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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Um dia com Marcelo no país dos incêndios. O tropeção, o almoço rápido, o passo sempre apressado e o bife 11 horas depois

O Observador passou um dia com o Presidente da República a visitar algumas das zonas mais afetadas pelos incêndios. "Quero dar um abraço onde as pessoas sentem que ele é justo e solidário", disse.

Foram 11 horas entre os estragos dos incêndios, grande parte do tempo a dar abraços e a dar beijinhos. Ao fim do dia, a contagem é impossível. “Quero dar um abraço onde as pessoas sentem que ele é justo e solidário”, explicou. O Observador passou um dia com Marcelo Rebelo de Sousa nas zonas mais afetadas pelos fogos do fim de semana. O Presidente da República visitou quatro dos concelhos com mais estragos. Entre Vouzela, Oliveira de Frades, Tondela e Santa Comba Dão, visitou pessoas que perderam família nas chamas, gente que ficou sem casa e empresários que vão ter recomeçar do zero — e que já o convidaram para a inauguração dentro de meses.

“É claro que, dado aqui, tem uma força especial. Porque às vezes, longe da vista, longe do coração. E há muita gente em Lisboa, do Portugal metropolitano urbano, como tem o outro Portugal longe de vista, de vez em quando parece que está longe do coração”, explica Marcelo.

Conheça as histórias, os encontros, os detalhes e os apartes do dia em que o Presidente da República foi ver de perto o país dos incêndios.

11h00. Saída do hotel, onde ficou com os “piores quartos”

As manhãs no Grande Lisboa Hotel, em São Pedro Sul, não costumam destoar muito umas das outras. Entre as 8h00 e as 10h00, o pequeno-almoço é servido aos hóspedes, maioritariamente reformados que aqui chegam para fazer tratamentos nas termas. Porém, mesmo que a maior parte dos clientes não tivessem notado, a manhã de 19 de outubro era sobremaneira diferente. Isto porque, na entrada do hotel, a manhã foi marcada por um vai-vem calmo, mas também constante, de seguranças do Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa está no edifício — onde, por acaso, também estão alojados os jornalistas do Observador.

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A chegada da comitiva presidencial foi feita na véspera — e de surpresa. “Ontem ligou para cá uma senhora a pedir para reservar cinco quartos, mas não disse para quem era”, conta ao Observador a gerente do hotel que, na hora de ver Marcelo Rebelo de Sousa a entrar-lhe pela porta, ficou agradavelmente surpreendida. “Não fazia ideia de que era ele”, diz, da parte de trás do balcão. “Ainda por cima pusemo-los nos piores quartos, que são os mais pequenos!”, acrescenta a rir. À sua volta, estão vários empregados do Grande Lisboa Hotel, que também riem, com nervosismo. A maior parte ainda não viu Marcelo Rebelo de Sousa, que não desceu para o pequeno-almoço. “Ainda perguntámos se ele queria que lhe levássemos alguma coisa de comer ao quarto, mas eles disseram que não era preciso”, conta a gerente.

Às 11h00 em ponto, Marcelo Rebelo de Sousa sai pela porta principal, cumprimentando as pessoas que apanha pelo caminho. Depois, senta-se no banco de trás de um Mercedes prateado, que logo atrás é seguido por um dos jipes dos seus seguranças. Os dois carros circulam depressa, mas ainda assim de forma discreta. Sem qualquer sinalética que indique que veículos são aqueles, ninguém em São Pedro do Sul parece saber que Marcelo Rebelo de Sousa está de passagem.

11h10. Chegada à Câmara Municipal de Vouzela, o início do “circo mediático”

A comitiva presidencial chega à Câmara Municipal de Vouzela, um dos concelhos mais afetados pelos incêndios de 15 de outubro. É a sua primeira paragem daquela que é uma visita que não está contemplada na sua agenda pública — não estaria nos planos criar um “circo mediático”, como explicou ao Observador fonte da presidência uma hora antes. Tanto que não foi acompanhado por nenhum assessor de imprensa.

Porém, à chegada, Marcelo Rebelo de Sousa tinha uma câmara da SIC à espera, que logo entrou em direto assim que o Presidente da República distribuía passou-bens no átrio de entrada da sede da autarquia. Rui Ladeira, o social-democrata que foi reeleito para autarca de Vouzela, recebe Marcelo Rebelo de Sousa e encaminha-o para uma reunião à porta fechada, que durará 20 minutos. À saída, Marcelo faz ainda uma breve passagem pelos Bombeiros Voluntários de Vouzela.

O carro do Presidente da República foi acompanhado por uma equipa mínima de segurança, com apenas um jipe de apoio. Marcelo não tinha assessores ao seu lado (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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11h35. “Quem é que me explica o que aconteceu?”

Escoltado pelos seus seguranças e orientado à frente pelo carro do autarca vouzelense, Marcelo Rebelo de Sousa parte para o terreno para começar a fazer aquilo que o ocupará grande parte do dia: falar com pessoas que, de uma maneira ou de outra, foram afetadas pelos incêndios de 15 de outubro. É para isso que vai ao Parque de Campismo de Vouzela. “Quem é que me explica o que aconteceu?”, lança Marcelo Rebelo de Sousa pouco depois de sair do carro. Ao funcionário que lhe foi indicado, lança perguntas atrás de perguntas. “O fogo veio de onde?”, questiona, para lhe responderam que foi “da parte de cima”. “Estavam cá quantas pessoas?”, ao que lhe é dito que estavam “dois casais”. “E quantas roulottes arderam?”, continua. “Foram 15.”

Os holofotes estão virados para Marcelo Rebelo de Sousa, mas o autarca de Vouzela rouba-os para apresentar uma ideia para ajudar a reerguer os concelhos afetados pelos incêndios de 15 de outubro. “Os municípios do litoral com muitas receitas no IMI deviam ser tutores e podiam auxiliar os municípios destruídos”, diz. Como? “Canalizando entre 20 a 25 por cento das receitas do IMI para estas autarquias.”

O que acha Marcelo Rebelo de Sousa da ideia? “Não sei, é a primeira vez que a ouvi”, responde. Às 11h51 sai do parque de campismo em direção a uma das aldeias que mais sofreram com os incêndios.

11h54. Em Vila Nova de Ventosa: “Levei a minha mãe para a morte!”

“Levei a minha mãe para a morte!” É esta a frase que a filha de Maria Rosa Jesus, mulher de 93 anos que morreu carbonizada no passado domingo, mais repete quando é abraçada pelo Presidente da República. No dia do incêndio, fugiram de Vila Nova da Ventosa, numa altura em que o fogo já irrompia por aquela aldeia adentro. Na fuga, tiveram um acidente, mesmo em frente a uma parede de chamas que não as deixava avançar. “Ainda consegui tirar a minha mãe do carro, mas depois caí com ela. Ainda a arrastei, mas depois deixei de a ver”, diz a filha, inconsolada. “Levei a minha mãe para a morte!”, repete. “Não a levou nada para a morte, então…”, responde-lhe Marcelo Rebelo de Sousa. “Como é que poderia saber isso?”

Marcelo Rebelo de Sousa abraça uma mulher em Vila Nova da Ventosa, onde morreram quatro pessoas (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Este é um dos vários encontros que o Presidente da República tem no largo principal desta aldeia onde morreram quatro pessoas na noite do incêndio. Quando chega a Vila Nova da Ventosa, Marcelo Rebelo de Sousa tem mais de 40 pessoas à sua espera. A maior parte, são idosos — e a todos os jovens, o Presidente da República disse-lhes: “Vocês que são novos têm de pegar nisto!”. Estão alinhadas, cada uma à espera de um cumprimente que muitas vezes acaba por se tornar num abraço emocionado. Às 12h00, toca o sino da igreja que, cá fora, tem um papel a anunciar a morte de Maria Rosa Jesus.

Pouco antes de sair, perguntamos a Marcelo Rebelo de Sousa se acha que a lista de mortos dos incêndios de 15 de outubro — que já vai em 43 — deve ser divulgada. “Eu espero que sim”, diz, já a caminho do carro presidencial. Atrás dele, além do Observador, estão três canais de televisão e uma estação de rádio, que souberam, em cima do acontecimento, que o Presidente da República andava por aqueles lados.

12h27. “O senhor que esteja lá toda a vida, que o senhor é muito boa pessoa”

Mal vê o Presidente da República, Maria do Céu conta-lhe aquilo que nunca nos seus 84 anos de vida esperava viver. “Ficou a barraca ao fundo… Só ficou a barraca ao fundo”, diz a Marcelo, para depois explicar que tudo o resto que lhe sobrava de materiais agrícolas, tal como de animais e cultivo, ardeu em menos de nada. Enquanto relata a história, o presidente da Câmara Municipal de Vouzela fala por cima: “Conforme já falámos, estão os nossos técnicos no terreno a fazer a inventariação e avaliação. Aquilo que for apoiado dos fundos nacionais ou comunitários, muito bem. Se não for, o município, o concelho, o país, vai ajudar”. Maria do Céu parece não fazer caso — responde apenas “Sim senhor, muito obrigado…” — e continua a falar. “Tenho 84 anos, vivo sozinha…”, lamenta-se.

“Ó, senhor presidente, o senhor que esteja lá toda a vida, que o senhor é muito boa pessoa, que eu tenho visto na televisão!”
Maria do Céu, habitante de Santa Comba de Vouzela

As lágrimas que até agora esteve a segurar caem todas quando faz um apelo a Marcelo Rebelo de Sousa: “Ó, senhor Presidente, o senhor que esteja lá toda a vida, que o senhor é muito boa pessoa, que tenho visto na televisão!”. “Agora vai estar com força para o futuro. E vai ter saúde, vai ter saúde e força!”, responde-lhe o Presidente da República, que, depois de beijar Maria do Céu na testa repetidamente, avança para outra senhora. Tem 93 anos, está toda vestida de preto. “Que grande susto!”, diz-lhe o Presidente enquanto a abraça. É quanto basta para também ela começar a chorar, encostada ao seu peito.

“É difícil, é penoso, quando se trata de pessoas com 93 anos, 80 e muitos, 90… É toda uma vida”, diz Marcelo à saída de Santa Comba de Vouzela. “Olham para trás, estiveram aqui 20, 30, 40 anos a construir uma vida e de repente não têm a força que têm os mais jovens”, acrescenta. Uma jornalista pergunta-lhe se as perdas destas pessoas aconteceram por causa de uma “falha do Estado”. Embora responda, Marcelo Rebelo de Sousa esquiva-se à pergunta. “As pessoas aqui não têm essas construções muito elaboradas que os políticos têm, aquilo que percebem é que tinham casas, tinham ali as suas ferramentas, aquilo em que conseguiram investir, poupar, indo produzindo, pouquinho”, diz. “Vamos ver se é desta que se olha com mais atenção e com mais empenho para estes problemas, porque esta gente não tem poder de contestação, esta gente não tem o poder de fazer greve, não tem o poder de fazer manifestações, e isso às vezes faz com que seja muito esquecida.” É o regresso àquilo que disse na comunicação ao País.

Marcelo Rebelo de Sousa caminha entre os escombos de uma casa em Santa Comba de Vouzela (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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A caminho do carro, para o qual caminha num passo apressado, Marcelo Rebelo de Sousa aproveita que as perguntas dos jornalistas terminam — para já — e expira com força, pela boca. Depois, entra no carro prateado e, seguido por uma fileira de carros com os quatro piscas ligados, continua o seu programa.

12h58. A primeira Marselfie do dia

A comitiva segue para o Centro Social de Campia, um lar de terceira idade no concelho de Vouzela. Ali, por força das horas, Marcelo Rebelo de Sousa faz as suas primeiras declarações em direto para as televisões, à hora dos telejornais. “É uma tragédia que tem uma extensão brutal em número de municípios de área ardida, em perda de equipamento é impressionante, são milhões e milhões”, diz para as câmaras, para depois fazer um apelo político. “Espero que venham aqui os deputados dos vários grupos parlamentares, para verem”, disse. Antes de sair, o Presidente da República recebe o primeiro pedido para uma selfie — ou, como já são conhecidas, uma Marselfie — da parte de uma funcionária do lar. Um dos anfitriões sugere tirar a fotografia de forma tradicional, oferecendo-se para fazer de fotógrafo. Os seus préstimos são recusados. “Tem de ser selfie!”, responde-lhe a funcionária.

À saída, a comitiva vai visitar a Virgem Milagreira, uma figura de Nossa Senhora, com cerca de 15 metros, que foi erguida por um casal de emigrantes na Venezuela depois de, contra todos os prognósticos médicos, a sua filha se ter curado de um cancro nos ovários. Imponente pela sua dimensão, a figura parece imaculada pelo incêndio.

13h17. O almoço de Marcelo, onde também já comeu Cavaco

O carro de Marcelo Rebelo de Sousa sai da Virgem Milagreira e avança para o restaurante Quinta da Cavada, em Vouzela. À saída, um carro da comitiva, com ligações à autarquia vouzelense, despista grande parte dos jornalistas, que perdem de vista o Mercedes onde segue o Presidente. Mas não é difícil descobrir onde Marcelo vai almoçar. Dentro do restaurante, o Presidente come com o relógio a contar. Há uma agenda a cumprir, embora só ele e os presidentes de câmara que o recebem a tenham.

À entrada do restaurante, várias molduras ostentam fotografias de personalidades públicas que ali comeram, juntamente com uma mensagem e o respetivo autógrafo. O leque é variado. Há ex-ministros (Fernando Teixeira dos Santos, Fernando Nogueira, José Hermano Saraiva), atrizes como Eunice Muñoz e Maria Rueff, cantores como Carlos do Carmo, e até mágicos, que é o caso de Luís de Matos. E, com destaque, um ex-Presidente da República: Aníbal Cavaco Silva. “Foi com gosto que saboreei na Quinta da Cavada a vitela à Lafões”, lê-se, numa nota de 12 de dezembro de 2008 escrita com uma caligrafia difícil de perceber à primeira — e também à segunda.

Marcelo, que se senta ao lado do presidente da Câmara Municipal de Vouzela numa mesa com mais de dez pessoas, demora menos de uma hora a comer.

14h23. Futebol? “Tenham paciência, há coisas mais urgentes!”

São 14h23 quando Marcelo Rebelo de Sousa chega ao segundo município do seu programa. Trata-se de Oliveira de Frades, onde grande parte da zona industrial foi afetada pelos incêndios. Mas, antes de ir até lá, é recebido na Câmara Municipal. As boas vindas são dadas em dose dupla: por Luís Vasconcelos, presidente cessante, e Paulo Ferreira, presidente eleito, que toma posse este sábado. Depois, sobem todos para uma reunião à porta fechada.

À saída, Marcelo Rebelo de Sousa continua a conversa que vem de dentro do edifício camarário e dá-lhes uma aula rápida de assessoria de imprensa. “Vocês têm de garantir que eles continuam a falar sobre o que se passa aqui”, diz. Depois, refere que isso pode ser difícil. E dá um exemplo: “Há pouco as televisões só queriam saber das buscas da Polícia Judiciária ao Benfica e ao Luís Filipe Vieira… Eu percebo que possa ter alguma relevância, mas tenham paciência, há coisas mais urgentes!”.

14h47. Na fábrica, querem saber se António Costa levou “duas palmadinhas ou nota negativa”

"Ficámos sem uma única folha de papel", disse um empresário da zona industrial de Oliveira de Frades ao Presidente da República (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Marcelo Rebelo de Sousa chega à zona industrial de Oliveira de Frades, mas é como se acabe de chegar a uma zona de guerra, devastada por uma daquelas bombas que põem fim a tudo. É nesse cenário que começa a falar com empresários cujas empresas foram afetadas pelo incêndio de 15 de outubro. Pedro Pinhão, da Toscca, empresa de construções de madeira e de mobiliário de jardim, é um deles. “Eu diria que nestas condições não havia nada a fazer”, diz-lhe o empresário, sobre o incêndio. “Não tivemos bombeiros, é certo, mas se tivéssemos, acho que isto teria ardido igualmente.”

— “E foi tudo?”, pergunta-lhe o Presidente da República.
— “Tudo, tudo. Ficámos sem uma única folha de papel. Mas a gente vai reconstruir a empresa, não tenha dúvidas sobre isso”, responde-lhe Pedro Pinhão.

Mais à frente, lança-lhe um convite que é também uma promessa: “Fica o convite aqui: dia 15 de outubro de 2018 vamos recomeçar”. Ou seja, um ano depois do incêndio do passado domingo. “Cá estarei, cá estarei na inauguração”, responde-lhe Marcelo Rebelo de Sousa. Rui Gonçalves, da administração da Carmo (marca de estruturas de madeira), sobe a parada da reconstrução. “Formulo desde já o convite para dentro de cerca de seis meses estar aqui a reinaugurar as instalações”, diz ao Presidente da República. “Seis meses?! Isso bate o record! Iiiih, caramba!”, diz Marcelo, impressionado.

Marcelo Rebelo de Sousa, na zona industrial de Oliveira de Frades (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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O chão está cheio de entulho, entre chapas de telhado que caíram, placas de betão que derreteram e pó de madeira que ardeu. A equipa de segurança de Marcelo Rebelo de Sousa parece mais alerta do que até agora — e chegam a dissuadi-lo de entrar para dentro de um barracão que, depois de ter ardido, pode colapsar a qualquer momento. Há um momento em que o Presidente da República parece dar um passo em falso e quase cai de um degrau — só não acontece graças a um pequeno salto em frente que Marcelo dá por reflexo. “Ei, este homem faz tudo”, diz um dos vários curiosos que seguem a comitiva.

No fim da visita à zona industrial de Oliveira de Frades, Marcelo é abordado por António Ribeiro, trabalhador da Iberoperfil. “Senhor Presidente, diga-me lá, deu duas palmadinhas ao aluno ou foi nota negativa?”, pergunta o operário. “Não comento, não comento, isso cabe aos comentadores!”, devolve-lhe o Presidente. E na despedida insiste: “Eu já percebi é que o meu amigo tem jeito para comentador político, que eu já vi!”.

Várias empresas da zona industrial de Oliveira de Frades foram dizimadas pelo fogo. Ao Presidente da República, empresários garantiram que vão relançar os seus negócios (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Depois da zona industrial, Marcelo Rebelo de Sousa visita uma casa que ardeu e conhece a família que vive nela. “Tivemos cá um engenheiro que diz que a casa tem de ser demolida”, disse-lhe a proprietária. “Mandar tudo abaixo? Eu dá-me a impressão que não vale a pena mandar abaixo”, diz. “Mas os peritos o dirão…”, acrescenta, aparentemente desconfiado.

16h00. A festa de que alguém não gostou

Às 16h00, começa o último ato de Marcelo em Oliveira de Frades. Em frente ao quartel, tem alinhada a corporação dos Bombeiros Voluntários. Citando o exemplo dos empresários que há momentos ouvira, diz que o concelho é “uma terra viva com uma grande gente, é uma gente que resiste a tudo”. “Nós, portugueses, somos assim. Mas aqui, nesta terra, vós sois assim, em especial”, acrescenta.

Marcelo Rebelo de Sousa fez um pequeno discurso a todas as corporações de bombeiros por onde passou (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Segue-se uma salva de palmas, à qual se sobrepõe uma promessa presidencial: “Hei de voltar cá num dia mais feliz”. O tom é quase de festa — e um cidadão protesta contra isso. Lá do fundo, grita: “Lá está ele, lá está ele, é só para aparecer!”, diz. “Devia era ter estado cá quando estávamos aí no duro, agora vêm cá todos! Soubesse esta gente o que eu passei no outro dia!”, ouve-se.

16h49. Os seguranças a ritmo de Marcelo

Depois de uma viagem de quase 40 minutos, Marcelo Rebelo de Sousa chega à Câmara Municipal de Tondela. Tal como já tinha acontecido nos outros dois municípios, tem uma reunião à porta fechada com o autarca local, José António Jesus. Lá dentro, é acompanhado por alguns seguranças. Cá fora, os outros aproveitam para relaxar um pouco. Com os jornalistas, recordam campanhas eleitorais que fizeram com outros políticos — e as histórias só não são como as cerejas porque, a qualquer momento, Marcelo Rebelo de Sousa pode aparecer. A postos, os seguranças falam entre si pelos intercomunicadores que têm nas mangas. E é de lá que recebem a indicação de que a comitiva tem de seguir, desta vez para o quartel dos Bombeiros Voluntários de Tondela.

17h10. “Eu próprio estou saturado”, diz o comandante de bombeiros

Pela primeira vez no dia, Marcelo Rebelo de Sousa não é recebido nem com sorrisos de orelha a orelha nem por pessoas que anseiam pelo seu abraço. No quartel dos Bombeiros Voluntários de Tondela, o Presidente da República toma parte numa reunião pública. Sentado no centro de um mesa em forma de “C”, ouve e tira notas daquilo que lhe diz o comandante Carlos Dias.

"Eu próprio estou saturado, eu próprio vou ter de sair porque não consigo já dar aquilo que achava que devia dar."
Carlos Dias, comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela

“Nós estamos dentro de uma corporação que tem 78 bombeiros, 37 viaturas, percorre mais de meio milhão de km por ano e tem um estrutura de comando voluntária. Isto é uma empresa, já. E uma empresa, nenhuma empresa subsiste, com uma gestão voluntária”, diz o comandante, apelando à reflexão sobre o futuro das corporações de bombeiros em Portugal. Ele próprio já refletiu sobro seu futuro como bombeiro: vai terminar. “Eu próprio estou saturado, eu próprio vou ter de sair porque não consigo já dar aquilo que achava que devia dar”, sublinha, de voz embargada.

“Aqui registei e levo comigo registadas estas reflexões”, diz Marcelo. “Agradeço a abertura e a franqueza com que falaram, que é muito importante.”

17h50. As lágrimas de Manuel Francisco, por uma “vida a trabalhar para nada!”

Alambique é uma das povoações mais afetadas pelos incêndios no concelho de Tondela — e, assim que chega à entrada daquele lugar, Marcelo dá logo de caras com Maria da Luz Brás, de 75 anos, e a sua filha Ana Paula Brás, de 39. As duas, ao mesmo tempo, agarram-se ao Presidente da República a chorar. A mãe perdeu os animais e parte da casa — o fogo destruiu-lhe a cozinha, a sala e as casas de banho — ao passo que a filha ficou sem uma indústria de serração de madeiras.

“Isto é uma desgraça, senhor Presidente, isto é uma desgraça. Não tenho horta, não tenho ovelhas, não tenho pintos, não tenho nem cebolas,”, chora a mais velha. Marcelo Rebelo de Sousa responde-lhe que “nunca se sabe quando isto acontece, só Deus”. “Mas eu acho que o pior já passou”, continua. “Faça favor de não achar que o futuro ainda é pior do que o que já passou”, disse, antes de continuar.

Manuel Francisco Nascimento perdeu animais e máquinas agrícolas no incêndio. "Não tenho palavras, senhor professor!", lamentou (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Passando por dentro de uma quintal, Marcelo Rebelo de Sousa vê Manuel Francisco Nascimento. Ao volante de um microcarro, o homem de 82 anos não chega a levantar-se — o Presidente da República abre a porta do pendura e senta-se ao lado do homem que começa a chorar copiosamente. “Não tenho palavras, senhor professor!”. Com a voz engasgada pelas lágrimas, conta que perdeu animais e várias máquinas agrícolas. “Foi tudo à vida!”, disse, para se entregar de novo a um choro violento. “82 anos… é uma vida! E é uma vida a trabalhar para nada!”

Mais à frente, Marcelo Rebelo de Sousa diz que “as ficam pessoas ficam sem terreno debaixo dos pés” em casos destes, enquanto uns anfitriões da câmara municipal de Tondela tira um lenço da algibeira mal vê que o cotovelo do Presidente está sujo fuligem. “Não há problema, deixe estar, os fatos são para sujar!”, diz Marcelo, esquivando o braço a nova sacudidela.

"Não há problema, deixe estar, os fatos são para sujar!"
Marcelo Rebelo de Sousa, quando lhe tentam limpar fuligem do casaco

Em Alambique há ainda tempo para falar de Portugal e da Europa — tudo com as câmara ligadas, algumas em direto. Sobre a as declarações do comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici — que disse ser “absolutamente natural” haver uma “abordagem inteligente e humana” perante as “despesas públicas das autoridades portugueses para fazer face os incêndios” —, Marcelo Rebelo de Sousa diz que “se isso for assim, é de facto uma grande ajuda”.

E, depois, conta como falou recentemente com o Presidente da Grécia, Prokopis Pavlopoulos. “Falei com ele ao telefone, porque nós somos amigos, conhecemo-nos há muitos anos, ele disse-me: ‘Vivi isto duas vezes quando fui ministro do Interior”, recorda, em alusão aos incêndios de 2007 (84 mortos) e 2009 (sem vítimas mortais, mas uma extensa área ardida). Na conversa que tiveram, terá havido uma palavra de “solidariedade” por parte do chefe de Estado grego.

No final do direto, já com as câmaras desligadas e prestes a dar por terminada a visita a Alambique, acrescenta em relação a Prokopis Pavlopoulos: “Ele era ministro na altura daqueles fogos, mas depois foi logo para a rua!”. Marcelo Rebelo de Sousa é o primeiro a dar uma gargalhada.

18h29. “O seu irmão está em que hospital? Amanhã vou lá vê-lo”

Maria Amélia Ferreira está de pé no centro da rotunda de Alvarim e, encaminhado pelo presidente da Câmara Municipal de Tondela, é para ela que Marcelo Rebelo de Sousa se dirige assim que pode. Entre as histórias que sobram para contar do incêndio de 15 de outubro nesta aldeia de Tondela, a família de Maria Amélia Ferreira tem das piores: morreu-lhe um irmão, que deixa quatro filhos; outro está ferido, no hospital. É ela mesmo que dá essa informação a Marcelo Rebelo de Sousa, no meio do abraço que trocam. “O seu irmão está em que hospital? No de Viseu? Então amanhã vou lá vê-lo”, responde-lhe o Presidente da República, que tem uma visita marcada para o Hospital de São Teotónio, em Viseu.

Em soluços, com o Presidente da República a beijar-lhe a testa enquanto ela fala, Maria Amélia Ferreira conta que o seu irmão ainda pode ter de ser operado às mãos, que ficaram queimadas no incêndio. “A médica especialista ontem ficou com dúvidas, disse que se calhar vai ter de ser”, informa o Presidente. “Vamos esperar que não”, devolve o chefe de Estado.

“Nós estamos todos muito em baixo senhor Presidente, estamos muito mal, todos”, lamenta, com Marcelo a concordar que ali é necessária “ajuda psicológica”. “Precisamos, sim, todos”, confirma Maria Amélia Ferreira. “O meu irmão que está no hospital muito mal, ontem teve alta só para vir ao funeral do nosso irmão. É muito pesado, isto tudo.”

Começa a cair uma chuva tímida e a luz já está a cair. À volta de Marcelo Rebelo de Sousa, seguranças e jornalistas demonstram algum cansaço — embora entre estes apenas os últimos o admitam abertamente. Quanto ao Presidente da República, continua a andar na frente, pedindo apenas a ajuda do presidente da câmara para se poder orientar. Atrás de si, tem um pelotão de gente.

Maria Amélia Ferreira perdeu um irmão no incêndio de 15 de outubro e tem outro no hospital. Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que o visitava (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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18h58. Marcelo num aterro sanitário que pode criar problema “grave”

“O aterro, sim, o aterro é muito importante”, dizia Marcelo Rebelo de Sousa ao presidente da Câmara Municipal de Tondela, antes de ir para o aterro sanitário Ecobeirão, nos arredores de Tondela, que também foi afetado pelos incêndios. Quando lá chega, a chuva tímida intensifica-se. Na escadaria dos escritórios do aterro sanitário, o Presidente da República ouve um dos administradores da Ecobeirão, que serve 19 municípios da região.

“Com o incêndio, nós ficámos aqui descalços”, admite o responsável. “Estamos com sérios riscos de criar uma problema ambiental grave.” Por cima, o autarca de Tondela diz que “vão ser precisos 3 milhões para reconstruir isto”.

“Tem de ser rápido”, dispara Marcelo Rebelo de Sousa. “Porque neste caso, mais 6 meses ou menos 6 meses podem fazer muita diferença.”

Depois de uma volta ao aterro sanitário, em que o cheiro pestilento se infiltra nos carros, a comitiva segue para um novo concelho.

19:35. “Eh, dá beijos na boca e tudo!”

É uma maratona de beijinhos. Ao chegar a Santa Comba Dão, já com a noite caída, Marcelo Rebelo de Sousa é recebido por uma multidão organizada numa fila que vai do carro presidencial à porta da Câmara Municipal, onde o espera Leonel Gouveia. “Desculpe o nosso atraso, mas nós quando estamos com as pessoas não podemos estar com pressa, temos de avaliar os problemas deles com calma”, atira-lhe Marcelo Rebelo de Sousa à chegada — que estaria prevista para antes das 18h00 — antes de mais beijinhos e abraços.

“Ah, senhor Presidente, lembra-se de quando nos vimos aqui em Santa Comba Dão há uns anos?”, atira-lhe uma mulher, que quase lhe salta para os braços. “Então não me lembro! Éramos mais novos!”, devolve-lhe o Presidente da República. Ela recua, para dar espaço aos outros, parecendo convencida de que acabara de ouvir uma verdade.

Ultrapassada a fase dos beijinhos, Marcelo passa ao discurso aos bombeiros — o terceiro do dia — nas escadas da Câmara Municipal de Santa Comba Dão.”Obrigado a todos, foram dias e noites muito difíceis”, diz-lhes. “Mesmo que a vossa vida seja feita de muita dedicação e provação, aquilo que vocês viveram ultrapassou tudo.”

Depois, reúne-se com o executivo da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, com elementos da Segurança Social e da Proteção Civil. A reunião decorre à porta aberta, em torno de uma mesa onde abundam dossiers, pastas e papéis soltos. Ao fundo da sala, por trás do quadro branco onde se lê o título “Centro de Coordenação Municipal”, está uma moldura com a fotografia oficial do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Neste ambiente, o autarca informa que há 70 casas de primeira habitação destruídas e 134 pessoas desalojadas. Além disso, morreram cinco pessoas no concelho.

"Mesmo que a vossa vida seja feita de muita dedicação e provação, aquilo que vocês viveram ultrapassou tudo."
Marcelo Rebelo de Sousa, para os Bombeiros Voluntários de Santa Comba Dão

Com as televisões ligadas, a transmitir em direto a reunião nos telejornais das 20h00, Marcelo Rebelo de Sousa escolhe voltar a falar da Europa, a propósito das palavras de Pierre Moscovici. “Se sentimos que somos europeus solidários para as hora boas, também têm de ser solidários connosco durante as horas más”, diz.

No final da reunião, Marcelo volta aos abraços. Neste caso à filha, genro e netos de um homem que morreu carbonizado numa estrada, a fugir do fogo. “Nunca se está preparado para isto”, diz à filha. Aos netos dá força: “Vocês são mais novos, têm de ter mais força, têm de ser vocês a levantar isto”.

Depois, desce as escadarias da câmara municipal e encontra mais pessoas a quem não pode escapar sem lhes dar um beijo. A mais entusiasmada com a presença do Presidente da República é uma mulher, com metade da sua idade, que por engano, ao trocar de bochecha presidencial para dar o segundo beijinho, toca ao de leve nos lábios do chefe de Estado. Qual fiscal de linha, a rececionista da Câmara Municipal de Santa Comba Dão exclama, bem-humorada: “Eh, dá beijos na boca e tudo!”.

Presidente da República cumprimenta os Bombeiros Voluntários de Santa Comba Dão (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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20h24. Demissão na ANPC? “Estou a ver se resisto às vossas provocações”

Marcelo Rebelo de Sousa desfaz-se em elogios aos escuteiros de Santa Comba Dão e ao seu centro de acolhimento de donativos para as vítimas dos incêndios — “nunca tinha visto nenhum sítio onde organizassem as roupas por tamanho, está bem pensado!” — quando sai a notícia da demissão do Presidente da Autoridade Nacional da Proteção, Joaquim Leitão. “O que é que tem a dizer?”, perguntam-lhe os jornalistas das televisões, apontam as luzes fortes das câmaras. “Não comento, soube agora por vocês”, responde Marcelo. Perante a resposta negativa, as câmarassão desligadas. Só aí é que Marcelo Rebelo de Sousa diz: “Estou a resistir! Eu estou a ver se resisto às vossas provocações”.

Apesar da aparente vontade de falar, não fala das demissões. Fala, isso sim, de tomada de posses. Isto porque um dos membros da comitiva que veio com a Câmara Municipal de Santa Comba Dão lhe diz que lamenta muito, mas que tem de ser ir embora. Trata-se de Esmeraldo Gomes, presidente da União de Freguesias de Santa Comba Dão e Couto do Mosteiro, reeleito no passado 1 de outubro. “É que eu tenho agora a minha tomada de posse, sabe?…”, informa ao Presidente da República. “Então vá, meu amigo, ou ainda perde a nomeação por falta de comparência!”.

Com a licença do Presidente da República, Esmeraldo Gomes sai. E a comitiva presidencial não demora em fazê-lo também.

20h38. Quando o Presidente da República trocou as voltas ao presidente da câmara

Ninguém estava à espera disto, mas ficava em caminho. No lar de terceira idade da Santa Casa de Misericórdia, não houve tempo para fazer a habitual guarda de honra de beijinhos e abraços com que Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido noutros sítios. Assim, ele próprio dedica-se a cumprimentar cada uma das pessoas daquele lar, onde já se tinha arrumado a loiça do jantar e se assistia ao fim do telejornal.

“Eu não fazia ideia de que ele vinha cá”, diz Alzira Conceição, de 84 anos. “Não estava à espera, mas acho bem, porque ele é o Presidente de que eu gosto mais. Vai-me desculpar, mas não gostava nada do Cavaco. Não me fez mal nenhum, mas não gostava dele. Agora, este é um homem simples, que vem ter com as pessoas simples.”

Pouco tempo depois, Alzira Conceição será também contemplada com dois beijinhos de Marcelo Rebelo de Sousa. E, pouco tempo depois, o Presidente da República pergunta a uma das funcionárias: posso ir ver a cozinha? E, quase sem esperar pela resposta positiva, entrou porta dentro, sem seguranças por perto.

Enquanto isso, Alzira Conceição fala do encontro que acaba de ter com o Presidente da República. “Trocámos beijinhos com amor, porque eu gosto dele”, conta. Pouco depois, perguntamos-lhe como foi o dia do incêndio para ela. “Vou agora falar de uma coisa tão má, quando uma coisa tão boa aconteceu agora?”, responde a eletricista reformada, que está neste lar há três meses.

Antes de irromper pela cozinha e desaparecer da vista do presidente da câmara, Marcelo distribuiu beijinhos entre os reformados da Santa Casa da Misericórdia de Santa Comba (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já não há jornalistas dentro do lar, nem membros da comitiva, que estão todos à entrada. Entre eles está o autarca de Santa Comba Dão, Leonel Gouveia. Olha para todos os lados, mas não vê quem procura: o Presidente da República. “Onde é que ele anda?”, pergunta a uma funcionária, que lhe indica a cozinha. Lá chegado, vai até ao fundo do corredor e vê uma cozinheira.

— “Viu o Presidente?”, pergunta o edil à cozinheira.
— “Acho que foi para ali”, responde-lhe ela, apontando para um corredor depois da cozinha.
— “Posso ir pelo meio da cozinha?”, pergunta.
— “Claro que pode, ele fez o mesmo!”, termina.

Leonel Gouveia caminha a passos alargados, de pressa, olhando a área em torno dele como um periscópio. “Perdi-lhe o rasto!”, diz. Depois, avança para um segundo corredor e vira para a direita. É por lá que vê Marcelo Rebelo de Sousa, que está a sair de uma sala que serve de capela.

— “Andava aqui à sua procura, senhor Presidente”, diz Leonel Gouveia.
— “Troquei-lhe as voltas”, devolve-lhe Marcelo Rebelo de Sousa.

Enfim, partem para uma nova paragem.

21h01. O mistério do vento em Treixedo

“Por aí é melhor não, que não há luz nenhuma”, diz um dos seguranças de Marcelo Rebelo de Sousa, quando o presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão lhe sugere que veja as várias casas que, nesta aldeia em muito desertificada, arderam no 15 de outubro. O Presidente da República acaba por avançar, com o auxílio de duas luzes: uma lanterna de bolso de um segurança e o holofote da câmara de filmar da SIC. Nesta altura, Marcelo abriga-se da chuva com um sobretudo e uma boina. De resto, dez horas depois de ter saído hotel termas de São Pedro do Sul, continua a caminhar à frente de todos.

"Isto é estranho, é muito estranho. O vento dá guinadas, é muito estranho, como é que isto acontece?"
Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a trajetória do fogo em Treixoso

“Isto é estranho, é muito estranho”, diz ao olhar para uma rua em que as casas de cada lado estão queimadas de forma alternada, com se o fogo fizesse um ziguezague em vez de um trajeto reto. “O vento dá guinadas, é muito estranho, como é que isto acontece?”, indaga o Presidente da República. Sem que lhe seja oferecida uma resposta, sai de Treixedo, depois de o carro presidencial ter avançado até onde ele estava. Não sem antes tirar mais uma selfie.

21h36. Quando o Presidente da República trocou as voltas aos jornalistas

Quando chega à estação de comboio de Santa Comba Dão, Marcelo Rebelo de Sousa perde vários jornalistas pelo caminho. Quando chegam à estação, que foi fundamental para serem retiradas a 15 de outubro 150 pessoas da linha da Beira Alta, apenas a RTP segue a comitiva oficial, que se antecipou. Todos os outros jornalistas ficam para trás.

21h59. As conclusões de 11 horas — e o que é para passar ao Governo

Marcelo Rebelo de Sousa dá o dia por encerrado. Está no restaurante Lampreia, numa área de serviço do IP3, onde é cliente habitual — e que não ardeu no domingo porque os proprietários dispõem de um sistema “básico” de combate a incêndios, para fins agrícolas.

Ao fim de 11 horas praticamente sem pausas, o Presidente da República, que resumo faz do dia e que conclusões tira? Várias, que surgem em modo de lista.

Primeiro, confirmou a “extensão do efeito humano e material” dos incêndios de 15 de outubro. Depois, registou uma “cadeia de solidariedade imediata” motivada por uma “grande unidade entre os presidentes de câmara”.

“Há um dinamismo, uma massa crítica, uma capacidade de resposta que é muito grande aqui nesta região, que começa nos empresários, continua nas instituições de solidariedade social, prossegue nas populações e é representada pelos autarcas”, resume.

E qual foi a queixa que mais encontrou? “A necessidade de apoio psicológico”, refere. “É nas aldeias que o apoio psicológico é necessário e é nas aldeias que as pessoas sentem mais o problema da distância e do isolamento. No resto, a vida continua. Aí não.”

Perguntamos-lhes que informação vai passar ao Governo de tudo aquilo com que se deparou nas suas viagens pelo país dos incêndios. “Eu, permanentemente, neste tipo de deslocações, vou reportando ao Governo e por outro lado vou sabendo da parte do Governo efetivamente o que é que o Governo retirou de conclusões do seu levantamento, uma vez que já cá estiveram membros do Governo.”

Enfim, despede-se e entra no restaurante. Tem à sua espera um bife da vazia.

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