“Tudo aquilo que se apresente difícil a outros, será fácil para si”: as cartas que Gulbenkian escreveu ao neto /premium

11 Julho 2019

Em plena Segunda Guerra Mundial, Calouste Gulbenkian responsabiliza-se pela educação do neto, Mikaël. O Observador faz a pré-publicação do livro que reúne a correspondência trocada entre ambos.

O ano é 1940. Calouste Gulbenkian está em Lisboa e o único neto, Mikaël Essayan, estuda num colégio interno britânico. Os pais de Mikaël vivem na Paris ocupada pelos nazis e é o empresário e filantropo que se encarrega da educação do jovem. “A Educação do Delfim” é o livro que junta a correspondência trocada entre os dois mas que também revela o ambiente familiar em que Mikaël vive, mesmo que assim aconteça à distância. O tio que procura concretizar vontades duvidosas, um avô preocupado mas controlador e os pais ausentes.

A edição é da Tinta-da-China, o livro é colocado à venda esta sexta-feira, dia 12, e o Observador faz a pré-publicação de “A Educação do Delfim”, revelando algumas das cartas agora publicadas.

O livro chega às livrarias esta sexta-feira, dia 12

HOTEL AVIZ

Lisboa, 21 de junho de 1942

Meu querido Mikaël,

A sua carta de 8 de junho chegou às minhas mãos e li-a com grande prazer. Ficará decerto feliz ao encontrar a carta de sua Mãe, aqui inclusa. Ela pôde escrever-lhe e confiar a carta a amigos vindos de Paris. Como sabe, é atualmente muito difícil, senão mesmo impossível, manter correspondência com Paris, mas toda a família se encontra bem, e o seu Pai, que deve visitar-me na próxima semana, sem dúvida também lhe escreverá.

Apraz-me estar agora mais perto de si, terei assim mais ocasiões de lhe escrever e de lhe transmitir conselhos que resultam da minha experiência de vida, pois é chegado o momento de o Mikaël aprender a orientar-se. Sinto-me, naturalmente, muito satisfeito por ter obtido dois prémios, um em matemática e outro em gramática latina e grega, embora os prémios não sejam o mais importante. Repito isto, como aliás julgo já o ter afirmado na minha última carta, para que a legítima satisfação por si experimentada não o incite a aliviar os esforços para fazer sempre melhor. Neste momento já tem idade suficiente para se colocar diante de si próprio e fazer um exame de consciência, questionando seriamente, rigorosamente, se de facto fez “your best”. Por vezes acontece obtermos prémios porque os concorrentes eram demasiado fracos, e tal não deve ser ocasião para nos tornarmos “bumptuous”. A Providência dotou-o de uma inteligência que facilita o seu trabalho. Se aferir a qualidade dessa inteligência pelo número de prémios que vier a obter, pouco a pouco, inconscientemente, o seu rendimento estagnará.

Resumindo, insisto para que, no próximo período letivo, imprima ardor, zelo e gosto ao seu trabalho, de modo que, ao questionar a sua consciência, esta possa responder: “Estou satisfeita contigo, pois deste o melhor de ti mesmo”. Não deve contentar-se com a sua inteligência natural pela simples e banal satisfação de obter “prémios”.

Em relatório, os seus professores permitir-me-ão constatar se o Mikaël tirou bom partido de tudo o que aqui escrevo, e o seu Avô ficará então muito feliz, pois para ele o seu neto terá conquistado mais do que prémios, terá empenhado toda a sua alma no trabalho. Não pode imaginar a felicidade que mais tarde experimentará, uma vez adquirido não apenas o hábito, mas o amor pelo trabalho. Tudo aquilo que se apresente difícil a outros, será fácil para si, e poderá ultrapassar as dificuldades encarando-as como um desporto.

Não quero mais tratá-lo como uma “criança pequena”, antes como um jovem adulto, agora consciente das suas responsabilidades.

"Guarde as minhas cartas num pequeno dossiê, uma vez que irei escrever-lhe com frequência. Espero que as leia e releia muitas vezes, pois elas são ditadas pela minha ternura por si e pelo meu desejo de o guiar nesta vida da qual conheço não só as possibilidades, mas também as armadilhas."

Como sabe, quando chegou o momento de decidirmos se iria para Cambridge ou para Oxford, aconselhei o seu Tio a consultá-lo. Cabe-lhe a si refletir, pedir conselho aos seus professores e, em seguida, tomar uma decisão com pleno conhecimento de causa. Sem dúvida, trata-se de um grande voto de confiança que deposito em si, porém tal não deverá enchê-lo de orgulho. Pretendi simplesmente tratá-lo como um homenzinho que tem de saber refletir longamente antes de tomar decisões.

Saber refletir é uma das qualidades que mais desejo inculcar-lhe, dessa faculdade decorrem muitos fatores tão importantes, tão indispensáveis quanto a inteligência. A inteligência, os sucessos escolares, por si só, não garantem o brilho da sua carreira futura. Quero que a partir de agora adquira progressivamente o hábito do recolhimento e da reflexão, e isto em todos os sentidos. A inteligência, quando é mal orientada e não a acompanham qualidades de reflexão e de moral, pode levar aos piores desastres.

É preciso que, na sua escola, o respeitem não apenas por ser um rapaz inteligente, mas sobretudo pelas suas qualidades morais de modéstia, simplicidade, disciplina e boa camaradagem.

Se as cultivar, estas qualidades desenvolver-se-ão consigo, sem que disso se dê sequer conta, e dessa maneira conquistará um lugar no mundo, que lhe merecerá não apenas o respeito, mas igualmente a estima e o afeto dos outros.

Guarde as minhas cartas num pequeno dossiê, uma vez que irei escrever-lhe com frequência. Espero que as leia e releia muitas vezes, pois elas são ditadas pela minha ternura por si e pelo meu desejo de o guiar nesta vida da qual conheço não só as possibilidades, mas também as armadilhas.

Por hoje é suficiente e assim o deixo, meu querido Mikaël, com um beijo muito afetuoso.

Calouste S. Gulbenkian

Bend Mead

Box, Wiltshire, Sexta-feira, 18 de setembro

Querido Avô,

É com alegria e sincera gratidão que recebo mais uma das suas cartas, repletas de conselhos que, se eu souber aproveitar, e farei o meu melhor por alcançar esse objetivo, serão sem dúvida um guia e um amigo para toda a minha vida.

Aprendi a definição de “gentleman”, não como um papagaio, mas só depois de lhe ter apreciado o magnífico alcance, e procurarei pôr em prática todos aqueles princípios ao longo da minha vida.

A minha cirurgia correu muito bem; fiquei num quarto muito bonito na Clínica de Londres, e toda a gente foi muito boa para comigo. Enquanto estive na Clínica, a Miss Mends veio ver-me duas vezes por dia e fez várias coisas por mim. Reencontrei o Doutor Mennell na terça-feira passada, e ele mostrou-se muito satisfeito com o resultado da operação. Quanto a mim, respiro agora com mais facilidade e sinto-me bem melhor.

Tenho pensado bastante, sobretudo recentemente, que gostaria de estudar direito e tornar-me advogado. É uma profissão que me parece muito interessante, e gostaria de ouvir a sua opinião e os seus conselhos sobre o assunto. Contudo, aos 15 anos, não posso ainda tomar uma decisão definitiva.

Espero que o Avô tenha passado um verão agradável no Bussaco e que tenha descansado como deve ser. Voltarei a escrever-lhe quando regressar à escola.

Um beijo de todo o meu coração,

Mikhaël

HOTEL AVIZ

Lisboa, 15 de janeiro de 1943

Meu querido Mikaël,

Li com prazer a sua carta de 30 de dezembro. Aguardo o relatório dos seus Professores e, conforme já lhe escrevi, pressinto que será excelente. Tenho a certeza de que o Mikaël compreendeu o alcance dos conselhos que lhe transmiti, e o resultado só pode ser o que antevejo.

Os seus bons resultados escolares são sem dúvida um feito excelente. Longe de mim pensar em diminuir-lhes a importância, bem pelo contrário, quero vê-lo prosseguir nesse caminho com o entusiasmo de sempre. No entanto, há um aspeto fulcral a que gostaria de regressar, aprofundando-o: a “vertente moral” da sua educação.

No meu pensamento, esta “vertente moral” ultrapassa os limites bastante estritos que lhe são conferidos pela educação religiosa, pois ao culto do bem eu associo intimamente o culto do belo. Trata-se de elementos imponderáveis, mas cuja presença simultânea constitui para a alma humana uma fonte de inspiração inesgotável. Os grandes homens da ciência, os grandes mestres da Arte, nasceram dessa fonte de inspiração. A moral tal como a ensina o catecismo é um escudo eficaz contra as armadilhas da vida, e quando num mesmo ser ela se une ao culto do belo, este ficará espiritualmente ainda mais elevado.

A inteligência com que a Providência o dotou não dará todos os frutos se não for sustentada por uma sólida base moral. Se essa base moral for insuficiente, a integridade da sua inteligência sofrerá as consequências. Em contrapartida, se for robusta e sã, servirá como o melhor dos trampolins para os seus conhecimentos intelectuais, assegurando o seu pleno desenvolvimento. Porém, ao mesmo tempo que se enriquece a mente com novos conhecimentos, também aquela vertente deve ser cultivada. É assim que uma árvore plantada num terreno trabalhado e bem fertilizado, caso não receba a água necessária para impregnar bem a terra com estas substâncias nutritivas, definhará e morrerá. A água está para a árvore como a vertente moral para o ser humano.

"Se conseguir ser simultaneamente simples e grande, se tomar realmente como seus estes sentimentos de dignidade, de modéstia e de respeito pelos outros — seja qual for o seu estatuto social —, conquistará para si a estima, o afeto e o respeito de todos. Nesta vida, mais do que possa imaginar, isso é um feito inestimável."

A sua inteligência, a sua cultura, por um lado, e, por outro lado, o sentimento do dever, do belo, da dignidade, da probidade, do respeito por si mesmo e pelo outro, devem compor um todo harmonioso, fazendo de si um “ser humano de elite”.

Por todos estes motivos, não hesito em afirmar que a vertente moral da sua educação tem uma importância ainda maior do que os seus estudos académicos, pois será ela que lhe conferirá, ao longo de toda a sua vida, um juízo são e equilibrado. Simultaneamente, a vertente moral desencadeará uma espécie de entusiasmo, de atração pelo belo, pelo bem, os quais serão a luz e a seiva da sua felicidade.

Aos poucos, esta busca constante da beleza, do verdadeiro, do bem, permitir-lhe-á identificá-los onde os olhos da maioria dos seres humanos não veem, e assim experimentará uma profunda e sempre renovada satisfação, como uma fonte viva que brota sem cessar. Mais tarde, esta procura fará de si um homem grande, superior, não apenas devido à sua cultura, mas, melhor ainda, devido ao seu coração, um homem para quem as vaidades e a mesquinhez humanas são estranhas. E, se conseguir ser simultaneamente simples e grande, se tomar realmente como seus estes sentimentos de dignidade, de modéstia e de respeito pelos outros — seja qual for o seu estatuto social —, conquistará para si a estima, o afeto e o respeito de todos. Nesta vida, mais do que possa imaginar, isso é um feito inestimável.

Todos estes elementos dependem intimamente uns dos outros.

Foi neste sentido que quis hoje escrever-lhe, pois, apesar de me regozijar perante os seus sucessos escolares, não quero que se sinta tentado a esquecer ou a menosprezar as restantes facetas da sua educação, que acabo de explicar. Uma inteligência que não se submeta a estas leis morais torna-se estéril e mais ou menos desequilibrada. Pode mesmo tornar-se perigosa e, desprovida desse freio que são as virtudes morais, conduz quase sempre ao desastre.

A minha longa experiência de vida e o meu desejo de o ver alcançar uma carreira de sucesso e beneficiar ao máximo dos seus dons naturais levam-me a retomar, infatigavelmente, este assunto, cuja extrema importância pretendo transmitir-lhe sem equívocos. Não pense que tal implica da sua parte o cumprimento de sacrifícios penosos, antes pelo contrário, a cada vitória conquistada sobre si mesmo, sobre determinadas propensões, experimentará uma verdadeira e profunda satisfação.

Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955)

O culto do belo irá revelar-lhe, a cada passo da sua vida, novas alegrias que alimentarão subtilmente os seus conhecimentos intelectuais e lhe abrirão vastos horizontes. E mais tarde, ao atravessar períodos difíceis — como é destino inelutável de todos os seres humanos — obterá nos recursos da sua mente e da sua alma, grandes consolações, pois terá em si uma força interior que lhe permitirá resistir às correntes desfavoráveis e manter, em quaisquer circunstâncias, a cabeça levantada e o coração valente, e, passada a tempestade, terá a íntima satisfação de se encontrar de novo no caminho bom e correto.

Trata-se de um método seguro de atingir essa elevação, é simples, basta que saiba “colocar-se diante de si próprio”, basta que consiga fazer, com a maior frequência possível, o seu exame de consciência e que, sem qualquer fraqueza, percorra o seu próprio caminho. Se souber escutá-la, a voz da sua consciência nunca o enganará nem iludirá. Será ela a mostrar-lhe, ao longo de toda a sua vida, o caminho no qual tanto desejo ver o homenzinho que é comprometer-se, para bem da sua felicidade futura e da de todos aqueles que o amam.

O Mikaël está na idade propícia para acolher a boa semente de todos estes princípios. Sem se aperceber, progressivamente, estes princípios florescerão e farão de si um homem feliz.

Por hoje termino aqui a minha carta. Quando tivermos enfim a felicidade de nos reunirmos, retomaremos estas conversas. Por ora, ainda vamos no estádio preliminar, pois como sabe todos estes problemas contemplam vastos horizontes, porém gosto de orientar os seus primeiros passos no longo caminho que eu já percorri.

Um beijo, meu querido Mikaël, muito afetuosamente.

Calouste S. Gulbenkian

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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