Explicador

O que está a dividir o Bloco de Esquerda

Agosto 201429 Agosto 2014237
Rita Dinis

Quem são os dissidentes do Bloco?

Pergunta 7 de 14

Formado a partir de três partidos diferentes, que depois se tornaram tendências internas, não se pode dizer que o Bloco de Esquerda tenha sido desde a sua fundação um partido internamente consensual do ponto de vista ideológico. Logo na primeira convenção, em 2000, Paulo Varela Gomes e Ivan Nunes (originários da Política XXI, depois Fórum Manifesto) se tinham mostrado contra as linhas orientadoras da moção vencedora. Mas a verdade é que depois dos fracassos eleitorais de 2011 o partido começou a aparecer cada vez mais fragmentado.

A primeira dissidência acontece entre março e maio de 2011, quando a corrente Ruptura/FER (Frente de Esquerda Revolucionária), liderada por Gil Garcia, anuncia que vai desvincular-se do Bloco. Em causa estava a recusa de o partido formar uma aliança eleitoral com o PCP e de não avançar no sentido da renovação. Em agosto de 2013, com um grupo de dissidentes do BE, este grupo cria um novo partido – o Movimento Alternativa Socialista.

Seguiu-se, em junho, a saída de Rui Tavares, originário da Política XXI mas candidato independente nas listas do Bloco às europeias. O afastamento do historiador, que veio depois a fundar o partido Livre – que foi a sexta força política mais votada nas europeias de 2014 (com 2,1% dos votos) -, acontece em divergência clara com o ainda coordenador do partido Francisco Louçã. Em causa estava um conflito entre os dois que começou quando Louçã publicou na sua página de Facebook uma mensagem onde culpava Rui Tavares de ser fonte em duas notícias que davam como fundadores do Bloco Francisco Louçã, Miguel Portas, Luís Fazenda e Daniel Oliveira – em vez de Fernando Rosas. Louçã acusou Tavares de ter feito a troca propositadamente e o historiador veio dizer que tinha perdido a “confiança pessoal e política” no líder do partido.

Em março de 2013 foi a vez de Daniel Oliveira (também originário da corrente Fórum Manifesto) anunciar a desvinculação ao Bloco, por achar que o partido se tinha transformado num “fator de bloqueio, alimentando-se e alimentando o sectarismo” e por afirmar que Francisco Louçã não tinha deixado de coordenar mesmo depois de se afastar da liderança. Acabou por cortar com o partido em total discordância com a escolha da liderança bicéfala – entre João Semedo e Catarina Martins – e com a estratégia política seguida pela continuidade. Em dezembro, fundou o movimento 3D, onde apelava à convergência da esquerda, e este mês voltou a manifestar a sua divergência face à estratégia do partido de ser um partido de protesto e recusar alianças e pontes para governação. Com o título ‘Ou queres governar ou serás sempre governado’, Daniel Oliveira escreveu no Expresso que “a esquerda precisa de compromissos” e entendimentos, por na sua opinião ser esse “o único caminho para vencer a alternância da desilusão ou o pântano do bloco central”.

Também a dirigente bloquista Joana Amaral Dias veio a sair por razões semelhantes. A ex-deputada apresentou a carta de desfiliação em maio deste ano, apenas dois dias antes de se juntar ao PS numa convenção do Novo Rumo. A justificação foi a ausência de políticas de alianças à esquerda e a vontade de ter “liberdade para atuar” politicamente de acordo com a sua consciência, como disse ao Público. O afastamento da psicóloga em relação ao Bloco (e a aproximação ao PS), no entanto, era antigo. Em 2006, tinha sido mandatária para a juventude da candidatura de Mário Soares à Presidência da República. Já nessa altura a sua ligação ao PS não foi bem vista dentro do BE, até porque nessas eleições Francisco Louçã concorria pelo Bloco. Em 2009, foi excluída da mesa nacional – órgão máximo entre convenções -, deixando nessa altura de ser dirigente do partido.

Em julho foi a vez de Ana Drago anunciar a sua saída e a desvinculação da tendência que encabeçava dentro do partido (e à qual pertenciam mais três militantes do BE) – a Associação Fórum Manifesto -, alegando divergências sobretudo no processo de convergências e alianças políticas. “Governar ou ser governado” – motivos semelhantes, portanto, aos dos restantes dissidentes. Drago disse que a desvinculação da corrente era “um passo necessário” e que a Fórum Manifesto iria prosseguir o seu caminho, possivelmente rumo a outras alianças de esquerda e “plataformas de compromisso”. “Neste momento são urgentes soluções para o país”, disse, alegando que “não era possível tê-las no Bloco de Esquerda”. “Amigo não empata amigo”, disse a ex-militante. Um novo partido está à espreita. Em janeiro já se tinha demitido da Comissão Política, tendo continuado como militante e membro da mesa nacional. Também já tinha saído da bancada bloquista no fim de agosto do ano passado, sendo substituída no Parlamento por Mariana Mortágua.

Pelo caminho conturbado do Bloco de Esquerda ficaram ainda outras cisões e divergências. Em 2010, por exemplo, levantaram-se vozes dentro do partido (vindas principalmente da UDP) pela decisão de não haver um candidato do Bloco às eleições presidenciais e de, ao invés, o partido apoiar a candidatura do socialista Manuel Alegre, que ia como independente. Foi Cavaco Silva quem acabou por ser eleito logo na primeira volta.

Nota ainda para a histórica divergência do partido com José Sá Fernandes, que chegou a ser vereador independente da Câmara de Lisboa integrando a equipa do socialista António Costa. Em 2005, no decorrer da IV Convenção do BE, o partido aprovou o apoio da candidatura de Sá Fernandes à Câmara de Lisboa, como independente pelas listas do Bloco. Mas três anos depois o desentendimento foi notório, e a concelhia de Lisboa do Bloco de Esquerda apresentou uma proposta de resolução, assinada por Luís Fazenda, onde se lia que “o programa eleitoral Lisboa é Gente, com o qual o Bloco de Esquerda se comprometeu com os lisboetas, deixou de encontrar a devida representação no vereador José Sá Fernandes”, pelo que era anunciado o fim do entendimento com o bloquista independente. Pelo meio ficou um historial de divergências com a direção do partido, em especial com a ala da UDP.

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