Vá para fora mas sinta-se em casa numa destas guesthouses

25 Fevereiro 2019

Juntam a familiaridade de uma casa e o conforto de um hotel onde não falta o pequeno-almoço. Em Portugal há para todos os gostos, de antigos estábulos a estações de comboio desativadas.

Pink House

Quem olha para a fachada cor de rosa nunca adivinharia que aqui em tempos funcionou um estábulo. O edifício fechado e escuro deu lugar a uma guesthouse cheia de luz — a transformação foi tal que quem o vê de fora nem percebe que na verdade estamos a falar de duas casas, encaixadas uma na outra.

De um lado fica a moradia principal, com um primeiro andar em open space onde saltam à vista as vigas de madeira do teto e a cozinha de paredes amarelas, do outro um estúdio de 30 metros quadrados, completamente equipado e com direito a terraço.

O piso superior visto de fora. © Fernando Guerra

A Pink House é um dos mais recentes alojamentos de São Miguel, nos Açores, e abriu no verão de 2017 depois de uma intervenção profunda do Mezzo Atelier, o gabinete de arquitetura de Giacomo Mezzadri e de Joana Garcia de Oliveira, proprietária do espaço. Foram os pais de Joana que herdaram o terreno de 1,6 hectares e são eles que tratam do dia a dia das guesthouses ao pormenor. Todas as manhãs, por exemplo, é a mãe que prepara as cestas do pequeno-almoço, deixadas à porta de cada casa, para não incomodar os hóspedes. Para além dos produtos frescos e locais, que vão dos queijos açoreanos às frutas da quinta, a cesta inclui sempre uma flor apanhada ali mesmo nos jardins.

Na moradia principal, saltam à vista as vigas de madeira do teto e a cozinha de paredes amarelas. © Fernando Guerra

Se o estúdio acomoda um casal sozinho ou com um filho, a casa-mãe é para um grupo maior, com dois quartos tão grandes que os proprietários até brincam e dizem que são “dois e meio”. Em ambos os casos, os hóspedes têm acesso direto à propriedade. Vale a pena passear pelas várias quintas, batizadas consoante as árvores de fruto cultivadas, e aproveitar a zona exterior onde antigamente funcionava a estufa e que agora está preparada para acender fogueiras no chão, ao ar livre.

Rua José Medeiros Cogumbreiro, 65, Fajã de Baixo (São Miguel, Açores). 296 642 836, 967 285 621. Estadia a partir de 80€ (mínimo três noites).

Duas Portas

Tem duas portas e três pilares: “a localização, a arquitetura e o serviço”. Quem põe as coisas desta forma é Luísa Moura, a proprietária. Em julho de 2017 abriu uma townhouse na Foz do Porto, uma zona “com um potencial enorme e muito mais tranquila do que a Baixa”, onde a ideia sempre foi juntar “o ambiente muito familiar de uma casa” com o conforto de um hotel onde há limpeza diária, pequeno-almoço e outros serviços como pedir um transfer.

A arquitetura é um dos cartões de visita da guesthouse. © Alexandre Delmar

Ao todo são oito quartos espalhados por três andares, quatro deles virados para o Douro, mais um salão aberto para o pátio interior. Não há espaços interditos aos hóspedes, que sem darem por isso já estão a levantar a louça suja do pequeno-almoço e a levarem-na para a copa, como se estivessem mesmo em casa (alguns até andam descalços).

O edifício terá sido construído entre o final do século XVIII e o princípio do século XIX, e foi todo restaurado pela mãe de Luísa — que é arquiteta e desenhou também a mobília –, com materiais e técnicas de construção “muito semelhantes aos que se usavam nas casas do Porto desta altura”, do mosaico hidráulico ao sistema de alvenaria em pedra.

Outro cartão de visita: a decoração minimal. © Alexandre Delmar

Em vez de armários, os quartos têm uma estrutura aberta para pendurar a roupa e toda a restante decoração é minimal, o que talvez explique a preferência dos turistas nórdicos. Isso ou o bolo caseiro feito diariamente e colocado numa das salas de estar, ao lado do café e dos pastéis de nata.

Rua de Sobreiras, 516, Porto. 914 786 518. Estadia a partir de 120€.

O Lugar, Guesthouse

Coube ao neto concretizar o sonho do avô, aqui n’O Lugar de Porto Covo (como na música). O sonho era abrir uma residencial num terreno comprado junto à Praia dos Pescadores, sempre adiado por “impedimentos da vida”. Juntamente com a noiva Inês Madeira e depois de um primeiro empurrão do pai, Pedro Martins realizou o projeto de família e em fevereiro de 2017 começou a receber hóspedes nos seis quartos da casa. Para além da localização, a guesthouse destaca-se pela decoração luminosa, a cargo do Ark Studio (o mesmo que fez o restaurante Prado, em Lisboa). “Queríamos ir contra a restante oferta que há na vila, que são casas atafulhadas de móveis velhos e que já não se querem”, diz Pedro, referindo-se ao ambiente despojado que conseguiram criar.

A decoração luminosa ficou a cargo do Ark Studio. © Rodrigo Cardoso

O avô pode não ter aberto uma residencial em Porto Covo, mas abriu uma padaria e é daí que vem o pão fresco servido ao pequeno-almoço todos os dias. Isso e um batalhão de outros produtos da família, do mel do irmão de Pedro, apicultor, à geleia de marmelo da sogra.

Rua 25 de Abril, 7C, Porto Covo. 965 800 557. Estadia a partir de 70€.

myhomeinporto

A myhomeinporto leva o conceito de guesthouse à letra — é mesmo a casa de Juan de Mayoralgo. O espanhol de 43 anos mudou-se para o Porto na mesma altura em que mudou de vida e há dois anos deixou a decoração de interiores para começar a receber hóspedes. Os quartos são apenas três mas bastante amplos (com mais de 30 metros quadrados) e o edifício, datado dos anos 1930, corresponde à “típica casa burguesa do Porto”, com jardim nas traseiras, chão de tábua corrida e um pé direito tão alto que se deve ter inspirado na Torre dos Clérigos.

Todos os quartos têm mais de 30 metros quadrados. © Divulgação

Os hóspedes têm acesso a praticamente tudo, incluindo a sala de estar e a biblioteca, e ao pequeno-almoço podem contar com sumos, pão e fruta fresca trazidos pessoalmente por Juan do Mercado do Bolhão (de onde vêm também a broa de Avintes e os ramos de flores). “Tento fazer tudo o mais caseiro possível e tomar conta dos meus hóspedes”, resume o anfitrião num português fluente. Veio para Portugal há quase 10 anos e, como também já tinha nacionalidade francesa, brinca e diz que agora tem três metades.

Rua de Ferreira Cardoso, 72, Porto, info@myhomeinporto.com. Estadia a partir de 110€ (mínimo duas noites).

Train Spot Guesthouse

Noutros tempos, seria possível apanhar o comboio e sair diretamente num dos quartos desta guesthouse. Isto porque a Train Spot fica na estação ferroviária de Marvão/Beirã, entretanto desativada e classificada como Património Arquitetónico. Ao todo cabem 24 pessoas a bordo, em quartos duplos (com ou sem casa de banho) e apartamentos para duas ou quatro pessoas, com cozinha equipada.

Toda a arquitetura da estação foi mantida. © Ricardo Oliveira Alves

No antigo cais de embarque (agora convertido em bar) podem já não passar comboios, mas desde o outono é possível apanhar outro tipo de transporte: as rail-bikes, isto é, quadricíclos movidos a pedal que circulam entre a estação da guesthouse e a de Castelo de Vide, sempre em cima da linha férrea. Se tiver pedalada, há uma série de outras atividades que podem ser marcadas diretamente com o alojamento, desde escalar no Parque Natural da Serra de São Mamede, passear pelos trilhos do contrabando — ou não estivéssemos muito perto da fronteira com Espanha — ou até aprender a fazer pão alentejano em forno de lenha. Como dizem os responsáveis, “só tem de escolher entre férias a todo o vapor ou férias em marcha lenta”.

Estação ferroviária de Beirã/Marvão, Alto Alentejo. 963 340 221. Estadia a partir de 40€.

A Casa C’alma

A calma é tanta que não há televisão, apenas livros, revistas e os velhinhos jogos de tabuleiro. Numa cidade onde não faltam opções de alojamento local, a Casa C’Alma abriu para trazer algo de novo ao mercado: uma guesthouse enquadrada no conceito de slow living, em que “as pequenas coisas do dia a dia são para ser apreciadas e direcionadas aos viajantes que não gostam de sentir que estão numa corrida contra o tempo em que têm que ‘picar o ponto’ em todas as atrações turísticas”.

Na sala não há televisão, mas há muitas plantas. © Rodrigo Cardoso

Localizada na bonita Praça das Flores, em Lisboa, a casa tem cinco quartos — com casa de banho privativa ou partilhada — e vários espaços comuns decorados de forma luminosa. Destaque para a sala de estar cheia de plantas, a “mesa comunitária” que tanto pode ser usada para servir refeições como para espaço de trabalho e a cozinha em tons de azul, onde são servidos os pequenos-almoços.

Os pequenos-almoços são servidos nesta cozinha. © Rodrigo Cardoso

Para além de receber hóspedes, a Casa C’Alma está também aberta a colaborações e eventos, de workshops a lojas pop up. A regra é só uma: desacelerar e viver com calma.

Praça das Flores, 48, Lisboa. 919 430 494. Estadia a partir de 85€.

Dona Emília Guesthouse

Dona Emília, em Viana do Castelo, é o nome pelo qual é conhecida Emília Freitas, cozinheira e costureira de 90 anos afamada não só pelos petiscos que lhe saem das mãos mas também por alugar quartos e cantar fados. Desde o início de 2017 é também o nome de uma guesthouse alojada num edifício centenário da cidade, decorada com gosto (o que inclui várias peças restauradas) e aberta por Nuno Freitas, o neto.

A decoração inclui várias peças restauradas. © Divulgação

Com três pisos e três frentes viradas para a Praça da República, o Museu do Traje e o Templo de Santa Luzia, a casa aposta num ambiente familiar onde até os animais de estimação são bem-vindos. Há três quartos e três suítes adaptáveis a cada reserva (individual, duplo, twin, triplo, quádruplo ou quíntuplo), mas também áreas comuns que incluem uma galeria de arte, uma cozinha e salão em open space, uma garagem de bicicletas e de bagagens, uma biblioteca e uma loja com artigos locais. Uma casa de família com uma agenda preenchida, com certeza.

Rua Manuel Espregueira, 6, Viana do Castelo. 917 811 392, 914 450 424. Estadia a partir de 50€.

A Bela Aurora

As manhãs começam com um pequeno-almoço saudável servido na cozinha de paredes em pedra, sem carne e feito à medida dos donos da casa, ambos vegetarianos. Mas a verdade é que nem só as manhãs valem a pena na Bela Aurora. Instalada num edifício do século XIX e recuperada pelo arquiteto Tiago Oudman, do Studio Kunchi, a guesthouse ocupa quatro andares rasgados por varandas e uma claraboia, com direito a jardim privado e cinco quartos espaçosos, alguns com mais de 40 metros quadrados.

O edifício é do século XIX e inclui as lareiras originais em pedra. © Divulgação

Paula e Massimo, os donos, vêm da área da fotografia e da música e instalaram-se numa zona do Porto à medida: o Bairro das Artes. Quando os hóspedes chegam, são eles que se encarregam de dar dicas personalizadas, tendo em conta os gostos e a idade. “Essa é a grande mais-valia destes sítios pequenos”, resume Paula. “Sabemos exatamente quem está cá em casa e funcionamos como uma espécie de família alargada.”

Rua do Rosário, 227, Porto. 960 226 569. Estadia a partir de 137€ (mínimo duas noites).

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº 2 (novembro de 2018).

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