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Rui Brandão (à esquerda) e José Simões (à direita) lançaram o Zenklub em São Paulo, no início de 2016

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Rui Brandão (à esquerda) e José Simões (à direita) lançaram o Zenklub em São Paulo, no início de 2016

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"Vivemos angustiados com o excesso de informação" /premium

O Zenklub nasceu do "burnout" que a mãe de Rui Brandão teve e, durante a pandemia, recebeu 2,6 milhões de dólares. Com a Covid-19, os clientes triplicaram, estão mais ansiosos e têm mais conflitos.

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Tem 30 anos, é médico e abandonou uma especialidade em cirurgia vascular, nos EUA, para se dedicar à saúde emocional. Há sete anos a viver em São Paulo, no Brasil — ainda que com uma interrupção pelo meio –, foi lá que Rui Brandão (à esquerda na foto) conheceu José Simões (à direita na foto), o português com quem lançou o Zenklub, a startup de saúde emocional e bem-estar online que arrecadou 2,6 milhões de dólares em investimento durante a pandemia de Covid-19. Nos últimos dois meses, a plataforma com a qual querem democratizar o acesso aos serviços de psicologia e coaching registou uma subida de 300% nos acessos ao site, outra de 200% no número de clientes e viu a ansiedade de quem regista as emoções no Zenklub subirem 75%, os conflitos relacionais 45% e a tristeza 25%.

Startup de saúde emocional e bem-estar capta investimento de 2,6 milhões de euros

Com 25 mil consultas a serem geridas mensalmente no Zenklub, em Portugal e no Brasil —  geografias em que emprega 15 e 40 pessoas — respetivamente, a startup que durante três anos foi rejeitada por investidores está neste momento a recrutar: tem 25 vagas abertas. Rui Brandão diz que a pandemia veio “abrir os olhos” das empresas e das pessoas para o quão importante é olharem para dentro delas e tornarem-se mais “abertas, vulneráveis, transparentes”. “Tirou-se aqui um manto de força, que nos tornou um bocadinho mais suscetíveis e acho que é bom, que vamos ver grandes melhorias nesse sentido. Digo-te mais: se não o fizermos, vamos sofrer consequências drásticas”, disse Rui Brandão ao Observador numa conversa por videochamada entre São Paulo e Lisboa.

“Estamos na sociedade da produção, já não é permitido o ócio criativo”

O que leva um médico a lançar uma startup de saúde emocional?
Entender que um médico pode ser um agente de mudança da saúde, reinventando um sistema de saúde. Acho que esse é o ponto número um. Sempre tive uma forte crença de que o termo “paciente” é mal usado, paciente é uma pessoa sem opinião, que tem uma vontade reprimida, que não tem voz. Acho que devemos chamar-lhes clientes. Porque toda a inovação no sistema de saúde é muito voltada para processos entre prestadores e não é focada no consumidor final, que sou eu e tu.

Então, temos esse primeiro ponto: o que é que leva um médico a deixar de ser médico e a tornar-se, portanto, empreendedor, gestor ou a querer sair da gratificação de curar cada um dos seus pacientes? O segundo ponto tem a ver, infelizmente, com motivos pessoais: a minha mãe teve um burnout [esgotamento intelectual e emocional] há quatro anos. E, atenção, não tenho nenhuma relação com a saúde mental. Era um médico que estava a começar a especialidade em Cirurgia Vascular, nos EUA, por isso, tinha tenho zero de afinidade com o tema de um ponto de vista académico.

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Mas nessa altura a minha mãe teve um burnout que foi muito mais grave, desenvolveram-se ali outras doenças, tinha também um traço borderline [um transtorno de personalidade]. Enfim, foi um grande momento na nossa vida e deu para perceber a razão pela qual pessoas ativas, inteligentes como a minha mãe tinham tudo para aproveitar os melhores anos da vida dela… colapsam. A minha visão foi a de que isso acontecia, porque não existia um sistema de saúde emocional. Ou seja, vamos ao hospital ou usamos planos de saúde quando temos uma doença física, vamos ao ginásio ou a estúdios de pilates, crossfit, o que for. Quando queremos desenvolver a nossa saúde física, há marcas de referência e tu sabes onde ir. Quando se olha para as questões emocionais, não se sabe isso.

Ou seja, se estou ansioso, com pânico, se tenho fobia social, tenho tendência a reprimir-me. E se quero auto-conhecimento, propósito, foco, resiliência, também não sei o que consumir. Vou ver vídeos no YouTube, comprar livros. E é daí que surge a vontade de abandonar uma carreira que poderia ser promissora, enquanto cirurgião, para realmente apostar as fichas todas e criar um sistema de saúde emocional digital do zero, no Brasil.

"Ter consciência das coisas, querer mais e ter vontades é bom, mas o FOMO é negativo de certa forma, é achar sempre que o jardim do vizinho é mais verde do que o meu. Então, é estar sempre no prejuízo, é uma angústia. Acho que hoje todos vivemos angustiados com o excesso de informação e de realidades a que temos acesso"

Por onde é que o Rui andou até chegar ao Zenklub?
Formei-me no Porto, estudei lá e depois vim fazer o último ano em São Paulo. E aí deu para perceber o que é trabalhar numa cidade com 20 milhões de habitantes, o potencial de aprender, na prática. O facto de no Brasil não haver tanta infraestrutura como há na Europa faz com que as coisas aconteçam muito mais nas trincheiras, não é tão teórico. Isso fascinou-me enquanto estudante e quis ficar para começar a minha carreira profissional aqui. Só que tive vários imprevistos burocráticos… Hoje sou médico no Brasil também, mas na altura não conseguia o visto do trabalho e decidi fazer as provas de residência para os EUA. Em paralelo, fiz um MBA numa faculdade em São Paulo, focado em gestão. Já que estava a tornar-me estudante, então, pelo menos, que fosse um estudante do mundo real. Fiz o MBA e quando terminei fui para os EUA fazer um estágio de seis meses, que depois me levou a entrar na especialidade de cirurgia vascular. Comecei a especialidade, mas depois abandonei.

Teve esta ideia a partir do burnout da sua mãe, mas como chegou àquilo que é o Zenklub?
Tive a sorte de conhecer o Zé [cofundador José Simões]. Estava com ideias, mas não sabia por onde começar e ele também estava com ideias e não sabia por onde começar. E juntos soubemos. O José Simões também é português e foi muito interessante, porque eu estava a querer trazer as pessoas que estão no menos 100 para o zero — quem está doente para a normalidade –, mas também estava muito numa de ajudar aqueles que pensavam: “Sou normal e tenho tudo, mas quero mais”. Os millennials querem tanto, esta coisa do propósito, do auto-conhecimento, de ser a sua melhor versão.

Acha que esse FOMO [Fear Of Missing Out, que em português é o medo de ficar de fora], essa busca pelo propósito, é uma coisa boa que também se transforma em prejuízo para a nossa qualidade de vida? 
Sem dúvida. Ter consciência das coisas, querer mais e ter vontades é bom, mas o FOMO é negativo de certa forma, é achar sempre que o jardim do vizinho é mais verde do que o meu. Então, é estar sempre no prejuízo, é uma angústia. Acho que hoje todos vivemos angustiados com o excesso de informação e de realidades a que temos acesso.

Tornou-se mais difícil sentirmo-nos felizes e realizados com o que temos?
Sim, porque vivemos numa altura em que há abundância de informação, onde ela não é filtrada. Há 30 anos tínhamos informação pela televisão e pelas enciclopédias e rádio. Hoje, qualquer pessoa consegue escrever e tu consumires. É que já nem vem de uma fonte credível e as pessoas têm pouca maturidade para filtrar o que é verdade ou não, estão sempre a ser estimuladas, e acho que cada vez menos paramos. Não paramos para pensar nas coisas.

"Estamos na sociedade da produção. Já não é permitido o ócio criativo. Para muita gente, parar é morrer e há sempre coisas a fazer: é ver o filme que está na Netflix, fazer videochamadas com o amigo, correr para ficar em forma para as stories do Instagram, seja o que for"

Além de pararmos pouco, há uma espécie de punição auto-imposta quando paramos?
Sim, estamos na sociedade da produção, já não é permitido o ócio criativo. Para muita gente, parar é morrer e há sempre coisas a fazer: é ver o filme que está na Netflix, fazer videochamadas com o amigo, correr para ficar em forma para as stories do Instagram, seja o que for. Hoje, o trabalho também dura as 24 horas, por causa da forma como nos comunicamos. Não vejo mal nisso, acho é que como seres humanos temos de ganhar essa consciência, temos de ter mais auto-conhecimento para sabermos levar a vida que queremos levar. Acabamos por levar a vida que nos é puxada e não tanto aquela que gostaríamos de ter.

Pandemia traduziu-se num aumento de 200% nos clientes

O Rui e o José Simões já se conheciam?
Conhecemo-nos dois meses antes, foi um grande amigo, o Miguel Amaro, que nos apresentou. Estudei com o Miguel a vida toda e ele apresentou-nos. E dois meses depois estávamos a pôr o Zenklub de pé.

Isso foi quando?
Começámos a pensar a sério nisto no final de 2015 e em fevereiro de 2016 abrimos a empresa, em São Paulo.

Nestes últimos anos, como é que a empresa cresceu?
Comercialmente estamos muito mais focados no Brasil e sempre estivemos. É um mercado muito maior e acreditamos que as dinâmicas de mercado são mais favoráveis. Há alguns fatores aqui: é continental, as distâncias são muito longas, é um país mais capitalista, as pessoas estão habituadas a pagar por saúde, ao contrário da Europa. Existe uma maior abertura para cuidar da mente do que em Portugal.

Mas nestes últimos quatro anos muita coisa mudou nos dois países: hoje, em Portugal, o grau de consciência e de abertura é outro. Ainda tímido comparativamente à abertura aqui no Brasil. Aqui é super bem-visto. Se trabalhas no meio da publicidade, de startups, no digital, estás para trás se nunca fizeste terapia, coaching, meditação. As pessoas aqui são mais abertas, mais vulneráveis… Não quer dizer que isso seja necessariamente bom, também há coisas más que vêm com isso, mas a verdade é que ser aberto é o primeiro passo para admitir. E em Portugal as pessoas são muito mais melancólicas, fechadas, resguardadas. É um país mais pequeno e há aquela sensação de bairrismo, onde toda a gente sabe da minha vida.

Os fundadores Rui Brandão e José Simões são ambos portugueses, mas conheceram-se no Brasil

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Levantaram esta ronda de investimento durante a pandemia. Já conseguem medir o pulso às emoções das pessoas? Se estão a recorrer mais aos vossos serviços? O que é que procuram mais, que queixas têm nesta fase?
Vimos um interesse muito maior, tivemos um aumento de 400%. Se olhares para fevereiro e agora para maio — estamos a falar de três meses –, tivemos um aumento de 300% nos acessos ao site e isto é interesse. Também tivemos um aumento de 200% nos clientes. Esse interesse foi acompanhado pela vontade e necessidade. Sempre vimos muito interesse, mas nunca tínhamos visto conversões tão altas, de pessoas a entrar para se tornarem clientes. Esta percentagem diz respeito aos dois países. Brasil e Portugal estão na mesma percentagem, mas em ordens de grandeza diferentes. O Brasil é muito mais expressivo para nós do que Portugal.

Portugal também não é tão adepto do consumo online como o Brasil é e isso também é relevante. Em termos de motivos, não te consigo diferenciar entre os dois países, mas a ansiedade aumentou em 75%, conflitos relacionais aumentaram 45% e também tivemos — na nossa app temos uma ferramenta de registo das emoções, onde as pessoas podem registar o que sentem — e vimos que houve um aumento de 25% no sentimento de tristeza.

Como é que o Zenklub funciona? Como é que se utiliza a tecnologia e a inteligência artificial para promover uma maior saúde emocional e bem-estar online? 
O nosso objetivo é democratizar o acesso à saúde emocional. A questão de ajudar as pessoas a começar a trilhar: eu estou com ansiedade, qual é o próximo passo? As pessoas no mundo offline têm de pedir indicação e se queremos democratizar a saúde emocional, temos de dar uma estrutura de consultório aos profissionais, para eles deixarem de ter um espaço físico, um rececionista e todos os custos de operação que existem em cima disso — só isso já vai baixar o valor da sessão –, porque tem um custo de operação muito menor. E depois disso temos de ver o que ele procura.

Depois dessa necessidade, há ainda esta questão: ter de pedir uma indicação a alguém, que é uma coisa que as pessoas também não gostam. E, muitas vezes, essa indicação não é boa, é uma indicação falha. Tu, Ana, podes fazer terapia de casal, mas eu estou ansioso. O que é que um terapeuta de casal pode fazer pela minha ansiedade? Nada. E depois tem toda a questão da dinâmica: quando é que posso agendar um horário, quanto é que custa, como vou até lá, etc. Então, a ideia foi fazer disto uma jornada em que, se estou com ansiedade, consigo encontrar um profissional em segundos, agendar uma sessão no próprio dia e muito mais barata. Foi assim que começou e, entretanto, percebemos que as pessoas não estão só em busca de consultas. As pessoas procuram viver bem, trilhar boas vidas. Então, entendemos que da mesma forma que quando quero cultivar a minha saúde física, vou ao ginásio, corro e nado, ou seja, tenho várias modalidades, as pessoas também querem várias modalidades para trilhar esse caminho contínuo.

Na nossa app, hoje, temos jornadas, dicas, testes, exercícios. A nossa ideia agora é: como é que nos tornamos uma plataforma completa, com diferentes formatos de soluções, nos quais uma pessoa possa realmente fazer um acompanhamento contínuo e não tenha de ser, simplesmente, em consultas de 50 minutos com um especialista.

"No campo emocional, não temos essa tangibilidade: hoje estou ansioso, hoje estou depressivo. E nós queremos começar a dar às pessoas uma espécie de um perfil emocional, onde conseguem perceber padrões das suas emoções e, com isso, tornar-se muito mais fácil para alguém dizer: 'Não posso continuar ansioso assim todas as sextas-feiras à tarde'. Qual é o fator denominador aqui?"

E como é que funciona o vosso modelo de negócio?
Nós recrutamos… Há todo um processo de seleção envolvido. Os profissionais podem registar-se na plataforma e ter acesso a um consultório, mas esse consultório é usado para atender os próprios clientes. Então, nós não cobramos nem mensalidade nem uma comissão. O nosso objetivo é ter o máximo de profissionais a atender online para ajudar a penetrar esse mercado e depois selecionamos os melhores para a nossa rede. E esses são os que são oferecidos aos nossos clientes. Na verdade, temos dois produtos: aquele que chamamos de Zenoffice, que é onde o profissional começa a sua jornada. Depois, recrutamos as pessoas que estão a usar o Zenoffice para o Zenklub. Não rentabilizamos o Zenoffice, é a nossa forma de democratizar e maximizar a adoção deste mercado. Tanto no Brasil como em Portugal.

Estamos cada vez mais a migrar para uma vertente corporativa. Atuamos como benefícios das empresas. Há dois modelos: para o cliente final é um valor por consulta, único, ou então compra uma mensalidade e tens direito a quatro sessões por mês com desconto no pacote. Para empresas, cobramos uma mensalidade. Em Portugal, estamos a lançar isto agora. No Brasil já estamos com mais de 100 clientes corporativos e a nossa média de adesão mensal está em cerca de 25%: 25% dos colaboradores usam-nos todos os meses.

Depois, cobramos uma comissão de 20% sobre a consulta realizada. Os preços são definidos pelos profissionais, nós damos alguma inteligência de mercado, para que saibam qual é preço ideal, mas há autonomia.

Quando recrutam, o que procuram em termos de profissionais?
Têm de estar a usar o Zenoffice e depois tentamos perceber quem está engaged, quem está a ter bom feedback, tem mais de cinco anos de experiência profissional, já atendeu mais de pelo menos cinco clientes no Zenoffice. E depois temos um teste virtual de 30 minutos virtual. Quem for aprovado nesse teste, faz um workshop e um treino de como é atender online.

Quantos profissionais e clientes têm no Zenklub?
Ao todo, temos 20 mil registados e na nossa rede temos 450. Não te sei precisar o número de clientes, mas posso dizer que estamos a fazer cerca de 25 mil consultas por mês.

Como entra aqui a inteligência artificial?
Nós na verdade somos uma empresa de dados. Começámos como um marketplace tradicional, quando o objetivo era quebrar as barreiras de transação, mas hoje percebemos que os maiores desafios deste mercado são: as pessoas conhecerem-se mais rapidamente (e é aí quem vem a parte dos dados) — quando acordo e me peso ou vejo ao espelho, tenho autoconhecimento, porque vejo como estou, tenho noção de como estou. E face a isso, digo assim: hoje vou fazer exercício, hoje vou comer saudável ou vejo que a minha dieta está a funcionar bem e vou poder comer o que quiser.

No campo emocional, não temos essa tangibilidade: hoje estou ansioso, hoje estou depressivo. E nós queremos começar a dar às pessoas uma espécie de um perfil emocional, onde conseguem perceber padrões das suas emoções e, com isso, tornar-se muito mais fácil para alguém dizer: “Não posso continuar ansioso assim todas as sextas-feiras à tarde”. Qual é o fator denominador aqui? Qual é o fator comum neste aspeto? Então, o nosso objetivo é realmente trazer essa tangibilidade das nossas emoções e mostrar às pessoas os padrões de como elas se sentem.

"Olhando especificamente para sessões, para consultas psicológicas, o que vemos é que 60% das pessoas que nos usam nunca tinham ido a um consultório no Brasil ou em Portugal. Consegues ver que a oferta offline que existe hoje não é suficiente para a necessidade, as pessoas querem outros meios"

Usam os dados em favor das pessoas?
Claro. É nessa jornada que agora vamos amadurecer. Hoje já temos uma equipa de dados de sete pessoas e há um longo trabalho a ser feito, mas esse é o objetivo — é ter um espelho emocional. A inteligência artificial é uma consequência disso: não consegues usar a inteligência artificial sem volume ou sem dados, não é? É uma construção. A partir do momento em que temos dados e entendemos padrões, conseguimos entender as pessoas. A inteligência artificial no fundo é isso: é olhar para grandes padrões, para graus de eficiência e tentar otimizar o tempo para ter um resultado eficaz.

E como estão a garantir a privacidade desses dados? Onde é que os guardam e como os protegem?
Não temos, hoje, acesso a dados, não usamos de forma individual, usamos de forma populacional. Obviamente que há as questões das autorizações, opt-in, mas o nosso objetivo não é saber como é que a Ana está, é encontrar padrões populacionais para obtermos resultados. Separamos o que é dado clínico do que é dado demográfico. Não temos dados das consultas — não são gravadas, são entre profissional e cliente, nós hoje não temos um registo eletrónico do conteúdo das consultas, exatamente por isso: no mercado offline é o profissional que é detentor dessa informação e ainda não vimos necessidade de profissionalizar isso. É um passo que vamos tomar, mas o Brasil, nesse sentido, ainda não tem as leis de proteção de dados super estabelecidas, entram em vigor em agosto.

As informações que temos são muito mais sobre quais são os exercícios que a Ana usou, por exemplo, qual foi a avaliação que ela fez sobre o exercício, se gostou daquela dica sobre relacionamentos. Então, começamos a conjugar padrões com base em utilização de informação dentro da app.

Funciona um pouco como o algoritmo do Spotify: consoante as músicas que vou ouvindo, ele vai-me recomendando coisas semelhantes? 
É exatamente isso.

É um algoritmo que vai sendo otimizado com base nos meus comportamentos padrão?
Exatamente.

Durante três anos receberam vários “não” dos investidores

É mesmo possível fazer terapia online ou as pessoas em Portugal ficam mais intimidadas por estarem atrás de um ecrã?
Tenho a certeza de que, infelizmente, esta pandemia veio mostrar que muita coisa sobre a qual havia preconceito de fazer online, afinal, é possível. Quando falo em Portugal e no Brasil, em termos de hábitos de consumo, não diria que é tanto isso, é que realmente as pessoas não têm cartão de crédito, preferem ir ao supermercado e ao banco, existe uma proximidade de serviços. Na vida offline aqui no Brasil acontecem outras coisas: o trânsito, a insegurança, as distâncias obrigam a que as pessoas usem a tecnologia para ter melhor qualidade de vida. Diria que o primeiro aspeto é este, tanto que a penetração do cartão de crédito na sociedade portuguesa é baixa, não existe aquele hábito de consumo digital. Agora, olhando especificamente para sessões, para consultas psicológicas, o que nós vemos, Ana, é que 60% das pessoas que nos usam nunca tinham ido a um consultório no Brasil ou em Portugal. Consegues ver que a oferta offline que existe hoje não é suficiente para a necessidade, as pessoas querem outros meios.

As pessoas têm vergonha de entrar no consultório do psicólogo, mas se calhar não têm de ligar o computador em casa?
Sem dúvida, mas não gostaria de me focar só nesse aspeto. Acho que é um serviço muito elitizado. Muito elitizado. Uma consulta média em Portugal custa 70 euros. Assumindo que este é um acompanhamento contínuo semanal, são 280 euros. Quem é que tem 280 euros para gastar em terapia? Ninguém. Lá atrás, talvez o estigma fosse o maior inibidor, mas posso garantir que hoje é a falta de eficiência do mercado, no qual um profissional cobra tanto e, muitas vezes, não é pelo status, é pelos custos que tem e pela falta de procura que existe para rentabilizar.

"Este mercado de saúde mental é, na verdade, de doença mental e sempre foi rotulado como tal, sempre foi o elefante na sala que ninguém queria abordar. Porque é que os coaches estão tão em alta? Porque se apoderaram de um mercado que os psicólogos não souberam agarrar"

E porquê esta escolha pela saúde saúde emocional e não mental? Há alguma diferença?
Sim. Acho que o grande problema deste mercado é o acesso, estamos a falar muito de acesso e de como a tecnologia promove acesso, mas acho que também existe um acesso na comunicação. Este mercado de saúde mental é, na verdade, de doença mental e sempre foi rotulado como tal, sempre foi o elefante na sala que ninguém queria abordar. Porque é que os coaches estão tão em alta? Porque se apoderaram de um mercado que os psicólogos não souberam agarrar. O coaching vem da psicologia, não vem de outros lugares, são técnicas para entender comportamentos repetidos e entender fatores negativos e inibidores que temos, reprimindo-os e aumentando os comportamentos positivos. Isso é coaching. Cada vez mais as pessoas procuram um mental performer, só que o psicólogo e o psiquiatra ficaram muito reclusos da questão da doença mental.

E a verdade é a seguinte: apenas 10% da população tem problemas graves de doença mental. Se olharmos para um espectro, olho para doença mental, saúde emocional e performance emocional. Imagina um gráfico onde, no lado esquerdo, tens doença mental como a bipolaridade e esquizofrenia, depois tens a saúde emocional, que é contemporaneidade — ansiedade, fobias, pânico, falta de foco, angústia — e, depois, tens a mental performance que é realmente o auto-conhecimento, o propósito, a visão, o foco, o desenvolvimento de carreira, etc.

Sou saudável, fisicamente, não tenho hipertensão, por exemplo. E mesmo assim corro e vou ao ginásio. Porquê? Porque sabemos que as endorfinas que são libertadas são boas, que sentir bem fisicamente é importante, temos de fazer esse paralelismo com a cabeça. E é isso que estamos a fazer e é por isso que falo nesta questão do acesso da linguagem. Temos de falar de outra forma, temos de apoiar, trazer mais embaixadores para esta causa e realmente mostrar que isto era uma coisa do quotidiano. Eu senti-me ansioso durante este mês e tu?

Muito ansiosa. Se calhar durante esta pandemia muitas pessoas que achavam que o pânico não existia, experienciaram pela primeira vez este tipo de episódios.
Tenho a certeza. Não sabemos lidar com a incerteza, não gostamos de nos adaptar, de fazer coisas novas, mudar a rotina é uma coisa difícil para a maioria das pessoas. Somos seres sociais e fomos obrigados a estar em casa, a conviver com um público com o qual não estávamos habituados a conviver durante 24h. Existem uma série de rituais que foram postos à prova da pior maneira possível, mas que acho que estão a ser importantes para quem nunca olhou para dentro.

"(Com a pandemia, as pessoas) estão mais abertas, vulneráveis, transparentes talvez. Tirou-se aqui um manto de força, que nos tornou um bocadinho mais suscetíveis e acho que é bom, que vamos ver grandes melhorias nesse sentido. Digo-te mais: se não o fizermos, vamos sofrer consequências drásticas"

A pandemia pode ter contribuído para pôr a saúde emocional na agenda?
Sem dúvida, sinto que as pessoas estão mais humanizadas, que estão em busca disso. Estão mais abertas, vulneráveis, transparentes talvez. Tirou-se aqui um manto de força, que nos tornou um bocadinho mais suscetíveis e acho que é bom, que vamos ver grandes melhorias nesse sentido. Digo-te mais: se não o fizermos, vamos sofrer consequências drásticas. Porque uma crise financeira como esta, uma crise global como esta deixa lastros, isto é quase como uma guerra mundial. Está a falar-se de muitas pessoas com problemas de sono, de dependência, com um toque cada vez mais obsessivo.

Os problemas de sono têm sido mesmo mais frequentes?
Sim, temos testes de sono e jornadas sobre como melhorar a qualidade do sono. Temos visto que o sono é algo que depende de várias variáveis e cada vez mais vemos pessoas com pesadelos, outro tipo de sono e é uma consequência de tudo isto que estamos a falar.

Como é que se convencem investidores a investir num projeto de saúde emocional?
Posso dizer que nos primeiros três anos foi difícil. Há duas coisas que um investidor procura: um mercado grande o suficiente e que está pronto para ser quebrado ou seja, o timing da questão é agora e não vai envolver um período de educação longo, de maturidade do mercado. Timimg e mercado são duas coisas importantes. Nos primeiros três anos fomos confrontados com vários “não” em relação aos dois: era uma coisa para daqui a 10 anos ou então de nicho. E tudo isso mudou. A pandemia obviamente acelerou, mas a Indico investiu em nós pela primeira vez em 2019, no início do ano, e qual era a tese? A saúde vai ter de ser digitalizada, vamos ter de olhar muito mais para o consumidor final e a criar uma experiência de utilizador nos mercados de e-commerce, banca, onde hoje temos boas plataformas para navegar.

A Indico acreditou que a saúde emocional era um bom desafio. Vamos sempre conversando com investidores e às vezes as coisas acabam por se consumar nas alturas mais exóticas, digamos assim. A verdade é que nos últimos três meses triplicámos de tamanho, é um crescimento exponencial e isso entusiasma qualquer investidor e acelera qualquer processo de investimento. A Indico, como é óbvio, estava connosco, já estávamos a pensar nesta ronda antes da pandemia, mas uma ronda deste tamanho só foi possível, acredito eu, com a demonstração financeira do crescimento da empresa.

"A nossa expectativa é crescer cinco vezes este ano, já crescemos duas e estamos a falar de ter uma base de profissionais ativos de cerca de 1200, é triplicar a base e chegar às cerca de 500 empresas ativas no portefólio"

Quais são os vosso objetivos agora?
O objetivo principal é que a nossa frente corporativa seja mais expressiva do que a nossa frente direcionada para o consumidor final. Acreditamos que as empresas teriam de pagar este tipo de benefícios para os colaboradores, porque não somos nada no trabalho sem a nossa cabeça e a saúde deve ser comparticipada. A questão era saber quando é que isso se tornaria numa prioridade de topo e hoje tornou-se. As empresas têm de estar próximas, têm de ser humanizadas, de mudar o tipo de dinâmica de trabalho, o escritório já não significa produtividade, já não significa trabalho, mas sim a forma como a pessoa está em termos emocionais e o nosso objetivo agora é escalar essa frente B2B [direcionada a empresas].

Em termos de números, a nossa expectativa é crescer cinco vezes este ano, já crescemos duas e estamos a falar de ter uma base de profissionais ativos de cerca de 1200, é triplicar a base e chegar às cerca de 500 empresas ativas no portefólio.

Planeiam outras geografias além de Brasil e Portugal?
Para já, vamos consolidar a presença aqui, estamos numa altura em que não sabemos bem como vai ser a próxima crise, se vai haver ou não. Apesar de termos esta ronda, é preciso sermos cautelosos na forma como se expande e é muito mais fácil expandir e consolidar nos mercados onde se está presente do que realmente expandir horizontalmente para outras geografias.

Têm estimativas sobre o momento em que vão atingir o break-even (tornar-se rentáveis)?
Não. No mercado onde estamos, esse tipo de pensamento pode ser destrutivo para a nossa performance. Existe uma maturidade financeira para saber onde podemos ir em termos de marketing, para que o negócio seja sustentável na linha de expansão, mas acredito que com este mercado a crescer do zero, temos é de surfar a onda e crescer. E o break-even não está nos planos.

Quantas pessoas é que a Zenklub emprega?
Ao todo, 55 pessoas: 15 em Portugal e 40 no Brasil. Em Portugal, está sobretudo a equipa de produto e tecnologia. E estamos a recrutar, temos 25 vagas abertas.

E prevê que este crescimento se mantenha?
Já vi alguns gráficos de algumas consultoras em que se vê o efeito da pandemia e do pós-pandemia no mercado na área da medicina, tele-medicina, tele-saúde. E quando olhamos para estas variáveis, percebemos que o efeito da pandemia no mercado é high demand [elevada procura] e o efeito pós-pandemia é high demand também. Ou seja, infelizmente foi precisa uma pandemia para abrir os olhos do setor.

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