i

Bastidores da gravação do programa no dia 16 de janeiro

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Bastidores da gravação do programa no dia 16 de janeiro

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Vi o programa do Ricardo e não houve sinal do professor Marcelo. Se houve, o sinal caiu /premium

Alberto Gonçalves tem dúvidas da relação do humor com a política, mas não tem dúvidas de Ricardo Araújo Pereira. Lançou-se ao novo "Gente Que Não Sabe Estar" teve pena que tenha durado só 21 minutos.

    Índice

O contexto

A relação do humor com a política complica-se quando, conforme sucede com frequência, os políticos se encarregam de fazer humor e os humoristas de fazer política. Qualquer programa que inclua dirigentes partidários, deputados, “senadores”, comentadores ou “personalidades” similares é potencial fonte de risota. Qualquer programa que, em 2018, inclua comediantes a denunciar a “troika”, os flagelos climáticos e o salazarismo dos anos 1930 diverte tanto quanto uma cólica renal – e entretém menos.

Em Portugal, sucedem-se exemplos de ambos os casos, que não só seria fastidioso enumerar como, no que me diz respeito, seria igualmente impossível: à semelhança da vasta maioria da população ocidental abaixo dos 76 anos, vejo pouquíssima televisão, e nunca de origem nacional. Também não ouço rádio, não decifro búzios ou sinais de fumo e circunscrevo o consumo de jornais ao estritamente necessário para alimentar as crónicas regulares. Em suma, o Observador acertou em cheio ao pedir-me para abordar o assunto. E eu acertei em cheio ao aceitar.

Até eu, porém, tenho a vaga ideia de que, além de não ter piada, a nossa comédia política não tem tabus – excepto o de parodiar partidos/tendências/sujeitos/medidas à esquerda do chamado, decerto discutivelmente, “PS moderado”. Gozar com “o Cavaco”? Uma vetusta tradição pátria. Bulir com o senhor doutor Jorge Sampaio ou com o falecido humanista Mário Soares? Está fora dos limites toleráveis. Bater em Pedro Passos Coelho, goste-se ou não uma figura “neutra” e pouco caricaturável? Um dever cívico. Achincalhar o dr. Costa, cuja sofisticação intelectual e cujo domínio da língua poderiam patrocinar em regime de exclusividade longas carreiras no género “stand up”? Não vamos por aí. Onde se traça a linha que separa o aceitável do inaceitável? Aproximadamente pelo meio da Ericeira, onde hoje reside o “eng.” Sócrates, que no espectro ideológico é o alvo extremo dos humoristas caseiros. Daí para lá, o humor resigna-se a um respeitoso silêncio.

Estou disposto a admitir que isso talvez aconteça para evitar redundâncias. De facto, sempre que as carmelitas do Bloco emitem um palpite público, a chalaça faz-se sozinha. E sei de fonte segura da existência de “espaços” televisivos semanais dedicados a ouvir as “opiniões” de espécimes como Pedro Silva Pereira, Fernando Rosas, duas ou três manas Mortágua, o autarca de Lisboa, o imparável dr. Louçã, setenta e nove dissidentes do PSD “neoliberal” e o ocasional comunista ortodoxo. Não custa imaginar a galhofa involuntária que para ali vai, de longe suficiente para dispensar humoristas profissionais.

O Ricardo

Curiosamente, e suponho que provisoriamente, esta semana a tendência de valorização dos humoristas amadores inverteu-se. Enquanto a SIC cancelava a “Quadratura do Círculo”, ancestral palco do burlesco inadvertido, a TVI prometia o início de “Gente Que Não Sabe Estar”, do Ricardo Araújo Pereira. Escrever sobre o Ricardo é um aborrecimento medonho. O Ricardo é letrado, lúcido, brilhante, amável e mais uma data de características que o afastam do português médio, do humorista português médio e do participante da “Quadratura do Círculo” médio. Para cúmulo, o raio do tipo tem graça, o que não tem graça nenhuma para quem se oferece a analisar impiedosamente os seus trabalhos.

Por sorte – sorte do presente texto, que isto não vai lá movido a elogios – o Ricardo possui um defeito: convenceu-se, não imagino porquê, de que é de esquerda. Claro que não é. Mantenho com uma amiga, letrada, lúcida, etc., a discussão permanente de que não se consegue acumular essas virtudes com uma crença real e intransigente nos princípios de Marx, Gramsci e Rui Tavares. Dado que, infelizmente, quase nunca falo com o Ricardo, não costumo iluminá-lo na temática em questão, lacuna que sem dúvida o prejudica ao nível da pessoa humana.

Ainda o Ricardo está a dar as boas-noites, sentado na secretária de onde não se levantará, já a realização exibe um grande plano do director da estação, Sérgio Figueiredo, em risinho precoce. Isto promete. E começa a cumprir: um “comunicado” da TVI “interrompe” a emissão para avisar que “qualquer conteúdo passível de ofender, melindrar ou gerar o mais pequeno desconforto no espectador é repudiado de forma veemente por esta estação”.

É verdade que, aos poucos, vão-se adivinhando ligeiros abalos nas alegadas convicções do Ricardo. Não admira, após os sucessivos ataques que, a propósito de uma rábula, uma frase ou uma palavrinha, sofreu por parte das brigadas da moralidade. Mesmo assim, lancei-me a “Gente Que Não Sabe Estar” desconfiado de que os ataques, ou os abalos, não foram os bastantes.

Os preliminares do programa do Ricardo

Há três anúncios promocionais ao programa do Ricardo. No primeiro, ele termina de entrevistar uma velhinha para mostrar a convidada seguinte: “uma jibóia, autora de alguns estrangulamentos polémicos”. De imediato, encaixa a pergunta do dia: “Será que Portugal precisa de mais jibóias?”

No segundo anúncio, o Ricardo despacha um telefonema do prof. Marcelo e anuncia o convidado “muito especial”: o vírus do ébola, “autor de algumas pandemias polémicas”. A pergunta do dia: Portugal precisa de um surto de ébola?

No terceiro anúncio, o Ricardo apresenta Manuel Palito, possuidor de um bigode polémico e leva um tiro, que naturalmente considera polémico.

Embora não tenhamos começado, começamos um bocadinho mancos. Nos três “spots”, são evidentes as referências ao “caso” Mário Machado, esse “autor de algumas declarações polémicas”, e ao inquérito, presumo que proposto pelo sr. Goucha, acerca da quantidade adequada de “Salazares”. Nada contra o enxovalho da extrema-direita, a não ser a ausência, para já, de tratamento idêntico dispensado à extrema-esquerda, à esquerda, à esquerda central e à esquerda mal disfarçada de direita. Não é que o humor político precise de equidistância (cruz, credo), mas conviria que afrontasse poderes algo superiores aos detidos por um “skinhead” delinquente e por um ditador morto há meio século. Quanto ao que importa: os anúncios tiveram piada? Tiveram.

O “telejornal” antes do programa do Ricardo

Domingo, 20:40. Acho que pela primeira vez espreito a TVI. Está a dar o noticiário, ou o inventário das irrelevâncias que se confunde com um noticiário nos dias que correm. Há uma “reportagem” sobre turistas que passeiam na Serra da Estrela (por causa da neve, imagine-se). Há o resumo de um jogo da bola (o Sporting ganhou a outra equipa). Há José Mourinho a contar a uma televisão inglesa um episódio a que não aprestei atenção. Há um “apontamento” alusivo a um projecto que mistura cinema mudo e fado (estou em pulgas). Há umas imagens dos filmes favoritos aos Óscares. Há uma locutora da Rádio Comercial a falar de “momentos impactantes”. Há uma pausa para publicidade, ou para fugir dali. E há, enfim, “Gente Que Não Sabe Estar”, que, face à precedência, em matéria de comédia ameaça ser redundante.

Tudo no actual PSD – desde as promessas esfarrapadas do sr. Montenegro ao “D” perdido pelo dr. Rio ao gritar (?) melancolicamente a sigla do partido de que é chefe – é tão anedótico que a anedota subsequente é dispensável. Apesar disso, o Ricardo saiu-se muitíssimo bem.

O programa do Ricardo

Ainda o Ricardo está a dar as boas-noites, sentado na secretária de onde não se levantará, já a realização exibe um grande plano do director da estação, Sérgio Figueiredo, em risinho precoce. Isto promete. E começa a cumprir: um “comunicado” da TVI “interrompe” a emissão para avisar que “qualquer conteúdo passível de ofender, melindrar ou gerar o mais pequeno desconforto no espectador é repudiado de forma veemente por esta estação”. Percebe-se que é piada: não se percebe é a dita, espécie de recuperação, assaz escusada, dos falsos, e estafados, “censores” de Herman José.

O tema inicial é Armando Vara, com passagens fugazes por Manuel Maria Carrilho, Maria João Rodrigues (salvo o erro, não fazia da senhora viva) e o “eng.” Sócrates. O Ricardo introduz um coro alentejano que, à maneira grega, vai comentando as atribulações do bancário/banqueiro dos robalos. Por azar, diferenças geográficas ou culturais não me permitem suportar o “cante” nem por brincadeira. Apreciei, porque não vira, as imagens do desgraçado que se entregou na cadeia de Évora para descobrir que, afinal, não alcançara o estatuto necessário – ou “um bandido que quer ser preso acima das suas possibilidades”, nas palavras do Ricardo. Um novo “comunicado” da TVI segue pela via do absurdo e redime parcialmente o próprio “adereço”. Nada redime o coro alentejano, que entretanto volta ao ataque com uma quadra ao gosto popular.

https://youtu.be/_kcOcWmJHt8

O segundo tema (digamos) é a ida da dra. Cristas ao programa de uma Cristina que não conheço mas finjo que sim para evitar acusações de snobismo. Ao que consta, a líder do CDS cozinhou arroz de atum, uma lição, não sei se cabal, a todos os que a acusavam de não servir para coisa alguma. O Ricardo optou por gracejar com a “governação de António Costa”, que “empobrece o país de tal forma que até as pessoas do CDS já comem arroz de atum!”, o que significa que “Jerónimo de Sousa já está a comer, sei lá, batatas com pão – a não ser, claro, que vá jantar a casa do genro”.

Eis a deixa para comentar o electricista que, na sua inocência, mudou oito lâmpadas e dois casquilhos a troco de 11 mil euros, pagos pela câmara de Loures. Ao Ricardo não escapou o compadrio e o descaramento. Como a quase toda a gente, escapou-lhe a trágica “punch line”: os comunistas portugueses andam há décadas a exaltar 76% dos genocidas do último século e apenas perdem a impunidade a pretexto de uma trafulhice microscópica.

https://youtu.be/pdLERrj6erA

Salto para uma sala com “Miguel Góis e um debate com representantes dos cinco principais partidos”, ou os restantes seis autores de “Gente Que Não Sabe Estar”, cada um com a referência a trapaças célebres do “seu” partido. Foi o momento ecuménico do programa, a garantia, demasiado explícita, de que ali ninguém está imune à crítica. E a sugestão, demasiado débil, de que “eles são todos iguais”.

Suportado mais um dos “comunicados” da TVI, que aparentam ridicularizar o canal e querem mostrar (porquê, Deus meu?) que o canal é um modelo de desportivismo e tolerância, entrou em cena o PSD. Tudo no actual PSD – desde as promessas esfarrapadas do sr. Montenegro ao “D” perdido pelo dr. Rio ao gritar (?) melancolicamente a sigla do partido de que é chefe – é tão anedótico que a anedota subsequente é dispensável. Apesar disso, o Ricardo saiu-se muitíssimo bem. Por causa do debate votação secreta versus braço no ar, o Ricardo entrevistou um braço (Zé Diogo Quintela), no fundo o convidado do primeiro programa e uma alternativa mil vezes preferível ao governante, dirigente ou marioneta da praxe:

— “Costumo dizer que o braço direito é o meu braço-direito”.
— “Braço, quando nós tivemos esta ideia parecia que ia ser mais giro, não parecia?”
— “Parecia, Ricardo. É no que dá fazer isto em cima do joelho.”
— “É uma acusação grave. Connosco para se juntar ao debate temos também um joelho…”

[corte para “comunicado” da TVI] 

https://youtu.be/ANqtDVlL030

Foi “giro” o quanto baste. Ao esquecerem por instantes a “actualidade”, ½ dos Gato Fedorento retornam ao tópico que fez deles o apogeu do humor nacional depois da Padeira de Aljubarrota: o esplendoroso gozo da língua. A culpa não é dos Gato Fedorento, ou do Ricardo, mas da “actualidade”, que subjuga a pura graça a factores “externos” e frequentemente hostis. Se formos rigorosos, o pior na relação do humor com a política é a relação propriamente dita.

A conclusão

Seguiu-se outro fogacho de PSD (chacota auto-sustentada) e outra quadra em “cante” (irra). E de repente o programa acabou. Pareceu-me durar cinco ou dez minutos. Durou vinte e um. E isto é um elogio, o segundo maior que posso fazer. O maior é que não houve sinal do prof. Marcelo. E se houve, o sinal caiu.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.