Vi o documentário sobre Tony Carreira: é um sonho de menino /premium

15 Julho 20191.299

Hugo van der Ding viu o biopic que às vezes parece um filme promocional (ou um filme promocional que parece um biopic) e concluiu: Tony Carreira é o retrato fiel de Portugal. Estreia-se hoje.

Começo com um disclaimer: durante quase uma década, morei no bairro lisboeta de Santa Catarina — mesmo ao lado do Adamastor — onde tinha como vizinhos pessoas tão diversas como Teresa Ricou, a mulher-palhaça — não desfazendo — e fundadora do Chapitô, a atriz Rita Blanco e os seus vários cães, ou o muito simpático embaixador da Argentina, que me dizia “Olá, bom dia!” todas as manhãs. Sem querer parecer deslumbrado, devo dizer que o dia começa muito melhor com os bons-dias de um embaixador. Mesmo que seja o da Argentina.

No topo do rol de celebridades, dessa rarefeita fina-flor, estava, claro, o chefe do tráfico de droga do eixo Chiado-Bairro Alto, que foi meu vizinho de baixo. Até que, num daqueles revezes da fortuna da nossa rua, se mudou para a Rua Marquês de Fronteira — de onde não se vê o Tejo como em Santa Catarina, mas se pode apreciar o verde do Parque Eduardo VII, se a janela da cela deitar para esse lado.

Mas, como acontece sempre em Lisboa, esfregando ombros com esta praticamente realeza, havia um sem-fim de figuras bem populares, o verdadeiro sangue do bairro, até porque já lá estavam quando nós nos mudámos para lá.

[o trailer de “Tony”:]

Havia a Velha dos Gatos, minha vizinha de sacada, que passava os dias a conversar de janela com a vizinha da frente, usando generosamente um tom de voz que poderia ser ouvido em Telheiras ou na Expo. Que era pena que as histórias dela ficassem só ali pela nossa rua, não é? Confesso que um dia menos bem-disposto lhe perguntei por que raio não iam à casa uma da outra, em vez de estarem ali aos gritos. Olhou para mim como se eu lhe tivesse sugerido, sei lá, sentar-se na cara de um marciano ou assim.

Um dia, apareceu morta no meio dos seus gatos. Creio não ter tido nada a ver com isso. Creio.

E, mesmo em frente à janela da sala, havia A Bicho. Ah, A Bicho! Tantas histórias suas que tenho para contar. Cheguei mesmo a compilar alguns contos, que quis publicar com o título Os Bichos, mas parece que um tal de Miguel Torga se adiantou. Que se lixe.

Não vou explicar porque lhe chamava A Bicho (até porque Darwin já escreveu amplamente sobre o assunto) mas, para terem uma ideia, à irmã, mulher igualmente popular, de socas e bata traçada, minha vizinha de cima, dei em chamar A Condessa do Terceiro Andar, por comparação com A Bicho. Agora façam as contas.

O português que deu certo

Mas vamos ao que nos interessa para aqui: dá-se o caso de A Bicho aspirar todos os sábados a casa durante umas boas duas horas tendo como banda sonora, em loop, o tema “Sonhos de Menino”, de Tony Carreira. Durante umas boas duas horas e durante anos a fio.

Eu que — confesso — já usei todo o tipo de estupefacientes, e misturados uns com os outros, nunca me vi tão claramente a bater aos portões da loucura. Imaginei-me muitas vezes a abrir o Telejornal, entrando já algemado num carro da polícia, todo em desalinho, com um taco de basebol na mão, murmurando frases ininteligíveis, onde se percebia uns vagos “sonhos» e «menino”.

Como já tinha gastado o cartuxo — salvo seja — da morte com a Velha dos Gatos, dei em fazer batalhas de decibéis: ela com o Tony e eu com peças mais experimentais de Shostakovitch, ou as árias mais estridentes de La Fille du Regiment. Ganhou sempre ela, e acabei por mudar de casa para as Avenidas Novas.

Tony, o português que encheu as maiores salas de espetáculos da Europa. E o português que, apesar disso tudo, continua a ser um bimbo para os portugueses que não percebem que Portugal é também Tony, e que, ao chamarem-lhe bimbo, estão também a chamar bimbos a si mesmos. Porque a portugalidade, por mais que queiramos, não conhece essas fronteiras.

Foi neste pânico de ter um ataque pavloviano que fui assistir a “Tony”, um filme de Jorge Pelicano sobre o Tony, como o próprio nome indica, que se estreia nesta quinta-feira, 25 de julho. Levava uma boa referência de Jorge Pelicano, o seu filme anterior “Até Que o Porno Nos Separe”, e de Tony levava as horas passadas a ouvi-lo à força, com um aspirador como pano de fundo. Como pano de fundo na tromba.

À boleia do último filme de Pelicano, contava com uma sex tape de Tony, ou um passado na indústria porno. É que toda a gente já teve dezoito anos, e os estudos não se pagam sozinhos. Mas não. Tirando um breve tronco nu perto do final, Tony aparece sempre vestido. Umas vezes melhor, outras vezes pior, mas sempre vestido. E quase sempre a fumar. Fiquei logo a gostar um bocadinho dele.

Gostava de poder dizer que entrei na sala de cinema sem qualquer preconceito, pronto a receber Tony. Seria mentira. A verdade é que assim que me sentei, dei uma palmada na testa e pensei mais ou menos alto: “Que chatice! Devia ter trazido uma fatia de broa, para molhar neste azeite!”. Mas o que vi neste biopic que às vezes parece um filme promocional ou neste filme promocional que às vezes parece um biopic, deixou-me a pensar: Tony Carreira é o retrato fiel de Portugal.

E não escrevo isto no meu laptop, no terraço do Ritz, enquanto bebo um gin tónico. Quer dizer, por acaso escrevo. Mas escrevo-o sem ponta de ironia, sem vestígios de sobranceria, sem laivos de paternalismo. Tony Carreira é o português que deu certo. É o português que ganhou o Euromilhões. É o português que foi “lá para fora” e que, com o proverbial esforço português, se tornou uma estrela. E até é o português vagamente trafulha, que roubou uma data de músicas, diz-se, uma história que só indignou quem não é fã de Tony.

Tony, o português que encheu as maiores salas de espetáculos da Europa. E o português que, apesar disso tudo, continua a ser um bimbo para os portugueses que não percebem que Portugal é também Tony, e que, ao chamarem-lhe bimbo, estão também a chamar bimbos a si mesmos. Porque a portugalidade, por mais que queiramos, não conhece essas fronteiras. Credo, eu escrevi mesmo isto? Pois, parece que sim.

Primeiro os Irmãos 5

O filme abre com as imagens do Tony dos anos setenta — e do Portugal dos anos setenta — fugindo de uma aldeia miserável na Beira rumo a França. O Tony que passou a década seguinte a tentar provar que ainda lá cabia mais uma Linda de Suza.

Trabalhou durante dez anos (ele e a família toda) numa fábrica, a encher chouriços. Se eu fosse um cínico, diria que foi o que acabou por fazer o resto da vida. Mas como não sou, não digo.

Depois, com imagens de camcorder, acompanhamos as por vezes ternurentas tentativas de Tony — na altura ainda António Antunes — de largar a fábrica para viver daquilo que gostava de fazer: cantar. “Os últimos trinta anos pareceram-me dez. E aqueles dez anos na fábrica pareceram-me cinquenta”. Percebo.

Lentamente, à frente dos nossos olhos, Tony vai deixando para trás os anos oitenta — graças a Deus — e os correspondentes fatos brilhantes, os chumaços (ou lá como isso se escreve) e o cabelo de castor.

Tony passa os anos oitenta com uma banda chamada Os Irmãos 5, num piscar de olhos ao quinteto mais famoso da música americana. Os Jackson 5, para quem não percebeu a referência.

Os Irmãos 5 tinham um teclista que não sabia tocar teclado, um baixista que não sabia o que era um baixo (“É aquela coisa que faz pum pum, não é?”). E tinha Tony, o vocalista cuja capacidade vocal deixa bastante a desejar. É ele próprio que o diz. “O que eu tenho não é a voz, com certeza”. Não juro que tenham sido exatamente estas palavras, mas a ideia era essa. E quem o diz também é Ricardo Landum, o side kick que Tony exigiu fosse seu compositor quando finalmente o convidaram para gravar um disco. Landum, de resto, fica responsável pelos momentos cómicos do filme. De boné com a pala para trás e sentado no sofá de sala de Carreira, faz aquele papel que fazem alguns dos nossos amigos, que é elogiar-nos insultando-nos: “Não sei o que é que este gajo tem!”, “Não sei como é que ele faz aquilo!”. Ainda os vemos juntos a escrever a letra de uma música. Landum faz o esqueleto, mas Tony dá também a sua opinião: “Tira esse perfeito de mais, que não gosto”. Pois, nem eu. Não achei nem pior nem melhor que as outras letras, mas eles é que sabem, não é?

Lentamente, à frente dos nossos olhos, Tony vai deixando para trás os anos oitenta — graças a Deus — e os correspondentes fatos brilhantes, os chumaços (ou lá como isso se escreve) e o cabelo de castor. Não são apenas uma moda: Tony, num dos momentos mais íntimos do filme, revela-nos a sua grande referência, o seu ídolo. O seu Tony Carreira, no fundo: o cantor israelita Mike Brant, que teve um sucesso gigante em França no início dos anos setenta. Até se ter suicidado aos vinte e oito anos, no auge da fama, saltando de uma janela em Paris. Vemos Tony cumprir um sonho (de menino). Acompanhamo-lo a Haifa, em Israel, para visitar o lugar onde Brant está enterrado. Encontra-se depois com o irmão de Mike, que lhe mostra a casa onde ambos cresceram. Tony chora. O irmão de Brant chora. O próprio céu chora, com uma carga de água. Eu não chorei, mas achei bonito.

Numa montagem de fotografias, percebemos a dimensão da influência de Mike Brant na estética de Carreira, da roupa ao cabelo. E percebemos a diferença que faz o dinheiro, não desfazendo. Se eu fosse mau, diria que Tony parecia, nos anos oitenta, uma cópia de Mike Brant do Carnaval de Ovar. Como não sou, não digo.

“O que ele me dá vale muito mais do que um bife”

Guiados pelas recordações do irmão de Carreira, o Sr. Antunes, seguimos em frente nas conquistas de Tony: o primeiro concerto no Olympia (em 2000), a mítica casa de espetáculos francesa. Falam do escárnio com que esse espetáculo foi recebido em Portugal. “Ah, a encher aquilo de emigrantes, também eu! Queria ver-te era a encheres o Coliseu cá em Portugal!”. Ai queriam? Então esperem só.

Tony, praticamente ignorado pela comunicação social e desconhecido pela maior parte dos portugueses, apanhou tudo e todos de surpresa. Não só encheu, como incendiou o Coliseu (em 2002). Portugal, de queixo caído, percebeu que Portugal amava Tony Carreira. Portugal percebeu que Portugal também era Portugal.

E Portugal toma conta do resto do filme.

O filme aborda muito ao de leve o tema do plágio. Não percebi se foi uma imposição, se foi o próprio propósito do filme, mas Tony arruma o assunto com um momento de amizade e camaradagem com um dos cantores de quem foi acusado de sacar umas músicas. Apenas um. “Ele pegou na minha letra e fez uma música na língua dele. A música é isso”. Dos outros, não se falou.

As fãs — quase todas mulheres, quase todas quarentonas, quase todas com o cabelo de cor diferente da que Deus lhes deu — que acompanham o seu ídolo por todo o lado. Todo o lado mesmo. Temos o grupo do Algarve, que se enfia num autocarro e corre Portugal, “sobretudo no Inverno, quando há menos concertos de Verão”. Temos a mulher que come ovos e salsichas para poder ver os concertos de Tony. “O que ele me dá vale muito mais do que um bife”, conta entre lágrimas. É preciso ser um monstro para não nos emocionarmos. Que horror! Eu sou um monstro! Brinco. Emocionei-me, claro. Temos a mulher doente que nem assim desiste de seguir Tony, que faz com ela umas piadas mais picantes e que abraça com carinho. Temos as mulheres que vão de véspera, para ficarem mesmo em frente ao palco, a quem Tony “dá vida”. Temos o homem — dos poucos que também são vidrados em Tony — que não tem vergonha de chorar com as baladas de Tony. Que diz com orgulho: “Sim, gosto de Tony e também não gosto de futebol”. E quando os colegas fazem pouco dele, perguntando-lhe se também já gritou “Tony faz-me um filho”, responde: “Agora já não é: Tony, faz-me um filho. Agora é: Tony, dá-me um dos teus”. De todos eles, identificados no filme pelo número de sócio do clube de fãs, Tony sabe o nome. Com todos eles perde horas a fio no final de cada concerto, perguntando-lhes pelos filhos, pelos maridos, pelos cães e pelos gatos. E também sabe de cor o nome dos filhos, dos maridos, dos cães e dos gatos. São famosas as diretas que já fez, para beijar até à última fã que espere por ele nos bastidores. Respect.

Nem tudo são rosas, claro. O filme aborda muito ao de leve o tema do plágio. Não percebi se foi uma imposição, se foi o próprio propósito do filme, mas Tony arruma o assunto com um momento de amizade e camaradagem com um dos cantores de quem foi acusado de sacar umas músicas. Apenas um. “Ele pegou na minha letra e fez uma música na língua dele. A música é isso”. Dos outros, não se falou.

Mas, para os fãs, e é importante perceber isso, estas polémicas não existem. O que existe é a tristeza pelo anúncio da reforma do seu ídolo.

Não é um spoiler dizer que o filme acaba com o último concerto de Tony, no Altice Arena (em 2018). Desde o início que a história é um crescendo até à despedida dos palcos.

O motivo desta pausa na música é vagamente insinuado ser o cansaço, mas umas imagens de Tony com uma máscara de oxigénio entre duas canções — propositadas? — deixam no ar outras razões. E também fica no ar se voltará ou não um dia. “Se for para fazer igual ou pior, não volto”. Obrigado.

Parece que Tony tem tudo. Mas não tem

O último concerto é o resumo da vida de Tony: o labrego de Armadouro é agora um cantor milionário. O vocalista dos Irmãos 5, que cantava em restaurantes portugueses em Paris com cadeiras e mesas de plástico, canta agora na maior sala do seu país natal. O António Antunes, que cantava para dez pessoas bêbedas, canta agora para milhares de pessoas que sabem de cor t-o-d-a-s as suas músicas. Aquele Mike-Brant-das-Beiras, dedilhando uma guitarra, canta agora com uma orquestra sinfónica e um coro de gospel. E até aquele Tony, cuja carreira — viram o que eu fiz? — foi ameaçada de morte com uma acusação de plágio, tem hoje o Pavilhão Atlântico cheio até cima das mesmas fãs que o seguem indefetivelmente há 35 anos. E tem os três filhos, cada um com a sua respetiva carreira — viram o que eu fiz outra vez?

Eu já sabia que ele tem a vida que quis, nem sempre feliz, mas é a vida que ele escolheu, infeliz no amor, mas no fundo cantor, que a vida deu-lhe o que ele pediu e se ele pudesse voltar de novo a sonhar, faria o mesmo, podem crer, e aquele menino ele voltaria a ser.

Parece que Tony tem tudo. Mas não tem, claro. Os cantores românticos, ensina-nos a História, nunca têm tudo. Tony, o cantor que põe as fãs a chorar com as suas músicas de amor, chora ele mesmo com a pouca sorte que teve no amor.

Mas diz que voltaria a fazer tudo outra vez, e da mesma maneira. “Porque foi tudo verdade”, no bom e no mau sentido, acrescenta.

Mas isso, já eu sabia, das longas horas do aspirador da Bicho. Eu já sabia que ele tem a vida que quis, nem sempre feliz, mas é a vida que ele escolheu, infeliz no amor, mas no fundo cantor, que a vida deu-lhe o que ele pediu e se ele pudesse voltar de novo a sonhar, faria o mesmo, podem crer, e aquele menino ele voltaria a ser. Que é muito mais do que a maior parte das pessoas pode dizer.

Nesta estreia como crítico de cinema, sinto-me obrigado a dar uma classificação. Este filme merece uma única estrela. E essa estrela é — claro — Tony Carreira.

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