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Rui Oliveira/Observador

Rui Oliveira/Observador

Um Porto cinzento e “às moscas”. Clientes com medo, mas já a pensar no Natal. O primeiro sábado de confinamento foi “como tinha de ser” /premium

De manhã houve filas para o brunch, sacos com compras e música nas ruas. A tarde chegou com chuva e só as gaivotas se faziam ouvir. As lojas fecharam e a quase um mês do Natal, o Porto ficou deserto.

O primeiro sábado de confinamento deste novo estado de emergência ergueu-se com algum movimento e nem o dia cinzento, que prometia chuva, intimidou os que acordaram cedo e fizeram questão de sair de casa. Uns passeiam o cão e compram o jornal, outros fazem fila para o brunch e procuram as melhores decorações de Natal. Os transportes públicos circulam praticamente vazios, ninguém se queixa do trânsito e nos Aliados restam apenas dois guias turísticos à espera do impossível.

Na rua mais comercial da cidade, Santa Catarina, há músicos a tocar clássicos à espera de uns trocos, homens estátua a divertir os mais novos e castanhas assadas a fumegar. Os comerciantes estão atarefados, aproveitam cada minuto do seu negócio aberto, mas lamentam a queda da faturação nos últimos meses. Dividem-se nas opiniões sobre as novas regras, mas são unânimes na incerteza relativamente ao futuro.

A chuva prometida chega e antecipa o fecho de algumas lojas por uns minutos. Ouve-se o sino que marca as 13 horas e as ruas ficam desertas. Sobram sacos do lixo amontoados, carros da polícia a vaguear e o som das gaivotas confunde-se agora com o acelerador das motas que já distribuem refeições. Da porta dos restaurantes saem apenas sacos de papel, as farmácias mantêm as luzes acesas e no passeio tropeça-se nas frutas e nos legumes à entrada das mercearias.

Numa das zonas mais turísticas da cidade, os transportes circularam vazios e a chuva obrigou as esplanadas a recolherem mais cedo

Rui Oliveira/Observador

“A cidade está às moscas, o que podemos fazer?”

O sino da Igreja da Lapa batia as 10 horas, as folhas de outono rodopiavam nos passeios com o vento e o jardim da Praça da República, tantas vezes procurado pelos mais velhos para um jogo de dominó, estava completamente vazio. À porta do Pingo Doce, nem filas, nem seguranças. Uns passeavam o cão, outros compravam o jornal no quiosque, outros faziam fila para um pequeno almoço reforçado.

“O movimento nesta manhã está a correr surpreendentemente bem, com pessoas a virem muito mais cedo que o habitual e a reservaram mesas com bastante antecedência. Antes de abrirmos, já tínhamos pessoas à porta e o telefone não pára de tocar”, conta Hélder Miranda, responsável pelo restaurante Manna, ao Observador. No espaço reina o pão biológico ou o café artesanal e apesar da afluência, nada se compara aos fins de semana anteriores.

“Não estou contra o estado de emergência, estou contra à forma como ele está a ser feito no setor da restauração. A solução não será por aqui, se há setor que tem rigor no cumprimento das normas de higiene somos nós. Aqui, por exemplo, não entra ninguém que não seja acompanhado à mesa e há sempre uma dupla verificação da higiene das mesas e cadeiras, ao contrário dos supermercados em que as pessoas circulam livremente, tocam numa maçã ou numa pêra sem cuidado e sem desinfeção. Nós temos os cuidados todos e somos obrigados a encerrar às 13h. É injusto.

O Manna converteu salas onde antigamente se davam aulas de yoga em espaços de refeição, tem agora 50 lugares disponíveis. Ainda não completou um ano de vida e o responsável já teve que pedir dinheiro emprestado ao banco. “Em abril tínhamos quase a certeza que iríamos fechar. Felizmente, chegou o primeiro apoio do Turismo de Portugal que nos deu um balão de oxigénio para podermos sobreviver, o segundo balão foi um empréstimo bancário, que chegou para empurramos o problema para a frente. Esta foi a única forma que tivemos para ultrapassar aquele período, mas o desafio continua, vamos ter que o pagar.”

Mesmo com a casa composta e várias encomendas para o almoço, Hélder Miranda sente que está “a correr trás do prejuízo”, mas mantém a esperança. “Se nos deixarem trabalhar, temos clientes e temos capacidade para servir.”

“O movimento nesta manhã está a correr surpreendentemente bem, com pessoas a virem muito mais cedo que o habitual e a reservaram mesas com bastante antecedência. Antes de abrirmos, já tínhamos pessoas à porta e o telefone não pára de tocar.”
Hélder Miranda, responsável pelo restaurante Manna

As filas matinais multiplicam-se nas padarias, pastelarias e esplanadas. Vizinho da famosa Torre dos Clérigos, que já bate as 11h, está Aníbal Fonseca, proprietário do Café Muralhas há 20 anos. Este sábado, abriu portas às 6h30, mas, como mandam as regras, não as pode fechar às 20h, como é habitual. “Isto está fraco, não há pessoas a virem ao Porto. Não sabemos o que havemos de fazer, o que vamos ou não vender, é sempre uma incógnita”, diz, através do balcão enquanto faz a conta de um casal que veio da Vila Nova de Gaia de propósito para levantar um bolo de aniversário. “Enquanto não fecharem os concelhos já não é mau”, desabafa.

Se noutros fins de semana os clientes se sentavam para tomar o pequeno almoço, este sábado fazem fila para comprar pão e vão para casa. “Antigamente vendia 10 quilos de café por dia, agora tenho apenas 20% da faturação.” Por causa da pandemia, Aníbal Fonseca já teve que retirar oito mesas do café, ainda não despediu nenhum dos 11 funcionários, mas admite estar a “pagar para trabalhar”. “Ou pomos dinheiro para trabalhar ou temos mesmo que fechar a porta. Isto abala-nos muito porque não há turistas e depois também não mora cá ninguém porque nos últimos anos só construíram hostels. A cidade está às moscas, o que podemos fazer?”

A rua dos Clérigos tem mais carros que pessoas e a Avenida dos Aliados é contornada por autocarros praticamente vazios. Junto à estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, veem-se apenas dois guias turísticos vestidos com roupa laranja fluorescente e com mapas na mão. Já na estação de S. Bento, os comboios chegam com meia dúzia de passageiros, os taxistas, sem trabalho, encostam-se para conversar e o vendedor de castanhas até grita uns pregões para atrair mais clientela, mas sem sucesso.

A zona dos Clérigos e dos Aliados esteve praticamente deserta, sem trânsito e em silêncio

Rui Oliveira/Observador

Música, homens estátua e filas para comprar decorações de Natal

A subida íngreme da rua 31 de Janeiro, com poucos negócios abertos, faz-nos chegar à rua mais comercial da cidade: Santa Catarina. São 11h30 e há muita gente a andar a pé, de máscara no rosto e sacos de compras na mão. No centro comercial Via Catarina, veem-se filas para algumas lojas, há quem já escolha as decorações de Natal, outros espreitam o que resta das promoções e outros aproveitam só para ir a casa de banho. “Não tenho mãos a medir, o que vale é que isto hoje fecha mais cedo”, desabafa uma funcionária de limpeza, enquanto abastece o papel higiénico nas casas de banho.

No Mercado Temporário do Bolhão, só se ouve falar português, os corredores da fruta, dos legumes, do peixe e da carne estão compostos, ainda que longe do movimento habitual a um sábado de manhã. Maria Olinda, da Salsicharia Lindinha, chama a atenção, de avental e mão na anca, para as chouriças frescas da sua montra. “O movimento está fraco, a maioria dos clientes não vieram hoje porque são de longe, mas felizmente é de manha que fazemos mais negócio”, diz ao Observador, acrescentando que devido ao novo estado de emergência terá que ir para casa quatro horas mais cedo.

“Sinceramente não acredito que a curva achate com isto, mas concordo com as regras porque há muita gente que se junta ao fim de semana para conviver. É mau, mas é um mal necessário.” O negócio de Maria Olinda, que vende no Bolhão há 47 anos, está mau desde que o novo coronavírus chegou a Portugal, fechou a salsicharia durante dois meses e meio e nem quer imaginar se o tiver que fazer novamente. “Só se for mesmo obrigada. Se fechar, não aguento, fico mesmo sem rendimentos. As despesas continuam e sem clientes temos que abrir falência.

“Sinceramente não acredito que a curva achate com isto, mas concordo com as regras porque há muita gente que se junta ao fim de semana para conviver. É mau, mas é um mal necessário.”
Maria Olinda, comerciante no Mercado Temporário do Bolhão

Na rua, ouvem-se artistas a cantar clássicos da música popular brasileira, homens estátua fazem abrir a boca dos mais novos, que passeiam de mão dada pelo pais, e das montras veem-se comerciantes atarefados, a quererem aproveitar os últimos minutos que lhes restam de portas abertas. Pouco antes das 13 horas começa a chover, os mais prevenidos abrem imediatamente o guarda chuva, os outros correm para a estação de metro ou para as paragens de autocarro, seja para irem embora ou simplesmente para se abrigarem.

Armando Salgado, responsável pela loja de produtos regionais Saboriccia, começa a recolher a esplanada de madeira, vai antecipar o fecho, afinal, já tem a casa vazia. Num sábado normal, só o faria pelas 22h30. “Este horário muda muito a dinâmica do negócio, as pessoas estão com medo e o nosso trabalho está fraco. No domingo até costumamos estar abertos, mas estes dois fins de semana não vou abrir, não compensa, não vale a pena chatear os funcionários.

O proprietário não concorda com as restrições decididas pelo Governo, defende que a solução passa pelo investimento em mais camas no Serviço Nacional de Saúde e “não sacrificar uma população inteira porque não temos condições para uma pandemia”. Com uma renda mensal de 2.500 euros, Arnaldo Salgado não está a faturar o suficiente para pagar o salário dos funcionários, apesar de continuar a fazê-lo. “Até quando? Não sei.”

Durante a manhã, Santa Catarina teve música na rua e algum movimento de clientes que já pensam no Natal

Rui Oliveira/Observador

Comércio fechado à hora marcada com chuva, motas e gaivotas

Às 13 horas em ponto, os cafés começam a fechar os guarda sóis, a recolher os toldos e a arrumar mesas e cadeiras nas esplanadas, onde ainda se dividem trocos e gorjetas. Funcionários ainda fardados arrastam sacos do lixo para os contentores, os músicos de rua guardam microfones e guitarras no saco e o homem estátua ganha vida.

As montras cobrem-se lentamente com grades de ferro, elementos de segurança desligam alarmes, apagam luzes e fecham as portas a cadeado. As vendedoras ambulantes de meias e guarda-chuvas percebem que já não vão ter mais clientes. Continua a chover e uma das ruas mais movimentadas do Porto começa a ficar vazia. Nos passeios ficam apenas os sacos do lixo amontoados, jornalistas, fotógrafos e alguns carros da polícia municipal, que verificam o cumprimento das regras. Há farmácias que dão nas vistas por estarem abertas e serem um ponto de luz num dia tão cinzento, não há filas à porta, nem agitação nos balcões.

O barulho das gaivotas confunde-se com o som das garrafas a chocarem no vidrão e o acelerador das motas que entretanto começam a distribuir refeições. Na Cervejaria Brasão, junto ao Coliseu do Porto, a porta está aberta. Não entram clientes, mas saem sacos da papel. “Preferimos não funcionar com take away para evitar aglomerados de pessoas”, começa por explica Orlando Ribeiro, o responsável.

“São duas da tarde e nas nossas três casas já tivemos 40 pedidos, mas as quebras são tremendas. Se num sábado normal servíamos 600 jantares, ontem, sexta-feira, fizemos apenas 180.”
Orlando Ribeiro, responsável pela Cervejaria Brasão

As encomendas ao almoço nunca são muito significativas, mas ao jantar o volume promete aumentar e são as francesinhas o prato mais procurado. “São duas da tarde e nas nossas três casas já tivemos 40 pedidos, mas as quebras são tremendas. Se num sábado normal servíamos 600 jantares, ontem, sexta-feira, fizemos apenas 180.” Dos 170 funcionários, 60 foram dispensados à boleia da pandemia. “Dói-nos o coração ver alguns profissionais a sair, mas neste momento não temos capacidade financeira, não há capital.”

Orlando Ribeiro não tem dúvidas de que a restrição do horário é “extremamente prejudicial” para o negócio. “Não posso concordar com isto quando vejo autocarros completamente lotados. Aqui temos os maiores cuidados, não faz sentido fecharmos a esta hora.” Sobre o apoio do Governo ao setor, o responsável agradece, mas garante que não é suficiente. “Qualquer valor que seja facultado é uma ajuda. Se é suficiente? Todos sabemos que não.”

Às 13 horas em ponto, o comércio fechou, a rua de Santa Catarina ficou vazia e só os motoristas da UberEats circulavam apressados

Rui Oliveira/Observador

Na estação de metro de São Bento, as empregadas limpam as pegadas molhadas no chão, os ciclistas descem de bicicleta pela mão e alguns sem abrigo pedem dinheiro. Contam-se pelos dedos de uma mão os passageiros de uma carruagem, que este sábado não precisam de muito esforço para manter a distância de segurança recomendada.

Na rua do Paraíso, junto à Igreja da Lapa, apenas a mercearia de Adelino Silva está aberta. No passeio há caixotes de fruta e legumes molhados pela chuva e no interior dois clientes pesam as compras e escolhem os ovos mais gordos. “Para já, o estado de emergência não me está afetar em nada, estou satisfeito. Todas as pessoas se estão a portar bem, mantemos as nossas distâncias e está tudo tranquilo.” O comerciante acredita que as novas regras são benéficas e podem ter resultados. “Acho que as restrições são boas, as pessoas vão ter que se mentalizar da doença. Aqui no Norte isto está feio, era preciso fazer alguma coisa. Isto está a ser como tinha que ser.

No período da tarde, Adelino Silva diz já não ter ilusões. “Sei que vai estar mais calmo porque as pessoas estão recolhidas, mas é bom saberem que se precisarem de uma pequena necessidade estarei aqui até às 21h e amanhã a partir das 9h.”

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