Voltou o futebol a sério: o inglês. Mas também começa a liga portuguesa /premium

10 Agosto 2018

Quem ganhou a pré-época? Quem está mais bem artilhado? João Bonifácio tenta projectar tanto o nosso campeonato como o inglês, olhar para os maiores clubes europeus e adivinhar como será a época.

Já estão de cerveja na mão e de cachecol ao pescoço? Óptimo – mas antes de abrirem a fresquinha notem só num pormenor, porque dificilmente poderia haver maior ironia de calendário: no mesmo dia começam o campeonato nacional e a Premier League, que é como quem diz: um campeonato pobre, sem estrelas, passado em clima de guerra e discussões sobre penalties e corrupção – e um campeonato rico, que sabe vender a imagem dos muitos jogadores e treinadores geniais que lá actuam, e em que não se perde um segundo com discussões estéreis. Quase parece que o cosmos quis mostrar-nos os dois extremos do futebol, não é?

Porém, que se dane: nós aturamos tudo, os comentadores irracionais, os assessores de imprensa incendiários, os presidentes populistas – somos adeptos de futebol, fanáticos da bola, só queremos ver a redondinha a rolar. Chega de saudade, a nossa grande paixão está de volta, e logo com um grande jogo, um Benfica-Vitória (de Guimarães).

Foram três penosos meses em que, por simples fome de redondinha, meio mundo andou a clicar em todas as notícias que encontrou sobre o clube do seu coração – tinham saudades disto, não tinham? Claro que tinham. E já se sabe como é: horas antes do apito para a primeira jornada é momento de balanço: quem ganhou a pré-época? Quem está mais bem artilhado? Quem vai, indubitavelmente, ser campeão nacional em Maio?

Bom, a pré-época já acabou em Inglaterra – em Portugal, como na maior parte dos campeonatos, o mercado continua aberto, de modo que qualquer prognóstico feito neste momento será, inevitavelmente, precoce. Mas, quer dizer, estamos a falar de futebol: alguém resiste a um exercício de adivinhação?

O bonito do futebol é exactamente a sua capacidade de nos induzir uma febre infantil, irracional – de modo que apesar de o mercado ainda estar aberto, vamos tentar projectar tanto o nosso campeonato como o inglês; e ainda olhar para os maiores clubes europeus, de modo a imaginar o que pode vir a ser esta época.

Benfica

Esperava-se que depois de uma época em que falharam o ataque ao penta e não conseguiram um ponto que fosse na Champions os encarnados atacassem em força o mercado. Os pontos fracos da equipa eram claros: baliza, lado direito da defesa, um parceiro para Ruben, um oito, outro extremo, um avançado de qualidade para lutar com Jonas. E de facto o Benfica foi à pesca – só que não é certo que tenha sacado truta gorda.

Isto pode ser o adeus de Jonas e não um até já

Jonas parece estar de saída, Vlachodimos, sendo melhor que Varela, não parece ser um Oblak, André Almeida continua à direita e Ruben Dias a caminho da saída. Em compensação, Gedson tem qualidade para ocupar o centro do terreno e Castillo e Ferreyra são jogadores tão diferentes que permitem que Rui Vitória pense em modelos alternativos de jogo, se é que Rui Vitória tem algum modelo de jogo (é dúbio). Os grandes reforços, contudo, serão o regresso de Krovinovic – o jogador que o ano passado mudou o Benfica para melhor – e a manutenção de Jonas. Veredicto: it’s complicated.

FC Porto

O plantel com que o Porto conquistou a Euro League, em 2011, incluía jogadores como Moutinho, James, Hulk e Falcao. Sete anos – e uma gestão que podemos qualificar como não muito feliz – depois, Sérgio Conceição olha para o seu plantel e, quando pensa em magia, vê Sérgio Oliveira, Corona, Otavio e Marega. Nenhum clube simboliza tão bem o valente tombo que o futebol nacional deu nas últimas épocas como o FC Porto – e o que Sérgio fez a época passada foi do reino do milagre: com o Porto impedido de contratar por imposição da UEFA, recuperou emprestados e proscritos, injectou fé e intensidade num conjunto de ovelhas tresmalhadas, e recuperou, à força e à bruta, o título que fugia há quatro anos.

Sérgio, ou a bater palmas ou a exigir alguma coisa. Ou as duas ao mesmo tempo

O Porto do ano passado tinha um problema: criatividade só nos pés de Brahimi e de Oliver, mas Conceição (erradamente, a meu ver) pouco aposta neste último. Continua a faltar talento, mas é mais grave que isso: Ricardo partiu, bem como o seu substituto natural, Dalot – talvez Militão se imponha na ala direita, que de outra forma fica entregue ao provecto Maxi. À frente há de novo um caso com Marega, sendo que, com a lesão de Soares, são precisos reforços (um central de qualidade, outro extremo, outro avançado). Veredicto: it’s ainda mais complicated que no ano passado.

Sporting

Antigamente era tudo muito simples: um homem era um homem, uma mulher era uma mulher, o Benfica era campeão da pré-época, o Porto vencia em Maio e os sportinguistas começavam a entreter-se com teorias da conspiração a partir de Dezembro. Mas vivemos numa época conturbada, em que presidentes dão cabo da moral dos jogadores do próprio clube, enquanto as claques dão cabo do físico dos mesmos.

Perante este cenário a pré-época do Sporting acaba por não ser tão má quanto isso: o cenário de rescisão colectiva não se cumpriu, Sousa Cintra trouxe estabilidade, conseguiu re-negociar algumas saídas (caso de William) e promoveu o regresso pacífico de Bataglia, Bas Dost e do (extraordinário) criador Bruno Fernandes. Patrício, Coentrão e William são os jogadores mais difíceis de substituir, de resto o Sporting acaba por apresentar um plantel bastante interessante: o trio Fernandes, Nani e Matheus Pereira é mais que suficiente para o futebol nacional. Mais duvidoso é o que José Peseiro trará ao banco leonino – uma coisa é certa: mal haja novo presidente, Peseiro será a primeira vítima, no caso de o Sporting perseirar em meia-dúzia de jogos. Veredicto: it’s ainda tudo mesmo muito complicated, mas o clube já não está em modo-pesadelo.

Calma, Peseiro. Calma

Braga e Guimarães

Três pontos foi tudo o que separou, a época passada, o Braga do Sporting – e perante tanta convulsão leonina é expectável que este ano os minhotos dêem o salto. Saídas como a de André Horta não ajudam, mas Abel coloca a sua equipa a jogar bom futebol, apoiado e ofensivo e, entre entradas e saídas, o Braga deste ano parece equivaler-se ao de 2017/18. Bola no pé é o mantra de Luís Castro, que o ano passado levou o Chaves ao sexto lugar – mais importante que isso, os flavienses jogavam excelente futebol, bem construído a partir de trás. No caso dos vimaranenses, o grande reforço está no banco – e por isso (mas também por Ola John e João Carlos Teixeira, que ali podem ser mais-valias) o Vitória parece ter sido o vencedor da pré-época em Portugal.

Manchester United

O que aconteceu a José Mourinho? De iconoclasta de barba por fazer, líder de guerrilheiros que pressionavam intensamente e ainda assim tinham magia, está hoje reduzido a mestre do duplo-autocarro em que ninguém quer entrar – o que talvez explique as zero grandes contratações do United esta época (Fred é bom mas não é de classe mundial). Falta muita coisa aos Red Devils: dois grandes laterais (Dalot, dentro de uns anos, será um deles), outro central, um dez mágico. O ano passado o United ganhou quase sempre aos clubes pequenos e fez figura de minorca com os grandes – mas o seu futebol foi quase sempre desconsolado. Mourinho tem de redescobrir o seu mojo e não é claro se o Leicester, o seu adversário de hoje, mesmo tendo perdido Mahrez para o City, será o melhor adversário para isso. Com Liverpool e City ainda mais reforçados, não se antevê vida fácil para o Grumpy One, em mais uma difícil terceira época.

O que aconteceu a José Mourinho (CHRISTOF STACHE/AFP/Getty Images)

Liverpool

É talvez a equipa que melhor se reforçou: Keita e Fabinho trarão rotatividade ao meio-campo, Alisson vem resolver o eterno problema na baliza e Shaqiri tirará algum peso de cima de Mané, Salah e Firminho. Se tivermos em conta que em Janeiro Klopp trouxe Van Dijk para o centro da defesa, o Liverpool começa a ter uma senhora equipa – talvez a única capaz de lutar taco a taco com o City. Contudo, para se ser campeão é preciso desmontar equipas que defendem baixo – e para isso falta a Klopp um jogador: Coutinho. Mas esse agora mora em Barcelona.

City

Quando se tem aquele que é provavelmente o melhor plantel ao cimo da Terra o que é que se pode fazer para melhorá-lo? Adicionar Mahrez, ganhando ainda mais soluções ofensivas. O City está a um médio centro de ser um colosso e é o favorito à conquista da Premier. Quanto à Champions: mais dia menos dia Guardiola vence-a de novo.

Arsenal, Chelsea, Spurs, Everton

Pela primeira vez em duas décadas a Premier começa sem Arséne Wenger à frente do Arsenal – a mudança há muito que era necessária, mas não é claro que Emery seja o homem certo para o lugar. Por sua vez, Sarri sê-lo-á certamente para o Chelsea – e logo na pré-época se viu os blues a jogarem à Nápoles. Um meio-campo com Kanté, Fabregas e Jorginho? Isto vai ter graça. Os Spurs contrataram zero jogadores mas também não perderam ninguém – acima de tudo, não perderam nem Kane, nem Eriksen nem o treinador Pochetino. Já Marco Silva esfrega as mãos de contente, depois de adquirir Yerri Mina, Richarlison, Bernard e um André Gomes em necessidade urgente de uma segunda chance. Vai ser puxadinha, a Premier.

Real Vs. Barça

Confessem: não vai ter a mesma graça, sem Ronaldo. Mas é Espanha, logo haverá drama a rodos. A começar por Lopetegui – conseguirá o ex-treinador do Porto, cujas equipas tendem a jogar um futebol bonito mas especulativo, ter mão naquele balneário? E como lidará com o fim de uma geração que está a chegar ao fim (Ramos, Modric, Kroos, Benzema)? Certo é que o Real irá jogar de pé para pé, ao contrário do Barça – Valverde prefere um futebol mais directo; mas com Dembelé e Coutinho (a fazer de Iniesta) integrados, e agora com Arthur, talvez Valverde queira rever as suas opções. Apesar de tudo, La Liga ainda está mais inclinada para os blaugrana – a menos que Florentino ainda saque um ás neste mercado (além de Courtois). Apostaria em Hazard.

Juve

Perderam Buffon e Higuain mas recuperaram Bonucci e contrataram Ronaldo, que não gosta de jogar sozinho na frente, o que coloca problemas tácticos: o que fazer com Mandzukic e Dybala? Seja como for, a presença de CR7 traz a dose de mentalidade vencedora que a vecchia signora precisava para recuperar a Champions. Tendo em conta que Ancelotti não é um grande treinador de campeonatos e que a Roma está mais fraca, a Juve não deve ter problemas internos.

Ronaldo à chegada a Turim, como fazem os patrões (MIGUEL MEDINA/AFP/Getty Images)

PSG

Será desta? O PSG parece ainda um amontoado de estrelas milionárias mais preocupadas com o seu ego que em formar uma equipa. Tuchel – que em Dortmund criou um futebol eléctrico e ofensivo e conseguiu aproveitar o que de melhor Aubameyang e Mkhitaryan tinham – não aprecia indulgência e tem em Buffon um escudo contra a egomania e um braço-direito para colocar Neymar na ordem. Quem sabe…

Vencedores de pré-época até ao momento: Liverpool, Juventus, Guimarães.

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