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A embaixadora Kirsty Hayes está em Portugal há cerca de dois anos e meio

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

A embaixadora Kirsty Hayes está em Portugal há cerca de dois anos e meio

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

“Vamos continuar a precisar de pessoas talentosas e trabalhadoras. Muitos portugueses são exatamente isso”

A embaixadora britânica fala ao Observador sobre o Brexit e as suas consequências. Não vê razões para alarme, nem na economia nem na imigração, e garante que o Reino Unido continuará europeu.

Um mês antes do referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia, a 23 de junho de 2016, Kirsty Hayes, embaixadora britânica em Portugal, deixou-se fotografar, sorridente, no terraço do Observador. Na altura, falou da incerteza que ensombrava o futuro do Reino Unido fora da União e defendeu que o ideal seria que o país permanecesse dentro de uma UE renovada. Não foi essa a decisão dos britânicos, mas Hayes continua com razões para sorrir. Fez questão de conduzir a entrevista em português e diz que não há razões para pânico quanto à imigração até porque “durante o processo de renegociação nada vai mudar” e “o governo britânico está empenhado em encontrar soluções rapidamente” para evitar que as pessoas vivam numa situação de instabilidade.

Kirsty Hayes, na embaixada britânica em Lisboa, sede dos recursos humanos para todas as embaixadas europeias

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Hayes acredita que o país partilha valores com a Europa que vão muito além dos interesses puramente comerciais e que entre Portugal e o Reino Unido existe uma relação suficientemente robusta para suster os solavancos do Brexit, sustentada pelo espírito empreendedor próprio dos exploradores. Os movimentos políticos dos extremos não são um fenómeno europeu mas sim global e é preciso escutar também as “preocupações legítimas das pessoas que não usufruíram da recuperação económica”.

Antes do referendo disse ao Observador que, dado o volume das transações comerciais entre o Reino Unido e a União Europeia, o impacto da saída poderia ser “dramático”. Em artigos de opinião citou o ex-primeiro ministro David Cameron — “a saída é um salto no escuro”. Aqui estamos, com o Reino Unido quase fora da Europa. É dramático?
Como embaixadora britânica, trabalhei para encontrar uma solução, ao nível europeu, que pudesse mudar a nossa posição e fosse aceitável para o povo britânico. Mas a decisão dos britânicos está tomada, foi clara, e foi para sair. O referendo demonstrou que existem diferenças, dentro do nosso país, sobre a posição do Reino Unido na União Europeia e, por isso, o governo atual reforçou que é preciso voltar a unir o país e não olhar só para um ou outro lado. A primeira-ministra, Theresa May, disse aquela frase famosa “Brexit significa Brexit”, que mostra o seu empenho nesta decisão. Mas devo referir que os países continuam a investir no Reino Unido, não há qualquer pânico até agora.

Se perguntar a um português o que é que a União Europeia representa, a resposta irá muito além da importância das trocas comerciais. Falar-lhe-iam de estabilidade e paz, partilha de culturas, programas de intercâmbio de estudantes, etc. O Reino Unido reconhece também estas características?
Concordo inteiramente que e Europa é isso tudo, e a primeira-ministra também. Theresa May disse que estamos a sair da União Europeia mas não da Europa. Continuamos a ser um país europeu comprometido com os valores, os laços de identidade pessoal, os laços na área da ciência, da pesquisa, os laços culturais dos europeus. Temos ligações com toda a Europa mas especialmente com Portugal, por causa da nossa história.

Quanto ao último discurso de Theresa May. A primeira-ministra mostrou-se bastante assertiva quanto à grande questão que é o mercado único: não será possível continuar no “clube” e aceitar o que ele pressupõe: a livre circulação de pessoas.
Depois do referendo, o governo britânico falou com os parceiros europeus e a maioria foi muito clara sobre o conceito de mercado único: os pilares que o sustentam são indivisíveis e fundamentais. A primeira-ministra ouviu isso e por isso decidiu que, em vez de tentar mudar as regras do mercado único para nos favorecer a nós, deveria encontrar uma solução nova. Imigração e livre-circulação foram claramente dois dos temas centrais da campanha. Para os portugueses que estão a viver no Reino Unido e os britânicos que estão a viver aqui é uma preocupação, porque ainda existe alguma incerteza. Mas continuamos a ter imenso orgulho na nossa sociedade multicultural. Vamos continuar a querer atrair as pessoas.

"Continuamos a ser um país europeu comprometido com os valores, os laços de identidade pessoal, os laços na área da ciência, da pesquisa, os laços culturais dos europeus. Temos ligações com toda a Europa mas especialmente com Portugal, por causa da nossa história".
Kirsty Hays, embaixadora britânica em Portugal

As mais qualificadas?
Não só, necessariamente. O que foi mais importante para o povo britânico foi reaver o controlo. Dentro das regras da União Europeia não é possível para nós decidirmos se um cidadão da União Europeia pode entrar ou não e para muitos britânicos não é possível conciliar este conceito com a ideia de “soberania”. O mais preocupante para os britânicos na sua decisão foi a ideia de estarem a perder controlo, mais do que os números da imigração, mas acho que ficou claro que, durante o processo de renegociação, pelo menos, nada vai mudar. Continuamos a ser membros da União, com todos os direitos e responsabilidades. A primeira-ministra disse que pessoas que lá estão poderão ficar e o governo britânico está empenhado em encontrar soluções rapidamente para dar mais certezas a essas pessoas.

A embaixadora garante que o governo britânico está a dar toda a atenção à situação dos imigrantes no país

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Essas pessoas têm lá a família, e há muito que contribuem para a economia. Não é apenas a imigração mais qualificada que faz mexer a economia. A contribuição fiscal dos imigrantes, por exemplo, é considerável. Os portugueses, por exemplo, são essenciais no vosso Serviço Nacional de Saúde.
Concordo inteiramente. No Reino Unido temos muitas opinião diferentes sobre imigração, mas a esmagadora maioria quer uma solução para permitir que as pessoas fiquem com os mesmos direitos. Esta vai ser uma prioridade para a primeira-ministra.

Na página de Embaixada pode ler-se que há hoje, em Portugal, cerca de 60 mil britânicos, entre aqueles que aqui residem e aqueles que mantêm negócios e, por isso, uma presença sazonal. A comunidade tem-se mostrado preocupada?
São menos, os residentes, talvez uns 40 mil, mas se incluirmos as nossas “andorinhas”, que vão e vêm, é perto desse número. Imediatamente depois do referendo eu fiz uma espécie de road show para falar com membros da comunidade britânica, no Algarve, em Lisboa, no Porto e mas também nas Caldas. A área central de Portugal ainda não é tão popular como o Algarve, mas a comunidade está a crescer. Falei com quase 600 pessoas e várias demonstraram algumas preocupações. Em primeiro lugar, o direito à residência. Mas como já sublinhei nada vai mudar nesta primeira fase e o governo fará esforços para proteger os direitos dos britânicos aqui. No Porto, o Ministro da Economia português esteve comigo e sublinhou que a comunidade britânica é muito importante e que será encontrada uma solução para eles.

E com os portugueses, tem falado?
Sim. Muitas famílias em Portugal têm um ou mais membros da família a residir no Reino Unido. Tive oportunidade de falar com vários portugueses durante a visita do Presidente da República no ano passado. A situação no Reino Unido agora é calma, bastante calma. Toda a gente tem preocupações, mas já repararam que a vida retomou a normalidade. Claramente o que eles querem é uma certeza sobre o futuro.

"O mais preocupante para os britânicos na sua decisão foi a ideia de estarem a perder controlo, mais do que os números da imigração, mas acho que ficou claro que, durante o processo de renegociação, pelo menos, nada vai mudar. Continuamos a ser membros da União, com todos os direitos e responsabilidades".
Kirsty Hays, embaixadora britânica em Portugal

Não eram necessários papéis, ninguém se preparou para ter de pedir um visto… E, pelo que os membros da comunidade nos dizem, alguns têm medo que esses documentos lhes possam ser negados por os seus empregos não serem “essenciais”.
É cedo para falar sobre vistos porque esta é uma área para negociações futuras. Neste momento, a taxa de desemprego no Reino Unido é muito baixa e vamos continuar a precisar de pessoas talentosas e trabalhadoras. E há muitos portugueses que são exatamente isso. Não viveremos mais no status quo. E, como disse, este conceito de controlo vai ser muito mais importante. Por exemplo, é possível que, no futuro, se modifique o sistema de atribuição de subsídios. Durante a renegociação de David Cameron, este foi um dos temas centrais. Para muitos britânicos é difícil aceitar a ideia de que uma pessoa pode ir para o Reino Unido receber diretamente apoios antes de contribuir para o sistema. Mas a primeira-ministra já disse que o Reino Unido continua a precisar “dos melhores e mais brilhantes” da Europa e do resto do mundo.

As vossas exportações dependem muito da União Europeia ainda: diretamente, com os países que a constituem, e através dos acordos que a Europa mantém com terceiros, dos quais o Reino Unido beneficia.
É verdade. E é por isso que estamos empenhados em que a União Europeia se mantenha forte. A intenção do referendo não era a desintegração da Europa, esta foi uma decisão que refletiu os sentimentos dentro do Reino Unido que, para ser honesta, sempre foram um pouco diferentes dos sentimentos aqui em Portugal, menos emocionais. Apesar de valorizarmos muito os valores da União Europeia, tivemos sempre uma atitude um pouco diferente. Isto também é o reflexo do nosso sistema político. Damos muita importância ao Parlamento e à soberania do Parlamento mas para nós é muito claro que a União Europeia continuará a ser um parceiro importantíssimo.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Os movimentos populistas, e muitos deles secessionistas, estão a crescer na Europa. As últimas sondagens mostram que Marine Le Pen se mantém muito bem colocada para a presidência de França, por exemplo. As questões da identidade e do patriotismo estão a tornar-se mais importantes na política. Temos o Reino Unido para culpar por isso?
A questão é mais global. Estamos a observar o crescimento de movimentos, tanto de direita como de esquerda, e uma rejeição dos partidos e ideias políticas mainstream. Uma parte é resultado da influência das redes sociais que dá a oportunidade aos movimentos novos de falarem diretamente com as pessoas. Temos observado isto em vários países.

Considera-os preocupantes?
Eu tenho um ponto de vista um pouco diferente. Penso que, embora existam estes movimentos em muitos países, seria um erro pensar que todos os movimentos são iguais ou que podem chegar ao poder. Por exemplo, no Reino Unido a imigração há muito que é uma preocupação e talvez seja difícil a quem está de fora entender esta preocupação porque, como já disse, temos uma taxa de desemprego muito baixa, mas para muitas famílias os impactos são negativos. O impacto na economia em geral é positivo. Mas para pessoas com níveis de formação não tão altos tem tido um impacto em termos salariais, por exemplo, e também em termos de pressão nos serviços públicos. Para mim seria um enorme erro dizer que é apenas populismo, que é apenas irracional, que são apenas reacionários. Existem preocupações legítimas e os políticos precisam de responder às preocupações do povo. As palavras da primeira-ministra Theresa May nos últimos discursos, em Davos, e mesmo na sua tomada de posse, sublinharam não apenas a importância do sucesso do Brexit como a de olharmos para dentro do país para tentarmos ajudar as pessoas que se sentem fora da recuperação económica. É importante olhar para as diferenças entre estes movimentos e prestar atenção às preocupações legítimas das pessoas.

Falava há pouco da soberania do Parlamento. O Supremo Tribunal britânico, na terça-feira, aprofundou essa ideia ao dar razão a Gina Miller, que pedia que o acionamento do artigo 50 do Tratado de Lisboa fosse primeiro aprovado pelos deputados. Isto pode atrasar a saída?
Não vai mudar nada. O Governo não queria este resultado, mas vivemos num país em que toda a gente, e os governos também, precisam de respeitar os tribunais, porque temos um sistema judicial independente. O julgamento foi muito claro. Mas a primeira-ministra também o tem sido: isto não vai mudar o calendário, ela vai invocar o artigo antes do fim de março.

"O impacto [da imigração] na economia em geral é positivo. Mas para pessoas com níveis de formação não tão altos tem tido um impacto em termos salariais, por exemplo, e também em termos de pressão nos serviços públicos. Para mim seria um enorme erro dizer que é apenas populismo, que é apenas irracional, que são apenas reacionários". 
Kirsty Hays, embaixadora britânica em Portugal

Owen Smith, deputado pelos trabalhistas, escreveu ontem, no The Guardian, que a sua consciência não lhe permitirá votar a favor da saída. Há mais trabalhistas e liberais democratas que também se mostram reticentes. Poderemos vir a assistir à formação de uma vaga anti-Brexit no parlamento?
Podemos olhar para o voto no Parlamento em Dezembro para responder a isso. Eu sei que não foi vinculativo, mas deu uma ideia sobre as intenções dos deputados. É verdade que em termos das opiniões pessoais muitos deputados votaram para ficar dentro da União Europeia, mas para eles, a ideia de respeitar as vontades dos seus círculos eleitorais é muito importante também. Eu penso que o Brexit é uma certeza.

Está cá há dois anos e meio. Qual é o balanço? Em que áreas é que Portugal tem mais potencial e como é que antecipa a relação entre os dois países na era pós-Brexit?
Eu penso que Portugal é realmente um país incrível. Claro que temos uma aliança antiga mas também há laços fortes criados mais recentemente, por exemplo, com a visita da Ministra da Cultura [Karen Bradley] ao Porto para lançar o ano de música britânica e visitar as casas de vinho de porto e conhecer a história dos britânicos na cidade. Temos uma ligação muito moderna. Um exemplo disso é a Web Summit, na qual o número maior de visitantes estrangeiros vieram do Reino Unido, cerca de 8000 registados. Esta área das tecnologias pode ser muito frutífera para as relações entre os dois países, porque partilhamos um espírito muito empreendedor. Um outro exemplo disso é o projeto Second Home [um centro cultural, espaço de co-working e centro de discussão para empreendedores de várias áreas]. A única que existe fora de Londres é em Lisboa, isso demonstra a ligação entre as duas cidades. Há muitos investidores que consideram os trabalhadores portugueses muito eficazes, com um nível de inglês muito bom. Nós temos nesta embaixada o centro de Recursos Humanos para toda a Europa porque as pessoas são todas muito boas — fantástico capital humano.

"Há muitos investidores que consideram os trabalhadores portugueses muito eficazes, com um nível de inglês muito bom. Nós temos nesta embaixada o centro de Recursos Humanos para toda a Europa porque as pessoas são todas muito boas — o que conta é o capital humano".
Kirsty Hays, embaixadora britânica em Portugal

Mas tudo isso se manterá depois da saída?
Estamos a entrar numa fase nova e por isso é importante para nós criarmos novas formas de relacionamento que não tenham diretamente reguladas pela Europa. Queremos ser um país muito aberto, global em termos de abordagem e penso que essa é também a abordagem muito portuguesa. Talvez por causa da nossa história como potências marítimas.

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