Uma portuguesa nas quintas de marijuana da Califórnia: “Fiz 5 mil dólares em duas semanas”

É legal cultivá-la e vendê-la, mas sem visto de trabalho no país é ilegal apanhá-la. Não é por isso que as quintas da Califórnia deixam de estar cheias de portugueses, espanhóis e italianos.

Ainda o sol não tinha raiado no primeiro dia de 2018 e já as filas às portas dos dispensários de marijuana da Califórnia tinham vários metros de comprimento. Pela primeira vez naquele Estado norte-americano, a venda de canábis para consumo recreativo era legal. E foram muitos — 69.300 segundo a estimativa do site Green State — os que não quiseram perder a oportunidade histórica de comprar uma onça da substância (28 gramas, é esse o limite legal permitido) numa loja, em vez de a um dealer, numa esquina.

Ao todo, de acordo com a mesma fonte, terão sido encaixados 5,2 milhões de dólares em vendas só nesse primeiro dia. Uma ótima notícia para os vendedores, para os consumidores e para os cofres do Estado, uma péssima novidade para as centenas de pessoas que, como Isabel (nome fictício), viajam regularmente para a Califórnia para trabalharem nas mais de 50 mil quintas legais de marijuana do Estado, onde o consumo de canábis para fins medicinais é autorizado desde 1996. “Em 2014, da primeira vez que fui, pagavam 175 dólares por cada saco de um pound, que são 450 gramas. Em 2017 já pagaram 150 e este ano, por causa da legalização, será ainda menos, 125 dólares foi o que me disse o dono da quinta. Em 2014 cada saco era depois revendido por 3 mil e tal dólares, o ano passado já baixou para mil e tal”, conta a portuguesa, de 36 anos e da zona de Lisboa.

69.300 californianos terão comprado marijuana só no primeiro dia da legalização

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É daquelas situações complicadas à la Pulp Fiction: este tipo de trabalho é legal mas não é 100% legal. Como a produção de marijuana é permitida no Estado, não existe qualquer lei que impeça a contratação de pessoas para apanhar, secar e cortar as plantas. O que já não é permitido, nos Estados Unidos como em muitos outros países, é que cidadãos estrangeiros trabalhem sem o respetivo visto. O que nem por isso impede que grande parte das pessoas que trabalham nestas quintas, garante Isabel, o façam.

“A maior parte são portugueses, espanhóis e italianos. O pior que nos podia acontecer se fôssemos apanhados era sermos deportados e ficarmos impedidos de entrar nos Estados Unidos durante uma série de anos. Havia esse risco: para além das quintas legais, também há muita merda por ali, plantações ilegais e cartéis mexicanos, de vez em quando víamos os helicópteros da DEA [a agência anti-droga norte-americana] a passar. O ano passado enganaram-se e desceram por cordas no meio de uma quinta legal, para fazer uma rusga. Os estrangeiros tiveram de fugir, conheço um espanhol que desceu a montanha a correr, com uma mala de rodinhas.”

Apanhar marijuana na Califórnia no verão, viver na Ásia o resto do ano

Nas montanhas da floresta nacional Shasta-Trinity, só na região de Willow Creek (território conhecido como “capital internacional do Big Foot”, tantos terão sido os avistamentos da criatura) há largas dezenas de quintas legais de marijuana e outras tantas plantações ilegais. Não será por acaso. Local mais isolado e recôndito seria difícil de encontrar: para lá chegarem, Isabel e o namorado tiveram de voar da Europa para São Francisco, onde apanharam um autocarro que percorreu 450 km Estado acima até Arcata, a cidade mais próxima das montanhas, e depois um outro que os levou até Willow Creek, a 50 km, onde finalmente esperaram numa bomba de gasolina que o encarregado da quinta os viesse apanhar de carrinha. “A partir daí começámos a subir a montanha, foram 40 minutos até chegarmos, pelo meio do nada. Ali não há nada, só árvores, montanhas e natureza. Há veados, ursos, raposas, esquilos, coelhos, perus selvagens, sapos enormes e, no verão, uns insetos gigantes e gordos”, conta a portuguesa.

Há cerca de 50 mil plantações de marijuana na Califórnia. Isabel esteve em várias na zona de Willow Creek

Introduzida no meio por uma amiga, já fez este tipo de trabalho três vezes, em diferentes quintas: em 2014 ficou durante dois meses, em 2016 durante três, e em 2017 resolveu apanhar as duas épocas de colheita, entre julho e setembro e depois de outubro a dezembro, e passou cinco meses nas montanhas. “No primeiro ano fiz 7 mil dólares, no segundo 16 mil, e no terceiro 18 mil, mas só trabalhei a sério durante dois meses, aproveitei para passear e conhecer, estive em Los Angeles e em São Francisco. Quero ir só mais uma vez, este verão, só durante um mês. Depois paro. Quero fazer uns 10 mil dólares. Já fiz 5 mil em duas semanas, acho que consigo.”

Diz que a maior parte dos companheiros de trabalho são “artistas”, entre os 20 e os 30, que aproveitam para amealhar ali, durante o verão, o dinheiro de que precisam para viver o resto do ano, no continente asiático. “Também havia quem trabalhasse em e-commerce, um repórter fotográfico, uma massagista, bloggers e até uma enfermeira. Se tivesse 20 e tal anos era o que fazia, pegava no dinheiro e ia para a Ásia, porque lá é tudo muito mais barato, mas o meu objetivo é outro: arranjar o suficiente para dar entrada para uma casa”, explica.

Durante o inverno, as plantas são cultivadas em estufas

Sem emprego fixo, Isabel garante que aquilo que juntou em 2017 lhe daria para viver sem extravagâncias durante um ano inteiro. Pode até parecer — ela própria aconselhou um dos patrões a fazer da quinta uma espécie de agroturismo, onde os hóspedes poderiam fazer o trabalho de poda e de corte à laia de experiência e ainda pagarem a estadia por cima –, mas não foi dinheiro propriamente fácil de ganhar.

Começava a trabalhar às 8h00 e acabava às 2h00 — mas um dia por semana ficava sempre a dormir até ao meio-dia, para repor os sonos. Na época da colheita costumava ir para os campos ajudar a apanhar as plantas da parte da manhã, para não estar sempre sentada a aparar. Aí pagavam 20 dólares à hora, só na parte do corte é que o pagamento era feito ao saco”, explica. “Depois de as plantas, que tanto estão ao ar livre como em estufas, serem colhidas, são penduradas numa espécie de cabana onde se faz uma fogueira para secarem. No verão em cinco dias estão secas, no inverno demora mais uns três dias. Quando estão prontas, são distribuídas por caixas e identificadas com o nome da planta — em 2017 só tínhamos duas, OG [de acordo com os críticos de marijuana uma das estirpes com maior concentração de THC no mundo] e Blue Balls [muito utilizada terapeuticamente para o alívio da dor]”, continua.

O trabalho a sério começava logo depois: “Tínhamos de separar as cabeças das plantas e depois cortá-las para uns cestinhos; não podem passar ramos, não podem passar muitas folhas e cada pedaço não pode ficar demasiado grande. Depois só temos de ir enchendo os tais sacos de um pound. Quanto mais fizeres mais ganhas. Havia uns tipos que nem tomavam banho, outros que faziam diretas, outros que não almoçavam — tudo para não pararem e ganharem mais. A certa altura uns catalães ficaram com a parte de baixo das pernas super inchadas, por não se levantarem dali”.

Os trabalhadores são pagos ao saco: 150 dólares por cada 450 gramas

O alojamento, conta Isabel, também não era propriamente estilo hotel de cinco estrelas. Nem de uma, na verdade — embora algumas propriedades tivessem banheiras de jacuzzi, a funcionar através de gerador, e outras aparelhos de ginásio e sacos de boxe. As únicas estruturas existentes nas quintas onde esteve eram, regra geral, os pré-fabricados de madeira onde a marijuana secava e onde depois era cortada e a cozinha, comunal, o único sítio que todas as noites era religiosamente fechado à chave — “Por causa dos ursos”.

Alojamento zero estrelas: não há cama, nem casa de banho, muito menos água quente

Para dormir, os trabalhadores tinham de levar tendas e sacos-cama. “Este ano tive um aquecedor no inverno e a uma ventoinha no verão, mas no primeiro ano não sabíamos nada. À noite enchíamos garrafas de whisky com água quente e dormíamos abraçados a elas”, recorda Isabel. Já a casa de banho era um buraco aberto no chão, rodeado por taipais de madeira a toda a volta, a dividir por todos. “Este ano estive numa quinta com 16 pessoas e noutra com 21. Numa delas puseram uma sanita sobre o buraco — mas continuou a ser só um buraco, que era fundo mas enchia. E tínhamos um chuveiro, de água fria, claro, o que no inverno era bem complicado, chegámos a estar em sítios com neve. E não havia água canalizada, só uns containers que eles iam buscar à nascente.”

Enquanto em algumas propriedades havia cozinheiros contratados, noutras eram os trabalhadores que tinham de cozinhar, em escalas rotativas. O que geralmente fazia parte do acordo de trabalho era a alimentação: “Geralmente uma vez por semana iam lá abaixo, à cidade, comprar mantimentos. Em algumas quintas só compravam o básico, noutras não. Este ano, no sítio onde fiquei mais tempo, escrevíamos o que queríamos numa lista e traziam tudo, sem limite de plafond: sumos, batatas fritas, oreos, nutella, gelados, vodca, cerveja… até uma máquina de waffles o patrão comprou. No próximo ano já vai ser diferente, ele compra o básico e o resto cada um paga o seu”.

Os trabalhadores dorme em tendas. No inverno, Isabel dormia abraçada a garrafas de whisky cheias de água quente

Com esses mantimentos, de vez em quando havia festas, com música, álcool e marijuana à discrição — essa era outra das “regalias” da função, desde que não se desleixassem com o trabalho, cada um podia fumar aquilo que quisesse. “Eu não o fazia, mas havia muita gente a fumar erva pura, eles dizem que isso de misturar com tabaco é uma coisa europeia. Um joint é só erva, um spliff leva tabaco.”

Cada propriedade organizava convívios à vez, e convidava as pessoas das quintas da vizinhança. Foi num deles que Isabel conheceu duas irmãs da região, na casa dos 50, que lhe explicaram como a canábis tinha sido importante em determinada fase das suas vidas. “Tiveram cancro, disseram-me que terem fumado foi o que lhes salvou a vida. Fumavam um óleo extraído da planta, o CBD [canabidiol], que não tem efeito psicoativo, como o THC [tetrahidrocanabinol]. Disseram-me que tanto dá para tomar em gotas como para fumar, numa espécie de cigarro eletrónico. Lá é uma coisa perfeitamente normal.”

Há duas épocas de colheita, entre julho e setembro e de outubro a dezembro

Bem-vindos ao México: 50 dólares por um carimbo no passaporte

Sobretudo no sopé daquela região montanhosa da Califórnia, garante a portuguesa, todas as atividades giram à volta da marijuana: quem não cultiva ou vende, trata de a transformar. “Havia quem fizesse chá, sabonetes, óleos, roupas, tudo”, enumera. A maior dificuldade, garante, é mesmo sair de lá depois de uma época de trabalho e regressar à América real. Para além de o característico odor a erva se entranhar em tudo — “As tendas e as roupas ficam todas lá, é impossível tirar aquele cheiro” –, os pagamentos feitos em cash também não facilitam o cruzamento de fronteiras. “Não podes viajar com mais de 10 mil dólares em dinheiro. Ainda por cima, nunca percebi porquê, eles pagam sempre em notas de 20! No primeiro ano não cheguei lá, no segundo arrisquei, neste último tive medo e abri uma conta num banco, estou a tirar o dinheiro de lá aos poucos.”

Como permaneceu em território norte-americano durante cinco meses, tendo apenas um visto turístico de no máximo três, Isabel também teve alguma dificuldade em voltar para casa sem fazer disparar os radares dos serviços de imigração. Nada que um amigo de um amigo de um amigo não soubesse como resolver: viajou de Arcata até San Diego, mais de 1200 quilómetros a sul, onde entrou, juntamente com outras 10 pessoas, numa carrinha minúscula, que os levou, encavalitados ao colo um dos outros, estilo imigrantes ilegais em rota contrária, até Tijuana, no México.

“Não cheguei a perceber se o tipo que nos levou era da polícia mexicana ou não. Devia ser… Saímos dos Estados Unidos, sem ninguém nos perguntar nada, e quando estávamos do lado de lá o homem pediu-nos os passaportes e as datas de entrada que cada um queria. Pagámos 50 dólares e ele voltou uns minutos depois, com os carimbos. Depois distribuiu-nos à vez, nos hotéis em que cada um ia ficar, fiquei para o fim, porque fui diretamente para o aeroporto, não quis arriscar ficar ali. Saí do México de avião mas ainda fiz uma escala nos Estados Unidos. Resultou, nem olharam duas vezes para o passaporte. A única coisa que me disseram foi: ‘Welcome to the United States!’.”

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