Explicador

O que está a dividir o Bloco de Esquerda

Agosto 201429 Agosto 2014237
Rita Dinis

Que partidos eram estes que estiveram na origem do BE e o que lhes aconteceu?

Pergunta 2 de 14

Desde a sua fundação, o Bloco de Esquerda sempre se afirmou como uma força política de correntes que não negava a origem dos três partidos que estiveram na base da sua formação – UDP, PSR, PXXI. Foi depois incluindo outros grupos e tendências, desde pequenos partidos como a Ruptura/FER, a grupos de cidadãos constituídos dentro do BE mas com relativa independência face à política geral do partido – caso das mulheres, homossexuais, LGBT, sindicalistas e ambientalistas.

Os três partidos fundadores do Bloco acabaram por se extinguir formalmente ao fim de alguns anos, passando a ser consideradas associações políticas, que têm práticas e ambições semelhantes – continuando a fazer congressos e a eleger dirigentes – e direitos dentro da máquina partidária. As associações políticas passaram a exprimir os seus ideais através da edição de uma revista de cada área.

– A União Democrática Popular (UDP), que entrou no BE liderada por Luís Fazenda, é a mais velha das correntes. Foi fundada como partido político comunista, de tendência maoista, em 1974 e chegou ao Bloco de Esquerda como a ala marxista mais ortodoxa do partido. A sua corrente de pensamento ideológico era o aprofundamento teórico do marxismo e a formação de revolucionários. Esteve ligada durante muitos anos – antes da formação do BE – ao Partido Comunista (Reconstruído), de doutrina marxista-leninista. E tem sido ao longo dos anos considerada a tendência de maior peso interno e que sempre teve mais força na disputa pelos lugares de representação.

Na sua Conferência Nacional Extraordinária, em dezembro de 2013, a UDP aprovou a resolução ‘Marxistas também amanhã’, onde assume que “a única razão da existência da UDP é o marxismo”, sendo que a revista A Comuna é o instrumento de excelência para o debate teórico e a formação de novos revolucionários.

Segundo se pode ler na sua declaração de princípios, a UDP propôs na fundação do BE que o partido não fosse uma coligação eleitoral, mas um movimento onde cada pessoa fosse um voto. Ou seja, sem inerências de correntes. O que permitiu que qualquer grupo de militantes se pudesse organizar e apresentar plataformas políticas e listas concorrentes para a disputa dos órgãos internos do partido.

Em 2010, durante o 36º aniversário da UDP, a atual presidente da Direção Nacional daquela Associação Política, Joana Mortágua, sintetizou o propósito da UDP: ser uma “corrente marxista de pensamento dentro do Bloco de Esquerda”: “O nosso partido é o Bloco de Esquerda. A única razão da UDP é o marxismo. (…) Tirem-lhe a Comuna [revista da UDP] e a formação ideológica e a UDP terá desaparecido”, disse.

A UDP enquanto partido político que esteve na formação do BE formalizou a sua extinção e a sua passagem para associação política em abril de 2005, durante o seu XVII Congresso. Na altura elegeu Pedro Soares como presidente da direção da associação, cargo que é desde 2010 ocupado por Joana Mortágua, irmã gémea da atual deputada bloquista Mariana Mortágua e membro da Comissão Política do BE.

– O Partido Socialista Revolucionário (PSR), que chegou ao BE liderado por Francisco Louçã, era uma corrente de inspiração trostkista. Isto é, baseada na doutrina marxista como vertente do comunista mas por oposição ao estalinismo. Enquanto partido, foi fundado em 1978 durante o congresso em que a Liga Comunista Internacionalista (LCI) se fundiu com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Em 1979 grande parte dos militantes ligados ao PRT acabaram por abandonar o partido depois de uma cisão na IV Internacional.

Enquanto partido extinguiu-se oficialmente em 2006, sete anos depois de integrar o Bloco de Esquerda. Transformou-se nessa altura na Associação Política Socialista Revolucionária (APSR) que tinha na revista Combate a expressão dos seus ideais.

A corrente trotskista de Louçã vigorou dentro do Bloco até 2013, altura em que decidiu extinguir-se como parte de um esforço feito nessa altura entre alguns representantes das várias fações, como Louçã (pela APSR) e José Manuel Pureza (pela Fórum Manifesto) e os já coordenadores João Semedo e Catarina Martins, para criar uma tendência mais unificada dentro do Bloco, chamada Socialismo.

– O partido Política XXI foi fundado em 1994 por membros que vieram maioritariamente da Plataforma de Esquerda (grupo dissidente do PCP) e do Movimento Democrático Português (MDP). Destacam-se nomes como Miguel Portas, Daniel Oliveira, José Manuel Pureza, José Gusmão, Paulo Varela Gomes e Ivan Nunes, tudo militantes que deixaram a Plataforma de Esquerda para integrar a Política XXI quando aquele movimento (que integrava figuras como Pina Moura e Mário Lino) assinou um acordo eleitoral com o PS.

Era a corrente mais social-democrata do partido, a que defendia uma postura mais governativa do BE e não apenas uma postura combativa. Seria a fação bloquista que mais admitia alianças à esquerda, nomeadamente com o PS.

Depois de se juntar ao PSR e à UDP para formar o Bloco, em 1999, a Política XXI extinguiu-se enquanto partido em 2008 para passar a ser uma associação política chamada Fórum Manifesto. Manteve-se como tendência interna, que editava a revista Manifesto, até ao dia 12 de julho, 2014, altura em que os poucos membros da Manifesto que ainda estavam ligados ao BE (apenas quatro militantes) decidiram desvincular a associação do partido.

Resta ainda referir o partido Ruptura/FER, fundado inicialmente por Gil Garcia em 1983 com o nome Liga Socialista dos Trabalhadores, que passou em 1989 para Frente da Esquerda Revolucionária. Praticamente todos os militantes da FER acabaram por integrar a formação do Bloco de Esquerda pelo que, em 2005, foi formalizada a sua dissolução junto do Tribunal Constitucional. Mais tarde, da mesma forma que foram integrando o partido, os membros desta ala também foram saíndo do BE por divergência ideológica. Entretanto criaram um novo partido, o MAS – Movimento Alternativa Socialista.

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