UE. Weber começou os 12 trabalhos de Hércules na terra onde um alemão não pode ser herói /premium

24 Abril 2019

Weber escolheu Atenas para provar que não é um alemão austero. O candidato do Partido Popular Europeu ao lugar de Jean-Claude Juncker na Comissão Europeia, usou o "poder de We" para atacar Tsipras.

Reportagem em Nemeia e Atenas, Grécia

Manfred Weber foi da Alemanha à Grécia para criar a sua própria mitologia. Mas a história não corre a favor de um alemão em Atenas. O candidato do Partido Popular Europeu (PPE) à Comissão Europeia propõe-se a ser uma espécie de Hércules, com a difícil missão de o deixarem de ver como “o alemão” e o passarem a ver como o líder europeu que deixa a austeridade no passado. No dia do arranque da campanha, Weber quis mostrar força, ele que tem como slogan “the power of We”. We, de “nós”; We, de Weber. No Zappeion, bem no centro de Atenas, apresentou as 12 promessas para o mandato, uma espécie de doze trabalhos de Hércules, que  vão desde a criação de um FBI anti-terrorismo à criação de cinco milhões de empregos para jovens.

Num dia em que esteve acompanhado por três dezenas de jornalistas de orgãos de comunicação social europeus, incluindo o Observador, Weber começou o dia na Nemeia Antiga. Foi ali, reza a mitologia, que Héracles (o nome grego e original de Hércules) fez o primeiro dos seus trabalhos: vencer o Leão de Nemeia. Weber quer vencer a ideia de que não é um leão da austeridade. Foi isso que seria chamado a justificar logo na primeira visita da manhã. Do púlpito do Zappeion explicaria o principal motivo para arrancar a campanha em Atenas: “Foram os gregos que inventaram a democracia”.

“Uma das coisas boas da campanha, é que bebemos bom vinho”

Weber provavelmente não sabe, mas a última campanha europeia dos partidos que o apoiam (PSD e CDS) ficou marcada por visitas a caves e adegas de vinho. Ora, na ida a Nemeia, o ponto principal seria mesmo a visita à cooperativa de produtores de vinho local. Mas o país ainda está na ressaca da crise. Talvez por isso alguns jornalistas gregos questionassem incrédulos o facto de Mitsotakis ter aceitado fazer campanha ao lado de Weber, sendo ele um rosto da pressão da Alemanha sobre a Grécia. Ambos tentaram justificá-lo ainda antes de um almoço austero: rápido, em pé e de pouca variedade. Mas com vinho.

Um dos jornalistas, na introdução a uma pergunta, lembrou que Weber é visto como uma das pessoas que no passado “defendeu a saída da Grécia da zona Euro”. De seguida, questionou-o se tinha mudado de ideias, o que Weber negou. O candidato do PPE garantiu que foi uma das pessoas que “lutou fortemente para manter a Europa unida” e ainda garantiu que será contra qualquer expulsão da zona Euro. Mas fez uma ressalva: “Não lhe vou mentir, sou a favor do rigor das contas públicas e de orçamentos equilibrados, porque só assim é que é possível uma Europa forte e eu defendo uma Europa forte”.

Rodeado de pipas e garrafas de vinho, Weber não teve problemas em admitir que se vê como “um sucessor de Jean-Claude Juncker, que lutou por uma comissão menos burocrata, mais política, que se envolve diretamente nos assuntos.” E para os detratores de Juncker, que o acusam de ir para atos oficiais oficiais alcoolizado, ainda deixou outra farpa: “Uma das coisas boas da campanha, é que bebemos uns copos de bom vinho”. Weber garante que não alinha nas generalizações (como as que dizem que os povos do sul gastam o dinheiro em mulheres e vinho) e costuma dizer que a Baviera, de onde é natural, é mais perto de Milão do que de Berlim.

Weber numa adega da cooperativa de Nemea. OBSERVADOR

Mas a frase não veio do nada. Weber tinha acabado de visitar um armazém de vinho, onde ouviu a mensagem que os gregos lhe queriam passar: a Grécia não é só turismo. Foi-lhe explicado que o vinho é um dos principais produtos que o país exporta e que 60% do vinho produzido é branco, contra apenas 40% de tinto. O líder da oposição grega, Kyriakos Mitsotakis, aproveitou para mandar uma achega ao Governo, dizendo que há um imposto absurdo sobre o vinho que quer abolir.

Weber, como bom alemão, perguntou se os gregos não bebiam cerveja. Mitsotakis respondeu de imediato: “A cerveja para nós é mais uma bebida de verão, é algo fresco”. Minutos depois, já a falar aos jornalistas, o líder da oposição grega (líder da Nova Democracia, de centro direita e membro do PPE) explicava que o objetivo é demonstrar que “a Grécia não vive só do Turismo, também vive de agricultura de alta qualidade“.

Durante a crise, em 2010, dois deputados alemães da CDU (partido-mãe da CSU de Weber) chegaram a dizer que a Grécia devia vender algumas das suas ilhas para pagar a dívida. Nessa época, o ambiente entre Berlim e Atenas (liderado pelo PASOK de Papandreou) estava crispado. As feridas ainda estão abertas e, mesmo sem querer, o candidato a Juncker e a Hércules teve de começar por se defender do passado alemão.

Um alemão e um grego entram numa adega (onde não está Tsipras)

O PPE costuma fazer congressos — para ajudar a puxar pelos seus candidatos — em países onde há eleições nacionais. Em Malta em 2017, na Finlândia em 2018, e este arranque da campanha em Atenas também tem esse objetivo: ajudar Kyriacos Mitsotakis a ganhar as legislativas, que vão ser em 2019 na Grécia. Weber não teve pudor em atacar o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras. “Fala-se muito dos perigos do populismo, mas a Grécia já vive um período de populismo. [Tsipras] prometeu o que não podia cumprir e a isso chama-se populismo. O Kyriacos [Mitsotakis], tal como eu, quer começar um novo capítulo na Europa, o dos políticos que não prometem o que não podem cumprir. E isso o Kyriacos não faz”, referiu Weber.

Mitsotakis reforçava pouco depois que a Grécia foi o “país que mais sofreu com populismos” e lembrou que “os populismos tanto podem vir da extrema-direita como da extrema-esquerda”. Os jornalistas gregos continuavam atónitos sobre como Mitsotakis pode achar que fazer campanha ao lado de Weber é bom. O líder da oposição grega explica que “não entra nessa lógica de nacionalidade” e responde assim a Alexis Tsipras que há três dias descreveu o candidato alemão como “anti-grego”. O primeiro-ministro lembrou no Twitter que um voto em Mitsotakis era um voto no “anti-grego” Weber e a favor de uma “Europa autoritária e racista” e com uma inspiração “profundamente liberal”.

Manfred Weber responde a estas acusações dizendo que os políticos que o acusam de se aproximar da extrema-direita estão a acusá-lo “com base na sua nacionalidade”, quando os valores que defende são precisamente de “lutar contra esse tipo de estereótipos”. Na verdade, a troca de farpas entre Weber e Tsipras não é nova. O alemão já esteve este ano em Atenas e, em fevereiro, disse que é “uma tragédia ver como o governo grego está a comportar-se a nível europeu” acusando Tsipras de estar mais próximo “de [o presidente russo, Vladimir] Putin e de Maduro do que do mundo livre democrático.”

Sobre o facto de Weber ter discordado várias vezes no passado de Mitsotakis, o candidato a presidente da comissão disse estar “muito orgulhoso” de ter gerido durante “cinco anos o maior e mais unido grupo do Partido Popular Europeu”. Enalteceu ainda o facto de nem sempre estarem de acordo no PPE, mas haver sempre uma discussão aberta e concluiu: “Há outras famílias políticas, como os socialistas, muito mais conflituosas.”

Os 12 trabalhos de Weber, o filho da ‘deusa’ Merkel

Na mitologia grega, Hércules era filho de Zeus e de uma mortal, Alcmena. Manfred Weber, que escolheu a terra de Hércules para lançar a sua candidatura, é apenas afilhado (político) de Angela Merkel. A chanceler tem sido endeusada pelo Partido Popular Europeu, embora já tenha mostrado que também é finita na liderança da Alemanha e já anunciou o abandono. Por muito que se esforce, é difícil Weber deixar de ser visto como um delfim. Mas com este “poder de We” faz doze promessas ambiciosas para o seu mandato como presidente da Comissão Europeia:

  1. Criação de um FBI europeu para combater o terrorismo – A ideia de Weber é duplicar o pessoal da Europol e transformá-lo num verdadeiro “FBI europeu”, onde equipas investigação congregam toda a informação sobre criminosos e pessoas radicalizadas. O objetivo, explica, é que as forças policiais nacionais possam capturar terroristas antes de estes  conseguirem fazer um primeiro ataque contra cidadãos europeus.
  2. Dez mil novos guardas de fronteira até 2022 – O alemão tem como objetivo equipar a guarda costeira e a guarda fronteiriça com 10.000 novos guardas e dotá-los da mais avançada tecnologia, incluindo drones, de forma a que possam ter uma intervenção direta ao longo das fronteiras externas comuns.
  3. Parar de imediato as negociações com a Turquia – Esta ideia consta há alguns anos dos programas do Partido Popular Europeu. Para Weber, a Europa e Turquia devem concentrar-se na parceria e cooperação em domínios específicos, como a cooperação económica e a questão dos refugiados, que considera “exemplos de sucesso”. No entanto, entrar na UE “não é uma opção”, porque a Turquia “está a afastar-se dos valores europeus.”
  4. Nova mecanismo de garantia do Estado de Direito – Weber quer um novo mecanismo reforçado de garantia do Estado de direito. Weber diz que só um órgão independente e transparente, “imune à pressão política e que avalie de forma igual todos os Estados-membros”, pode assegurar que a independência do poder judicial, a liberdade de imprensa e a luta contra a corrupção continuam a ser valores da UE. Esta proposta do candidato do PPE é quase em causa própria, uma vez que Viktor Óbran — que o apoiou dentro do PPE nesta corrida — foi um dos chefes de Governo que mais ultrapassou as linhas vermelhas do Estado de Direito no espaço europeu.
  5. Plano Diretor Europeu contra o Cancro – Weber lembra que 40% dos europeus terão de enfrentar o cancro em algum momento das suas vidas. Com uma grande união contra o cancro, o candidato acredita que é possível salvar milhares de vidas. Paulo Rangel, em Portugal, já tinha antecipado esta medida, dizendo que queria a investigação contra o cancro com os mesmos meios e recursos da engenharia aeroespacial.
  6. ‘Casas inteligentes’ para idosos – Weber lembra a violência que é vários idosos europeus terem de deixar as suas casas de sempre para se mudarem para um lar de idosos por não terem condições para continuar em habitações completamente inadaptadas às necessidades. Ora, se chegar à presidência da comissão, Weber promete ter como meta apoiar a construção destas casas para que “os idosos possam continuar a viver próximo dos seus familiares.”
  7. Criar 5 milhões de novos empregos para jovens europeus – Weber pretende incentivar a criação de empregos de jovens para impedir “a fuga de cérebros”.
  8. Eliminar 1000 leis obsoletas – Um dos objetivos de Weber é desburocratizar a Europa e, para isso, considera essencial abolir “legislação desatualizada e desnecessária”. Na mesma linha, Weber quer “reduzir o número de funcionários das instituições da UE” e alocá-los a outras tarefas mais essenciais para a vida da UE.
  9. Criar um Fundo para a Transição Digital destinado a operários de fábricas – Weber quer criar um Fundo de Transição Digital para que os funcionários de fábricas não sofram com a cada vez maior transição digital. A ideia é financiar em parte este fundo com as novas taxas que a União Europeia quer cobrar “aos Googles e os Facebooks que beneficiam do mercado” europeu e também devem pagar a “sua parte”.
  10. Empréstimos para a construção de casas para famílias jovens – O candidato lembra que “muitas pessoas na Europa lutam contra altas rendas. Para combater isso, Weber propõe “a introdução de empréstimos para construção de moradias financiados pelo Banco Europeu de Investimento”. O candidato do PPE pretende garantir que “as famílias jovens não tenham mais que morar nos seus quartos de criança nos apartamentos sobrelotados da casa dos pais.”
  11. Proibir o trabalho infantil a nível mundial – Weber quer que todos os acordos comerciais da União Europeia incluam uma cláusula que proíba o trabalho infantil e que se garanta que essa cláusula seja cumprida.
  12. Proibição do plástico descartável a nível mundial – O candidato quer que a UE imponha um tratado global que proíba o plástico descartável, além de defender que se desenvolvam aviões com baixa emissão de CO2.

Agradar a gregos e não a troianos

O espaço parecia uma arena e os jovens da Nova Democracia, o partido da casa, seguravam cartazes — com design similar aos dos dois grandes partidos norte-americanos — que diziam “power of WEber”. No grande discurso do Zappeion, que foi o último evento do dia, Weber apresentou-se. “Tenho 46 anos”, disse, para logo acrescentar: “Faço parte da primeira geração da Europa que pode dizer que viviu sempre em paz na Europa”. E, sem ignorar a influência que o seu país teve em guerras anteriores, lembrou que em novembro — logo após ser eleito no PPE — o primeiro ato de campanha que teve foi “a visita ao antigo campo de concentração de Auschwitz”, uma história que é preciso lembrar “para que não se volte a repetir”.

Weber sabe que não pode agradar a gregos e troianos (leia-se turcos), mas sabe como conquistar uma parte dessa plateia. Quando enumerava as doze promessas, não se esqueceu de enfatizar que é contra a entrada da Turquia na União Europeia. Arrancou um dos maiores aplausos da noite. A Alemanha (por uma questão de perda de influência) e a Grécia (por uma questão de rivalidade histórica e proximidade) são historicamente dois países contra a entrada da Turquia na UE. Mas em 1999, as relações entre Grécia e Turquia melhoraram e Atenas passou a aceitar a adesão. De tal forma que o atual programa da Nova Democracia inclui o retomar das negociações para a adesão. Ainda assim, estranhamente, os militantes daquele partido aplaudiram com estrondo a proposta de Weber.

No discurso, Weber destacou que o tal “poder de We” pretende democratizar ainda mais a Comissão e aumentar a cooperação com o Parlamento Europeu. E, para isso, conta com um simbolismo: “Pela primeira vez na história, um membro do Parlamento Europeu pode ser o presidente da Comissão”.

Já Karyacos Mitsotakis optou por recuperar outro momento da história. Foi ali, no Zappeion, que Constantinos Karamanlis, então primeiro-ministro grego, assinou o acordo de adesão da Grécia à União Europeia no final dos anos 70.

No fim da sessão, Manfred Weber assinou publicamente um contrato — com letras aumentadas, a fazer lembrar os cheques grandes que antes existiam em concursos de televisão — com as tais doze promessas. O diretor de campanha explicou que, caso Weber falhe, desta forma há “uma prova” e um “contrato” com o qual se pode confrontar o candidato.

O arranque da campanha foi à americana, mas a corrida para a presidência da Comissão Europeia ainda está longe da visibilidade mediática norte-americana. O próprio Weber o tinha admitido durante a tarde na visita à cooperativa. “Ainda não tem o nível das eleições francesas para escolher o presidente ou o dos EUA (ambos os países têm primárias), mas tem que se começar por algum lado. E é bom que haja uma ideia por onde começar”.

Mesmo sem nunca ter falado em Hércules, Weber, que propõe “um novo capítulo para a Europa”, cheio de “esperança”, sabe que se chegar mesmo a Presidente da Comissão Europeia lhe esperam mais que doze trabalhos. Serão pelo menos 27 trabalhos, com todo o trabalho acrescido que o 28º ainda dará ao sair do espaço europeu.

O Observador, à semelhança de cerca de 30 órgãos de comunicação social europeus, viajou e acompanhou Manfred Weber durante um dia a convite da candidatura do Partido Popular Europeu à presidência da Comissão Europeia.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.
Texto de Rui Pedro Antunes (em Atenas, Grécia).

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