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Um relógio, um gatilho sensível e uma injeção de adrenalina. Como Pulp Fiction mudou o cinema há 25 anos /premium

Quando Pulp Fiction estreou pareceu cair de pára-quedas. De John Travolta a Christopher Walken, o filme foi uma revolução. O mundo ficou chocado mas, para nós, aquilo era domingo à tarde.

Raras vezes houve uma oportunidade tão óbvia para dizer que uma cena de cinema entrou (quase literalmente) nos anais das histórias mais improváveis e icónicas alguma vez contadas em tela como quando o Capitão Koons, proagonizado por Christopher Walken, se aproximou de um jovem Butch Coolidge e lhe contou a história do relógio de ouro do seu bisavô (o bisavô de Butch, note-se).

Vocês conhecem a história: no início do século XX o bisavô comprara um relógio de ouro, pouco antes de ir combater na I Guerra Mundial, finda a qual deu o relógio ao seu filho, que – por sua vez – combateu na II Guerra Mundial. Receando não regressar vivo, Dane (o avô de Butch) deu o relógio a um amigo da Força Aérea chamado Winocki, que no fim da guerra o entregou à respectiva viúva, que o deu ao filho (o pai de Butch), que – tal como os seus antecessores – combateu na guerra, no caso no Vietname, tendo sido abatido sobre Hanoi. Para evitar perder o relógio para o inimigo, o pai de Butch guardou-o dentro do rabo e, antes de morrer de desinteria, deu o relógio a Koons, que o escondeu dentro do seu próprio rabo – e eis que, anos depois, ali estava ele a entregar a Butch, como prometido, o relógio de ouro que o seu bisavô comprara.

Este não é o único momento citável de “Pulp Fiction”, filme ao qual a cena acima descrita pertence e cuja estreia mundial, no festival de Cannes, faz hoje 25 anos: quem não tem um amigo com a mania de citar (pelo menos) o início da frase que Jules Winnfield dizia quando se preparava para eliminar mais um infeliz da face da Terra? “Ezekiel 25:17. The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men”, começava Samuel L. Jackson naquele seu tom de motherfucker de voz grossa que encantava tanta gente.

[o trailer de “Pulp Fiction”:]

Que mais não seja, o mérito de “Pulp Fiction” é esse: pode não nos dar a conhecer as entranhas da vida, como nos Bergmans, pode não nos mostrar o extremo da ganância humana, como nos Scorseses, mas é tão esteticamente irrepreensível no seu ludismo extremo de cartoon, que consegue inscrever no imaginário popular uma série de personagens e eventos tão improváveis cujo carácter cómico acaba, em segundo plano, por revelar o absurdo da existência humana: um mafioso que ao perseguir Butch é violado; um garoto que tenta enganar agiotas, não é morto por eles – mas é mais tarde morto por eles, só que por acidente, quando um deles agita a arma enquanto fala, espalhando o cérebro do garoto por todo o automóvel; a esposa junkie de um mafioso, que é salva por uma injeção de adrenalina diretamente no coração – que outro filme constrói tamanha galeria de horrores que nos fazem rir?

Quando “Pulp Fiction” estreou em Cannes pareceu cair de pára-quedas, chegar de nenhures: era tão diferente de tudo o que então se fazia que as pessoas não sabiam como o catalogar – acabando por reagir por instinto: ou aderiam ou não aderiam. A história diz-nos que o impacto foi imediato e que nesse exacto instante o mundo suspirou por “Pulp Fiction” e o elegeu, logo ali, como um símbolo cultural do futuro.

Ainda hoje – na era dos “Avengers”, na época em que filmes como “A Star Is Born” ganham Óscares – é costume dizer-se que “Pulp Fiction” mudou o cinema para sempre. Pessoas menos aluadas lembrarão que a fita custou oito milhões de dólares e rendeu mais de 200 mundo fora; que criou a carreira de Samuel L. Jackson e Uma Thurman tendo apenas Bruce Willis como estrela no cartaz; que (re-)introduziu o pós-modernismo no cinema, ao contar intercaladamente três histórias que se cruzam; que inventou ou matou (riscar o que não interessa) cinema indie.

Não sei bem quando começou – mas de repente, de facto, Tarantino estava em todo o lado. Este de repente deve ter demorado, à vontade, um ano ou mais. O tempo necessário para que, cópia de VHS após cópia de VHS, "Pulp Fiction" conseguisse infiltrar-se em, digamos, Verdemilho ou Cimo de Vila.

Diz-se muita coisa acerca de “Pulp Fiction” e em parte é mitologia – pelo menos avaliando-as à distância do tempo. Estávamos em 1994 e a internet era uma anedota; não havia revistas de cinema estrangeiras distribuída em Portugal e, fora de Lisboa e Porto, era quase impossível encontrá-las. Ainda estamos na época em que, se queríamos encontrar certos discos, era preciso esperar que um amigo fosse a Londres, e depois ir a casa dele e gravar uma cópia em cassete.

Não havia nada que caísse como uma bomba (por exemplo) em Aveiro; a vida desenrolava-se bem devagar: sabíamos que existia a América porque havia filmes americanos no cinema, discos americanos nas discotecas, compactos sobre a NBA na televisão – tudo coisas que recebíamos com imenso atraso e escassa informação. A verdade é que por esses dias era muito fácil criar mitos sobre objectos artísticos – e que as “bombas” demoravam muito mais a deflagrar que hoje.

Foi em cassete que vi “Reservoir Dogs”, o primeiro filme de Tarantino, que na altura foi considerado ultra-violento. Talvez o fosse em termos mainstream – mas para quem levava anos e anos a alugar filmes série Z em videoclubes “Reservoir Dogs” não parecia assim tão gráfico. Vi-o antes de ver “Pulp Fiction” – mas depois de saber o que “Pulp Fiction” era: em Maio de 1994 estava no primeiro ano de engenharia em Aveiro e estávamos – um grupo de quatro ou cinco – a sair da cantina quando um deles disse:

“Estou em pulgas para ver esta merda”.

Voltei-me na direção do olhar dele e numa papelariazinha que ali havia estava uma revista na montra, uma rara revista estrangeira de cinema, a referir, na capa, a Palma de Ouro que “Pulp Fiction” conquistou em Cannes; na minha memória é a revista Empire, mas posso estar enganado.

“O John Travolta está vivo?”, perguntei. Nos minutos seguintes esse tipo pôs-me a par do que se sabia sobre Tarantino: trabalhara num videoclube, dirigira “Reservoir Dogs”, escrevera o guião de “True Romance” (a que acháramos bastante graça).

Pode parecer que éramos rústicos – mas estamos a falar de duas pessoas que faziam parte de um grupo que comprava jornais com regularidade (O Independente, o Público, o Expresso), que mandava vir discos de todo o sítio, que já tinham bibliotecas, videotecas e discotecas (ou cassetecas) grandinhas para a idade. Decidimos logo ali deixar a universidade e ir para Hollywood escrever guiões (não deixámos, não fomos).

Por alguma razão havia-me escapado o bruá acerca de Cannes. (Lembro-me bem melhor do impacto que foi “Boogie Nights”, em 1997, por acaso.) Talvez para os miúdos americanos tenha sido diferente.

Nesse ano a corrida aos óscares tinha “Quatro Casamentos e Um Funeral”, o elegante “Quiz Show”, “Shawshank Redemption” e “Forrest Gump” (o que, visto à distância de 25 anos, parece um elenco bastante melhor do que o habitual por estes dias). Lembro-me de ouvir os coleguinhas de faculdade a falar de “Forrest Gump” (que na altura eu odiava mas hoje aprecio porque o meu filho acha bonito), de escutar conversas em que os meus amigos intelectuais defendiam a ideia de redenção humana de “Shawshank” face ao vazio de “Pulp Fiction”. E não me recordo de uma única pessoa – excepto críticos do Público e do Expresso – que defendessem acerrimamente “Pulp Fiction” para o Óscar.

Inicialmente, isto é.

Não sei bem quando começou – mas de repente, de facto, Tarantino estava em todo o lado. Este de repente deve ter demorado, à vontade, um ano ou mais. O tempo necessário para que, cópia de VHS após cópia de VHS, “Pulp Fiction” conseguisse infiltrar-se em, digamos, Verdemilho ou Cimo de Vila.

Costumávamos ir comer hambúrgueres a um café chamado Ramona (recomendo, ainda hoje, especialmente hoje, em que já não se leva com o tráfico de heroína) e era inevitável alguém começar a debitar o diálogo entre Jules Winfield (Samuel L. Jackson) e  Vincent Vega (John Travolta), que começa com “You know what they call a Quarter Pounder with Cheese in Paris?” e acaba com “They call it Royale with Cheese”.

Se quiséssemos insultar alguém dizíamos que essa pessoa devia ter o relógio do Bruce Willis enfiado, bom, imagino que consigam adivinhar onde ele estava enfiado. Se, imaginemos, alguém estivesse a enrolar um cacete e desempenhasse essa tarefa mal, era quase certo que alguém lhe diria “Ezekiel 25:17”. Já nem vou falar da dança – aliás, escuso de explicar do que estou a falar, porque vocês sabem. Estava, literalmente, por todo o lado – ao início apenas entre quem seguia atentamente cinema, mais tarde também entre aquele tipo de malta que ouvia os Bush e, no fim, entre todos.

[A dança entre Mina e Vincent:]

Conto isto para des-mitologizar “Pulp Fiction” e também porque eu era o exato público alvo que Tarantino tinha em mira (europeus brancos adolescentes ou jovens). Por exemplo: em 1994 corria o boato de que hordas de pessoas teriam desmaiado durante a projeção do filme – não era exato se isto ocorrera em Cannes, nos EUA ou na Europa. Anos depois sabemos que aconteceu uma vez, na ante-estreia, em Nova Iorque – mas que Harvey Weinstein, patrão da Miaramax, criou todo um boato a este respeito.

Mas é verdade que “Pulp Fiction” fez mesmo 200 milhões de dólares e se 200 milhões são muito dinheiro hoje (embora um décimo do que rende qualquer aborrecido filme de super-heróis hoje) na altura era uma quantidade absurda de dinheiro, mais ainda para uma produtora independente como era a Miramax.

“Pulp Fiction” foi mesmo uma revolução? Está datado?

Bom, em certa medida foi. É preciso ver que na altura o cinema falava de maneira diferente. Era raro haver palavrões mas, acima de tudo, era raro haver conversas (perdoem a expressão) de merda, sobre coisa nenhuma. Samuel L. Jackson disse uma vez que os diálogos de Tarantino eram melodias de canções – e está certo: ainda hoje (e não sou fanático de Tarantino) não consigo dar com o filme a fazer zapping sem parar para ouvir aquilo.

Durante um certo tempo achou-se que Tarantino tinha impacto porque mostrava a realidade. A esse propósito há uma história engraçada: quando Harvey Keitel leu pela primeira vez o guião de “Reservoir Dogs” (cuja produção acabou por financiar) perguntou a Tarantino se ele crescera entre agiotas – e Tarantino respondeu que não; perguntou-lhe se ele tinha amigos que fossem agiotas – e Tarantino respondeu que não; então como raio sabia ele como os agiotas agiam?

“Vi nos filmes”, disse Tarantino.

De certo modo era como se tudo aquilo fosse um mundo de fantasia – o que se notava, também, no décor, nas roupas, nas canções e até no casting: John Travolta, a sério? Funcionava, acima de tudo, porque Tarantino emprestava a cada elemento do filme uma auto-confiança inacreditável – se há coisa que as personagens de Tarantino sempre tiveram foi panache.

Este é um pormenor importante: Tarantino desconhecia qualquer tipo de realidade (exceto a do suburbano solitário); mas conhecia uma quantidade absurda de filmes miseráveis, nos quais afundou por completo, ao ponto de conhecer todo o sub-género cinematográfico menor alguma vez criado. Filho de uma enfermeira que o teve aos 16 anos, abandonado cedo pelo pai, Tarantino tinha manifestas dificuldades de aprendizagem – os guiões estavam cheios de erros ortográficos que as secretárias corrigiam, apenas para ele os colocar de novo lá – e o cinema (em vídeo, sobretudo) foi o seu escape.

É isso que torna os seus filmes digeríveis: tal como num cartoon um boneco pode levar com uma panela de óleo a ferver que nenhuma criança fica assustada, em “Pulp Fiction” há sempre algo de demasiado infantil para ficarmos verdadeiramente assustados. Esta qualidade puerial que Tarantino colocava mesmo no material mais negro ressoou numa geração que, tal como ele, cresceu entediada e a recorrer ao videoclube para suportar o absoluto tédio de crescer num subúrbio; além disso, víamos bonecada desde mesmo muito pequenos e passávamos horas aos tiros nos videojogos – o mundo podia ficar escandalizado com “Pulp Fiction”, que aquilo para nós era domingo à tarde.

Acresce de dizer que apesar de usar a violência com algum à vontade, Tarantino não era nada gratuito no uso desta e que até era bastante moral – em “Pulp Fiction” morrem maus, não morrem inocentes, por exemplo. Violento era – em todos os termos, inclusive emocional – o “Bad Lieutenant”, de Abel Ferrara.

Nós estávamos cansados de diálogos correctos e educados (porque não víamos nada disso no mundo de todos os dias) e Tarantino tinha a lábia; não é certo que soubesse que uma das regras de Tolstoi era atribuir a cada personagem, mesmo as de passagem, uma característica distintiva – mas é certo que o fez: uma das características daqueles diálogos, daquelas histórias improváveis, era tornar cada personagem única (por oposição à chapa 4 vigente em Hollywood desde o início dos tempos). Nisso há que tirar o chapéu a Tarantino: raras vezes vi alguém com tanto amor à escrita.

De certo modo era como se tudo aquilo fosse um mundo de fantasia – o que se notava, também, no décor, nas roupas, nas canções e até no casting: John Travolta, a sério? Funcionava, acima de tudo, porque Tarantino emprestava a cada elemento do filme uma auto-confiança inacreditável – se há coisa que as personagens de Tarantino sempre tiveram foi panache.

Outros aspetos envelheceram pior, como o absurdo uso de referências nos diálogos. Naquela altura fazia sentido – pelo menos para a minha geração, nascida a meio da década de 70, que viu o capitalismo explodir como uma religião e uma geração deificar os Nike Air. Mas hoje em dia soa balofo, pouco credível.

Como pouco credíveis foram as hordas de imitadores que se seguiram, com o mesmo padrão: bandidos cool que falavam engraçado. A título de exemplo: há um momento em “Bad Boys” em que dois gangsters desatam a discutir um episódio de “I Love Lucy”. Flashback para a abertura de “Reservoir Dogs”: os gangsters estão a discutir Madonna (e só isto dá vontade de rir), até que Mr Brown diz: “Ok, let me tell ya what “Like a Virgin’s about. It’s all about this cooze who’s a regular fuck machine. I’m talking, morning, day, night, afternoon – dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick”.

Apesar dos imitadores, houve um lado bom nisto: durante um breve período de tempo uma data de realizadores e guionistas que não encaixavam no cinema convencional conseguiram fazer o seu cinema. A história, na realidade, remonta a 1989, quando Steven Soderbergh venceu o festival de Sundance com “Sexo, Mentiras e Vídeo” – mas “Pulp Fiction” elevou a fasquia, porque de facto penetrou no mainstream e fez dinheiro como um filme de estúdio (nunca um filme indie tinha chegado aos 100 milhões, quanto mais 200).

A indústria reagiu à ascensão do cinema indie dos anos 90 com os filmes de super-heróis – gigantes, cheios de efeitos especiais. Provavelmente Tarantino adorá-los-á: para ele o cinema, a televisão, ainda são questões de sobrevivência: o garoto abandonado pelo pai e cuja mãe está fora de casa a trabalhar precisa de companhia para aplacar a solidão.

Isto permitiu que gente como Spike Jonze, Todd Solondz, Paul Thomas Anderson, Richard Linklater (que tematicamente nada têm em comum com Tarantino) tivessem espaço de manobra, orlamentos, grandes actores à disposição – porque de repente a cultura mudara, de repente a cultura aceitava o que era disfuncional, arriscado. Não têm todos o mesmo talento, mas isso pouco importa – o que interessa é que de repente as fontes de financiamento e distribuição estavam abertas ao que era diferente, ao que fugia ao guiãozinho certo de final feliz.

E assim chegamos à parte cínica: os verdadeiros vencedores desta história foram (na altura) os irmãos Weinstein, donos da Miramax, a produtora – porque é uma tarefa colossal de marketing colocar um filme (bastante engraçado) como “Pulp Fiction” (que nos diz zero sobre o mundo) na boca de toda a gente.

A parte ainda mais cínica é que no fim venceu mesmo o dinheiro: tal como à fúria da geração de 70, de Scorsese e Copolla, a indústria reagiu com “Tubarão” (o filme colossal de entretenimento para a família, ao domingo à tarde), a indústria reagiu à ascensão do cinema indie dos anos 90 com os filmes de super-heróis – gigantes, cheios de efeitos especiais. Provavelmente Tarantino adorá-los-á: para ele o cinema, a televisão, ainda são questões de sobrevivência: o garoto abandonado pelo pai e cuja mãe está fora de casa a trabalhar precisa de companhia para aplacar a solidão.

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