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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Uma decisão por amor contra a Proteção Civil nos fogos de Mação: "Eu não te deixo aqui sozinho"

Como foram evacuadas 20 aldeias rodeadas pelo fogo em Mação. E como uma mulher de 80 anos se recusou a deixar o marido sozinho, depois de a Protecção Civil lhe dizer: "Não há bombeiros quase nenhuns".

Reportagem do Observador em Mação

Um jipe da Proteção Civil entra na aldeia de Casas da Ribeira, povoação com cerca de 30 habitantes, a quatro quilómetros do centro de Mação. É 1h da manhã. Há chamas a cem metros dali, a ameaçar as casas que ficam mais próximas dos eucaliptos, no topo norte. Já houve guardas da GNR a escoltar idosos que saíam das suas casas só com a carteira na mão. Mas não todos. Os dois elementos da Protecção Civil, um homem ao volante e uma mulher no banco do pendura, param o jipe numa rua estreita e perguntam ao Observador onde vivem os velhinhos: têm informações de outro habitante de que ainda há dois idosos na aldeia.

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Aceleram mais uns cem metros a descer, encostam o jipe a uma moradia que tem a porta aberta e entram determinados, mas esbarram numa dupla teimosia: Manuel Marques,de 83 anos, um ex-operário fabril, recusa-se a deixar a habitação; e a mulher, Silvina, de 80 anos, que até se sentia mais segura fora da aldeia mas recusa-se a deixar ali o marido.

– Deixem-me estar na minha casa, que eu estou aqui bem a tomar conta daquilo que é meu – responde Manuel ao representante da Proteção Civil, enquanto rega o pátio.

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A equipa da Proteção Civil dá o caso praticamente por terminado com uma série de instruções e reprimendas: “Desligar o gás, garrafa para dentro, janelas fechadas e fechar tudo. E ficam cá porque querem. Não deviam ficar cá. Vem aí um momento de grande aflição. Nós temos de ir embora porque temos pouco tempo.” A mulher começa a hesitar. Pergunta pelos bombeiros, mas a resposta da autoridade é assustadora: “Não há bombeiros quase nenhuns. Nós temos de ir embora”.

A funcionária da Protecção Civil dá-lhe nova hipótese:

– Quer vir connosco?
– Não, eu fico com o meu marido.

Manuel Marques, sem nunca parar de regar a propriedade, justifica a sua teimosia ao Observador: “Eu sei que a minha casa não vai arder. Fui eu que a fiz. Quer dizer, mandei fazer, mas eu fui o mestre e também era pedreiro. É em cimento, não há nada de madeira. Se eu tiver algum azar, meto-me ali dentro” – e aponta para um tanque. “Acho que se devem preocupar, mas só se houver algum palheiro. Fora isso não há problema. Eu agora vou dormir descansado.”

É a própria Silvina que interrompe a conversa entre o marido e os elementos da Proteção Civil. Já tomou a decisão de ficar com o Manuel, que não quer abandonar a casa: “Eu não vou, eu não te deixo aqui sozinho. Não vou ficar sem ti”.

A representante da Protecção Civil esteve a conversar à parte com a mulher de Manuel e reaparece no pátio com um argumento de peso, quase a implorar:

– Venha connosco. A sua esposa quer vir. Venha lá.
– Ela que vá.
– Mas ela não quer ir sem o senhor.
– Então ela que fique. Faz bem em ficar comigo.

É a própria Silvina que se intromete com a decisão final: “Eu não vou, eu não te deixo aqui sozinho. Não vou ficar sem ti”.

O comissário da PSP que chamou o 112

Não ficam sozinhos. Entre os vizinhos que permanecem na aldeia está Alberto Quinto, um comissário da PSP aposentado, que censura a atitude de Manuel e Silvina: “As pessoas com mais idade e pouca mobilidade deviam ir, por causa da respiração e do fumo. A Proteção Civil pode aconselhar e tentar convencer, mas se as pessoas se recusarem terminantemente a ir, não as podem obrigar”. (O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, admite o mesmo problema: “Há pessoas que se recusam a sair das casas. Mas há questões de legitimidade que não são fáceis.”)

Foi Alberto Quinto que ligou para o 112 às 23h. “Vi o fogo a cercar isto tudo, não havia um carro, não havia um bombeiro, nada. Tudo a arder em volta e o fogo a aproximar-se com uma velocidade medonha. Liguei uma, liguei duas e voltei a ligar. Ainda disse: ‘Eu vou expor isto, vocês não vêm’. Depois para localizar a aldeia foi um caso sério: passado mais de meia hora é que os carros chegaram cá”

O alerta do comissário aposentado foi transmitido ao posto de comando, montado no centro de Mação, onde o presidente da câmara tem estado, quase em permanência, ao lado do segundo comandante da Protecção Civil de Santarém, que está a coordenar as operações.

Lição de Pedrógão: maior intransigência na evacuação de aldeias

O próprio autarca admitiu ao Observador que estão a ser mais intransigentes devido à tragédia que há um mês e dez dias tirou a vida a pelo menos 64 pessoas: “Infelizmente, Pedrógão Grande transmitiu ensinamentos, nomeadamente na evacuação de populações. Era algo que se fazia de forma diferente. Estamos a levar muito à risca essa situação”.

Foram por exemplo evacuadas duas praias fluviais – não foi interditada a presença de banhistas, mas foram convidados a sair. O mesmo aconteceu em cerca de 20 aldeias à volta de Mação. A decisão sobre as aldeias a evacuar foi sendo tomada por acordo entre o presidente da câmara e o comandante operacional, à medida que o fogo ia progredindo.

As pessoas eram acolhidas por assistentes sociais e psicólogas, recebiam uma refeição quente semelhante à preparada para os bombeiros e eram depois encaminhadas para colchões colocados no chão.

Sempre que essa ordem foi dada, as viaturas da GNR e da Proteção Civil dirigiam-se aos locais ameaçados, para recolher os residentes e os transportar ao lar da Santa Casa da Misericórdia de Mação, que tem como provedor o próprio presidente da autarquia.

No lar, as pessoas eram acolhidas por assistentes sociais e psicólogas, recebiam uma refeição quente semelhante à preparada para os bombeiros (estão a ser preparadas em média de 850 refeições por dia) e eram depois encaminhadas para colchões colocados no chão de várias divisões do edifício da Misericórdia.

Pelo menos 80 pessoas foram retiradas das habitações onde vivem, na maioria dos casos apenas com a roupa que tinham no corpo – muita gente não trouxe sequer os medicamentos que precisa de tomar com regularidade, o que colocava problemas adicionais a quem os acolhia na Misericórdia ou noutros edifícios municipais, como por exemplo a biblioteca.

Vasco Estrela estima que tenham ardido 10 mil hectares no concelho, uma área equivalente à de dez mil campos de futebol. Esta terça-feira à noite teve a seu lado o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que foi ao centro de comando e ao quartel de bombeiros cumprimentar toda a gente e falar aos jornalistas. O governo esteve representado pelo secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes.

A Câmara de Mação tem perguntas a fazer e tem de ter resposta sobre as opções tomadas nestes dias. É preciso ver se essas decisões foram adequadas. Chegou a ser referido que havia 800 ou 900 bombeiros a combater este incêndio, mas só 200 estavam em Mação.

A ministra Constança Urbano de Sousa não esteve em Mação, mas recebeu pelo menos dois telefonemas do presidente da câmara Vasco Estrela, que admitiu aos jornalistas ter pedido explicações por um desvio de carros e homens para combater frentes do incêndio noutros concelhos em redor, nomeadamente na Sertã e em Proença-a-Nova. O ataque é claramente dirigido à gestão de meios por parte da Proteção Civil: “A Câmara de Mação tem perguntas a fazer e tem de ter resposta sobre as opções tomadas nestes dias. É preciso ver se essas decisões foram adequadas. Chegou a ser referido que havia 800 ou 900 bombeiros a combater este incêndio, mas só 200 estavam em Mação. Confrontei os responsáveis, que me disseram que as decisões teriam de ser avaliadas posteriormente”.

Arderam pelo menos cinco casas de habitação permanente no concelho. Mas a aldeia do casal de idosos que se recusou a acompanhar a Proteção Civil escapou intacta durante a noite.

Silvina arriscou a vida contra o conselho da Proteção Civil apenas para não deixar sozinho o homem com quem casou há 65 anos. Antes de saber o desfecho de mais uma noite de luta contra as chamas, olhou para o marido, que estava à varanda, no piso de cima, a controlar os estragos feitos pelo fogo ali bem perto. “As pessoas hoje namoram, casam, ‘amo-te, amo-te’ e isso não é nada. Sem o meu marido não vou embora. É um marido exemplar”.

Ele desviou o olhar do fogo e olhou para a mulher: “Oooooooooi… às vezes diz bem de mim, mas de repente começa a dizer que eu sou maluco e não tenho juízo, está sempre a ralhar comigo. Mas ela sabe que eu também não a deixo”.

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