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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Um Presidente "semi", um Marcelo por inteiro no regresso à estrada no Minho /premium

Marcelo voltou à ruas numa presidência (semi)aberta sem nome, afirmou um semi-presidencialismo com recados a Costa e foi semi-afetuoso. Logo ele que é também semi do Minho, região da avó Joaquina.

Marcelo passava as mãos pelos tecidos, virava cabides e espreitava canecas numa Loja Social, em Esposende, como quem passeia por uma loja no shopping. “Por aqui, senhor Presidente”, dizia um assessora que o tentava orientar. Ao que o chefe de Estado retorquiu de imediato: “Não estou perdido, estou curioso“. No Minho, local escolhido para recomeçar as primeiras presidências abertas após o início da pandemia e do segundo mandato, Marcelo foi o de sempre: ouviu os eleitores e fez reparos de circunstância, comeu queijo (muito queijo) sem se esquecer de enviar recados ao Governo e tirou selfies à distância. Uma agenda cheia, num evento para o qual nem sequer conseguiu arranjar um nome. Antes tinha o nome de “Portugal Próximo”, mas “Próximo” é um termo a evitar em tempos de pandemia.

Os tempos de pandemia trazem, no entanto, algumas contradições. Chamam-se a estes eventos presidências abertas, mas a maior parte da agenda de Marcelo é apenas semi-aberta, sendo boa parte dos eventos fechados ou fora da agenda oficial. Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de enviar recados ao Governo, mas quando chegou a hora de comentar a demissão ou a continuidade de Eduardo Cabrita lembrou que o regime é semi-presidencialista, o que significa que “o Presidente não é primeiro-ministro ao mesmo tempo”. E se o roteiro — que dura três dias até quarta-feira — se realiza no Minho (com a agenda a ser divulgada apenas umas horas antes), Marcelo lembra que é semi-minhoto, do lado do pai e da avó Joaquina. “O meu lado otimista vem de ser minhoto, do lado do meu pai, o lado realista vem do lado da minha mãe, que é beirã”, atirou.

Uma Presidência semi-aberta. Sem um beijo, mas com um queijo

Marcelo foi ao Minho, mas não colocou (e continua a não colocar) nada na agenda oficial de Belém. Nem no site da Presidência, nem nos emails que seguem habitualmente para as redações. Com o tempo, chuvoso, e o distanciamento, que a pandemia exige, o Presidente optou por fazer uma deslocação mais discreta. Visitou uma queijaria de leito magro, onde os jornalistas não entraram, foi uma sociedade agrícola, também sem imprensa, e ainda passou à socapa pelo clube náutico acompanhado pelo presidente da câmara de Esposende, Benjamim Pereira (PSD).

O Presidente manteve o estilo de outras presidências e parava pacientemente em conversas com as pessoas. Quase sempre em ambiente controlado (horas depois, na rua, não seria bem assim). Na Loja Social, que visitou em Esposende — um dos poucos eventos abertos à moda antiga — encontrou Mário Pereira, de 54 anos, um dos beneficiários do projeto social.

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Mário é dono de um café, onde “investiu” em conjunto com a mulher, mas durante a pandemia ficaram “sem nada”. Marcelo ouviu atentamente e só não reagiu quando ouviu críticas à “caça à multa” da GNR, que em tempos de restrições tinha prejudicado o negócio de Mário. O Presidente acabou por ser convidado para um café no estabelecimento, aceitando o convite para a visita, mas não o produto: “Um café, não. Uma água, que eu já tenho muita energia natural“.

Mais à frente, uma outra voluntária da Loja Social alertava para a importância da reciclagem, uma vez que muitos dos produtos que ali chegam são reciclados. “Qualquer dia temos de ir viver para Marte”, lamentava. Marcelo não deixou escapar: “Temos aqui uma doutrinária”. Na zona dos brinquedos, que também ali estão na loja para os mais desfavorecidos, pegou em vários e passou a mão numa prancha de body board, enquanto comentava: “Uma prancha. É esta a minha paixão”.

O Presidente fala pouco de uma parte da sua vida, que é a de voluntário, mas fê-lo em Esposende. “Uma das coisas que mais gostei foi quando fui voluntário. Pela experiência pessoal. Tem uma força maior, de quem se dedica a uma causa. Estive como voluntário nos cuidados paliativos”, lembrou Marcelo Rebelo de Sousa, que tem por hábito abordar poucas vezes este lado da sua vida.

Uma das responsáveis do espaço acabou por revelar que Marcelo Rebelo de Sousa doou livros para a loja, que o Presidente se recusou a entregar em mãos junto às câmaras e terá preferido enviar antes por correio. Ao Observador, uma funcionária do espaço indicou que livros eram. Além de obras de Luís de Camões, o Presidente ofereceu um livro sobre a Revolução Liberal do Porto e também a Cartilha Maternal João de Deus, num ecletismo que incluía ainda a biografia de Carlos Paião e vários livros infantis.

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Na visita à queijaria, Marcelo Rebelo de Sousa tirou fotografias com as funcionárias, mas fez questão de ficar atrás de todas as trabalhadoras para garantir algum distanciamento. Mais tarde, havia de as desafiar para uma selfie, ficando desta vez em primeiro plano — mas garantindo o mesmo distanciamento. Nem sempre foi possível manter a distância, mas também não se chegou ao ponto de materializar um cartaz que estava na fábrica e que aludia a tempos pré-pandémicos: “Um beijo e um queijo”.

Questionado sobre se já tinha saudades das selfies, Marcelo Rebelo de Sousa diz que sentia falta de “andar a respirar este ar”, de “poder ouvir as pessoas”, de “haver uma proximidade”. Depois, há o lado humano, de alguém que também teve muito tempo fechado: “Um ano e dois meses é uma eternidade, sobretudo com 72 anos de idade.” Ou como diria aos microfones de uma rádio local de Caminha horas depois: “Já sou um velhinho, muito velhinho”.

[Pode ouvir aqui a reportagem da Rádio Observador]

Marcelo desconfina as selfies. “Não posso dar beijinhos, a Dra. Graça Freitas mata-me”

Semi-presidencialismo (com recados a Cabrita e Galamba)

Muitas das presidências abertas de Marcelo Rebelo de Sousa no primeiro mandato eram quase uma espécie de visitas de um Presidente-Rei, uma figura altamente popular e dos afetos, que falava de cima para o Governo, do alto do topo da hierarquia do Estado. Os tempos mudaram. O Presidente está aparentemente mais conformado e insiste agora que não tem pretensão nenhuma de desequilibrar a balança do semi-presidencialismo. Mas, convenientemente, isso permite-lhe dizer que não tem qualquer responsabilidade na continuidade do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. A pressão, claro, é a da palavra.

Não estamos num sistema presidencialista em que o Presidente da República é primeiro-ministro ao mesmo tempo“, disse Marcelo. Acrescentou ainda que “a Constituição é o que é” e que não tem “poderes” para demitir ou manter ministro, já que o Presidente “não intervém em matéria de composição do Governo a não ser sob proposta do primeiro-ministro”.

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Sobre o caso de Odemira, o Presidente deixava, no entanto, recados ao Governo: sobre a requisição civil e sobre as dificuldades que enfrentam os imigrantes. Começava por dizer que o problema de Odemira, que já foi de saúde pública, é agora um “problema de imigração”. E avisa os governantes: “Não podemos negar que este é um problema que existe”.

Um segundo recado foi sobre a requisição civil. O Presidente diz que esta é “uma matéria que está em tribunal, mas perdeu conteúdo”, uma vez que “não há ninguém isolado profilaticamente [nas instalações] por causa da Covid-19.” Ou seja: deixa a ideia que já não estão reunidas as condições para a requisição civil, uma vez que a motivação não é o isolamento devido à Covid-19.

Já questionado sobre o facto do secretário de Estado da Energia, João Galamba, ter dito que um programa da estação pública era um “esterco”, Marcelo Rebelo de Sousa começou por dizer que não comenta “declarações, afirmações ou posicionamentos do Governo.” Mas não resistiu a deixar mais uma indireta: “O que posso dizer é que como Presidente tenho tentado respeitar o mais possível a liberdade de expressão e pensamento e os direitos consagrados na Constituição“. E ainda acrescentou: “Fi-lo quando estava no outro lado da barricada, não me eximi a ser muito contundente relativamente a quem exercia o poder político, seria estranho exercendo o poder político fizesse o contrário do que fazia quando comentava e criticava o poder político.”

Mais tarde, enquanto falava sobre a ida à local Rádio Caminhense, Marcelo voltou a comentar de forma mais global e nacional o estado da comunicação social, para lamentar os problemas financeiros de alguns órgãos. “Alguns estão numa gravíssima crise. Isso é dramático porque sem imprensa livre, forte, não há democracia”, disse o Presidente. Que ainda acrescentou: “Um dos problemas da democracia é a situação financeira má e a morte de órgãos, um a um, da imprensa local, regional, nacional. Isso é um sinónimo de democracia doente.”

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Semi-afetos. Essa mina é um perigo

E se João Galamba foi tema no Minho por via das críticas ao programa da RTP “Sexta às Nove”, também o foi devido ao cargo que ocupa, de secretário de Estado da Energia. Se Marcelo Rebelo de Sousa teve afetos por todos os sítios por onde passou (em Esposende teve mesmo de dizer a uma eleitora: “Só não lhe dou um beijo, senão a dra. Graça Feitas mata-me”), o mesmo não aconteceu em Caminha. À chegada ao Jornal e Rádio Caminhense (o jornal comemora 50 anos) esperavam-nos três manifestantes contra as minas de lítio na Serra de d’Arga.

“Minas, não”; “Vidas, sim; Minas não”. Era o que diziam alguns dos lençóis pintados com letras toscas e garrafais. Quando Marcelo Rebelo de Sousa vinha a subir a rua, os manifestantes acercaram-se dele: “Vidas sim, selfies não”; “É só vaidade, só selfies, só estilo, e a nossa água contaminada”, gritavam. O Presidente não fugiu e tentou falar. Um dos manifestantes lá o deixou falar e pediu aos outros que se calassem. Marcelo fez sinal de calma com as mãos enquanto dizia: “Querem que vos diga: ‘Estou convencido de que nunca haverá mina lá”. Um manifestante prontamente protestou: “Olha a poesia do homem”. Ora, o secretário de Estado responsável por esta área é, nada mais, nada menos, que João Galamba.

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Outra das razões que levaram a que houvesse menos afetos foi também a pandemia Covid-19. Marcelo garante que antes de começar a volta fez um teste e que o faz, apesar de ter sido vacinado, de “quatro em quatro dias”. E, “de quando em vez, mais espaçado”, vai vendo se continua com “anti-corpos” e o resultado tem sido animador: “Os meus são particularmente elevados para a minha idade”. Ainda assim diz que não facilita: “Não é por mim, é pelos outros”.

Sobre a pandemia, Marcelo Rebelo de Sousa deu ainda “os parabéns ao vice-almirante Gouveia e Melo”, que “mostrou qual é a força que as Forças Armadas têm numa ocasião como esta”. Isto também não foi uma referência sem intenção: é que foi Marcelo que pressionou que a task force (inicialmente liderada por Francisco Ramos) fosse chefiada por um militar.

A manhã tinha começado junto dos militares, o Regimento de Cavalaria nº6 em Braga, que teve na origem o famoso Regimento de “Dragões de Chaves”, criado no início do século XVII. Disse à unidade que o Comandante Supremo das Forças Armadas é “exatamente igual” a eles. Inspirado nas figuras de fantasia, acabou por apanhar uma molha bem real, ficando completamente encharcado. A bênção veio do camarada de partido, Benjamim Pereira, que deixou o mais rasgado elogio a Marcelo: “Uma figura ímpar, que vai ficar na história de Portugal.”

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