O título é Egypt Station, e a grande novidade não é Paul McCartney lançar um álbum novo, ainda mexer as ancas, serpentear no palco, encantar o mundo com canções de alegria e lacrimejo. A notícia de 2018 que nos apanhou de surpresa foi a revelação dos cabelo brancos, imenso sacrilégio, fatídico indício que o maior compositor vivo da música popular está velho, ou pior, que o tempo das grandiosas baladas chegou ao fim, que os futuros “Judes” vão ser obrigados a carregar sozinhos o peso do mundo nos ombros, sem uma canção triste para os salvar.

Enquanto o tempo mói, Ele ainda está entre nós. Egypt Station é o novo disco do alegre trovador inglês, o herói gentleman de 76 anos, Sir McCartney, Macca, profeta do amor e paz. E que não passe despercebido, é também o último conjunto de canções do aventureiro que anunciou sem medo gostar de LSD, que gravou cassetes com William S. Burroughs, foi preso no Japão, e refugiou-se numa quinta em nenhures com uma cadela chamada Martha. Esta brincadeira, de Paul sozinho num estúdio de gravação, começou em 1970, barbudo, até criar cabelos brancos neste Egypt Station, o álbum número 25 de McCartney a solo, incluindo os Wings, e excluindo as obras de música clássica e projetos paralelos. Vamos a quase 50 anos de cantigas?

25 fotos

“McCartney”

1970

Em 1970, quem passou pelos confins do sudoeste escocês, antes de Mull of Kintyre ser uma atração turística, teve uma visão indecente: um Beatle sozinho, de barba rija e galochas. Acompanhado pela mulher fotógrafa, Linda McCartney, Paul soltou a alma destroçada em fita, trechos de canções difusas anestesiadas pela outra companhia: o álcool, a erva e uma profunda depressão. Ao mesmo tempo que germinava o álbum atabalhoado e triste chamado Let It Be, McCartney toca e grava em casa todos os instrumentos, com um truque na manga que seria suficiente para prender a atenção do país. A manha é a potente balada “Maybe I’m Amazed”, um homem desamparado, agradecido pela mulher que não o larga, a “Lovely Linda”, todas as manhãs, todas as tardes, “Every Night”. Um dos grandes românticos do nosso tempo estava finalmente à solta.

https://www.youtube.com/watch?v=cm2YyVZBL8U

“Ram”

1971

Quase um assobio, uma melodia sussurrada, o segundo álbum a solo é um dia descansado para a pop alegre de Paul, deitado nos prados campos, a remoer erva, da qualidade “Monkberry Moon Delight”, e a remoer os demónios judiciais que ditaram o fim da instituição chamada Beatles. O pastoral Ram, com o coração ainda no campo escocês, é o álbum de Paul que mais sobreviveu ao teste do tempo, seja pelos momentos harmoniosos de “Ram On” e “Dear Boy”, pelas delirantes flutuações de “Uncle Albert/Admiral Halsey”, ou apenas pelas nada subtis indiretas aos ex-colegas, entre elas a desconstrução do profeta Lennon (“Too Many People”), e a contracapa, onde um escaravelho (beetle), digamos que, está em cima de outro.

“Wild Life”

1971

É um álbum um bocado disparatado, mas Paul, mestre das caretas e gracejos, convenhamos, é um bocado disparatado. Segue o clima pastoral de Ram, sem a mesma alquimia, e com Denny Laine — ex-Moody Blues — a compor a paisagem ao lado de Linda, com resultados de simplicidade encantadora e um certo improviso desleixado que seria expectável para esta nova banda Wings, que nasce como qualquer outra nova banda, a rodar as pequenas salas da região numa carrinha fedorenta. “Dear Friend” tenta apaziguar as águas com o irmão Lennon, que por esta altura guardava um rancor imperturbável, descrente que McCartney era sequer capaz de dormir descansado (“How Do You Sleep?”).

“Red Rose Speedway”

1973

O começo de uma era, não pela música, sobretudo pelo penteado de franjinha, longo atrás, à Paulo Futre antes de Futre. Salvo esse apontamento capilar, não esquecer que Red Rose Speedway sucede os primeiros sucessos e tribulações para os Wings, as censuras da BBC ao ativismos político (“Give Ireland Back to the Irish”) e à orgia de sexo e drogas do casal McCartney (“Hi, Hi, Hi”).  E claro, “My Love”, uma lamechice que emociona qualquer coração de pedra, que nos derrete a coros e pianinhos. Feitas as contas é um álbum extraordinário, de fio a pavio, puro McCartney, leve (“Single Pigeon”), estranho (“Loup”) e cósmico (“Little Lamb Dragonfly”).

“Band on the Run”

1973

Os melhores momentos de cada Beatle a solo estão bem definidos, escritos em pedra, no cânone da música popular. É Lennon em John Lennon/Plastic Ono Band, George Harrison com All Things Must Pass, e Ringo Starr em qualquer dia que sai à rua com cachuchos nos dedos a fazer o simbolo da paz. E assim chegamos à obra-prima do Beatle mais fofo, Band on The Run, ingrata posição 418 na tabela dos melhores álbuns segundo a Rolling Stone. Por onde começar? A entrada suave a rompante de “Band on the Run”? O êxtase de “Jet”? A folk adorável de “Bluebird”? A canção aos saltinhos “Mrs. Vandebilt”? O épico puro rock and roll de “Let Me Roll It”? E atenção, isto é só metade, nem rodamos o disco, ou sequer começamos a contextualizar, a debater a icónica capa, as sessões fracassadas da gravação na Nigéria, entre a loucura de Fela Kuti e Ginger Baker. Depois das aventuras africanas, McCartney volta a tocar e gravar praticamente sozinho, exceção à perninha de Denny Laine, guitarrista que seria um definitivo membro honorário da banda. Para terminar é simples, uma canção delirante, do futuro: “Nineteen Hundred and Eighty-Five”.

“Venus and Mars”

1975

Precisamos de tempo para analisar a longa discografia de Sir Paul e, mesmo assim, não é tempo suficiente para detalhar as trocas e baldrocas de membros nos Wings. Venus and Mars, e a característica capa com as bolas de bilhar, é um conjunto de canções muito competentes em disco e excepcionais em palco. Em breve, a banda estaria a rodar o mundo na primeira longa digressão, a cantar “Rock Show”, a pujante “Letting Go”, o grande sucesso de vendas “Listen to What the Man Said”, ou qualquer outro destes blues swingados que compõem um dos mais célebres discos dos Wings.

“Wings at the Speed of Sound”

1976

Joe English, Jimmy McCulloch, Denny Laine, Linda McCartney e quase por acaso, Paul, mais um entre os vocalistas deste disco, a tentar provar ao mundo que estes Wings eram mesmo uma banda, em vez de outro Walrus, uma alcunha engraçada para o ex-Beatle. E sim, este é o álbum de “Silly Love Songs”, uma cançoneta de amor tão silly que só McCartney consegue cantar e sair ileso. Apesar do rodízio de vocalistas, é outro álbum confiante, de canções vigorosas, e outro sucesso de vendas à velocidade da luz.

“London Town”

1978

Antes de Fergie sensualizar os guardas da rainha, a Tower Bridge já tinha protagonizado o seu momento na ribalta pop, na capa do sexto álbum de originais dos Wings, London Town, título da canção que abre o disco, com um clip que no papel deveria parecer uma excelente ideia, e tendo em conta que estamos em 78 — ano de Ramones, Clash, Devo — é um evidente embaraço para todos os envolvidos. London Town é também lembrado por ser o álbum do virginal “Girlfriend”, que acabaria nas mãos de Michael Jackson, do pop meloso “With a Little Luck”, e pelo entra e sai de músicos, incluindo James McCartney, uma participação surpresa no ventre de Linda. Sabemos que uma banda atingiu o seu auge quando começa a gravar discos em iates nas Ilhas Virgens, e o consequence single do momento, “Mull of Kintyre”, é até hoje o mais vendido da história da Grã Bretanha, se excluirmos músicas de caridade (seria mesmo destronado por “Do They Know It’s Christmas?”).

“Back to the Egg”

1979

O último disco dos Wings não foi uma despedida de cabeça erguida. A participação de Chris Thomas, produtor das lides de punk e new wave, só tornou mais gritante o aparente desajustamento da banda, que tentava disfarçar-se de som pesado e nervoso (“Spin It On”). Claro, McCartney consegue fazer qualquer coisa brilhar, até aqui já percebemos isso, apesar desse génio, Back to the Egg tem um brilho distante, demasiado esmorecido para aguentar 14 canções. No final, como se fosse um golpe letal pelo karma da boa música, Paul acabou na choldra japonesa por posse de droga, país que não pisava desde a histórica passagem dos Beatles em 66.

“McCartney II”

1980

Esta discografia faz-se de 24 álbuns razoavelmente expectáveis, de redondinhas canções pop, e uma ovelha negra de sintetizadores, que é também o único álbum  de McCartney que o amigo cool pode gostar publicamente (está por exemplo na lista dos melhores álbuns dos anos 80 da Pitchfork, publicada esta semana). Na hora exata, Macca chega a tempo da festa synth pop que acontece por todo lado, pesca melodias do ar com sintetizador, encontra a estranheza demente de “Temporary Secretary” e faz uma bem sucedida roupagem contemporânea à balada McCartney (“Waterfalls”), que cheirava a bolor apenas há um ano atrás. Uma entrada a pés juntos na década de 80, novamente sozinho em casa, a cumprir a sua faceta experimental (“Darkroom”), pop (“Coming Up”) e provocativa (“Frozen Jap”). McCartney II foi suficientemente inesperado para conseguir acordar Lennon de uma longa reclusão doméstica, a responder de imediato em estúdio com Double Fantasy, a sua despedida ao mundo.

“Tug of War”

1982

Ao lado de Ram e Band On The Run, Tug of War compõe o triunvirato de álbuns vitais, finalmente a obra completa de simplicidade pop jovial que era expectável do compositor de “Penny Lane”. O sucesso do álbum foi também ancorado por “Ebony and Ivory”, uma das parcerias com Stevie Wonder, que não resolveu propriamente a divisão racial nos EUA, mas estampou na cara de muitos um sorriso estapafúrdio, contagiado pela alegria e esperança em disco. O som marcado pelo seu tempo, os fluorescentes 80s, caíram no gosto da população, considerando que apesar do toque foleiro, a produção de George Martin segura todas as canções com seriedade, sendo o regresso da mesma equipe que gravou “Live and Let Die”, a melhor faixa James Bond (mas há discussão?). A única música deste disco que Paul canta até hoje é “Here Today”, a eulogia à morte do melhor amigo, que o desfaz em lágrimas em todos os concertos e imortalizou uma linda amizade em canção.

“Pipes of Peace”

1983

É sempre um bocado vergonhoso, quando o empregado espera simplesmente que paguemos a conta, quem sabe com gorjeta, e pedimos para empacotar os restos, com um misto de constrangimento e orgulho na decisão. Pipes of Peace é isto, os restos, os outtakes, da farta refeição de Tug Of War. Fez sucesso? Pois claro, com Michael Jackson — um ano depois de Thriller — em duas canções, nem devia ser válido entrar nestas considerações. Em resumo, outro brilharete na tabelas de vendas.

“Give My Regards to Broad Street”

1984

Infelizmente, a integridade jornalística, a procura incessante pela verdade, não permite deixar de lado estes próximos três, chamemo-lhes “álbuns”, de Paul McCartney. Entre a banda-sonora e revisão de clássicos, ou melhor, entre a música de fundo para o filme sofrível “Give My Regards to Broad Street” e o caldo de Beatles requentados em sopa azeda, está o primeiro disco verdadeiramente terrível de Macca. Nem o single “No More Lonely Nights”, com David Gilmour nos solos de guitarra, salvou este barco de afundar.

https://www.youtube.com/watch?v=ui4at87SCB0

“Press to Play”

1986

Passemos a palavra ao músico português Pedro de Freitas Branco, assistente nesta análise aos 25 álbuns, vocalista da extinta banda Pedro e os Apóstolos e homem de posses, nomeadamente de todos estes álbuns em vinil na prensagem original: “Embora seja um álbum indigente, existem lampejos de genialidade, por exemplo ‘Pretty Little Head’”. Até aqui, no fundo do poço, submerge o docinho que é uma melodia McCartney.

“CHOBA B CCCP”

1988

Deve ser divertido, reunir os amigos e lembrar os bons velhos tempos, de Eddie Cochran e Little Richard. Estranhamente, não chega a ser divertido para o ouvinte, com Macca a debitar insonsa nostalgia, anos depois de Lennon fazer exatamente a mesma receita em Rock ‘n’ Roll. Fujam.

“Flowers in the Dirt”

1989

A solução foi voltar ao estúdio com outra mentalidade, mãos à obra, suar até saírem canções fortes, se necessário, pedir ajuda a Elvis Costello, e com o mesmo pedigree de sempre, gravar “My Brave Face” e o dueto power pop “You Want Her Too”. A escolha de Costello para parceiro, apesar de acidentada, seria um acerto que recuperou a credibilidade discográfica de Macca num disco surpreendentemente consistente, repleto de canções instigantes (“Don’t Be Careless Love”) e orelhudas (“Figure of Eight”). Guarda o disco na mochila, finalmente bem recebido pela crítica, e toca a galgar quilómetros à volta do planeta, regresso apaziguador ao Japão, uma passagem por Madrid que alegrou muitos portugueses, e o primeiro de muitos concertos no Brasil, Maracanã lotado, recorde mundial de quantidade gente suada para ver música ao vivo.

“Off the Ground”

1993

Uma espécie de continuação de Flowers in the Dirt, mais duas colaborações com Costello, e uma entrega possante, rock, americana, sem apaixonar ou fazer história apesar do genuíno compromisso com as canções. Off the Ground é um álbum esquecido à espera de ser redescoberto, com duas particularidades engraçadas: é possivelmente o mais político de Macca (“Looking for Changes”, “Peace in the Neighbourhood”); e termina com uma faixa escondida composta no retiro em Rishikesh, há 50 anos (“C’Mon People”).

“Flaming Pie”

1997

Qual a origem do nome da banda é a pergunta básica que salvaguarda o posto de trabalho de muitos jornalistas. Para John Lennon, cada dia era uma resposta diferente, sendo a preferida esta: “Foi uma visão, um homem que apareceu numa torta flamejante e disse, a partir deste dia são os Beatles, com A”. A torta flamejante serviu de mote para o álbum de McCartney, composto em paralelo com o extenuante documentário “The Beatles Anthology”, motivo mais do que suficiente para entrar na nova onda beatlemaníaca chamada Britpop (“Young Boy”), lembrar os bons velhos tempos ao lado de Lennon (“The Song We Were Singing”) e convidar os cachuchos de Ringo Starr (“Really Love You”). Numa altura que já brinca com os demónios irrequietos da experimentação nos The Fireman — duo com Youth, ex-baixista dos Killing Joke — entrega um álbum que não envergonha, de todo, o legado do compositor que é celebrado por esta nova geração. Como diria a t-shirt da estilista Stella McCartney no Rock and Roll Hall of Fame: “About Fucking Time”.

“Run Devil Run”

1999

A emotiva redenção de “Lonesome Town”, cantado originalmente por Ricky Nelson, é indissociável da desgraça que atingia a vida alegre de Paul, sozinho depois de quase 30 anos de casamento com a lovely Linda, vítima do cancro da mama. A solução, desde os tempos que a família Beatles caía, seria sempre a mesma: cantar e compor. Macca, que está este mês novamente submetido aos caprichos dos talk shows americanos, respondeu a Jimmy Fallon sobre este remédio santo: “A coisa boa das canções é que se estás de mau humor é algo excelente para fazer, é como uma terapia, se te sentes mal vais a algum lado e contas os teus problemas à guitarra”.

“Driving Rain”

2001

Pixelado, com um braço no ar, capa do disco tirada pelo relógio Casio, a estender a mão para o novo milénio, ainda sem particular direção, com uma aguerrida vontade de desafiar a sua música (“She’s Given Up Talking”), de encontrar os recentes alternativos, indies e countrys, ouçam “Lonely Road”, de olhos fechados podia ser Wilco, Uncle Tupelo. A paixão repentina por Heather Mills sobrevoa o disco (“Heather”), é a leveza de quem reencontrou o sol, as borboletas, o amor (“Back in the Sunshine Again”). Driving Rain ainda está a meio caminho de estacionamento que ficaria nos próximo anos, e ficou invariavelmente marcado por “Freedom”, canção panfletária de liberdade, composta depois de assistir o 11 de setembro em primeira mão, parte do concerto memorável no Madison Square Garden em honra dos bombeiros e policiais nova-iorquinos.

“Chaos and Creation in the Backyard”

2005

Punho no queixo, posse pensativa em frente a décadas de música, um casamento em decadência, morte de dois Beatles, filhos, netos, e uma linha ténue que separa isto tudo, entre o caos e a criação. Quando menos esperamos, Paul McCartney regenera-se, lança um dos álbuns mais portentosos da carreira: Chaos and Creation in the Backyard. Nigel Godrich, produtor habitual dos Radiohead, guiou esta viagem introspectiva pelas marés de tempo, em paz com o passado (“Riding to Vanity Fair”), resignado ao solitário presente (“Friends to Go”) e de braços abertos para uma britânica terceira idade (“English Tea”). A melodia de “Fine Line” calibra um disco escorreito, imaculado, numa emoção sonicamente sofisticada a lembrar o seu herói Brian Wilson, com dedilhar à la “Blackbird” em “Jenny Wren”, e uma quase bossa em “A Certain Softness”. Passaram 13 anos deste disco revelador — 14 desde o único concerto em Portugal — e ainda não estamos absolutamente convencidos que isto aconteceu mesmo, antes de ser velho, antes dos 64.

“Memory Almost Full”

2007

Os 60 são os novos 50, quiçá os novos 30, a julgar pela contagiante boa forma de Macca, de assobios e bandolim (“Dance Tonight”) a sinfónico hard rock (“Nod Your Head”), um homem que trocou a reforma para gastar os últimos cartuchos a divertir-se à fartazana. Atenção que isto não é só confetti, a introspecção do disco anterior regressa em partes, quando lembra Linda (“You Tell Me”) ou no existencial “Only Mama Knows” (“Well, I never/ Will I ever/ See my father’s face”). A esta altura já encaramos a salvação que é um novo disco de Paul como um carrancudo Clint Eastwood: “Go ahead, make my day”.

“Kisses on the Bottom”

2012

Dançar uma música que encantou os nossos pais, na tradição Music Hall, quando um palmo entre dois dançarinos era uma extraordinária provocação, foi o espírito que o Beatle incorporou na nostálgica “Your Mother Should Know”, uma vénia aos compositores populares britânicos que o antecederam. A receita passou a um disco inteiro, standards dos anos 30, do jazz ao ligeiro, a conseguir, sem darmos por isso, esgueirar pelo meio composições originais (“My Valentine”). Recomendado para acompanhar um jantar, daqueles de cortesias, à luz das velas.

“New”

2013

Os 70 anos levam alguns a viver plantados no sofá, outros a vaguear de madrugada pelos jardins públicos. Existe ainda uma raça estranha, de Liverpool, que sai disparado de casa à procura de novos caminhos, alicia jovens produtores a procurar um som definitivamente moderno, e safa-se à grande, seja com Mark Ronson (“Alligator”) ou Paul Epworth (“Queenie Eye”). New é um energia, em contraponto com o vermute refinado do álbum anterior. Hoje, poucos anos depois, já ninguém recorda ao certo estas canções, o que nunca é um bom sinal. Porém, fica uma boca que ninguém esqueceu, para os fanáticos de Lennon:

“Now everybody seems to have their own opinion
Who did this and who did that
But as for me I don’t see how they can remember
When they weren’t where it was at”

(“Early Days”).

“Egypt Station”

2018

A pachorra deste senhor de 76 anos é ilimitada, aqui está ele novamente em todo o canto, em estúdio, em palco, a surpreender pessoas que andam de elevador, a cantarolar no carro, ou a aturar Howard Stern. A razão é simples: mesmo com seis décadas de carreira, ainda é a mesma pessoa competitiva que se recusou a mudar o lançamento do primeiro disco em 1970, em disputa direta com Let It Be. E cá estamos, no 25º álbum, que podia ser bem diferente, se tivesse aceitado o desafio de Kayne West para produzir, como revelou esta semana numa longa entrevista. O resultado final não está muito longe de Memory Almost Full, é uma ementa variada de Macca, um espelho fidedigno e alegre da versatilidade pop deste compositor, desde o açucarado “Fuh You”, ao existencialismo contemplativo característico desta fase (“I Don’t Know”), ou até, como nos bons velhos Wings, uma canção repartida em melodias (“Hunt You Down/Naked/C-Link”). Em “Happy With You” anuncia que se deixou de grandes bebedeiras e consumo de estupefacientes, agora é só passarinhos, riachos e descanso. Felizmente, McCartney não engana ninguém, já o conhecemos de ginjeira, em breve está novamente à nossa volta, cheio de canções. Amen, e que Paul esteja convosco.