alguma peregrinação naturista ou, pelo menos, para habitar uma casa de árvore onde será sempre difícil cozinhar, algo bem mais introspetivo e ambiental que o restante.

[“À Tona”:]

Mas também sobre este assunto, ainda que concorde, Alexandre Soares reafirma que nada foi planeado: “As coisas aconteceram. E digo-te que algumas dessas coisas mais primárias até vieram do Osso [Vaidoso], aquelas guitarras minimais e um bocadinho duras, foram coisas que fui desenvolvendo e que agora andam comigo. As outras coisas também andam, mas sim, faz pensar naquela coisa antiga do lado B do vinil, este disco tem claramente um outro lado, sim, e de que gosto imenso, mas que não anula o outro. Andam sempre próximos, às vezes estão mais perto, outras estão mais distantes e há aqui temas que, realmente, parecem sair de outro sítio, mas não é uma fuga. E, se calhar, até saem, mas são as mesmas pessoas, queria aqui garantir que são as mesmas pessoas. Não sei o que quer dizer em termos médicos, mas pronto”.

Um presente, na volta do correio

Agora que já temos a palavra dos próprios que isto foi tudo feito por eles, talvez possamos acrescentar mais dados em relação a Mínima Luz. Há a participação de Fred Ferreira na bateria, do baixista Rui Martelo, a percussão de Gustava Costa e a harpa de Angélica Salvi. As letras, além daquelas que anteriormente já mencionámos, ficaram a cargo de Regina Guimarães, que ainda traduziu – daquelas traduções que lhe conhecemos e que nunca são meras traduções – um poema de William Blake e outro de Langston Hughes. Sobre este último, adianta Ana Deus:

“Olha, o ‘À tona’ eu tropecei no poema do ‘Life is Fine’ do Langston Hughes assim por acaso. Achei muito luminoso, uma pessoa que pondera o suicídio, que depois, naquele momento, se arrepende ou porque a água está fria ou porque o prédio é alto ou algo do género. É séria e divertida, é estranho, uma coisa séria, mas que tem sentido de humor. Pedi à Regina para fazer uma tradução-versão e gosto muito”.

Já em relação à faixa que encerra o trabalho, “Surrealina”, Ana Deus admite que é uma escrita surrealista: “Aquilo é o meu amor pela medicina, pelos medicamentos, pelos comprimidos, pelos remédios que nos põem bem-dispostos, é o meu desejo que eles estivessem mais disponíveis e que os médicos não fossem tão moralistas. É a minha profecia. É o meu amor à química”.

E esta é uma canção que parece ser muito adequada para estes novos tempos atribulados, que também tocam aos Três Tristes Tigres, com certeza desejosos de voltaram a nascer ao vivo. “Estamos a ser otimistas e pode ser que no final do verão se consiga. E, entretanto, os temas estão disponíveis para ouvir e estarmos com o disco pendurado mais tempo não fazia sentido, assim estão em casa e vão ouvindo e fazemos a venda online, basta mandarem-nos um mail para correiosdostigres@gmail.com e eu tenho os CTT e vou lá levar e assino e tudo, mando beijinhos”. Também nós mandamos: beijinhos, Tigres. Até já.

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