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Woodstock 99 e o fim de uma era: a história de um festival transformado em tempestade /premium

Os 30 anos de um festival histórico e a despedida de um século acabaram em caos e destruição. “Woodstock 99: Peave, Love And Rage” é o filme da HBO que recorda quatro dias com algum rock e pouco amor.

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1999. O último ano antes dos números virarem todos para 2000. 12 meses em que se viveu intensamente a incerteza sobre dos reais efeitos do Y2K, se o mundo iria realmente parar ou se era apenas um sinal de paranoia pré-milenar. Alguns anos antes, a realizadora Kathryn Bigelow tinha apresentado este 1999 em “Estranhos Prazeres”, ficção-científica sobre os estados de ansiedade, incerteza e a euforia de uma nova década, século, milénio. Para lá dos 2000 era, na nossa consciência global, tudo ficção científica.

1999 foi também o final de uma década. E em “Woodstock 99: Peave, Love And Rage” – estreia-se esta sexta-feira, dia 24 de julho na HBO Portugal — tudo isto se junta de forma infelizmente perfeita. A natureza do fim dos 1990s e as mudanças na cultura popular (e não só) na segunda parte dessa década, criaram o ambiente perfeito para a explosão que se deu no festival. Woodstock 99 foi o fim de uma versão romântica dos festivais, foi o grande dilúvio necessário para criar toda uma nova forma de entretenimento em volta da música.

[o trailer de “Woodstock 99: Peace, Love and Rage”:]

O documentário faz parte de “Music Box”, uma série de seis filmes produzidos por Bill Simmons (fundador e CEO do site The Ringer, que junta desporto e cultura pop). “Woodstock 99” sai do forno no mesmo fim de semana em que se celebram 22 anos do infame evento. O plano de Simmons passa por fazer desta série uma espécie de “30 For 30” – a fabulosa saga documental sobre desporto da ESPN, onde Simmons trabalhou durante anos – mas com a música como tema central. Os restantes cinco episódios chegarão no final do ano e serão sobre Alanis Morissette, Juice WRLD, Kenny G, Robert Stigwood e DMX.

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1999, a última fronteira

Mas voltemos a 1999. Não ao documentário, mas a Woodstock. A versão de que comemorou o 30.º aniversário do festival original foi um gigante ato de nostalgia fabricada (já se voltará a isto). Michael Lang, um dos quatro fundadores originais da edição de 1969 quis reanimar evento, ou melhor, a marca, depois de uma tentativa bem sucedida, em 1994 – nos seus vinte e cinco anos –, sem grandes contratempos, com um revivalismo acentuado através das memórias criadas pelo documentário “Woodstock”, de Michael Wadleigh (o grande criador da memória colectiva que existe do Woodstock original). Apesar disso, foi um fracasso monumental em termos financeiros.

A edição de 1999 queria ser um evento tão marcante como o de 1969. Queria viver dos ideais do Woodstock original e vendê-los a uma nova audiência. E essa ideia não se ficaria pelo recinto: o evento estava a ser transmitido em direto por pay per view, a MTV fez uma cobertura extensiva do festival, que foi também transmitido em direto em vários países.

Vários razões levaram a que as contas de 1994 não tivessem sido de bom saldo, sobretudo organizacionais. Uma delas foi a localização, um espaço vedado por uma cerca que rapidamente foi destruída e que permitiu a entrada de vários espectadores que não pagaram. 1999 seria diferente. Tinha de ser. A antiga base da Força Área de Griffiss, em Rome, no estado de Nova Iorque, seria perfeita para receber as 400 mil pessoas que eram esperadas entre 22 e 25 de julho de 1999. A infraestrutura estava criada, o que facilitaria o controlo de segurança de quem entrava e saía e parte dos problemas da edição de 1994 estariam resolvidos. O que não estaria resolvido era a ironia de um festival sobre a paz e o amor ocorrer numa antiga base militar.

A edição de 1999 queria ser um evento tão marcante como o de 1969. Queria viver dos ideais do Woodstock original e vendê-los a uma nova audiência. E essa ideia não se ficaria pelo recinto: o evento estava a ser transmitido em direto por pay per view, a MTV fez uma cobertura extensiva do festival, que foi também transmitido em direto em vários países além dos Estados Unidos: em Portugal, por exemplo, a rádio Antena 3 transmitiu diversos concertos em direto.

Woodstock 1999 Woodstock 1999

Red Hot Chili Peppers e Limp Bizkit no palco de Woodstock 99: dois dos cabeças de cartaz, duas das atuações que serviram de banda sonora para os maiores atos de vandalismo

Getty Images

Os valores que se promoveram com o documentário de Wadleigh sobre a ideia do Woodstock de 1969 poderiam ser, finalmente, vividos em direto e sem filtro em todo o mundo. Quem teve a sorte (ou o azar) de assistir às transmissões em direto, dificilmente esquecerá aqueles dias em que um ideal de libertação era vendido a partir da romantização de uma imagem – a de 1969 –, ao mesmo tempo que a realidade ia vencendo a cada minuto, com a revolta e os excessos de uma geração, entre adolescentes e jovens adultos, que estava muito zangada, sem saber muito bem porquê, sem ter um alvo concreto para apontar a sua revolta.

A revolução foi televisionada, mas não foi uma revolução

O que aconteceu foi a uma combinação explosiva de fatores que, de certa forma, exemplificaram da melhor forma o rebentar da bolha dos 1990s, um sinal de mudança, uma reconfiguração completa do que seriam os festivais a partir daí (a primeira edição de Coachella – pioneiro na ideia moderna de Festival como um espaço centro-comercial – aconteceria três meses depois) e, claro, ganância não correspondida com preparação e organização.

A segurança era praticamente inexistente. Dos 1200 profissionais que supostamente estariam a trabalhar, no sábado de manhã apenas 175 tinham dado entrada: ou faltaram à responsabilidade ou desapareceram na multidão. Durante o dia de sexta-feira, fezes e urina começam-se a espalhar pelo recinto do festival.

Estava muito calor naqueles dias em Rome. A sensação era a de estar num deserto. Os seguranças não permitiam a entrada de álcool, água ou comida, mas fechavam o olho a drogas. Uma garrafa de água, dentro do recinto, custava 4 dólares ( o mesmo que uma cerveja) – recordamos que estávamos em 1999 –, um preço que a maior parte da audiência, jovem, universitária, não estava disposta a pagar. A solução: não beber água, desidratar. Resultado: muitas histórias de pessoas a sofrerem choques de temperatura durante os concertos, muita gente desidratada, muita gente a — simplifiquemos — passar-se da cabeça com o calor. Mais uma vez, isso ajudou a que estivesse naquele recinto muita gente revoltada com tudo.

A segurança era praticamente inexistente. Dos 1200 profissionais que supostamente estariam a trabalhar, no sábado de manhã apenas 175 tinham dado entrada: ou faltaram à responsabilidade ou desapareceram na multidão. Durante o dia de sexta-feira, fezes e urina começam-se a espalhar pelo recinto do festival. Como efeito secundário do consumo exagerado de substâncias pouco saudáveis, muitos foram os que começaram a brincar com aquilo como se fosse lama. Não era.

Os incêndios estiveram entre os piores momentos do festival, além dos abusos sexuais reportados

O festival foi também vivido como um rito de passagem para muitos jovens. Era o momento de viverem o Woodstock das suas vidas, mesmo que não soubessem o que tinha acontecido no original. O calor, o à-vontade, a normalização da pornografia e de um ideal de “como uma mulher se deve comportar” nos 1990s, tiraram muita roupa fora durante o festival. A frase “show your tits” – “mostra as tuas mamas” – banalizou-se e tornava-se numa coisa muito agressiva quando ouvida por milhares de homens.

Muita dessa “liberdade” acabou mal. Muitas mulheres relataram perseguições e abusos. Quando algumas faziam “crowdsurfing” eram agressivamente apalpadas. Há registos visuais disso a acontecer, há registos também de bandas que estão a atuar a alertarem para esse facto. E existiram muitas violações (apesar de apenas 8 terem sido reportadas durante o festival, soube-se mais tarde que aconteceram muitas mais), algumas durante os concertos, na plateia, não só durante os concertos de Korn ou Limp Bizkit, mas também durante a atuação de Alanis Morissette, por exemplo.

Canções de amor e ódio

O cartaz de Woodstock 99 convidava a tudo menos a paz e amor. E diversidade. Sem aprofundar muito e tocando só no elementar que é referido no documentário: apenas três nomes femininos estiveram em palco. Sheryl Crow, Alanis Morissette e Jewel. Um nome para cada dia do fim de semana.

Gente como Limp Bizkit, Korn, Kid Rock, Offspring, Metallica, Megadeth, Bush ou Red Hot Chili Peppers pareciam ser o motivo que arrastou a grande maioria dos milhares de jovens que estiveram em Woodstock 99. Era a música que os jovens revoltados desta altura ouviam. Era a música que, também, começava a desaparecer dos circuitos mais comerciais de divulgação e que aqui encontrou uma espécie de último hurrah.

Os incêndios não acalmaram, a destruição começou, e o festival da paz, rock e amor tornou-se num cenário apocalíptico, sem câmaras de telemóveis para o filmar. O mais surpreendente? Acabou tudo com relativa passividade (o documentário da HBO ilustra-o da melhor forma possível).

Algumas das histórias mais marcantes do festival aconteceram durante estes concertos – Korn, Limp Bizkit ou Metallica –, mas na memória de quem ouviu isto pela rádio fica o concerto dos Red Hot Chili Peppers no domingo, último dia do evento, quando, à distância e longe do que se estava a passar no palco, se percebe que há coisas a arder no recinto e que. A banda, ao invés de apaziguar os ânimos, decide tocar uma versão de “Fire” de Jimi Hendrix, atirando mais combustível para os motins que começavam a acontecer. Já no dia anterior, sábado, a destruição tinha sido nota dominante. Ficou famoso o momento em que os Limp Bizkit tocaram nesse dia e interpretaram “Break Stuff”, para sempre demonizados pelo que aconteceu (o mesmo site The Ringer tem, aliás, uma série em podcast dedicada ao tema)

O resto é história. Os incêndios não acalmaram, a destruição começou, e o festival da paz, rock e amor tornou-se num cenário apocalíptico, sem câmaras de telemóveis para o filmar. O mais surpreendente? Acabou tudo com relativa passividade (o documentário da HBO ilustra-o da melhor forma possível).

1999, parte 2: e depois, o que se segue?

Pouco antes de Woodstock, em junho de 1999, um estudante de Boston coloca online um software de partilha de música. O Napster não foi o primeiro programa do género, mas foi aquele que generalizou o consumo gratuito e ilícito de música, que está na origem do consumo atual, seja via stream ou download digital. O Napster normalizou o ato de procurarmos e consumirmos música desta forma, através da internet, e causou uma mossa na indústria musical. Pedimos desculpa: transformou a indústria por completo.

Woodstock 1999

400 mil pessoas em quatro dias de festival, com quatro palcos e mais de 45 atuações

Getty Images

Ao mesmo tempo, naquele festival assombrado, estava em marcha outra mudança. Em “Woodstock 99: Peave, Love And Rage”, um dos intervenientes a dado momento refere que a organização procurava “manufaturar nostalgia” e fazer isso render. Ou seja, vender um produto — neste caso, um festival — através de uma memória de Woodstock e não realmente aquilo que Woodstock 99 acabaria por ser. Michael Lang e companhia foram – mais uma vez – visionários neste conceito. O programa saiu-lhes mal, mas lançaram as bases para o que se iria assistir nas décadas seguintes.

Não demorou muito para que a indústria musical começasse a beber na nostalgia e a tratá-la como uma solução para agregar gerações em eventos para milhares de pessoas, tornando-os acessíveis e mais seguros para toda a gente. O que correu mal em Woodstock foi uma lição para se começar rapidamente a fazer bem: na primeira edição de Coachella oferecia-se uma garrafa de água à entrada.

A nostalgia é hoje uma presença constante nos festivais (e na indústria musical). Seja pela forma como a música é comercializada, através de uma constante ponte para trás, pelo número de reedições ou cartazes de festivais repletos de regressos, reagrupamentos, celebrações de carreiras, discos e a apologia do “risco zero”. E talvez esteja aqui o maior conforto da nostalgia, aquela ideia de sítio onde fomos felizes — ou onde poderíamos ter sido felizes, se ao menos tivessemos sido capazes.

Em “Woodstock 99: Peave, Love And Rage” somos levados ao fim de um sonho. Ou melhor, à realização de que esse sonho já não existia. O primeiro capítulo da série “Music Box” é uma reflexão certeira, uma  leitura dos 1990s e de como foi preciso parar com alguns excessos através do evento mais excessivo de todos. O documentário exagera no fator “estava-se mesmo a ver”. Mas não, em 1999 não se estava mesmo a ver que Woodstock iria ser assim. Ou pelo menos havia a esperança de que não fosse. Afinal, 30 anos antes, foi a esperança que criou o original.

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