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VERA MARMELO

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"Uns com fome, outros na guerra ou em fuga". Victor Hugo Pontes foi aos bairros nas margens do Tejo para colocar a vida no palco

“Meio no Meio” é o culminar de três anos de formação e ensaios com dezenas de intérpretes não-profissionais oriundos de bairros pobres. Estreia-se nesta sexta-feira no São Luiz, em Lisboa.

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Ele tem 19 anos e terminou há pouco tempo um curso profissional de multimédia na Escola Secundária D. Dinis. Pensa ser fotógrafo, realizador de cinema ou até jornalista. Ela já fez 70, tem três filhos e há uma década reformou-se da ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho). Ricardo Cardoso Teixeira e Maria Augusta Ferreira são ambos de Lisboa e conheceram-se há três anos, quando entraram num projeto artístico cujo resultado é a peça “Meio no Meio”, que agora pode ser vista no Teatro Municipal São Luiz — nesta sexta e no sábado, às 20h00, e no domingo, às 17h30.

“Quando a proposta apareceu, em 2019, aceitei pela experiência, para acrescentar uma vivência”, conta Ricardo Cardoso Teixeira. “Depois dei-me conta das formações que ia ter durante o projeto e vi que algumas delas podiam ajudar-me no curso de multimédia, que já estava a tirar. Foi o caso da formação em cinema”, acrescenta.

[vídeo de promoção de “Meio no Meio”:]

A conversa com o Observador acontece na Biblioteca de Marvila, onde há três anos uma bibliotecária lhes falou do projeto pela primeira vez. Ele vive perto: no Bairro dos Lóios, em Chelas, uma das zonas carenciadas da capital. Maria Augusta Ferreira tem vivido sempre entre os Olivais e Marvila (freguesia onde fica Chelas) e junta-se à conversa na mesma biblioteca, um espaço municipal com ar moderno e confortável.

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Em vésperas da apresentação de “Meio no Meio” no São Luiz, os dois intérpretes aceitaram contar como foi criado o espetáculo e que experiência dali colheram. Já antes, ao telefone, o diretor artístico, Victor Hugo Pontes, tinha oferecido o seu ponto de vista.

Ricardo Cardoso Teixeira, de 19 anos, é um dos intérpretes da peça

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“Meio no Meio” começou com um convite da associação Arte Em Rede (cujo nome costuma aparecer como uma só palavra) para que Victor Hugo Pontes assinasse um projeto que se candidataria a um apoio da Fundação Calouste Gulbenkian através do programa PARTIS (Práticas Artísticas para a Inclusão Social). A Arte em Rede envolve 16 municípios, sobretudo na Grande Lisboa, e promove criação e divulgação cultural.

O projeto foi aprovado e avançou em 2019. Estava pensado desde o início para durar três anos: os dois primeiros, dedicados à formação dos intérpretes e o terceiro com ensaios que culminariam num espetáculo dirigido por Victor Hugo Pontes — o espetáculo que agora chega a Lisboa.

Desde o início também os organizadores procuravam intérpretes não-profissionais até aos 25 anos e a partir dos 45, que vivessem em bairros pobres das margens do Tejo: Lisboa (Marvila), Almada (Segundo Torrão, na Trafaria), Moita (Baixa da Banheira e Vale da Amoreira) e Barreiro. “São pessoas que vivem numa realidade social não tão favorecida ou com menos acesso a este tipo de atividades, o que não quer dizer que seja assim com todos”, resumiu Victor Hugo Pontes.

De cada bairro acorreram dezenas de pessoas, umas que viam os panfletos deixados em instituições da zona, outras levadas por quem já lá estava. Quase 70 ao todo participaram em oficinas de criação artística em 2019 e 2020 com Nuno Varela (hip-hop e rap), Catarina Pé-Curto e Joana Sabala (artes plásticas), Carina Silva (teatro), Mário Ventura (cinema) e o próprio Victor Hugo Pontes (dança). Finalmente, o diretor artístico selecionou 13 participantes para o espetáculo final.

“As 17 pessoas em palco têm histórias importantes. Umas passaram fome, outras estiveram na guerra, umas ficaram sem os pais, outras foram obrigadas a fugir do país em que estavam e sofreram racismo, outras tiveram sempre comida na mesa e uma educação normal”
Victor Hugo Pontes

O mais novo tem 18 anos e o mais velho, 73. A saber: Alegria Gomes, Benedito José, Dúnia Semedo, Leopoldina Félix, Luís Nunes, Maria Augusta Ferreira, Mavatiku José, Nérida Rodrigues, Ricardo Cardoso Teixeira, Rolaisa Embaló, Sidolfi Katendi, Teresa Amaral, Yana Suslovets. Também em palco surgem três intérpretes profissionais: Paulo Mota, Valter Fernandes e João Pataco.

Claro que a pandemia interrompeu o normal desenvolvimento da ideia, mas por entre confinamentos, quarentenas e videochamadas, as coisas foram acontecendo. E a peça fez-se. Antes de chegar ao São Luiz, esteve na Moita (4 e 5 de junho), no Barreiro (2 e 3 de julho) e em Almada (11 e 12 de Setembro). No início do próximo ano vai até à Sobral de Monte Agraço e Alcobaça.

Victor Hugo Pontes, vimaranense de 42 anos que se formou em arte plásticas e depois estudou teatro e criação coreográfica, foi durante uma década, no Porto, assistente de encenação de Nuno Cardoso, um dos nomes mais conhecidos do teatro português. Ainda recentemente apresentou a peça “Madrugada”, na Companhia Nacional de Bailado (mio de 2019).

Disse-nos que o espetáculo que agora dirige pode ser descrito como “uma peça de teatro com muito movimento ou uma peça de dança com texto”, conforme a perspetiva, até porque gosta da “linguagem híbrida entre palavra e movimento”. “É sobre a vida e diferentes gerações, sobre como nos podemos rever nos sonhos destas pessoas, nos medos, nas inquietações, sobre o que elas perspetivam, o passado que transportam. É um espetáculo cheio de vida e de vivências”, explicou o diretor artístico.

Maria Augusta Ferreira: “Quem vir e ouvir [a peça] com o coração vai aprender alguma coisa, porque há muita presença e muita emoção”

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“As 17 pessoas em palco têm histórias importantes. Umas passaram fome, outras estiveram na guerra, umas ficaram sem os pais, outras foram obrigadas a fugir do país em que estavam e sofreram racismo, outras tiveram sempre comida na mesa e uma educação normal”, sublinhou. Na sua opinião, “Meio no Meio” propõe uma “reflexão sobre o que andamos a fazer no mundo e que posição temos sobre a sociedade”, na esperança de que ao “dar visibilidade e ao amplificar a voz destas pessoas” seja possível de alguma forma intervir na realidade. “Todos nós, muitas vezes, queremos apenas virar a cara para o lado e ignorar o que se passa à nossa volta, porque é mais cómodo”, apontou.

Aliás, uma das coisas que mais o impressionaram neste percurso de três anos foi o contacto com o Segundo Torrão. “É um bairro de lata, onde as pessoas não têm saneamento básico e para terem eletricidade precisam de fazer puxadas da rua”, descreveu. “Sinceramente, pensava que esta realidade não existia em Portugal, que era dos filmes ou de outros países. Faz lembrar as favelas do Brasil. Foi muito forte descobrir esta realidade, que está ali ao lado da Costa da Caparica.”

Trabalhar sobre margens físicas ou simbólicas já estava presente num trabalho que Victor Hugo Pontes assinou em 2017: “Margem”, com base no romance de 1937 de Jorge Amado, Capitães da Areia. “É importante trazer para o meio aquilo que está nas margens”, defende, “neste caso as margens do rio Tejo, para mostrar que as pessoas que aqui vivem são pessoas, têm sonhos e são criativas.”

"Acabei por concretizar um dos meus maiores sonhos, que era estar em palco a fazer uma peça para o público, e logo com uma peça incrível como esta. Ajudou-me também a perder um pouco da vergonha, sempre fui uma pessoa tímida em algumas situações. Sinto que representar me liberta do nervosismo e da ansiedade."
Ricardo Cardoso Teixeira

Se a inclusão social é um dos objetivos do projeto desde o princípio, as perguntas para os dois intérpretes que se encontram com o Observador Biblioteca de Marvila são também sobre o significado desta experiência nas suas vidas.

“Não sei é um projeto com pessoas excluídas da sociedade, mas são pessoas com menos oportunidades porque moram em bairros mais necessitados”, entende Ricardo Ricardo Cardoso Teixeira.

Prossegue: “Pelo menos a mim, abriu-me imensas portas. Acabei por concretizar um dos meus maiores sonhos, que era estar em palco a fazer uma peça para o público, e logo com uma peça incrível como esta. Ajudou-me também a perder um pouco da vergonha, sempre fui uma pessoa tímida em algumas situações. Sinto que representar me liberta do nervosismo e da ansiedade. No início, tive algum medo por entrar em algo novo e não conhecer ninguém. Neste momento já tenho confiança suficiente para entrar noutro projeto sozinho, o que quer dizer que esta experiência me ajudou.”

A intérprete que vive entre os Olivais e Marvila explica que já tinha feito duas peças de teatro, há poucos anos, além das representações em miúda na escola. “Mas este projeto não tem nada a ver com isso porque aqui houve mesmo formação, o que conta muito. Mais até do que representar, gosto da experiência de estar com estas pessoas, eu com 70, muitos deles com idade para serem meus filhos ou netos. Tenho uma certa relação maternal com eles. Não sou de me agarrar muito às pessoas, mas sinto-as. De certa forma, isto ajudou-me também a reconciliar com um problema que tive há muitos anos, quando um dos meus filhos estava a aprender a dançar no Conservatório. Houve um desentendimento com uma professora, o miúdo acabou por ter de sair da escola e fiquei tão chocada que nunca mais consegui ver dança ao vivo ou na televisão.”

São 13 intérpretes não-profissionais em cena: o mais novo tem 18 anos e o mais velho, 73

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Ainda fica ansiosa minutos antes de entrar em cena, e durante os ensaios teve algumas dificuldades na parte da coreografia, que acabou por vencer com o tempo. Diz agora que o espetáculo “é um ensinamento para o público” e que “quem o vir e ouvir com o coração vai aprender alguma coisa, porque há muita presença e muita emoção”.

Ele preocupa-se mais em não dizer o texto de uma maneira mecânica e sobretudo procura autenticidade na representação. “Quem escreveu o texto não inventou, partiu das nossas histórias individuais, que são verdadeiras. No espetáculo fazemos de nós, embora nem sempre”, explica Ricardo Cardoso Teixeira. “Consigo ir buscar autenticidade, porque passei por aquilo que está no texto, embora mexa com sentimentos aos quais não gosto de voltar, são portas que já fechei. Sou uma pessoa muito positiva e não gosto de regressar às emoções negativas. Há uma parte em que falo da sexualidade e do meu tamanho físico. Desde que me conheço sofri de bullying [violência] por causa destes assuntos. São coisas que fechei, já não me afetam tanto, e aqui tenho de abrir estas portas.”

O espetáculo procura transmitir ao público a ideia de que há uma peça dentro da peça. É sobretudo biográfico, com cada intérprete a reconstituir partes do seu percurso. O texto é de Joana Craveiro, que se baseou em entrevistas individuais que Victor Hugo Pontes gravou em vídeo ainda em 2019, mas também no que se passou ao longo dos meses nos ensaios e na vida de cada um. O som em cena é da banda portuense Throes + The Shine, que em 2020 participou no Festival RTP da Canção.

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