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MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

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Velhos, sozinhos e isolados. A GNR é a família que às vezes bate à porta

Durante o mês de Abril a GNR faz um levantamento de todos os idosos que vivem em situações mais vulneráveis. O Observador acompanhou os militares em Setúbal e em Torres Vedras.

A porta da pequena vivenda plantada na berma da estrada abre-se mal os militares da GNR de Torres Vedras chamam por Maria Carminda Cardoso. 93 anos de vida apoiados numa bengala. Um pacemaker que ajuda o coração a trabalhar. E só. De resto, tudo trabalha bem, segundo ela. E mesmo numa casa cheia de frechas nas paredes e buracos no chão, Maria Carminda não quer sair dali. É a casa onde se sente bem.

Faz agora 15 anos que Maria Carminda ficou viúva pela terceira vez. E sozinha. O guarda principal Dâmaso e a guarda principal Galinho são praticamente as suas únicas companhias. Regra quebrada pelas visitas de uma irmã que vive no Estoril e que, aos 80 anos, ainda conduz. “Uma vez ficámos aqui as duas atoladas com água”, conta. A água da ribeira que ali passa subiu, entrou em casa e levantou tudo. Ainda a levaram durante quinze dias para um lar. Mas ela agradeceu e regressou. “Não vi amor nenhum”, conta, com um sotaque minhoto, que não dispensa uns palavrões entre o discurso.

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Numa casa disputada pelos enteados, herdeiros, e da qual apenas goza do direito de usufruto até morrer, Maria Carminda ainda recorreu à Câmara Municipal de Torres Vedras para a ajudar nas obras de reabilitação. Ainda assim, teria que desembolsar 1500 euros. E, diz, não pode.

É hora de almoço e ao lume está o arroz de peixe. Esquecido. São tão poucas as vezes que ela tem visitas, que aproveita para desfiar o novelo de uma vida. As rugas, que agora lhe amarrotam a cara, ainda vinham longe quando casou pela primeira vez. Foi por pouco tempo. Levado por um tumor na cabeça, o marido deixou-a jovem e viúva. Maria Carminda acabaria por ir com a família para Angola, onde vendia peixe seco. E foi lá que conheceu o segundo marido. E o terceiro. O segundo morreu num acidente. O terceiro ainda veio com para Portugal, para a casa de onde hoje não quer sair. Morreu vítima de uma angina de peito. “Ainda tive dois pretendentes, mas não os quis. Um deles era colega do meu marido”, conta, sorridente. Preferiu ficar sozinha. E assim está.

“Esta é uma das situações que foi sinalizada como sendo vulnerável. Maria Carminda não está isolada, mas está sozinha. Somos praticamente as únicas visitas que tem”, conta ao Observador o guarda principal Dâmaso, afeto ao programa “Idoso em Segurança”.

Maria Carminda tem uma filha, também ela idosa. Tem 73 anos e vive em casa da neta de Maria Carminda. “Nunca nos vemos”, afirma sem mágoa. Nem sequer no Natal ou noutra qualquer data especial. Mesmo assim, a idade avançada ainda não a impediu de ter a casa imaculada, de tratar de si e de cozinhar, para ela e para os gatos. Sempre que precisa de ir ao médico, paga ao motorista de táxi e vai a Lisboa. “Não gosto de incomodar as pessoas”, diz.

“Esta é uma das situações que foi sinalizada como sendo vulnerável. Maria Carminda não está isolada, mas está sozinha. Somos praticamente as únicas visitas que tem”, conta ao Observador o guarda principal Dâmaso, afeto ao programa “Idoso em Segurança”.

Durante o mês de abril, decorre a operação “Censos Sénior”, uma iniciativa da GNR que visa sinalizar, por todo o país, os idosos que vivam em situações vulneráveis — situações que os possam colocar em risco ou torná-los vítimas de crimes. O Observador acompanhou uma patrulha da GNR em Torres Vedras e outra no Destacamento de Setúbal. Em Torres Vedras, explica o guarda Dâmaso, a maior parte dos idosos não vive isolado. Vive sozinho. A aldeia de Bonabal, na freguesia de Ventosa, é exemplo disso. Um pequeno aglomerado de casas. E é numa delas que vive Luís Torre, nascido há 82 anos.

Luís Torres foi burlado à porta de casa. Ficou sem 600 euros

MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

“Cabrão, que já me roubaste o dinheiro”.

Luís Torre integra os registos da GNR e está sinalizado como um idoso em situação vulnerável desde outubro de 2015. Foi nesse mês que um homem o enganou e lhe levou os 600 euros que tinha amealhado para pintar a casa. Luís, que sempre trabalhou na agricultura, recorda-se de que estava perto do seu cão quando um carro se aproximou. “Disse-me que era da Segurança Social e que estava ali por causa das notas.” O agricultor até já tinha visto na televisão que há vários tipos de burlas contra os idosos, algumas relacionadas com as notas. Mas a conversa daquele homem fê-lo perder o raciocínio.

“Estamos sempre a avisar os idosos dos tipos de burlas. Explicamos que não há ninguém que venha a casa trocar notas. Que isso é um conto do vigário. Pedimos para não terem dinheiro em casa”, explica o guarda principal Dâmaso.

“Ele mostrou-me uma nota de 70, outra de 50 e outra de 20. Disse que precisava das minhas notas para dar os números ao banco”, recorda ao Observador à porta de casa, que deixou apenas entreaberta. De repente, Luís não sabe o que aconteceu. “Parece que adormeci. E quando abro os olhos ele já tinha o carro noutro sítio. Foi aí que percebi. E disse: ‘Cabrão, que já me roubaste o dinheiro.'” Agora, a frio, lembra-se que não lhe pediu identificação e que até achou estranho ele ter uma carga de caneta, e não uma caneta completa, para escrever. Agora é tarde para lamentos, mas Luís sabe que não foi o único naquela zona a ser enganado. E a cair no “conto do vigário”, como esclarece a GNR.

“Estamos sempre a avisar os idosos dos tipos de burlas. Explicamos que não há ninguém que venha a casa trocar notas. Que isso é um conto do vigário. Pedimos para não terem dinheiro em casa”, explica o guarda principal Dâmaso.

Hoje, Luís tem mais cuidado com os estranhos. Perto do telefone tem o número direto da patrulha da GNR que faz o Apoio aos Idosos e que funciona 24 horas por dia. E, se algum desconhecido lhe bater à porta, nunca diz que está sozinho. Mas está.

O dia em que o fecho da fábrica os deixou isolados

Maria Amélia Franco não parece ter 73 anos. O ar do campo e da horta, que cuida diariamente, devem trazer-lhe juventude. Hoje é o seu dia de aniversário e, por isso, uma das visitas do dia agendadas previamente pela GNR. Maria Amélia vive com o marido e não hesita em contar o sem número de vezes em que já foi visitada “pelos amigos do alheio”. Já não guarda qualquer valor em casa. “Já me levaram animais. E já me entraram em casa duas vezes.” Numa delas, não se deixou enganar. Mal a abordaram com a conversa de que teriam amigos em comum, percebeu logo que estava a “ser enrolada”.

–Pode ir à sua vida que eu vou tratar das batatas — respondeu Maria Amélia a um homem que a abordou.

A sua casa parece não estar isolada. Mas, ao lado, só há uma vizinha e uma estrada nacional que permite aos assaltantes fugirem rapidamente. Há ainda as instalações de uma fábrica de tomate que chegou a empregar muitos trabalhadores. Mas que, entretanto, fechou. Ainda assim, Amélia sente-se isolada. “Isto é isolado. Só há um vizinho que nunca cá está. Sempre gostei da fábrica de tomate, que agora é um armazém de frutas, porque trabalhava cá muita gente e havia muito movimento.” Agora já não há.

Maria Amélia sente falta do movimento que a antiga fábrica do tomate trazia àquela zona

MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

No distrito de Setúbal o isolamento é diferente. A área de atuação da GNR, que cobre cerca de 96% do distrito, inclui a zona de Grândola. E, aqui, existem verdadeiras casas isoladas, “com quilómetros de distância umas das outras e com situações complicadas. Há quem viva sem água e sem luz”, diz o major Fera, coordenador dos programas especiais do Destacamento de Setúbal da GNR.

O oficial garante que não há nenhum idoso que viva em “situação vulnerável” que a GNR deixe para trás. E não são apenas os que vivem sozinhos ou isolados, ou em ambas as situações. “Há idosos de 94 anos que vivem sozinhos e fazem tudo em casa. Depois, há aqueles que são expostos a crimes, como violência doméstica, ou em lares. Há idosos que desaparecem. Há situações de demência”, explica.

A operação Censos Sénior da GNR visa identificar todos esses casos. Na realidade, durante todo o ano os militares da GNR fazem um levantamento das situações. Mas este é o mês em que, a nível nacional, se fazem atualizações. E é o ano em que, pela primeira vez, se detetam outras vulnerabilidades: cidadãos com deficiência.

Número de idosos sozinhos e isolados em 2015, por distrito, segundo a GNR (passe o cursor por cima dos distritos para ver os valores)

O guarda principal Cruz, ao serviço do Programa de Apoio ao Idoso da GNR de Setúbal, dá um exemplo do que é essa vulnerabilidade. E conta a história do homem de 64 anos, com problemas de álcool, encontrado há alguns dias em estado de hipotermia num ribeiro. Tinha lama até à cintura e não conseguia sair dali. Foi alguém que ia a passar, viu o corpo e alertou de imediato os militares. Quando as autoridades chegaram ao local, resgataram-no e levaram-no para o hospital, onde ainda se encontra internado. Apesar de não ser considerado um idoso, é uma situação vulnerável marcada pela Guarda.

“Eu não sou medrosa”

Numa situação diferente está Carolina Horta, de 75 anos. Mora sozinha numa casa no Poceirão. Os filhos não vivem ali. Uma tem residência em Almada e outro na Moita. Mas visitam-se com frequência. Eram eles pequenos quando ela e o marido, já falecido, decidiram construir ali casa. Queria que os filhos andassem ao ar livre e gostava daquele sítio por ser isolado. Não se lembrou da velhice.

Hoje é a cadela “Fofinha” que mais lhe faz companhia. Ainda reabilitou um anexo da sua casa para arrendar, mas os inquilinos não só não lhe pagaram, como ainda a roubaram. “Se ao menos encontrasse alguém de confiança, ainda tinha companhia”, lamenta.

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No dia em que a GNR a visita, Carolina não atendeu o telefone. Por esse motivo, a patrulha incluiu-a de imediato na agenda das visitas diárias, para perceber se Carolina estava bem. Nada de mais, Carolina estaria na horta, o seu passatempo preferido. Desde que ficou viúva, já lá vão oito anos, que a sua rotina é a mesma. Ao domingo vão buscá-la para ir à missa na Igreja Evangélica. Nos outros dias fica por ali “a ler e a ouvir as músicas da igreja”. Foi precisamente num domingo que lhe assaltaram a casa. Levaram-lhe o ouro todo. “Dinheiro não, porque nunca tenho cá dinheiro”, conta aos militares, a quem insiste para entrarem na sua casa. “Mas olhe. Pode não acreditar, mas eu não sou medrosa.”

Apesar de uma lista de idosos que atinge o milhar, ainda há casos que não estão sinalizados pela GNR e que é a própria família que acaba por dar conta da sua situação de fragilidade. Foi o que fez Florbela Farinha, 41 anos. É uma dos quatro filhos de Maria, 78 anos, cuja mobilidade ficou afetada quando sofreu um AVC, há já cinco anos.

PSP também sinaliza idosos

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Também com o objetivo de sinalizar cidadãos idosos que possam ser vítimas de crimes, a PSP desenvolve o programa “A Solidariedade não tem idade”. Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, em 2015 a PSP sinalizou 3479 idosos e efetuou várias parcerias com a Segurança Social, autarquias e outras instituições.

A estrada de terra batida, na zona do Pinhal Novo, leva-nos a sua casa. Antes de lá chegar, há que passar um portão improvisado fechado a corrente e cadeado. Há uns dias, pelo aniversário da mãe, Florbela fez-lhe uma surpresa e levou-a a jantar. Quando regressou, o cadeado tinha sido cortado. “Voltei logo para o carro e chamei a GNR”, conta ao Observador. Os guardas foram ao local e viram que nada tinha desaparecido. Mas ficou o medo. O medo de ali deixar Maria, sozinha e isolada. Os militares informaram Florbela do programa de Apoio ao Idoso e ela telefonou logo.

O guarda principal Cruz e a guarda principal Malta estão ali, no exterior da casa, para explicar à mãe e à filha em que consiste o serviço. “Às vezes é um verdadeiro trabalho de psicologia”, diz o guarda Cruz. O major Fera, que também acompanha a ação, vai mais longe. “É neste serviço que a Guarda põe em prática o seu lema: Uma força humana, próxima e de confiança“. E, reconhece, há casos em que é bem difícil ganhar a confiança do idoso. A idade pode tornar as pessoas mais duras, desconfiadas e fechadas a qualquer estranho, mesmo a um elemento de uma força de segurança.

39216

Em 2015, de norte a sul do país, a GNR sinalizou 39 216 idosos: 23 996 viviam sozinhos, 5 205 viviam isolados, 3 288 estavam sozinhos e isolados e 6 727 não estavam enquadrados em nenhuma destas situações, mas encontravam-se “em situação de vulnerabilidade fruto de limitações físicas e/ou psicológicas”, refere a Guarda.

Os militares fazem várias perguntas sobre a família da idosa, fornecem um número de telemóvel que funciona 24 horas por dia e explicam que vão passar de vez em quando para confirmar se está tudo bem.

— Mas ela não abre a porta a ninguém — diz a filha.

— Não faz mal, nós ligamos antes para ela nos abrir o portão — diz a guarda principal Malta.

Maria vive naquela casa há mais de 40 anos. Sente-se livre, pode sentar-se na rua e fazer festas aos cães e aos gatos que são a sua companhia diária. E nem quer que lhe falem em frequentar um centro de dia. “Eu estou bem aqui”, diz. A filha ainda experimentou tê-la na sua casa, um apartamento em Palmela, mas a tristeza abalava Maria de dia para dia. “Lá também estou sozinha”, justifica-se.

Maria Farinha não quer sair da sua casa para viver num apartamento com os filhos

MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR

No distrito de Setúbal, (onde cerca de 96% do território é da responsabilidade da GNR), foram já identificados 1914 idosos em situação vulnerável: 584 vivem sozinhos, 295 vivem isolados, 201 vivem sozinhos e isolados e os restantes 834 enquadram-se noutras situações, por exemplo, vivem em casa dos filhos, mas passam o dia sozinhos e podem ser vítimas de violência doméstica ou de outro tipo de crimes. Este ano há ainda 20 registos de de pessoas com deficiência: seis vivem sozinhos, um isolado e outro sozinho e isolado. Há ainda 12 noutras situações.

Antes que seja tarde demais

Quando Célia e Luís, 32 anos, emigraram há nove anos para Inglaterra, sabiam que um dia regressariam. De preferência antes de envelhecerem. Primeiro nasceram os filhos, agora com cinco e seis anos. Depois, ela lutou contra um cancro. E as duas semanas de férias em Portugal, uma vez por ano, passaram a ser demasiado curtas para matar tantas saudades. Pensar nos avós, sozinhos, numa quinta de quatro hectares na zona do Pinhal Novo, apertava ainda mais o coração. Para agravar tudo, o avô já tinha sido vítima de um assalto violento, mesmo à porta de casa.

“Falámos e decidimos voltar. Alugámos duas carrinhas e trouxemos tudo para aqui”, conta Luís, que veio primeiro, e que até já tem trabalho no take-away de um hipermercado. Hoje, a família está toda reunida. Célia e Luís vivem com os filhos e com os avós.

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Quando os idosos são vítimas de violência doméstica

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Numa análise às vítimas de violência doméstica, as autoridades constatam que, à medida que a idade vai avançando, os agressores são os próprios filhos. Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna, relativo a 2015, 31% das mulheres vítimas de violência doméstica com mais de 65 anos e menos de 74 tinham sido vítimas dos próprios filhos. 56% das vítimas mulheres com mais de 75 anos também. O mesmo acontece com os homens. 42% das vítimas do sexo masculino, entre os 65 e os 74 anos, foram agredidas pelos próprios filhos. E 61% dos casos com mais de 75 anos também.

O portão da herdade não deixa grande margem para dúvidas. “Sorria, está a ser filmado”, refere o papel escrito a computador. E está mesmo. Foi Luís quem ali colocou uma câmara de vigilância, para evitar episódios de violência como aquele que vitimou Francisco Pereira, de 80 anos. Naquele dia, um homem entrou na herdade, empurrou Francisco contra uma grade e assaltou-o.

“Roubaram-me e atiraram-me contra a grade. Parti a cabeça”, recorda Francisco ao Observador.

As medidas de segurança passaram também por colocar uma vedação em torno de todo o terreno, para evitar entradas de estranhos. E sobressaltos.

Francisco Pereira e a mulher, Maria Pereira, quatro anos mais nova, já viviam com uma filha solteira. Mas, como ela passa o dia a trabalhar, foram marcados pela GNR logo após o assalto. Agora, com a presença da família, os guardas passam menos por ali. Sabem que estão sempre acompanhados. Não estão sozinhos. Mas nem todos os idosos têm a mesma sorte.

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