Um vulcão chamado Malcolm Lowry

A vida de Lowry foi assombrada por uma única obra que lhe consumiu 10 anos de vida. A descoberta de um manuscrito julgado perdido veio confirmar a genialidade de um escritor que morreu cedo demais.

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A vida de Malcolm Lowry, escritor inglês que morreu há 59 anos, foi assombrada por uma única obra — Debaixo do Vulcão, o romance que lhe consumiu quase dez anos de vida. Publicado em 1947, a obra foi imediatamente aclamada pela crítica norte-americana, atingindo mais tarde um grande sucesso no Reino Unido.

Lowry, então com 38 anos, foi anunciado como sucessor de James Joyce e Debaixo do Vulcão como sucessor de Ulisses, a sua obra-prima. Porém, como lembrou ao Observador o especialista Patrick A. McCarthy, o sucesso de Debaixo do Vulcão “teve um lado negro”. Perseguido pela imagem dos vulcões Ixtacihuatl e Popocatepetl, que dão nome ao romance, o escritor temeu sempre ser incapaz de o reproduzir. E, a verdade, é que não foi.

Quando morreu a 26 de junho de 1957, Malcolm Lowry deixou inúmeros rascunhos de livros que a sua mulher, Margerie Bonner, se dedicou a publicar postumamente. A faltar, ficou Rumo ao Mar Branco, parte da trilogia dantiana que inaugurou com Debaixo do Vulcão e que, à semelhança de muitos outros projetos, não foi capaz de concluir. Perdido durante o incêndio que consumiu a sua casa em Vancouver, no Canadá, foram precisas várias décadas até que uma primeira versão do romance, que se encontrava nas mãos da mãe da sua primeira mulher, Jan Gabriel, viesse a público.

Malcolm Lowry planeou a criação de uma trilogia inspirada na Divina Comédia, de Dante, chamada The Voyage that Never Ends. Nessa trilogia, Debaixo do Vulcão corresponderia ao Inferno, Rumo ao Mar Branco ao Paraíso e o romance Swinging the Maelstorm, publicado postumamente, ao Purgatório.

A descoberta do manuscrito, que se julgou perdido até 2014, permite olhar para a “imagem completa” e para a obra de um escritor que morreu demasiado cedo consumido pelo vício do álcool, que o acompanhou durante toda a vida. Ao Observador, Patrick A. McCarthy garantiu que Rumo ao Mar Branco, publicado recentemente em português pela editora Livros do Brasil, permite “ver mais claramente ou de forma completa a fase ou um aspeto do trabalho do autor”. Mas Colin Dilnot, que trabalhou na edição britânica, vai mais longe.

À BBC, o especialista sugeriu que Rumo ao Mar Branco podia ter-se tornado”numa obra-prima, como Debaixo do Vulcão”, um dos mais importantes romances modernistas do século XX. “O que podemos ver é o esqueleto de uma obra-prima“, afirmou. É verdade que é difícil prever como teria sido a vida (e a obra) de Lowry se o vício do álcool não tivesse sido mais forte do que tudo o resto. Mas, apesar das dezenas de manuscritos incompletos, uma coisa é certa — o talento é inegável.

A primeira garrafa de gin: os anos de Cambridge

Clarence Malcolm Lowry nasceu num verão quente de 1909, na Península de Wirral, no noroeste de Inglaterra. A sua terra natal, New Brighton, estava inundada de turistas que tinham decidido passar o mês de julho junto à costa e, nos jornais, ecoava ainda a história de Louis Bleriot, o francês que, a 25 de julho de 1909, se tornou no primeiro homem a sobrevoar o Canal da Mancha.

Filho de Evelyn Boden e de Arthur Osborne, Lowry era o mais novo dos quatro filhos do casal. Depois do seu nascimento, a sua mãe, sempre fria e distante, garantiu que nada seria o mesmo depois de Malcolm, uma frase que se tornou uma piada entre ele e o irmão Russel. Sempre que alguma coisa corria mal, os dois costumavam repetir as palavras da mãe: “Nada será o mesmo depois de Malcolm”.

Depois de frequentar a escola local, Lowry ingressou na Leys School, onde se preparavam os futuros estudantes de Cambridge. Foi aí que começou a ler os grandes clássicos e autores como Honoré de Balzac, Eugene O’Neill e James Joyce, com quem viria a ser comparado muitos anos depois. Foi também na revista da Leys School que publicou os primeiros contos, entre 1925 e 1926. Segundo alguns relatos, terá também sido durante este período, aos 14 anos, que terá começado a beber. A par da escrita, a bebida haveria de ser uma constante na sua vida.

Malcolm Lowry inscreveu-se na Universidade de Cambridge, no curso de História, em inscreveu-se em Cambridge em 1929

Como muitos dos seus colegas, Lowry deveria seguir os estudos na Universidade de Cambridge e continuar com o negócio da família, ligado ao comércio de algodão. Porém, o jovem Malcolm tinha sede de mundo e, depois de várias tentativas, lá conseguiu convencer o pai a deixá-lo embarcar num navio da marinha mercante, o S.S. Phyrrhus. O caso chegou até a ser notícia nos jornais locais, que anunciavam que o filho de uma família abastada tinha decidido aventurar-se no mar.

Ao S.S. Phyrrhus, seguiu-se uma temporada na Alemanha, uma viagem às Antilhas e outra aos Estados Unidos da América para conhecer o poeta Conrad Aiken. Concretizando o desejo da família, inscreveu-se em Cambridge em outubro de 1929. A maioria do tempo, porém, era passada fora do campus universitário, em pubs e em bares. Porque, como ele próprio chegou a dizer, “tinha melhores coisas para fazer”.

Malcolm Lowry terminou o curso em 1932, publicando no ano seguinte Ultramarina, romance inspirado na sua experiência a abordo do S.S. Phyrrhus e profundamente influenciado por Aiken, que se tornou seu mentor depois de se mudar para Inglaterra no início dos anos 30.

Ultramarina, publicado em 1933, conta a história de Dana Hilliot, um jovem de uma família abastada que decide embarcar a bordo do Oedipus Tyrannus, rumo ao extremo oriente.

Licenciado, instalou-se em Londres, onde começou a frequentar o chamado “Grupo Auden”, composto por escritores como W.H. Auden, Louis MacNeice e Dylan Thomas. Mas por pouco tempo. Em abril desse mesmo ano, embarcou numa nova viagem rumo a Espanha, na companhia de Aiken e da sua segunda mulher, Clarissa Lorenz. Uma viagem que haveria de ter um impacto profundo na sua vida.

Jan

Jan Gabriel estava há apenas um dia em Granada, em Espanha, quando esbarrou com Malcolm Lowry. “Tinha planeado para a manhã seguinte uma visita aos jardins de Generalife e convidei a Sra. Aiken para me acompanhar”, recordou mais tarde no livro Inside the Volcano: My Life With Malcolm Lowry, sobre os anos que passou ao lado do escritor. Sem puder acompanhar Jan, Clarissa Lorenz sugeriu Lowry para ir no seu lugar. O nome não era estranho à atriz norte-americana, que tinha lido o conto “Seducto Ad Absurtum”, publicado na coletânea Best British Short Stories, de 1931.

Apesar de admirar a sua escrita, Jan mas não ficou particularmente encantada com o jovem inglês. “Os sinos não tocaram” e “não se ouviram foguetes”, como ela própria admitiu. No diário da altura, descreveu-o como sendo “estranhamente desajeitado, como se tivesse apaixonado por si como Narciso, nalguns momentos brutalmente sincero e noutros um mentiroso charmoso”. Porém, não tardou a acrescentar à frase as palavras: “Loucamente apaixonada por Malcolm Lowry, o escritor”. Lowry tinha 23 anos e Jan 21. “O Malcolm tinha-me cativado”, recordou em Inside the Volcano.

O casamento aconteceu no ano seguinte, em janeiro de 1934, em Paris. Mas, passados seis meses, Jan fez as malas e voltou a Nova Iorque, na sequência de um desentendimento com o marido. O primeiro de muitos provocados pelas bebedeiras constantes de Malcolm Lowry. Depois de uma temporada em Londres, Lowry decidiu seguir a mulher até aos Estados Unidos da América. Desembarcou em Nova Iorque em outubro. Em junho, foi internado no Hospital Psiquiátrico de Bellevue depois de um colapso mental provocado pelo álcool.

A experiência no Hospital Psiquiátrico de Bellevue, em Nova Iorque, serviu de inspiração à novela Lunar Caustic, publicada postumamente no final dos anos 60.

Uma vez saído do manicómio, Lowry mudou-se com Jane para Hollywood, na esperança de conseguir arranjar trabalho como guionista. Sem sucesso, e com o casamento à beira do colapso, os dois acabaram por decidir que o melhor era mesmo mudar de ares. Chegaram ao México a 2 de novembro de 1936, Dia dos Mortos, e instalaram-se num pequeno hotel na cidade de Cuernavaca.

“Na noite a seguir à nossa chegada, no Dia de los Muertos, visitámos o cemitério”, relatou Jan Gabriel em Inside the Volcano, publicado pela Palgrave em 2010. “As famílias faziam piqueniques ao lado das sepulturas decoradas com flores alegres. As crianças pediam chocolates em forma de caveiras e esqueletos. Ouvimos risos baixos e, de vez em quando, o som de uma guitarra. Na noite que pertencia aos mortos, até a morte se tornou caso para celebração.”

Decidido a dedicar mais tempo à escrita, Lowry começou a trabalhar num novo livro, Debaixo do Vulcão, cuja ideia lhe surgiu pouco tempo depois da sua chegada ao México. Durante uma viagem de autocarro, Lowry assistiu à morte de um índio, que se esvaia em sangue à beira da estrada. Ao ver o homem deitado no chão, o condutor do autocarro parou e um dos passageiros saiu para roubá-lo. A imagem é muito semelhante ao destino da personagem principal de Debaixo do Vulcão, Geoffrey Firmin, que morre depois de ser alvejado no interior de um bar barato, sendo depois atirado para o fundo de uma ravina, como um animal.

Malcolm Lowry e Jan Gabriel chegaram ao Méxido a 2 de novembro de 1936, Dia dos Mortos

Passeando de cantina em cantina, sempre acompanhado por uma garrafa de tequila ou mescal, Lowry ia, a pouco e pouco, avançando com a história que Jan ia passando a limpo numa máquina de escrever. No início, tudo parecia correr bem, mas a situação entre os dois depressa começou a deteriorar-se. Lowry, constantemente bêbedo, tornava-se muitas vezes violento e as discussões forma-se tornando cada vez mais frequentes. Num desses acessos de raiva chegou mesmo a morder Jan. A ferida acabou por infetar, e a norte-americana foi obrigada a ser internada num hospital para receber tratamento médico.

Farta da situação, Jan acabou por abandoná-lo definitivamente a 28 de novembro de 1937, quase 13 meses depois de os dois terem chegado a Cuernavaca. Por sua vez, Lowry partiu para Oaxaca, “para afogar a dor no melhor mescal do México”. O escritor acabaria por ser deportado alguns meses depois, na sequência de vários incidentes provocados pelo excesso de álcool, regressando então a Los Angeles.

Depois de mais de um ano de troca de correspondência, Jan Gabriel acabaria por se aperceber que “o barco que era Malcolm tinha tirado as amarras da minha vida e que tinha sido colocado num mar negro no qual eu não o podia seguir”. “Foi uma conclusão triste e amarga, mas bastante inevitável”, admitiu em Inside the Volcano.

"Oh Malcolm, não deixes que isto acabe assim. Existe algo dentro de ti que é muito mais forte do que o teu amor por mim, mas também existe amor aí dentro. Eu sei que também existe amor…"
Jan Gabriel em carta a Malcolm Lowry

Margerie

Malcolm Lowry regressou aos Estados Unidos em agosto de 1938. Foi aí que, em junho do ano seguinte, conheceu “uma rapariga chamada Margerie”, em Los Angeles. Margerie Bonner, quatro anos mais nova do que ele, era irmã de Priscilla Bonner, uma atriz de filmes mudos. À semelhança de Lowry, Margerie sonhava em ser escritora e até já tinha tentado a sorte com alguns policiais, mas sem sucesso. Enquanto a fama não chegava, trabalhava como assistente da atriz Penny Singleton, que se tinha então estreado no cinema no papel de Blondie Bumstead, uma personagem retirada da popular banda desenhada Blondie, de Chic Young.

Margerie Bonner também teve os seus cinco minutos de fama no cinema, tendo entrado em filmes como The King of Kings (1927), um filme épico de Cecil B. DeMille sobre os últimos dias de Jesus, e The Sign of the Cross (1932), outro épico de DeMille.

Foi amor à primeira vista. Ela usava casacos de pele e saltos altos, e tinha em si um bocadinho do glamour de Hollywood. Ele era um aristocrata excêntrico, exótico. Seis meses depois de se terem conhecido, Lowry mudou-se para o Canadá (o seu visto norte-americano tinha expirado) e pediu a Margerie para ir com ele. No ano seguinte, depois de formalizado o divórcio com Jan, casaram-se.

O casal instalou-se numa cabana à beira de um bosque, em Dollarton, na zona norte de Vancouver. Lowry acreditava que o seu destino era ser escritor, e Margerie acreditava tanto nisso quanto ele. Uma vez acomodados, incitou-o a trabalhar em Debaixo do Vulcão, romance que tinha começado a desenvolver no México e que se baseava no seu casamento com Jan Gabriel.

Com Margerie ao seu lado, Debaixo do Vulcão passou a ser um trabalho a dois. Os textos novos, escritos à mão, eram passados à máquina e revistos por Margerie. Ela sugeria alterações, que eram deixadas em pequenas notas à margem do texto, e Lowry fazia as mudanças necessárias. “Trabalhamos juntos de dia e de noite”, contou o escritor numa carta enviada a Aiken.

A técnica parecia funcionar (ao fim de seis meses, Lowry tinha o primeiro manuscrito pronto) e, ao contrário de Jan, os hábitos de Lowry não a incomodavam — Margerie conseguia beber quase tanto quanto ele. A Douglas Day, um dos biógrafos do escritor, contou que uma vez o encontrou desmaiado no armazém de um bar em Vancouver apenas com a roupa interior vestida. Lowry tinha vendido a roupa para comprar mais álcool, mas Margerie não o abandonou. Depois de exigir que o dono do bar lhe desse qualquer coisa para ele vestir, levantou-o e permaneceu ao lado dele enquanto ele pedia esmola na rua para comprar mais cerveja.

"A sensação subterrânea de estar a sangrar, de ser arrancado pela raiz como uma árvore por uma rajada de vento — sentes isso? Deus, eu sinto!"
Malcolm Lowry em carta a Margerie Bonner

Uma espécie de ópera, de sinfonia

Malcolm Lowry concluiu a primeira versão de Debaixo do Vulcão, o Inferno da sua trilogia The Voyage that Never Ends, em 1940. A Conrad Aiken, admitiu que, se não fosse por Margerie, talvez nunca tivesse tido “oportunidade de o acabar”. Como escreveu D.T. Max, num artigo publicado na revista The New Yorker, a ex-atriz era “boa editora e a única pessoa que conseguia lidar com o temperamento destrutivo do seu marido”.

Lowry continuou a mexer e a remexer no texto até 1944, altura em que decidiu enviá-lo para várias editoras. Em fevereiro de 1946, dois anos depois de ter submetido o rascunho final, recebeu finalmente uma resposta — o livro tinha sido aceite pelas editoras Reynal & Hitchcock, de Nova Iorque, e Jonathan Cape, em Inglaterra. A Cape, porém, tinha ainda algumas reservas quando à publicação, e pediu ao escritor que fizesse algumas alterações drásticas antes de enviar o manuscrito para impressão. Convencido de que tinha em mãos uma obra que poderia ter sucesso, Lowry escreveu à editora defendendo a sua versão do romance.

Mulher-do-Malcolm

Margerie Bonner casou com Malcolm Lowry em 1939, depois de este se divorciar da primeira mulher, Jan Gabriel

Numa carta datada desse mês, o inglês explicou que o livro “podia ser encarado como uma espécie de sinfonia” ou como “uma espécie de ópera — uma ópera a cavalo”. “É música quente, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e por aí em diante… Quer venda ou não, parece-me que vale a pena o risco. Mas existe algo que parece dizer-me que vai vender durante muito tempo.” Em resposta, a Cape disse que não seria necessária qualquer alteração.

Debaixo do Vulcão chegou às livrarias em fevereiro de 1947 e o sucesso foi imediato. A história trágica de Geofffrey Firmin, um ex-cônsul alcoólico incapaz de reagir perante os problemas, chegou a ultrapassar o romance Forever Amber, de Kathleen Winsor, no top de vendas. Anthony Burgess, autor de Laranja Mecânica, chamou-lhe “uma obra-prima faustiana” e Dylan Thomas, que Lowry tinha conhecido nos anos 20 em Londres, descreveu-o como “uma profecia, um aviso político, um criptograma, um filme absurdo e uma frase na parede”. Entre os críticos, Malcolm Lowry foi aclamado como sucessor de James Joyce.

Hoje em dia, Debaixo do Vulcão (publicado em portugês pela Relógio d’Água) é unanimemente considerado um dos grandes romances modernistas do século XX. Os últimos momentos de vida de Firmin, retratados no romance, são vistos como “uma das melhores passagens da prosa inglesa”, como escreveu Robert McCrum, numa crítica no The Guardian. Para Patrick A. MacCarthy, professor na Universidade de Miami e responsável pelas edições críticas da obra de Malcolm Lowry publicadas pela Universidade de Ottawa, existem vários motivos para isso.

“Existe um protagonista cujo amor pela sua mulher leva-o a perder uma batalha contra o seu amor pelo álcool e pela pena que sente de si mesmo; a narrativa, na qual os eventos são brilhantemente descritos da perspetiva das quatro personagens [Firmin, Yvonne Constable, Hugh Firmin e Jacques Laruelle]; a cronologia, que volta atrás duas vezes. O livro está revestido de ironia, mas nunca perdemos a simpatia pelas personagens — ou, pelo menos, eu não”, disse ao Observador.

Para o especialista na obra de Malcolm Lowry, “tudo funciona neste romance”. “Lowry escreveu numa carta ao seu editor britânico que Debaixo do Vulcão ‘foi tão projetado, contra-projetado e interligado que podia ser lido um número infinito de vezes que não iria fornecer todos os seus significados ou dramas ou poesia’. A pretenção era verdade, como posso atestar pelo número infinito de vezes que o li durante as últimas cinco décadas.”

"O livro está revestido de ironia, mas nunca perdemos a simpatia pelas personagens — ou, pelo menos, eu não, Tudo funciona neste romance."
Patrick A. MacCarthy, especialista na obra de Malcolm Lowry

“Sucesso, a pior coisa que pode acontecer a algum autor sério”

O sucesso não foi benéfico para Lowry. Numa carta enviada à sua mãe, Margerie escreveu: “Sucesso, a pior coisa que pode acontecer a qualquer escritor sério”. De acordo com vários biógrafos, o escritor começou a beber ainda mais depois de publicar Debaixo do Vulcão, ao ponto de se tornar quase incapacitado. Começou a ter alucionações e a tremer violentamente, ao ponto de nem conseguir segurar um lápis.

Com Debaixo do Vulcão arrumado, o escritor começou a trabalhar em três outros romances: Dark as the Grave, La Mordida e, por fim, October Ferry to Gabriola, sobre a fase mais feliz do casamento com Margerie. Originalmente concebido para ser um pequeno conto, October Ferry to Gabriola foi inspirado numa viagem que Malcolm Lowry e Margerie Bonner fizeram à ilha da Gabriola, a este da ilha de Vancouver.

Nos últimos anos de vida, October Ferry to Gabriola acabaria por se tornar no principal foco de Lowry. “Começou a dedicar mais tempo a esse romance do que a qualquer outro, e acumulou notas e rascunhos que chegam às quatro mil páginas”, disse o especialista Patrick A. McCarthy ao Observador. “Existem rascunhos de todos os capítulos e é certamente uma narrativa coerente, mas que nunca chegou a uma forma final. Apesar disso, todos os elementos estão lá.”

Mas Malcolm Lowry parecia não conseguir avançar com a história, e a frustração ia crescendo. “Aqueles romances nunca foram acabados e eles mostram que o sucesso de Debaixo do Vulcão teve um lado negro para Lowry, porque ele temia que nunca conseguisse reproduzir o sucesso da sua obra-prima“, salientou McCarthy.

Margerie ia editando e sugerindo alteraçãos, ao mesmo tempo que Lowry ia escrevendo e reescrevendo, mas sem nunca conseguir alcançar uma versão satisfatória. Incapazes de terminar October Ferry to Gabriola, os dois viam-se também confrontrados com o facto de serem incapazes de contar a história da sua felicidade. Começaram a beber mais e mais e a tomar medicamentos — sedativos, tranquilizantes, estimulantes. Começaram a surgir as discussões, as cenas de violência.

malcolm lowry, under the volcano, debaixo do vulcão, 1946

O escritor Malcolm Lowry em 1946

Cansada da situação, Margerie decidiu convenser Lowry que o melhor era abandonar Dollarton. Os dois decidiram então regressar à Europa e instalarem-se na Sicília. Mas as coisas não melhoraram. Em Itália, Lowry tentou por duas vezes estrangular Margerie. Apesar de ter metade do seu tamanho, ela também o atacou. Pouco antes de morrer, o escritor disse ao seu psiquiatra que a relação tinha chegado a um ponto em que ou ele matava Margerie, ou ela o matava a ele. O casamento ia-se tornando cada vez mais destrutivo, à medida que Lowry avançava em direção aos últimos anos de vida.

Ao fim de oito meses na ilha italiana, mudaram-se para Londres. Margerie sofreu um esgotamento nervoso e foi internada num hospital. Enquanto isso, convencido por amigos, Lowry decidiu consultar um psiquiatra por causa do seu problema com a bebida. Em novembro de 1955, no Hospital de Wimbleton, conheceu Michael Raymond, com quem começou a fazer um tratamento de aversão ao álcool. Para Raymond, o grande problema de Lowry era a “folie à deux”, como ele lhe chamou. Malcolm Lowry e Margerie Bonner estavam encurralados num vício a dois.

Decididos a ficar nas redondezas para que Lowry pudesse continuar a ser acompanhado por Raymond, alugaram uma casa no ano seguinte, White Cottage, na aldeia de Ripe. Depois de algum tempo sem escrever, Lowry retomou a escrita, debruçando-se principalmente sobre October Ferry to Gabriola, aparentemente feliz por viver num sítio isolado de Inglaterra.

Depois de algumas recaídas, o tratamento de aversão começou finalmente a fazer efeito. Lowry bebia cada vez menos, uma mudança que parece não ter agradado a Margerie, que mantinha o hábito de beber à sua frente. À medida que Lowry cortava na bebida, a ex-atriz começava a beber mais, passando os dias sentada em casa a chorar. Não demorou muito até voltar a ter um esgotamento e a ser internada num hospital, onde passou um longo período a tomar sedativos para acalmar os nervos.

"O sucesso de 'Debaixo do Vulcão' teve um lado negro para Lowry, porque ele temia que nunca conseguisse reproduzir o sucesso da sua obra-prima."
Patrick A. McCarthy, especialista na obra de Malcolm Lowry

A estranha morte de Malcolm Lowry

Naquele 26 de junho (de 1957), Lowry e Margerie tinham então regressado a Ripe depois de umas pequenas férias em Lake District. Depois de terem passado a tarde num pub perto de Chalvington, regressaram a casa para ouvirem o concerto de Leopold Stokowski na BBC Radio. De acordo com Margerie Bonner, apesar dos seus apelos, Lowry decidiu levar consigo uma garrafa de gin.

Em casa, sentaram-se no quarto a ouvir a emissão, enquanto bebiam o gin. Terminado o concerto, Margerie desceu as escadas até à cozinha para fazer o jantar. Quando regressou ao andar de cima, Lowry começou a aumentar cada vez mais o som da rádio. Para não incomodar a vizinha do lado, Winnie Mason, que já tinha uma idade avançada, Margerie baixou o volume mas Lowry, que já estava bêbedo, voltou a aumentá-lo. Irritada, Margerie pegou na garrafa de gin a atirou-a contra a parede.

Quando foi entrevistada para o documentário Volcano: An Inquiry into the Life and Death of Malcolm Lowry, de 1977, Winnie Mason contou que ainda era possível ver uma mancha na parede, no local onde a garrafa de gin foi partida.

“Pedi-lhe que não bebesse. Tentei pará-lo, parti a garrafa e ele levantou-se e bateu-me”, relatou mais tarde. Com medo do que pudesse suceder, a norte-americana decidiu refugiar-se na casa de Winnie. Eram quase 11 da noite.”Eu e o Malcolm tivemos uma discussão, uma discussão muito má. Posso dormir aqui esta noite?”, perguntou à vizinha depois de bater à porta de casa. Winnie Mason arranjou espaço para ela no sofá, e foi aí que, depois de tomar um calmante, Margerie Bonner passou a noite.

Quando voltou a casa na manhã seguinte, Margerie encontrou Lowry morto no chão do quarto. Voltou a correr para casa de Winnie, gritando “ele foi-se!”. “Para Liverpool?”, perguntou-lhe ingenuamente a mulher. “Não ele está morto!”.

A polícia chegou por volta das 10h30 e descobriu Lowry, morto, deitado no chão de barriga para baixo ao lado da cama. Debaixo do braço direito, tinha um tabuleiro de madeira e um prato. Havia comida espalhada pelo chão e vidro partido. Uma cadeira estava virada ao contrário, uma estava completamente partida. Ao pé da lareira, estava uma garrafa de gin e outra de sumo de laranja partida no chão. Em cima da mesa de cabeceira, havia vários frascos com comprimidos. Escondido numa gaveta, estava um de barbitúricos, vazio.

O que aconteceu naquela noite, há exatamente 59 anos, depois de Margerie ter fugido para casa de Winnie, permanece um mistério. Na segunda declaração que prestou à polícia, a ex-atriz avançou com a hipótese de que Lowry poderia ter cometido suicídio, tomando o frasco inteiro de barbitúricos. “Houve ocasiões em que o meu marido disse que eu ficaria melhor sem ele e em que ameaçou matar-se…”, disse à polícia. Ocasiões em que, de acordo com ela, “estava deprimido devido ao alcoolismo”.

“O que é que ele pensou, sentiu, quando o fez? Que me tinha decepcionado, que estava melhor sem ele? Que doido! Porquê, porquê, porque é que ele fez isto?"
Margerie Bonner, depois do suicídio de Malcolm Lowry

Nas várias cartas que enviou na semana seguinte, voltou a enfatizar a teoria do suicídio. Mas, para a maioria dos amigos de Lowry, a culpa da morte do escritor era de outra pessoa — de Margeria Bonner.

Apesar das dúvidas de muitos o inquérito policial não passou de mera rotina, e foi rapidamente encerrado. Como salientou D.T. Max no artigo da New Yorker, “Lowry não tinha quaisquer ligações na zona, ninguém sabia quem ele era e os habitantes locais não gostavam dele”. Na verdade, muitos mostraram até alívio por aquele bêbedo violento ter morrido.

Em 2007, D.T. Max visitou David Markson, um dos últimos amigos vivos e Malcolm Lowry. Quando lhe perguntou o que pensava da morte do escrito, Markson disse: “O que é que eu penso? Que ele era um bêbedo e que morreu”. Nos documentos relativos à sua morte, o veredicto foi death for misadventure. Morte por uma contrariedade.

Margerie nunca voltou a casar. Depois da morte de Lowry, voltou a mudar-se para Taormina, na Sicília, ao mesmo tempo que lutava pela herança do marido que se encontrava nas mãos da família. Depois de ameaçar que iria viver com eles, os Lowry acabaram por libertar uma parte do dinheiro.”Por eles, podia morrer à fome na Sicília”, escreveu à amiga Dorothea Templeton, quatro meses depois da morte do escritor.

O seu nome tornou-se um tabu entre a família do escritor e, a pouco e pouco, os amigos de Lowry, cuja maioria, nunca simpatizou com ela, foram-na abandonando. Quando visitou o sobrinho-neto de Lowry, Jeremy Lowry, no verão de 2007, o jornalista da New Yorker perguntou-lhe qual era a opinião que a família tinha da ex-atriz. A resposta dele não podia ter sido mais simples: “Ninguém falava dela“.

Malcolm Lowry passou os últimos anos de vida numa aldeia inglesa, em Sussex

Apesar disso, Margerie nunca desistiu da obra do marido, que acreditava ocupar um lugar especial entre a literatura do seu tempo. Nos anos que se seguiram, empenhou-se a organizar e a editar a obra inédita este tinha deixado por acabar, uma iniciativa que não agradou a muitos. “Disse à Margerie para não os publicar”, lembrou David Markson em conversa com D.T. Max. A verdade, é que as edições que Margerie foi publicando de quatro em quatro anos são bastante discutíveis.

Questionado sobre se Margerie Bonner tomou a atitude certa em relação à obra de Malcolm Lowry, McCarthy deu uma resposta ambígua: “sim e não”. “O lado positivo é que as edições em que ela trabalhou serviram para dar visibilidade ao nome de Lowry durante os anos 60 e início dos anos 70″, explicou. “Contudo, Margerie era uma editora fraca e cada uma das edições em que ela trabalhou precisou de ser substituída por uma edição revista por um editor escrupuloso.”

A descoberta de um manuscrito perdido

Em junho de 1944, a cabana onde Lowry e Margerie viviam no Canadá pegou fogo. Num ato de desespero, Lowry atirou-se às chamas na tentativa de salvar os manuscritos que se encontravam no interior da cabana. Apesar das queimaduras graves que sofreu nas costas, o escritor conseguiu reaver o rascunho de Debaixo do Vulcão, deixando no interior mais de mil páginas de Rumo ao Mar Branco, o romance que corresponderia ao Paraíso da sua trilogia dantiana The Voyage that Never Ends, e no qual estava também a trabalhar.

Lowry teve de receber “tratamento para as queimaduras, mas isso foi várias semanas antes de ele se conseguir acalmar”, com relatou o amigo Gerald Nixon numa carta publicada em The Letters of Malcolm Lowry and Gerald Nixon. “Ele estava extremamente agitado. É preciso compreender que o mundo dele estava repleto de superstições. [Para ele], tudo o que aconteceu foi um presságio.”

Durante décadas, pensou-se que Rumo ao Mar Branco se tinha perdido para sempre. Até que, em 2000, altura em que saiu Inside the Volcano: My Life With Malcolm Lowry, Jan Gabriel confirmou que tinha em sua posse um primeiro rascunho do romance. “Cerca de 265 páginas de Rumo ao Mar Branco sobreviveram”, escreveu no livro.

As páginas tinham ficado com a mãe de Jan, que tinha ficado de as guardar quando o casal partiu rumo ao México. Mais tarde, em 1991, Jan recuperou a cópia e passou-a a limpo, como costumava fazer com os manuscritos de Lowry quando ainda estavam casados. Esse rascunho foi publicado pela primeira vez em setembro de 2014, numa edição crítica da Universidade de Ottawa. A Portugal, chegou em maio de 2016, pela Livros do Brasil. Apesar de as notas da edição crítica não terem passado para a edição portuguesa, houve uma coisa que passou a dedicatória que Patrick A. McCarthy, editor da edição da Universidade de Ottawa, fez a Jan Gabriel.

“Anos mais tarde, certamente depois da morte de Lowry, ela descobriu que o seu manuscrito [de Lowry] se tinha perdido”, contou o editor. “Apesar de nunca a ter conhecido, senti que Lowry a tratou de forma injusta e respeito o facto de ela ter sido superior a isso tudo, de ter escrito um livro de memórias razoavelmente equilibrado e de ter salvado o romance de Lowry”. Foi por isso que, na altura de lançar a edição crítica, McCarthy não hesitou — o romance tinha de ser dedicado a Jan, que é muitas vezes tratada como uma personagem secundária na história da vida do escritor.

"Penso que sei o que é o sofrimento físico mas, pior do que isso, é sentir a alma a morrer. Pergunto-me se é por isso, porque a minha alma morreu, que esta noite sinto algo muito semelhante a paz."
Malcolm Lowry sobre a perda dos seus manuscritos num incêndio

No final de Inside the Volcano: My Life With Malcolm Lowry, Jan escreveu: “Era um homem deslumbrante, este Malcolm Lowry. Ele iluminou muitas vidas, produziu uma obra-prima e morreu demasiado novo. Partilhámos uns sonhos e uns anos e a nossa juventude. Estes foram os presentes que demos um ao outro.”

Um passo importante

Para McCarthy, a descoberta de Rumo ao Mar Branco, sobre um estudante de Cambridge que viaja até à Noruega para conhecer um escritor que admira, é importante porque “preenche uma parte da imagem total, permitindo-nos ver mais claramente ou de forma completa a fase ou um aspeto do trabalho do autor”. “Existem algumas diferenças significativas entre aquilo que Lowry disse mais tarde sobre o romance e os eventos que sobreviveram no manuscrito [de Jan]. Isso pode indicar que ele escreveu um rascunho posterior que introduzia elementos adicionais, ou o que ele poderia ter acrescentado ao livro na sua cabeça antes de o manuscrito se ter perdido.”

Ao Observador, Chris Ackerley, responsável pelas notas da edição crítica da Universidade de Ottawa, acrescentou que “Rumo ao Mar Branco preenche muitas das lacunas relacionadas com o que Lowry estava a fazer no início dos anos 30 e que os seus dois principais biógrafos, Douglas Day e Gordon Bowker, não sabiam”. “Rumo ao Mar Branco não é obra-prima que Debaixo do Vulcão é mas é um passo intermédio importante. Marca o fim da escrita de Lowry sobre o Mundo Antigo (a Europa), a favor do Mundo Novo (a América). Enquanto trabalho no qual ele passou mais tempo depois de Ultramarina e antes de Debaixo do Vulcão diz muito sobre a evolução da sua escrita.”

Na opinião de McCarthy, os livros inacabados de Lowry, como Rumo ao Mar Branco, que constituem a maior parte da sua obra, “são fascinantes” porque revelam “porque é que ele tinha tanta dificuldade em terminá-los”. “Assim que vemos isso, apercebemo-nos da missão heróica que foi para ele passar uma década a escrever e a reescrever Debaixo do Vulcão”, que apenas depois de várias reevisões se tornou o livro que é hoje.

“Sem o conhecimetno dessa história, ninguém pode julgar a magnitude da sua conquista”, salientou o especialista. “Sem os livros inacabados, ninguém poderia saber quanto tempo, esforço e inteligência ele pôs noutros projetos que lhe poderiam ter levado tanto tempo a completar como Debaixo do Vulcão”.

Acabados ou inacabados, os livros que Lowry deixou são um reflexo claro do seu potencial enquanto escritor. “O alcance do seu trabalho, a majestade dos seus temas, a habilidade em lidar com várias perspetivas e registos envolvidos nas suas ficções”. É aí que reside a importância da obra do escritor inglês Malcolm Lowry, que morreu cedo demais.

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