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Livro de Vanessa Springora saiu no início do ano em França e levou o acusado a fugir para Itália

JF PAGA

Livro de Vanessa Springora saiu no início do ano em França e levou o acusado a fugir para Itália

JF PAGA

Vanessa Springora, o "Consentimento" e o abuso sexual: "Este livro é uma vingança, a minha história não pode ser esquecida" /premium

Meios intelectuais franceses sabiam das relações pedófilas de Gabriel Matzneff, mas fizeram dele uma figura respeitável. Agora, uma das vítimas conta a sua versão. E acusa os pais de conivência.

Aos olhos de Vanessa Springora, ele começou por ser um homem “de uma delicadeza extraordinária”, por quem se sentiu “amada e apaixonada como nunca”. E depois passou a “predador sexual”, um “pedocriminoso” cujo trabalho (ele é escritor) lhe inspira “única e exclusivamente nojo”.

A primeira imagem é de quando Vanessa tinha apenas 14 anos — e ele, 50. Estávamos em 1985. A segunda imagem é a atual e aparecem ambas num livro explosivo e cheio de ambiguidades: Consentimento, publicado em França no início deste ano e agora traduzido em Portugal (por Tânia Ganho, com chancela da Alfaguara). Trata-se de uma autobiografia sem vestígios de ficção e “sem perspetiva vitimista”, garante a autora.

Nascida em Paris a 16 de março de 1972, Vanessa Springora acusa-o de ter alimentado um vínculo sexual e psicológico, quando não tinha maturidade para consentir ou compreender. Considera-se usada como material literário, pois ele escreveu sem autorização sobre a história que viveram. Apresenta-se como vítima de abuso sexual e de negligência dos pais, dano colateral de um sistema que terá protegido o pedófilo que a seduziu: Gabriel Matzneff, francês de origem russa nascido nos subúrbios de Paris em 1936 e criado como cristão ortodoxo, autor de dezenas de romances e ensaios desde 1965 (nenhum deles com edição portuguesa).

Que se relacionaram na intimidade, é uma certeza, o próprio Matzneff fez o relato com orgulho ao longo dos anos, desde logo em livros e inúmeras entrevistas. A novidade de Consentimento estará na perspetiva do discurso. Agora é ela quem fala, com nomes, datas, circunstâncias. Pela primeira vez, Matzneff surge retratado sem complacências como abusador sexual de outras crianças de ambos os sexos.

E, no entanto, a escritora assume que por muito tempo viveu dividida e cheia de remorsos, mesmo depois de se afastar de Matzneff. Ao Observador, numa entrevista que a própria pediu para ser feita por escrito, afirma: “Demorei mais de dez anos após os acontecimentos até me aperceber de que tinha sido uma vítima, justamente porque eu tinha consentido. Foi um caminho muito longo, mas quando consegui de facto fazer queixa já não era viável, os factos tinham prescrito à luz da lei.”

Consentimento desassossegou os meios intelectuais no início do ano. Um “caso salaz”, como dizem os franceses. E teve efeitos concretos. Matzneff deixou de receber uma subvenção pública vitalícia do Centre National du Livre e foi afastado da revista Le Point, onde escrevia crónicas. Viu várias editoras retirarem de circulação as obras que publicou e fugiu para Itália, de acordo com o New York Times, que o entrevistou em fevereiro último. “Posso ter feito disparates naqueles anos loucos de liberdade, mas não fui o único. Que hipocrisia”, disse Matzneff na ocasião. Agora tem julgamento marcado para setembro do próximo ano, acusado de “promoção da pedofilia”, e muitos defendem que lhe deve ser retirado o conhecido prémio literário Renaudout, com que o distinguiram em 2013.

Livros de Gabriel Matzneff, acusado de pedofilia e violação, retirados do mercado

Figura de proa do meio literário francês, amigo de editores, jornalistas e até do presidente Mitterrand, contornou sempre os breves inquéritos policiais de que foi alvo e assim foi passando pelos pingos da chuva. Publicou um livro e um diário acerca da relação com Vanessa Springora e ainda uma coletânea de cartas que trocaram, identificando-a pelo primeiro nome. Nas palavras dele, as relações pedófilas (incluindo com menores de oito anos, em viagens às Filipinas) eram apenas paixões recíprocas e histórias idílicas de amor — o argumento da “pedofilia literária”.

Em 1974, Matzneff tinha feito publicar Les Moins de Seize Ans, ensaio polémico “a favor da libertação sexual dos menores”, como descreve Vanessa Springora — curiosamente, fê-lo através da editora Juillard, de que ela veio a tornar-se diretora no ano passado. Em 1977 tinha escrito um manifesto dado à estampa pelo Libération e Le Monde, a defender o fim da prisão preventiva para suspeitos de abuso sexual de menores de 15 anos. Assinaram o texto intelectuais como Guy Hocquenghem, Roland Barthes, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, Patrice Chéreau, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Jean-François Lyotard, entre outros.

É por isso que o livro levanta inúmeras perguntas políticas, morais e legais. Os escritores vivem num mundo à parte e são tidos como inimputáveis? A sociedade pode consentir a ostentação de crimes sob a forma de obra de arte? Em março de 1990, no programa Apostrophes, da estação pública France 2, Matzneff foi confrontado. Não pelo apresentador, o famoso Bernard Pivot, que até o recebeu com um sorriso e se entusiasmou ao ler excertos de um livro em que Matzneff contava factos reais de abuso sexual, mas pela também convidada Denise Bombardier, jornalista e escritora canadiana. A certo momento, ela pediu a palavra e insurgiu-se: “Devo viver noutro planeta. O senhor Matzneff é patético. Conta-nos que sodomiza miúdas de 14, 15 anos. Elas vão viver tristes para o resto da vida. A literatura não pode servir de álibi”.

A intervenção terá deixado gelados todos os presentes no estúdio e nos últimos meses tem sido elogiada como um momento histórico. Em declarações recentes, já depois da publicação do livro de Vanessa Springora, Denise Bombardier reafirmou o que disse há 30 anos e acrescentou que desde então foi “boicotada” em França. Le Monde, por exemplo, “nunca mais publicou nenhum artigo” sobre os seus livros. “Fui condenada por denunciar um pervertido e o mundo incestuoso que o protegia”, declarou em janeiro último.

Mas como foi possível que isto acontecesse desta maneira? Como é que a assunção permanente de abusos sexuais por parte de Marzneff foi aparentemente protegida, quando em França, desde 1945, a idade mínima legal de consentimento era de 15 anos para relações heterossexuais (e de 21 anos para homossexuais)? Vanessa Springora aponta o dedo aos “excessos” e às “derivas” do Maio de 68, ao ambiente cultural “é proibido proibir”.

“No decurso dos anos 80, o meio onde sou educada ainda está imbuído por essa visão do mundo”, pelo que “os desvios à moral são acolhidos com tolerância, mesmo com uma certa admiração”, escreve. Daí a espiral de silêncio e o consentimento dos pais.

De resto, quem a apresentou a Matzneff foi a mãe, que o conhecia bem e estava a par da sua fama de pedófilo. Mas depois de saber da relação entre ambos, ainda em 1985 e pela boca da própria filha, que teimava estar apaixonada, não só aceitou como incentivou. Chegou a convidá-lo para jantar em casa. Já o pai, ausente desde o divórcio, quando Vanessa tinha 5 anos, ao ouvir falar da relação limitou-se a uma cena de gritos e nunca mais quis saber.

“Embora ainda atravesse fases de depressão ou crises inconsoláveis de angústia, é muitas vezes contra a minha mãe que me viro”, escreve nas últimas páginas do livro, referindo-se aos dias de hoje. “Tento obter dela algo parecido com um pedido de desculpas, uma pequena contrição. Faço-lhe a vida negra. Ela nunca cede, agarrada as suas ideias.”

Consentimento, de Vanessa Springora. Ed. Alfaguara, 2020 (180 páginas)

Em que medida o movimento americano Me Too a influenciou a escrever este livro?
Não fui de forma alguma influenciada por esse movimento. Pelo menos, não conscientemente. Comecei a escrever antes do caso Weinstein, mas acho que fui levada por esse contexto, que me deu uma abertura muito favorável e um apoio generalizado ao meu objetivo.

Estamos perante o relato de uma vítima? Considera-se vítima de abuso sexual?
Não criei o texto sob uma perspetiva vitimista e sim como uma narrativa literária. O mais importante para mim era responder aos livros de GM no mesmo plano dele, isto é, através da literatura. Claro que esta narrativa é também uma denúncia dos factos de que fui vítima, eu e tantas outras adolescentes, e uma denúncia da apologia dos crimes de pedofilia. Conto no livro que demorei muito até me considerar uma vítima, mas a certa altura foi importante aceitar, foi um passo fundamental para poder superar as sequelas deste episódio na minha vida.

Se Gabriel Matzneff é o alvo do seu livro, porque é que decidiu identificar a personagem dele pelas iniciais GM?
Reduzir as pessoas reais a iniciais era uma prática comum de Gabriel Matzneff no diário que escrevia. Quis retribuir-lhe o favor e ao mesmo tempo torná-lo uma personagem universal a quem cada um possa dar o nome que quiser.

Acusa-o de ter criado um vínculo sexual e psicológico consigo quando não tinha maturidade suficiente para consentir ou compreender o que se passava e de a ter usado a si e a outros menores como material literário. É assim?
Exatamente. O que descrevo no livro é um duplo fenómeno de espoliação: sexual e literária. Com a publicação do diário, ele montou um sistema predatório circular muito eficaz. Foi através da notoriedade como escritor que seduziu raparigas em idade escolar, que depois lhe serviram como material literário de que alimentou a notoriedade.

[Canal Euronews noticiou em janeiro a publicação de “Consentimento”:]

Escreve que ele continuou a querer contactá-la ao longo dos anos e até há pouco tempo. O caso do abusador de menores Marc Dutroux, na Bélgica, ou o escândalo da Casa Pia, aqui em Portugal, motivaram-na em algum momento a avançar com uma denúncia?
Demorei mais de dez anos após os acontecimentos até me aperceber de que tinha sido uma vítima, justamente porque tinha consentido. Foi um caminho muito longo, mas quando consegui de facto fazer queixa já não era viável, os factos tinham prescrito à luz da lei. A lei atual é diferente e o prazo de prescrição de crimes sexuais foi estendido até 30 anos após a maioridade [das vítimas], o que é um enorme avanço. Quanto a contar minha história em livro, pensava nisso há vários anos, mas é preciso tempo até conseguirmos soltar as amarras do segredo, para ganharmos coragem para a exposição pública, para superarmos o medo das consequências na própria família, para perdermos o medo de potenciais recriminações.

Tanto quanto se sabe, apenas uma outra mulher, Francesca Gee, decidiu falar em público sobre o caso Matzneff. Porquê?
Não sei, é uma pergunta que faço no livro. Acho que se relaciona com a dominação que descrevo e com a culpa de se ter consentido. Escreveram-me muitas mulheres depois de o livro ter sido lançado, contaram-me as suas histórias com Matzneff e agradeceram-me por ter tido a coragem de publicar em nome delas. Insisto: não é fácil denunciar alguém que nos seduziu, mesmo que nos sintamos horrivelmente sujas e envergonhadas por, em função do silêncio, termos autorizado que ele continuasse a recorrer à prostituição infantil nas Filipinas.

[Como responsável por uma editora] "nunca publicaria um violador, um traficante de droga ou um terrorista complacente com os seus crimes. É uma questão de ética"

Qual é o objetivo deste livro: sarar feridas, acusar alguém que foi protegido pelo sistema, evitar situações semelhantes?
Não acredito muito nas qualidades terapêuticas da escrita, por isso o objetivo foi sobretudo o de reconquistar este capítulo da minha vida e restaurar uma parte da verdade face aos livros onde ele sempre encenou a mesma versão dos factos e onde se apresentou como um magnífico “iniciador”. Quis deixar vestígios deste outro ponto de vista, o das adolescentes que tiveram o azar de se cruzar com ele no caminho. E claro que também pretendi chamar a comunidade literária às suas responsabilidades, questionar a complacência, o sistema de conivência que durou quarenta anos. Pode ser que a situação não se repita.

Há alguma ficção no seu livro? É uma história baseada em factos reais? É uma autobiografia?
É uma história autobiográfica, por isso não há qualquer vestígio de ficção no texto. A única diferença em relação a um relato testemunhal é, espero, o cuidado na forma, na escrita e na narração.

Na página 98 da versão portuguesa diz-nos que a ambivalência quanto à relação com Matzneff ainda existe dentro de si. Quer explicar melhor?
Essa passagem corresponde ao estado de espírito com que vivi durante muitos anos e que correspondia a uma negação da realidade. Durante muito tempo fiz do meu consentimento uma forma de me atacar a mim mesma, transformei o consentimento num instrumento para ilibar GM. Hoje já não sinto qualquer ambivalência em relação a ele. Sei muito bem que se aproveitou de mim e da minha vulnerabilidade, que nunca deixou de me assediar porque queria ter a certeza de me mantinha dominada.

"O Maio de 68 permitiu mudanças de costumes e um inegável progresso social, principalmente no que diz respeito à igualdade de género. Mas todos os movimentos revolucionários têm os seus excessos e as suas derivas."

Até oito anos de prisão

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Pedofilia é a palavra utilizada como sinónimo de abuso sexual, mas o Código Penal português não a tipifica como crime. O abuso sexual de crianças é que é punível por lei. “Quem praticar ato sexual de relevo com, ou em, menor de 14 anos, ou o levar a praticá-lo com outra pessoa é punido com pena de prisão de um a oito anos” e se “se o ato sexual de relevo consistir em cópula, coito anal, coito oral ou introdução vaginal ou anal de partes do corpo ou objetos, o agente é punido com pena de prisão de três a dez anos”, estabelece o artigo 171º. Dos 14 aos 16 anos, verifica-se o crime de “atos sexuais com adolescente” se o maior “abusar” da “inexperiência” do menor, podendo ser condenado a dois ou três anos de pena de prisão.

Neste sentido, a pedofilia apresenta-se como conceito médico, tendo critérios próprios de diagnóstico. Na versão mais recente do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5) — elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e considerado uma referência mundial — a pedofilia é descrita como uma perturbação sexual caracterizada pela atração de um maior de 18 anos por crianças com idade inferior a 11. Surge acompanhada no DSM-5 por uma outra “parafilia” (perturbação): hebefilia ou hebofilia, ou seja, a atração sexual por crianças entre os 11 e os 14 anos, o que aparentemente significa que os 15 anos são a idade mínima de consentimento, do ponto de vista psiquiátrico.

Em França, a pedofilia emergiu como comportamento desviante e condenável a partir da década de 1980, escreveu em 2014 o historiador francês Jean Bérard. Até então, e desde o fim dos anos 60, sob influência do espírito libertário do Maio de 68, tinha-se assistido à politização exacerbada do tema da idade de consentimento. Os próprios adolescentes terão sido os primeiros a contestar limitações à sua liberdade sexual, que consideravam reprimida pelo sistema vigente.

Tais ideias foram apoiadas por movimentos feministas e ativistas que pediam a descriminalização da homossexualidade. Neste quadro, segundo Jean Bénard, adultos defensores da pedofilia, como o escritor Gabriel Matzneff, capturaram o debate e gozaram de impunidade durante algum tempo.

Sugere que Matzneff foi aceite em França ao longo das décadas porque a elite intelectual estava influenciada pelos valores libertários do Maio de 68. Escreve que a sua mãe e o seu pai sabiam de tudo, mas não se importavam. Sendo assim, podemos interpretar o livro como uma vingança e um ajuste de contas com o passado?
Não é um acerto de contas, nem com GM nem com o legado dos anos 60, mas é uma vingança. Uma tentativa, pelo menos. O Maio de 68 permitiu mudanças de costumes e um inegável progresso social, principalmente no que diz respeito à igualdade de género. Mas todos os movimentos revolucionários têm os seus excessos e as suas derivas. É inevitável. A história que apresento é um testemunho disso mesmo, não pode ser esquecida.

Sobre este caso, disse Bernard Pivot: “Somos mais ou menos o produto intelectual e moral de um país e, sobretudo, de uma época”. Até que ponto está errado?
Ele tem razão quando diz que somos produto de uma época, mas engana-se ao colocar o debate no campo moral. É no campo legal que deve ser colocado. Fazer a apologia da pedofilia é proibido por lei e já o era na década de 1990, quando ele recebeu GM no programa Apostrophes.

Josyane Savigneau, a ex-editora do suplemento literário de Le Monde, defendeu Matzneff, dizendo que “começou a caça às bruxas”. Sente-se atacada, incompreendida?
Não. Concordo com ela. O meu objetivo não era o de lançar uma caça ao homem nem censurar os livros de GM. Os editores dele é que tomaram essa decisão, não fui eu, e não apresento esse caminho no meu livro. A própria Josyane Savigneau reconheceu que o meu livro tinha muitos outros sentidos que a imprensa não apreendeu.

Em abstrato, pensa que a vida pessoal de um escritor deve ser separada da avaliação que fazemos das suas criações literárias, mesmo que ele faça da sua vida o material da sua obra?
A separação da obra e do autor é um tema fascinante e vai sempre ser alvo de debate. O meu ponto de vista não é dogmático. Acho que a priori é imperativo separar as duas coisas, mas quando o material literário é autobiográfico e ilegal por natureza — por defender a pedofilia, crimes contra a humanidade, violações ou ódio racial—, entramos numa esfera que é a do direito. Se este tipo de conteúdos está proibido noutro contexto — por exemplo, nas redes sociais da internet —, não há razão para que seja permitido em livro sob o pretexto de que se trata de uma obra de arte. Os artistas são cidadãos como os outros, não estão acima da lei em vigor.

Como editora, recusaria um autor que escrevesse sobre quaisquer crimes que tivesse cometido?
Depende do que como o escritor se referisse a essas ações. Nunca publicaria um violador, um traficante de droga ou um terrorista complacente com os seus crimes. É uma questão de ética.

Acha que Matzneff só se tornou escritor porque acreditava que dessa forma conseguia justificar o próprio comportamento a si mesmo e perante a sociedade?
É uma ótima pergunta e acredito que sim. A Igreja Católica também atraiu pedófilos durante anos porque eles sentiam total impunidade dentro da instituição.

É a favor de uma eventual anulação do Prémio Renaudot que foi atribuído a Matzneff? Concorda com a decisão de lhe retirarem a subvenção vitalícia?
A atribuição desse prémio [em 2013] indignou-me e mais ainda o silêncio que gerou. Se não lhe for retirado, fica como uma mancha na história do Renaudot. Quanto ao dinheiro público que vai para ajudar autores em dificuldades, acho que faz mais falta a outras pessoas do que a GM.

Que pensa das ondas de choque provocadas pelo seu livro?
Orgulho-me muito de ter podido demonstrar que a literatura ainda tem efeitos concretos na sociedade, que pode levar à reflexão e ao debate, à tomada de posições. A literatura existe para mudar a nossa visão do mundo e nos ajudar a evoluir.

Sabemos que os alegados crimes de Matzneff estão prescritos. Notícias recentes dão conta de que ele está a ser julgado em tribunal por “promoção do abuso sexual de crianças” através dos livros, numa ação movida por uma organização contra a pedofilia. Que pormenores tem sobre este assunto?
A ação movida pela associação L’Ange Bleu não diz respeito aos livros (aí também houve prescrição), mas a recentes declarações que fez à imprensa, perante a publicação do meu livro. É o mínimo. Esta ação judicial deveria ter acontecido há muito mais tempo, desde que ele escreveu em 1974 que “a caça aos miúdos deve continuar a ser um desporto arriscado e proibido” [“La chasse aux gosses (doit demeurer) un sport périlleux et défendu.”]

Matzneff ainda está exilado em Itália? O julgamento está marcado para o ano que vem? Vai estar presente?
Não sei onde está GM e não estou interessada em saber. Terá de se apresentar quando for notificado. O julgamento está agendado para 18 de setembro de 2021 e será um momento muito importante, porque a ética da responsabilidade e a deontologia dos editores e dos média serão inevitavelmente alvo de debate. É possível que seja chamada como testemunha, ainda não sei.

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