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Vera Holtz e Marcos Caruso: "Vocês são novos nas novelas, mas parabéns" /premium

Continuam a ser Leleco e Mãe Lucinda, da novela “Avenida Brasil", mas a partir desta quinta-feira Vera Holtz e Marcos Caruso estão no Tivoli BBVA em Lisboa com a peça "Intimidade Indecente".

Vera Holtz é a primeira a entrar no elevador. Lá dentro já está uma mulher, cuja expressão muda completamente assim que vê a atriz brasileira. Logo a seguir surge Marcos Caruso e a claramente fã portuguesa não resiste: “Eu não acredito que estou a ver dois dos meus atores preferidos de sempre. Que bela maneira de começar o dia. Vou ter de vos pedir uma selfie para fazer inveja ao meu companheiro.”

Aos 67 anos, Marcos Caruso já teve muitas outras personagens mas aquela que interpretou em “Avenida Brasil” — novela da Globo de 2012 que está novamente a ser transmitida pela SIC ao final da tarde — continua a ser a mais popular, tanto no Brasil como em Portugal.

Por cá, é agora possível vê-lo no teatro, num registo completamente diferente. Em “Intimidade Indecente” contracena com Vera Holtz — a mãe Lucinda de “Avenida Brasil”. Os dois começaram por fazer a peça há 15 anos mas a história teve de ser adaptada mais de uma década depois para acompanhar o avançar da idade de ambos e as mudanças que aconteceram no mundo e na mentalidade das pessoas. São agora um casal que se separa já depois dos 60 anos.

A narrativa acompanha depois os reencontros que acontecem até aos 90 anos. Fala de amor, preconceito, traição, é para rir e para chorar. Já teve mais de 400 mil espectadores e, em Lisboa, é para ver a partir desta quinta-feira, 26 de setembro, no Teatro Tivoli BBVA. Até 6 de outubro há sessões de quinta-feira a sábado, às 21h30, e domingos, às 17 horas. A partir de dia 9 há mais uma apresentação por semana, às quartas-feiras. Os bilhetes começam nos 15€, estão à venda no local, nas bilheteiras online e nas lojas habituais, como Fnac ou Worten. Fica em cena até 3 de novembro e depois segue em digressão para Aveiro, Leiria, Porto e dezenas de outras cidades portuguesas.

Os dois brasileiros aterraram em Lisboa menos de uma semana antes da estreia. Ainda não tiveram tempo para passear mas Marcos Caruso já levou Vera Holtz a alguns restaurantes de que mais gosta, apesar de preferir as tascas. O Observador não esteve com eles à volta de petiscos mas partilhou um pequeno-almoço — “Quer champanhe?”, oferece Vera. “Do meu lado já estamos no brunch, o Caruso ainda está no café da manhã.” — na véspera da primeira apresentação de “Intimidade Indecente”.

[o teaser de “Intimidade Indecente”:]

Chegaram no domingo, 22 de setembro. Quase nem têm tempo para se livrarem do jet lag antes da estreia de “Intimidade Indecente”.
Marcos Caruso (MC):
Nós os dois trabalhamos muito, fazemos duas ou três coisas ao mesmo tempo, mas a Vera trabalha demasiado. Por isso chegámos em cima da hora.
Vera Holtz (VH): Tinha de fazer tudo para me libertarem. Fiz uma série da Globo Play e fiz uma participação na próxima novela de horário nobre. Estou livre até 17 de dezembro, nessa altura começo a ensaiar para uma nova novela. A primeira era “Novo Mundo”, esta é uma sequela, é de época.

O que é que já tiveram tempo para fazer?
VH:
 Nós só trabalhámos [risos]. Ontem fomos a um nepalês jantar, também já fomos ao Pap’Açorda, o Caruso sabe tudo.

Já têm uma lista bem definida então. A que sítios é que vai sempre quando está em Lisboa, Marcos?
MC:
 Ao Pap’Açorda, que adoro. E eu gosto das tascas todas, todas, todas. Não posso ver um toldo branco que entro [risos]. Como tudo o que me derem e que eu conseguir. Eu amo comer, como muito. Na tasca gosto da comida que é feita ali na hora, é caseira e simples. Para quem viaja é importante sentir-se em casa e acho que a tasca tem esse sentimento. E gosto de observar as pessoas, eu não estou ali só para comer, mas também para me alimentar de informações.

Costuma tomar notas?
MC:
 Não tomo notas em nada, guardo tudo na memória. A minha agenda é na cabeça, não sei até quando mas o meu chip ainda funciona.

E aqui nas ruas conseguem passar despercebidos sequer?
MC:
 Não, às vezes até se assustam connosco [reproduz o som de um grito de espanto].

Qual foi a história mais caricata que já teve aqui?
MC:
 Foi um senhor que me parou na rua, ainda antes da novela “Páginas da Vida” [de 2006], que foi onde me tornei mais conhecido.

Era um sofrimento ver essa personagem no ecrã, imagino que lhe digam muito isto.
MC:
 Sim, as pessoas dizem todas isso e põem assim a mão como está a fazer [encostada à testa]. É engraçado.

Voltando à história do fã português.
MC:
 Esse senhor parou-me e disse: “Ai não, não [faz sotaque português na perfeição]. É ele, é ele.” Eu disse que sim mas também não estava a perceber muito bem. E continuou: “Por favor, por favor, não se mexa, vou atravessar a rua e vou à livraria. Um momento, não se mexa.” Eu estava ali na Praça da Figueira.

"[os jovens] São preparados para começarem por fazer um universo que conhecem, já têm esse filtrozinho. Por isso muitos começam pela 'Malhação'. No Brasil ainda é um formato que prepara muita gente jovem. Fazer um produto jovem, dirigido para jovens, com linguagem jovem está dentro de uma experiência em que ele pode dar o melhor dele. Aí começa uma seleção. Nem todos conseguem ultrapassar essa fase."

E não se mexeu?
MC:
 Não me mexi e fiquei a pensar: “Será que ele foi buscar um papel para eu lhe dar um autógrafo? Está a achar que sou uma espécie de Kevin Spacey.” Ele voltou com um livro e disse: “Por favor, eu preciso do seu autógrafo. Eu, encontrar o autor aqui…” E eu a pensar: “Mas que autor?” Olhei para o livro e estava escrito Drauzio Varella, um médico oncologista brasileiro. O livro era Por Um Fio.
VH: Você assinou?
MC: O homem continuava a dizer: “Por favor, dê-me um autógrafo.” Eu olhei para ele e disse: “Com o maior prazer” e assinei. Cheguei ao Brasil e disse ao Drauzio, que é meu amigo: “Eu dei um autógrafo em teu nome. Não é a tua letra mas dei.” Deixar o homem pensar que eu era o autor, fui responsável por um momento de emoção. Eu sou artista da mentira, da mágica, vou desdizer tudo o que faço no teatro e na televisão? Não, eu sou o Drauzio [risos].

Têm ideia de qual é a vossa personagem que os portugueses mais reconhecem?
MC:
 O Leleco, não há volta a dar [e isso haveria de ficar provado no encontro no elevador, 40 minutos depois].
VH: A Mãe Lucinda, da “Avenida Brasil”, sem dúvida. Há outra novela, “Por Amor”, do Manoel Carlos, que também foi muito popular. Mas a “Avenida Brasil” foi vendida para mais de cem países, fui ao México, fui reconhecida na Rússia. Pensei: “Meu Deus, Mãe Lucinda around the world [à volta do mundo]”.

Dobrada em russo, claro.
VH:
 Dobrada em russo. Mas o timbre é muito parecido [risos].

O que mudou no método de construir personagens desde que começaram? O que se tornou mais fácil e o que ficou mais difícil?
VH:
 Acho que tudo se torna mais fácil. Os autores já nos conhecem, sabem as nossas ferramentas. Do nosso lado, também já conhecemos o trabalho dos autores, é aquilo a que chamamos “boca dura”, já conseguimos colocar palavras do autor na nossa boca. Difícil é quando colaboramos com autores com os quais nunca trabalhámos.
MC: E estamos agora a ter uma renovação de autores no Brasil.
VH: Sim, é outra leva. Eram os assistentes, segundos ou terceiros autores que são agora os primeiros. Houve uma geração em que cada um escrevia sobre o seu próprio universo.
MC: Quem escrevia sobre mundo rural era um autor, Benedito [Ruy Barbosa]. Tudo o que era urbano era o Manoel Carlos. Agora já não.
VH: Hoje já há uma geração de autores que vão para outros níveis, o realismo fantástico. Se bem que o Aguinaldo Silva já tentava.
MC: As novelas brasileiras mudaram. Antigamente o título delas era o protagonista: “Gabriela”, “A Escrava Isaura”. Seguíamos a história de uma só personagem, mais ou menos de um núcleo. Hoje há 17, 20 núcleos numa novela que já nem tem o nome do protagonista.

O Marcos só começou a fazer televisão regular em 1990, com 38 anos.
MC:
 Eu entrei muito tarde na televisão e fiquei famoso mais tarde ainda. Sou um homem de teatro.

Porquê tão tarde? Resistiu a essa mudança?
MC:
 Não tinha surgido. Eu trabalhava em São Paulo, a televisão era no Rio de Janeiro. Eu ando por todos os géneros e plataformas. Voltando à sua pergunta, acho que deve ser mais difícil para quem fica famoso cedo construir uma personagem porque só temos ferramentas a partir da nossa observação. A partir do momento em que se é famoso, isso acabou.
VH: Porque passa a ser o observado, solicitado, já não pode ficar ali a olhar.
MC: Os jovens perdem esse poder.
VH: Também são preparados para começarem por fazer um universo que conhecem, já têm esse filtrozinho. Por isso muitos começam pela “Malhação”. No Brasil ainda é um formato que prepara muita gente jovem. Fazer um produto jovem, dirigido para jovens, com linguagem jovem está dentro de uma experiência em que ele pode dar o melhor dele. Aí começa uma seleção. Nem todos conseguem ultrapassar essa fase.

Marcos Caruso tem 67 anos, Vera Holtz tem 66

Começaram a fazer “Intimidade Indecente” os dois — Vera Holtz substituiu Irene Ravache — há 15 anos mas conhecem-se há muito mais tempo. Qual é a primeira memória que cada um tem do outro?
MC:
 Conhecemo-nos na maternidade, nascemos no mesmo ano, apesar de eu parecer pai dela [risos].
VH: A primeira memória que tenho do Caruso é de quando fui assistir à peça “Porca Miséria” [de 1994].
MC: A primeira memória que eu tenho da Vera, ela não sabe disto, foi num jantar depois do espetáculo “Pérola” [de 1995]. Eu já conhecia a Vera há muito tempo — somos da mesma cidade e fazíamos teatro mas cada um no seu canto — e quando fomos jantar eu disse ao Miguel [Magno, ator e encenador]: “Cara, eu estou muito nervoso por jantar com a Vera Holtz porque eu sou muito fã dela.”
VH: Ai, Caruso, não sabia disso.
MC: Ela já era famosa, foi para a televisão muito cedo e correu bem. Isso é mérito total dela, numa época em que a TV Globo não tinha no seu cardápio a diversidade de sotaques. Até aos anos 70, se você tivesse um sotaque um pouco mais do norte ou do sul, tinha que se adequar ao sotaque carioca para fazer uma novela. E ela venceu com o sotaque caipira, que é o mais gozado pelo povo brasileiro. Dobra-se o “r”, a “porrrta”, a “morrrta”.
VH: Mas eu também tive sorte, Caruso, se fizermos essa associação. Com a minha entrada na televisão, começaram a colocar música sertaneja na novela, que era Chitãozinho e Xororó. Eu apareci um pouco com essa simpatia na Globo.
MC: Foi uma coincidência mas a Vera também tem personalidade, podia ter feito o sotaque menos fechado e não fez. Ainda hoje há atores portugueses que vão para o Brasil e mudam a forma de falar porque o mercado é maior. É bom por um lado, mas ruim por outro.

Supostamente porque os brasileiros não entendem o sotaque de Portugal.
MC:
 É só falar mais devagar. Se não, perdemos personalidade.
VH: Antes havia até uma professora de dicção, a Glorinha Beuttenmüller. Era recrutada para dar uma cariocada no sotaque.
MC: O Rio de Janeiro tinha de gerar para o Brasil inteiro. Mas, falando em portugueses, eu quero dar os parabéns aos realizadores de cá. Tenho visto novelas cá e vocês são novos — 20 anos neste meio — mas têm grandes guionistas e atores. “Na Corda Bamba” [da TVI], por exemplo, é uma novela ótima. Vocês estão a caminhar bem. Gosto de pensar que fomos bons professores nesse sentido.

A peça fica em cena em Portugal até dezembro — a 14 desse mês termina em Albufeira. É a estreia da Vera em Portugal, certo?
VH:
 Como trabalho, sim. Eu fiz só “Vamp” há muitos anos, que era uma novela de vampiros. Os vampiros ficavam aqui em Mafra. Usámos muito a biblioteca de lá, que é sensacional, e Sintra também. Os vampiros viviam por ali mas isso foi na década de 80. Com esta peça fizemos a América Latina mas Europa não. É uma sensação muito gostosa estar aqui, tenho uma expetativa mas ao mesmo tempo tenho um sentimento de pertença porque já vim para cá muitas vezes.

Já fazem “Intimidade Indecente” há tanto tempo. O que é que ainda têm para ensaiar?
MC:
 Na verdade, esta é a nossa estreia. Fizemos esta peça há 15 anos mas era outra montagem. O texto era o mesmo mas a direção era diferente. E, naquela altura, eu tinha 50 anos e a minha relação com a personagem da Vera era uma separação de uma personagem com 50 anos, e no ano 2004. Não é uma separação aos 60 e tal em 2019. Nós estamos 15 anos mais velhos e o mundo evoluiu muito. Não se admite mais um homem machista ou um homem ou mulher preconceituosos. Estamos a usar o texto numa outra realidade. Então, a nossa estreia é amanhã [quinta-feira, 26 de setembro], nunca fizemos isto assim antes, não sabemos como é que o público vai reagir. Estamos, como se diz no Brasil, com o cu assim [mostra o punho apertado]. Não estamos? Mil pessoas no Tivoli.
VH: Não há como fugir a esse frisson. Para mim, a estreia é festa, os amigos vão lá estar. Eu também não tenho problemas com julgamento. Gostam, gostam. Não gostam, paciência. Vamos agradar a 30% da população, há pessoas a quem nunca vamos agradar. O Nelson Rodrigues [escritor e encenador brasileiro] diz que “unanimidade é burra”. É isso

Nós somos instáveis, incoerentes. Não confie muito em nós [risos]. Eu digo ao Caruso: “Vamos jantar?” Ele diz: “Não aguento, vou para casa, estou cansado. Vou pedir uma pizza e dormir cedo.” Continuo: “Caruso, vamos jantar?” Resposta: “Já disse que vou para casa dormir.” “Vamos, Caruso?” “Puta que pariu, vamos embora jantar então.” [risos]

São capazes de estar aqui a jantar e daqui a dez minutos estalam os dedos, mudam o chip e entram em cena ou precisam de um momento de concentração?
VH:
 Que concentração?
MC: Eu faço palhaçadas, e a Vera também, até um minuto antes de entrarmos em cena.
VH: Precisamos é de um momento para nos apropriarmos do palco, da peça. Isso é no ensaio. A partir daí, a bola entra em campo quando o árbitro apitar. Às vezes até tenho dificuldade com um realizador muito concentrado.
MC: Isso é como um bife da vazia. No ensaio eu vou ver como vou comer o bife: ok, isto é um prato de plástico, então não posso cortar assim. O garfo não vai para aqui, vai para ali. Depois de saber como é tudo, corto o bife e como. Ok, já percebi que é assim, acabou. Agora não vou ficar aqui antes do almoço a pensar: “Deixa ver como é que vou pegar no garfo.”
VH: Uma vez disseram-me: “Vera, você não gosta de repetir cenas.” Não é que eu não goste mas, até chegar àquele momento, já fiz muita coisa. Já pesquisei, já estudei, já disse aquela palavra de todas as maneiras.
MC: O texto já tem de estar automatizado. Mas também não podemos ser um robot. No teatro fazemos todos os dias as mesmas coisas para nunca fazermos a mesma coisa.
VH: Temos um plano, sabemo-lo, mas flutuar à volta daquelas palavras é que dá prazer.

E essa é a graça?
VH:
 Nós somos instáveis, incoerentes. Não confie muito em nós [risos]. Eu digo ao Caruso: “Vamos jantar?” Ele diz: “Não aguento, vou para casa, estou cansado. Vou pedir uma pizza e dormir cedo.” Continuo: “Caruso, vamos jantar?” Resposta: “Já disse que vou para casa dormir.” “Vamos, Caruso?” “Puta que pariu, vamos embora jantar então.” [risos]
MC: Adoro errar, adoro não saber.
VH: Sem resistência. Acho que é a melhor forma de transitar na arte.

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