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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Um dia de pré-campanha com Nuno Melo. Uma hora de atraso (culpa da esquerda), e uma direita que está "orfã" (culpa da direita) /premium

Partiu atrasado e chegou já a visita de Assunção ia a meio. Um lar em obras, mangas arregaçadas, ataque ao PSD de Rio. E a Costa. A campanha ainda não começou e Nuno Melo já só quer dormir 6 horas.

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O bloco de notas do telemóvel de Nuno Melo mais parece uma folha de Excel. Dividido por dia e hora, é lá que aponta todos os sítios onde tem de ir e os eventos onde é previsto estar. Num dos dias, um domingo de abril, lê-se assim na primeira linha: “Avisar o Pedro de que é dia para estar com a família”. O “aviso” para a sua organização de campanha, contudo, não parece funcionar exatamente como linha vermelha. É que na segunda linha daquele mesmo domingo já aparece um compromisso: almoço com associações de tiro. “Pois, nem sempre dá para seguir o plano”, diz ao Observador como quem encolhe os ombros perante as evidências. De qualquer forma, já é a terceira vez que Nuno Melo vai fazer campanha para o Parlamento Europeu, e a família já está habituada. “Gosta muito” de fazer campanha, e não o esconde.

Anda nisto, de forma mais ou menos intensa, desde que, a 4 de fevereiro, esteve ao lado de Assunção Cristas a afixar, numa avenida de Lisboa, o primeiro outdoor com o slogan “A Europa é Aqui” (e o seu rosto em grande plano). A partir daí, tem aproveitado todas as oportunidades para convencer potenciais eleitores. “Tento maximizar todas as oportunidades: de segunda a quinta estou em Bruxelas, e cá aproveito de quinta a domingo para estar no terreno”, comenta com o Observador enquanto entra no carro que o vai levar a alta velocidade de Lisboa a Torres Novas. É sexta-feira, meados de abril, e o candidato do CDS às europeias tinha ficado de estar às 16h a acompanhar a visita de Assunção Cristas a uma fábrica de frutos secos. Problema: são 15h56 quando inicia a viagem. Prego a fundo que há muitos adversários para ultrapassar.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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De olhos em 2009, acelerar, acelerar

(Ou como apagar, por momentos, o PSD da história)

Confirma-se que a famosa “hora CDS” ainda é o que era. E Nuno Melo não parece muito preocupado com o atraso — tinha estado no centro europeu Jean Monnet a gravar o podcast do ex-bloquista Daniel Oliveira e, como “deu luta”, demorou-se lá mais uma hora do que o previsto. Sem drama. Às 16h54 já está a ser recebido por uma funcionária da Frusel, a vestir a bata e a touca — “Ah, campanha!”. Um minuto depois, está ao lado de Assunção Cristas e do restante núcleo de deputados que já ia adiantado na tour com o diretor da fábrica. Escusado será dizer que não esteve muito tempo na visita: apenas o suficiente para “invejar” o dono da Frusel, que lhe contou que começou por ser mecânico em Lisboa e que depois se iniciou no negócio dos figos e, voilà, “construiu isto tudo”. “Também queria ter estes rasgos”, desabafa.

A campanha ainda nem começou e andamos aqui a correr contra o tempo. Já anda cansado ou gosta disto?
Ando muito bem, mas claro que esta vida não permite dormir muito [tinha acabado de falar ao telefone com um dos organizadores da campanha, com quem tinha acertado as horas a que começaria o dia seguinte]. Tem de haver uma grande preocupação de agenda. Quando o fluxo da campanha é no sentido norte/sul ou sul/norte, as coisas podem correr bem, mas quando andamos a saltar de um lado para o outro, é mais difícil… Hoje a campanha começou cedo [em Lisboa] e terminará tarde em Santarém, sendo que amanhã de manhã estou num mercado em Braga, às 10h. Se há coisa que aprendi foi que uma coisa importante nestas campanhas é ter algumas horas de sono. Não precisam de ser muitas, mas têm de ser algumas. Porque o resto aguentamos muito bem. 

O que é que são horas de sono suficientes?
Seis horas. Para mim é o suficiente.

Não são as famosas quatro horas de Marcelo Rebelo de Sousa…
Eu cá acho que as quatro horas do Marcelo são um mito, mas isso devo ser só eu. A
manhã vou estar num mercado em Braga que por acaso nas legislativas de 2015 foi um ponto muito quente da campanha. Quando lá entrámos com o Pedro Passos Coelho e o Paulo Portas estavam lá uns contestatários sindicais organizados, a fazer número para aparecerem à noite na televisão. Eram eles aos gritos de um lado e doutro e nós no meio, na nossa…

Gosta de fazer campanha?
Gosto muito. E gosto particularmente quando a campanha corre como está a correr agora, de forma muito organizada. Nisso, o partido melhorou muitíssimo.

Nota-se pelo nosso atraso…
Isso é culpa inteiramente minha. A entrevista que estava a dar ao Daniel Oliveira prolongou-se e, como lhe disse a ele, há vários anos que o ouço a falar mal de mim em todos os espaços públicos e esta era a primeira oportunidade que tinha de lhe dar contraditório, por isso não pude desperdiçar. Deu luta, foi um autêntico debate, talvez por isso se tenha prolongado.
Mas, dizia, a secretaria-geral do CDS tem sido de um profissionalismo impressionante, é por isso que muito do improviso de 2009 não está a acontecer agora. O partido melhorou muito na sua capacidade de organização.

Melhorou só nisso ou também noutras coisas? Em 2009 era Paulo Portas líder e praticamente ainda não havia Assunção Cristas.
Não, isto tem a ver com a dimensão orgânica do partido, não depende propriamente dos líderes. Acho que o partido se adaptou muito bem à era digital. A forma como consegue maximizar as formas de comunicação em rede, divulgar tudo o que fazemos, combatendo também o défice que temos de presença nos órgãos de comunicação social…

No carro, enquanto o motorista tentava ganhar ao tempo, Nuno Melo tentava descansar. “Saímos agora daqui, amanhã é a que horas em Braga? Ok, vê lá isso porque hoje acaba tarde em Santarém”, diz ao telefone, já de casaco despido, mangas arregaçadas e perna cruzada. Tinha começado por se sentar no lugar do pendura, deixando Vasco Weinberg, o número quatro da lista do CDS, que o acompanhava naquele dia, no banco de trás. Mas como o Observador também ia seguir no mesmo carro, e a ideia era aproveitar o caminho para conversar, trocou de lugar. “Assim falamos melhor, não é?”. Efetivamente.

Nuno Melo mantém os olhos na eleição de há 10 anos, a última vez em que o CDS concorreu sozinho para europeias. “Comparando com 2009, sinto o CDS mais forte e as pessoas a acolherem-me muito bem na rua. Não que isso signifique necessariamente que vão votar no CDS, mas noto o CDS a entrar muito bem na rua”, comenta.

Não compara com 2014…
É muito difícil comparar com 2014 porque as máquinas do PSD e CDS estavam juntas e, portanto, muito do eleitorado era repartido, era muito difícil separar. O PSD tem mais recursos financeiros, uma grande máquina autárquica, uma capacidade de organização diferente…

Em coligação, era mais difícil o CDS ir buscar a sua fatia.
O CDS esteve sempre lá, com as suas estruturas, militantes e simpatizantes — mas, como estávamos todos juntos, era mais difícil distinguir quem estava de um lado e de outro. E 2014 teve outra particularidade: estávamos no ciclo da troika e a troika saiu de Portugal dias antes das eleições. Houve essa conjuntura difícil, e até uma certa instrumentalização na rua por certas associações e sindicatos do descontentamento, isso tudo tornou essa campanha atípica. 

Em termos de metas eleitorais, de número de mandatos, também se baseia em 2009?
Em termos de mandatos sim, o que implicará necessariamente mais votos, porque elegemos hoje menos eurodeputados do que em 2009. Ou seja, é preciso mais votos para eleger os mesmos dois eurodeputados. Isto se o eleitorado se comportar de forma equivalente, em termos de abstenção. As sondagens, para já, estão um bocadinho mais bondosas do que em 2009: têm-nos dado dois eurodeputados, quase todas, e em 2009 davam-nos zero.

Ou seja, se em 2009 as sondagens davam zero e tiveram dois, em 2019 as sondagens dão dois e esperam ter quatro? “Era bom”, responde um Nuno Melo bem menos otimista do que a líder Assunção Cristas. A verdade é que o eurodeputado centrista não tem problemas em reconhecer as forças dos seus adversários: “O PSD ou o PS funcionam como uma espécie de código postal: sabem que pelo simples facto de terem a sigla têm um eleitorado fixo independente dos candidatos”, diz, desvalorizando indiretamente a marca CDS e queixando-se da menor atenção mediática que os centristas têm face aos dois maiores partidos. “Como é que isso se compensa ou se combate?”, pergunta, respondendo de seguida: “Estando o mais possível junto das pessoas. Estando o mais possível na rua, junto das empresas, das pessoas, das escolas, das associações e, ao mesmo tempo, repartindo esse esforço não apenas pelo cabeça de lista, mas tendo vários candidatos empenhados na campanha e nos debates. O Vasco [Weinberg] tem ido a vários debates, a Raquel [Vaz Pinto] também, o LP [Luís Pedro Mota Soares] também. O CDS tem estado com os seus candidatos sempre que possível junto das pessoas. É um esforço muito difícil”, afirma.

Chegou a tempo das amêndoas, chegará a tempo de conquistar a direita-orfã?

(Guião de Nuno Melo para ser melhor do que o PSD)

Quando chegam à fábrica de frutos secos, em Torres Novas, Nuno Melo e Vasco Weinberg apressam-se a vestir o equipamento necessário para a visita. Nuno Melo começa a vestir a bata ao contrário mas é prontamente corrigido pela funcionária; põe a touca na cabeça, e lá vai ele. Está atrasado, a visita guiada terminou há minutos. Lá dentro, Assunção Cristas, Mota Soares, Telmo Correia, Patrícia Fonseca, Helder Amaral, e restantes deputados.

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Daniel Oliveira que “em tudo está numa linha política oposta” à de Nuno Melo tinha-o atrasado, deixando-o ainda assim com tempo para comer umas amêndoas, nozes e pistáchios no final da visita. Mas o que vale é que a corrida de Nuno Melo no dia 26 de maio não será tanto contra a esquerda, mas mais contra aqueles que, na mesma linha política que a sua, à direita, se posicionam e tentam roubar espaço. Esses também o vão atrasar? O Aliança, talvez, já que, diz, “clona muito o CDS, até nas cores do partido”.

“É evidente que é muito mais difícil ser direita em Portugal. Mas hoje o CDS é a única opção para quem é de direita em Portugal”. Por esta altura, ainda estava longe a sua polémica declaração de que o Vox espanhol não é um partido de extrema-direita, dita em entrevista à agência Lusa. Nuno Melo defendeu que “quem lê o programa” daquele partido nota muitas parecenças com o PP espanhol e não vê um radicalismo maior do que o da esquerda como o Podemos, ou o Bloco de Esquerda. Mas o que aconteceu em Espanha, com a direita fragmentada entre PP, Vox e Ciudadanos, abrindo espaço à esquerda, é um alerta para o que pode vir a acontecer em Portugal.

Para Nuno Melo, contudo, a vida do CDS ficou facilitada quando o PSD saltou para o centro, a roçar o centro-esquerda. “O dr. Rui Rio já veio assumir que está a disputar o espaço político ao centro. Veio dizer que é um político de esquerda, e que o PSD nunca foi um partido de direita, mas de centro. O Paulo Rangel também deu uma entrevista onde diz que nunca disse que era de direita. Portanto, nós no CDS não temos nenhum desconforto com a circunstância de sermos de direita. Assumimos a direita de corpo inteiro. E essa direita está hoje orfã de representação política, que já não encontra no PSD mas encontrará no CDS”.

Corrida ganha, portanto, por falta de comparência? Nem por isso. Não é só com o PSD que o CDS vai estar a disputar eleitores de direita ou centro-direita.

Estando Rui Rio a olhar para o centro e centro-esquerda, como disse, o CDS está a competir com os novos partidos que tentam ocupar o tal lugar vazio à direita? O Aliança, o Chega [Basta], o Iniciativa Liberal?
O Chega não existe, não foi validado como partido, foi validada a coligação Basta não sei se para europeias ou só legislativas. Mas eu não confundo partidos novos à direita com dissidências do PSD.

Mesmo sendo dissidências do PSD não deixam de ser partidos novos à direita que querem capitalizar esse espaço que ainda agora dizia estar órfão.
Eu não interiorizo esse discurso. Ainda ontem disse ao Paulo Sande [Aliança] num debate sobre o mundo rural: o Aliança tem como líder alguém que leva 40 anos de política, que já foi primeiro-ministro, e que há um ano estava no congresso do PSD com os dedos em V a dizer PPD/PSD. Se tivesse ganho esse congresso continuava a dizer hoje PPD/PSD. Significa que o Aliança não obedece a nenhuma vocação originária enquanto partido, é apenas uma consequência de uma derrota. Santana Lopes não se transforma num ano numa coisa diferente do que foi nos últimos 40. Mas é óbvio que a Aliança clona muito, até nas cores do partido, o CDS.

Então é do Aliança que tem mais medo. Santana Lopes vai roubar mais votos ao CDS do que ao PSD?
Os votos não têm dono. Há muitas pessoas do PSD que se reveem no Pedro Santana Lopes, e há muitos eleitores do PSD que poderão estar disponíveis para votar no Aliança, não sei. Em relação ao CDS, tem liderado a alternativa. É o único partido que assumiu que nenhum voto no CDS servirá para viabilizar o que seja do dr. António Costa. O PSD não só celebrou já dois acordos com António Costa não tendo ido a votos — um para descentralização, outro para fundos europeus — como não põe de parte, em determinadas circunstâncias, viabilizar um acordo com o PS tendo como primeiro-ministro António Costa.

Mas, lá está, isso é virar o debate das europeias para o plano das legislativas. Não é só António Costa que o está a fazer…
Quando António Costa nacionaliza as Europeias, quando diz que quer que estas sejam uma primeira volta das legislativas, necessariamente o discurso nacional vai estar presente na campanha. Não podemos fazer de conta que isso não é assim. É óbvio que vai estar. Assim como é óbvio que o resultado das europeias terá consequência nas legislativas. Se o dr. António Costa tiver um mau resultado nas europeias não sei sequer se vai ser secretário-geral do PS nas legislativas. Rui Rio assumiu que é um partido do centro, o CDS não tem nenhum desconforto com a direita e em nenhuma circunstância viabilizará um governo de António Costa, isto são notas distintivas.

O CDS vai procurar fazer o discurso mais à direita, contra o chamado politicamente correto, que o PSD tem pudor em fazer?
Também. O CDS, para ir a votos sozinho, tem que ter marcas distintivas dos outros partidos para justificar os votos.

E quais são essas marcas distintivas: o que distingue o CDS do PSD?
Desde logo o exercício da oposição na Assembleia da República: o CDS tem sido o motor da oposição, tem suscitado a maior parte dos temas. E na campanha europeia também tem sido o CDS o principal motor dos temas de campanha: foi o CDS que suscitou a questão do federalismo — é o único que se assume não-federalista, embora profundamente europeísta — foi o CDS que trouxe para o palco político a questão da unanimidade, mostrando que PSD e PS votaram um documento estrutural sobre o futuro da Europa onde se mostram a favor do fim da unanimidade em matéria fiscal como em matéria de política externa, como também votaram a favor dos impostos europeus. O CDS não é a favor de um exército europeu, o CDS tem centrado o seu discurso no desaproveitamento dos fundos comunitários. Tudo isto é factual, e é público.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Eis que chegamos aos impostos europeus e ao bicho-papão da ameaça do fim da unanimidade em matéria fiscal. Aqui, o eurodeputado agita-se no banco do carro e saca dos papéis. “São factos, está tudo aqui”. Pega nos documentos e é aí que procura mostrar como “eles”, PS e PSD, têm um discurso diferente cá, em Portugal, e lá, em Bruxelas. Que “eles” tiveram de “fazer controlo de danos” e mudar a sua versão a meio da história. Mas esta é a história como Nuno Melo a conhece. É mais ou menos assim:

  1. A 26 de fevereiro de 2018, PSD e PS votaram uma norma do relatório sobre a reforma do sistema de recursos próprios da UE que “solicitava à Comissão que ponderasse a introdução ao nível da UE de uma taxa sobre os plásticos e os artigos descartáveis” — ou seja, diz Melo, não é um imposto que vai de cá para lá, mas para ser criado e cobrado lá a todos os Estados-membros.
  2. No relatório intercalar sobre o quadro financeiro plurianual 2021/2027, a 7 de novembro de 2018, constava de um artigo o seguinte: os Estados-membros são responsáveis pelas suas políticas orçamentais e o poder tributário constitui um dos pilares de soberania, realçando-se por conseguinte que nenhuma autoridade europeia tem o direito de cobrar impostos em nome dos contribuintes nacionais — CDS votou a favor, PSD e PS votaram contra.
  3. Há “um mês e picos”, António Costa disse no Parlamento Europeu que “está disponível para impostos europeus” e que “a própria União Europeia deve poder ter impostos”. O discurso do primeiro-ministro em Estrasburgo, diz Melo, é factual e foi sobre impostos europeus, não sobre impostos cobrados cá.
  4. Antes disso, “ainda não estávamos nós nesta disputa pelas europeias”, já o coordenador do PSD na comissão dos orçamentos (em Estrasburgo) defendia a criação de impostos europeus.
  5. “Há três semanas” foi votado um documento sobre o futuro da Europa, que diz como a Europa deve reagir ao pós-Brexit, que consagra tanto o fim da unanimidade em matéria fiscal e de política externa, como a possibilidade de impostos europeus. PS e PSD votaram a favor.
  6. Enquanto isso, em Portugal, PS e PSD celebraram um acordo sobre fundos comunitários para “controlo de danos”, que o PSD invoca para dizer que o PS está a violar o acordo quando defende impostos europeus. “Mas quando se quer falar de impostos europeus não se invoque um acordo do PS e PSD, leia-se antes o que uns e outros aprovaram em Bruxelas”, remata.

Um lar-relâmpago e uma confidência do provedor (socialista)

(SPOILER ALERT. A confidência do provedor: “Se é um homem de direita e pensa assim, então eu também sou de direita”)

Nisto, e porque a conversa já vai longa, partimos para o ponto seguinte da agenda da tarde. É certo que este dia 12 de abril não era forte em ações de campanha. Não teve apanha de couves para o banco alimentar, como viria a acontecer uns dias depois na Golegã, nem sequer uma ida a um mercado ou a uma feira, como o CDS de Paulo Portas nos habituou — mas lá chegaremos. É preciso apalpar terreno, ir a todos os lados: grão a grão. “A campanha non-stop é a partir de 9 de maio, com programa de manhã à noite”, comenta com o Observador Pedro Magalhães, o secretário-geral adjunto do CDS que acompanhava Nuno Melo naquele dia. Faltava ainda cerca de um mês.

O dia era calmo, ao largo do distrito de Santarém, região centro. Próxima paragem: Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas. Nuno Melo lembrava-se bem do provedor, António Gouveia da Luz, que tinha conhecido há uns meses no congresso nacional das Misericórdias. “É ligado ao PS”, comenta baixinho com o Observador, recordando que tiveram um encontro engraçado naquele evento. É esse momento que recorda quando fala ao microfone depois de uma pequena apresentação que o provedor fizera sobre o estado daquela misericórdia. “Eu disse no último congresso das Misericórdias: ‘Sou um homem de direita e é assim que me apresento aqui'”. “E lembra-se do que é que eu respondi?”, atira logo o provedor. “Lembro, lembro”. Nuno Melo ri-se, mas sem desvendar a resposta.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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António Gouveia da Luz e uma das funcionárias da Santa Casa tinham estado minutos antes a queixar-se de que “não faz sentido as Misericórdias serem tratadas como empresas”, quando o que fazem é “as vezes do Estado”; bem como a queixar-se de que, “ao contrário do que as pessoas pensam, as Santas Casas não são ricas, só a de Lisboa porque é estatal e tem um grande património”, ou ainda a queixar-se de que os políticos têm de “conhecer a realidade social” e não aparecer só quando há campanhas.

Na resposta, Nuno Melo passou-lhes a mão pelas costas: “O Estado deve ser grato todos os dias às Misericórdias, e vocês sabem que o relacionamento do CDS com as Misericórdias é maior do que isto, não tem só a ver com campanhas, porque nós vemos as Misericórdias como parceiro do Estado, não como estorvo”, disse, sublinhando que “a mais antiga das Seguranças Sociais está nas Misericórdias, e não no Estado”.

O provedor aplaudiu e, no final da sessão, confessou ao Observador o que tinha, afinal , respondido a Nuno Melo quando este lhe disse, no congresso do Algarve, que se apresentava ali como um homem de direita: “Se é um homem de direita e pensa assim, então também eu sou de direita”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Há cinco anos, a direita estava junta e CDS e PSD faziam campanha lado a lado. Isto não é estranho? Como é que faz hoje campanha contra Paulo Rangel?
Não faço campanha contra o Paulo Rangel, faço campanha pelo CDS, sendo que há cinco anos curiosamente uma das perguntas que nos faziam recorrentemente era como é que estávamos juntos se um era federalista e o outro não. E eu dizia: assumindo aquilo que somos, no PPE há federalistas e não-federalistas.

Isso quase parece o discurso da geringonça, que assume as suas diferenças.
Há uma enorme diferença entre o PS histórico e moderado do Francisco Assis e o PCP de hoje, que continua a fazer festas do Avante com murais da Venezuela, revolução bolchevique e Coreia do Norte. Há obviamente muito mais proximidade entre o PSD e o CDS, governam muitas autarquias juntos, fazem muitas vezes coligações de governo, mas também há diferenças, claro.

O que é isto de ser europeísta convicto e não-federalista? Parece um certo disfarce para o euroceticismo… O CDS começou por ser eurocético, ainda nos lembramos disso.
O CDS foi dos primeiros partidos a defender a entrada na CEE, em 1974, e com Manuel Monteiro houve alguma deriva devido ao tratado de Maastricht, sim. Mas apenas porque Maastricht significava que, depois de ter havido um aprofundamento das regras de mercado, veio a vontade de um aprofundamento político numa lógica federal. E isso o CDS rejeitava. E ainda hoje rejeita. Portanto, o que significa isto de não ser federalista mas ser europeísta? Significa que acreditamos num projeto de nações mas que há reservas da nossa soberania de que não estamos disponíveis a prescindir. Não queremos um governo europeu, não queremos um ministro das Finanças europeu, como o PS quer.

Defender a moeda única ou o mercado único não é ser federalista?
Em relação ao euro, o CDS foi contra a adesão naquele momento, e hoje dão-nos razão, mas pelo caminho tivemos de levar com o crivo de eurocéticos. Há duas semanas, António Costa disse que a entrada no euro foi um frete aos alemães, e António Costa era ministro de Guterres quando se decidiu a entrada no euro. A Alemanha nesse tempo não queria que Portugal aderisse, a França é que pediu porque queria na zona euro aliados estratégicos. E nós dizíamos que não fazia sentido aderirmos ao euro num momento em que teríamos uma relação de 200 escudos para 1 euro enquanto o marco ou o franco eram muito mais valorizados. Íamos entrar, de início, em desvantagem. Hoje todos os economistas de referência portugueses dizem que uma das razões para a crise das dívidas soberanas tem a ver com essa disparidade na relação dos países com o euro. Essa disparidade afetou os países do sul de forma diferente do que afetou os países do norte. Foi um frete aos alemães, como diz hoje Costa, mas nós é que éramos os eurocéticos. O CDS não se vai transfigurar na sua essência só para não ser interpretado como populista ou outra coisa qualquer. Trata-se de ser o que sempre fomos.

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Nuno Melo, que estava de blazer vestido durante toda a reunião com o provedor da Santa Casa, tirou o casaco e arregaçou as mangas da camisa quando este lhe pediu que o acompanhasse na visita ao lar que está à espera de obras. Patrícia Fonseca, deputada do CDS e agora cabeça de lista por Santarém, recordava-se de já lá ter estado, lá está, na última campanha para as legislativas, em 2015. Mas não serviu de muito. “Apresentámos o nosso projeto para o Portugal 2020 mas nem sim nem sopas, tivemos de andar para a frente pelas nossas próprias mãos”, queixa-se uma das representantes da Santa Casa.

Apesar das mangas arregaçadas, a visita às instalações provisórias do lar foi em modo relâmpago. O cheiro intenso não era propício a demoras e Nuno Melo seguiu o provedor em passo apressado, parando apenas para cumprimentar uma das idosas que fazia a sua refeição. A visita passou, para incómodo da comitiva, por entre quartos improvisados onde residiam alguns dos utentes e, cinco minutos depois, estávamos de volta ao ponto de partida. Já nas obras, que daqui a uns anos vão dar forma às novas instalações, a demora seria consideravelmente maior.

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O arrependimento de Costa e a certeza de que a campanha foi nacionalizada

Visitar obras, lares, fábricas. Mas não estávamos a falar de eleições europeias? Sim, mas uma campanha é uma campanha e, em ano de legislativas, desengane-se quem queira falar só de Europa. Enquanto seguíamos no carro rumo a Torres Novas, Nuno Melo deixava isso bem claro: se Costa está a “esconder” o seu candidato, porventura por “arrependimento”, e está a centrar as atenções em si mesmo e no governo nacional, então quando o PS tiver um mau resultado, seja perder ou ganhar por “poucochinho”, há ilações a tirar. “Há uma avaliação pessoal que António Costa deve fazer”, diz.

Pedro Marques tem uma vantagem logística em relação aos restantes, que é o facto de estar mais disponível para fazer campanha em Portugal, não estando metade da semana em Estrasburgo e Bruxelas.
Pedro Marques tem várias vantagens, diria. A primeira vantagem é ter um primeiro-ministro que, à custa do erário publico, está em campanha todos os dias — o CDS tem de pagar a sua campanha, enquanto o primeiro-ministro usa o dinheiro dos contribuintes para fazer segundas e terceiras inaugurações no mesmo centro social e apelar ao voto nos seus candidatos. Mas Pedro Marques, não sendo eurodeputado, é talvez, do ponto de vista da mensagem política, o mais antigo de nós. Não há caras mais antigas do que as que nos governam: Pedro Marques foi governante com José Sócrates, António Costa e o ministro Santos Silva foram governantes com António Guterres, com José Sócrates, e são governantes hoje. Juntos representam um dos períodos mais traumáticos da história recente de Portugal, entre 2005 e 2011. São antigos e traumáticos. Mas, apesar de tudo, o que mais me impressiona é ter o primeiro-ministro a pedir que o debate político das europeias seja uma moção de confiança ao governo, portanto, nacionalizando a campanha, e escondendo o seu cabeça de lista. Isso é muito impressionante: eu diria que já participei até hoje nuns dez debates e nunca foi com o Pedro Marques.

Pedro Marques está a guardar-se para os debates televisivos?
Vivemos hoje um tempo com variáveis que podem ter desfechos muito complicados: o brexit, o terrorismo, as crises migratórias, uma recomposição político-partidária, a ascensão dos extremismos, nada disto existia em 2009. Vivemos em cima de um pesadelo que tem a ver com o futuro da União Europeia, ao qual temos de dar resposta. E o Pedro Marques, quando se tem de falar de Europa, só aparece em jogos da seleção, jogos do Benfica, ou no Carnaval de Torres Vedras, sempre sorridente, mas quer dizer… o PS é o que está à frente nas sondagens e o candidato do PS, que é o candidato do Governo, não discute Europa, não discute nada? Não aparece nos debates?

Tem ido assim a tantos debates?
Sim, debates organizados pela TSF, em universidades, no Minho, na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Letras, na Universidade do Porto. Já debati com Margarida Marques, Manuel Pizarro, Carlos Zorrinho, mas não consigo debater com Pedro Marques, é incompreensível.

Ainda agora falou numa nacionalização da campanha, está-se a criar a ideia de que este é o primeiro round das legislativas. Isto é benéfico para o CDS?
O facto de António Costa querer que estas eleições europeias sejam uma primeira volta das legislativas e mostrar que em causa está o governo denota muita confiança em si mesmo. Mas é também a prova mais significativa da falta de confiança no seu próprio candidato. Esconde-o. Acredito que António Costa percebeu que a escolha que fez é má, que o resultado poderá não ser o que deseja e, em absoluto controlo de danos, quis dramatizar o discurso e dizer que o resultado das europeias tem a ver com o governo. Até sou capaz de compreender esta preocupação de António Costa tendo em conta o seu passado recente: foi António Costa que atirou em António José Seguro depois de uma eleições europeias em que o PS teve uma vitória mas por “poucochinho”. Se o PS perder as eleições há uma avaliação pessoal que será certamente devida a António Costa.

António Costa, ao mesmo tempo, parece estar com muita confiança de que isso não vai acontecer, senão também não nacionalizava desta forma o debate.
Acha é que tem mais vantagem em nacionalizar o debate e trazer para a discussão pública a questão do governo do que mostrando o candidato e as propostas que tem. Acha que tem mais vantagem em nacionalizar o discurso do que em mostrar o seu próprio candidato. Mas, como bem se vê, até por esta reversão das sondagens, o PS aparentemente está em perda e pode perder como perdeu em 2009.

E se ganhar por poucochinho?
A coerência não é a pedra de toque de quem governa, mas se ganhar por poucochinho ou perder, António Costa quererá para si o que exigiu a António José Seguro? Essa é uma questão que lhe terá de ser posta a ele.

Despedimo-nos de Nuno Melo com a pequena comitiva que o acompanhava já a levantar os braços em impaciência. “Vamos lá, para ver se ainda temos tempo de comer qualquer coisa”, atira alguém. Tinham de estar às 20h em Santarém para uma reunião com todos os membros da lista para as europeias e cabeças de lista para as legislativas, num esforço hercúleo de “conciliar agendas”. É que era nessa noite que iria ser preparada em detalhe a volta nacional da campanha e a estratégia adotada pelo partido (para as europeias, diga-se). A reunião seria à porta fechada: jornalistas não permitidos.

O carro de Nuno Melo lá seguiu sempre com pressa: há uma corrida para disputar e a verdade é que também o CDS está a jogar num plano nacional. Prova disso é o facto de ser o único partido que já tem os peões para as legislativas posicionados no terreno. Quando, daqui a 15 dias, a campanha para as europeias seguir a todo o vapor pelo país fora, também os candidatos de cada distrito às legislativas vão estar no seu posto de comando a ver e e a ser visto.

A partir de agora, todos os minutos contam. Que comece o sprint final (que é de maio a outubro, leia-se).

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