1. O que é o bullying?

  2. Ainda que o bullying esteja relacionado com um comportamento violento, nem todas as atitudes violentas podem ser consideradas bullying. Uma luta ocasional entre colegas não é bullying.

    Intencionalidade e repetição são palavras chave para classificar como bullying um comportamento violento.

    É uma situação que resulta de um desiquilíbrio de poder entre agressor e agredido. Um ou mais indíviduos mostram-se superiores a nível físico e abusam física ou psicologicamente de uma ou mais vítimas.

    É normalmente praticado entre pares – pessoas que têm algo em comum -, como colegas da mesma turma, pessoas da mesma idade ou indivíduos relacionados com o mesmo grupo. Acontece normalmente entre crianças e jovens do ensino básico, mas pode manter-se no ensino secundário ou mesmo na idade adulta.

    A expressão bullying é utilizada com mais frequência para falar deste tipo de situação de agressividade entre colegas na escola ou entre irmãos, mobbing quando se refere a colegas de trabalho e violência doméstica quando se trata de um casal.

  3. Que tipos de bullying existem?

  4. O bullying pode ser praticado de várias formas, seja a nível físico ou verbal, isoladamente ou em simultâneo. Mas em qualquer dos casos, a violência psciológica está sempre presente e o objetivo é sempre o mesmo, humilhar e causar desconforto e insegurança à vítima.

    A Associação de Apoio à Vítima (APAV) identificou os seguintes cinco tipos:

    • Físico: empurrar, prender, bater, cuspir, roubar dinheiro ou bens pessoais, rasgar a roupa;
    • Sexual: insultar ou fazer comentários de natureza sexual, obrigar à prática de atos sexuais;
    • Verbal: chamar nomes, gritar, humilhar, ameaçar;
    • Social: deixar a vítima fora das atividades de grupo, espalhar mentiras, rumores, segredos e comentários negativos;
    • Ciberbullying: usar meios digitais como SMS, email, sites e redes sociais, como forma de disseminar informação falsa, perseguir ou insultar.

    Outras fontes referem três tipos: direto e físico, direto e verbal, indireto.

  5. Quem é quem: o agressor e o agredido?

  6. O agressor ou bully tende a ser mais forte a nível físico e a ter um perfil violento e ameaçador. “Os estudos mostram que os agressores são, usualmente, crianças ou jovens que revelam pouca empatia e que apresentam uma constituição física mais robusta do que os seus pares. De uma forma geral, pertencem a famílias pouco estruturadas, caracterizadas por um fraco relacionamento afetivo entre os seus membros, por uma insuficiente supervisão da parte dos pais ou dos responsáveis pela sua educação/formação e pela existência de comportamentos violentos no seio da família como forma de solucionar conflitos”, refere Maria Fernanda Velez na tese de mestrado.

    Os agredidos ou vítimas passivas podem ter alguma característica que o torna mais susceptível à agressividade dos pares, como usar óculos, ter excesso de peso, ser homossexual, ser de outra etnia ou ter um comportamento introvertido. São normalmente pessoas inseguras, com menos autoestima e que se isolam mais. O bullying pode afetar a saúde física, emocional e social das crianças envolvidas e ter consequências graves, tais como depressões e, em última análise, suicídio.

    Existe um outro tipo de agressores que são simultaneamente vítimas, chamados vítimas provocativas ou reativas. Estas vítimas reagem quando são atacadas, mas não conseguem afirmar-se perante o agressor de forma assertiva. Também podem tornar-se agressores de outras pessoas que considerem mais frágeis.

    As vítimas reativas são normalmente mais impulsivos, mais ativo e provocam maior irritabilidade. O facto de reagirem pode despertar nos agressores maior vontade de manter a agressão porque se divertem com a reação do agredido, explica Sónia Seixas, psicóloga pedagógica e subdiretora da Escola Superior de Educação de Santarém (ESES).

  7. Como identificar uma vítima de bullying?

  8. As vítimas de bullying têm muitas vezes alterações de comportamento ou na saúde: alterações no humor, abatimento físico e psicológico, pouca paciência, mais alheado do que de costume, mais introspectivo, com piores resultados na escola ou a nível profissional, com queixas físicas permanentes (dor de cabeça, de estômago, fadiga), irritabilidade extrema, inércia. Mas é importante que não se confundam estes sinais com outras características próprias, por exemplo, da adolescência.

    Os pais podem perceber que o filho está a ser vítima de bullying na escola quando ele pede para ser levado à escola quando normalmente já não o faria, quando aparece em casa com os bens pessoais danificados, com marcas de agressão física ou com falta de alguns objetos, também quando não são convidados para sair com os colegas da escola ou quando perdem o gosto pelas atividades de lazer.

    Embora as agressões possam não se manter na vida adulta, a vítima pode manter os problemas psicológicos durante esta fase da vida. Na vida adulta podem ter dificuldade em confiar nos outros, problemas de ajustamento social e incapacidade de se relacionar com os outros.

  9. Como detetar um agressor?

  10. Embora não haja provas de uma predisposição genética para a agressividade de um indivíduo, pode haver tendência para um temperamento mais impulsivo. Este temperamento quando não é controlado pelo ambiente ou pela educação pode resultar numa criança com comportamentos violentos, explica a psicóloga Sónia Seixas.

    Os sinais no agressor são mais difíceis de detetar, mas podem identificar-se alguns comportamentos antissociais, agressividade, deliquência, vandalismo ou consumo de substâncias ilícitas. Pais e professores podem identificar na criança agressora uma maior dificuldade em respeitar figuras de autoridade e pouca resistência à frustação. Os filhos que aparecem em casa com objetos que não lhes pertencem pode ser outro sinal para os pais.

    Por isso, não é só a vítima que terá problemas de adaptação no futuro, também o agressor terá perturbações de conduta e falta de capacidades de adaptação social, que se podem na idade adulta. Alguns estudos mostram que as crianças agressoras terão mais tendência para se envolverem em atividades criminosas. Mas o comportamento do agressor pode ser condicionado pela atitude da comunidade onde vive. Caso os comportamentos agressivos sejam valorizados, o agressor pode ter um estatuto popular dentro do grupo.

    Alguns estudos mostram que as crianças que são simultaneamente vítimas e agressoras tendem a mostrar características mais acentuadas de ambas as situações.

  11. O que deve fazer uma vítima de bullying?

    • Contar o que se está a passar a um amigo;
    • Contar a um adulto, como os pais ou professores, o que está a acontecer;
    • Denunciar os atos de violência às autoridades, como a polícia;
    • Evitar andar sozinho;
    • Não chorar e evitar mostrar que se está perturbado;
    • Ignorar as provocações e agressor e seguir caminho;
    • Enfrentar os agressores sem violência, mostrando segurança;
    • Usar humor sempre que possível;
    • Fugir, se for preciso, e procurar um lugar onde se sinta seguro;
    • Procurar a ajuda de profissionais para reforçar a confiança.

    Se se tratar de ciberbullying:

    • Não responder às mensagens ou provocações enviadas pelo telemóvel, email ou redes sociais;
    • Guardar as mensagens como prova;
    • Denunciar a situação à entidade responsável pela gestão do espaço online;
    • Contar a alguém de confiança.
  12. Como ajudar as vítimas de bullying?

  13. Seja amigo, encarregado de educação, professor ou colega de trabalho é importante mostrar à vítima que está recetivo para ouvir os problemas, mas sem insistir demasiado. Deve manter uma postura aberta e ser um bom ouvinte, sem criticar nem fazer julgamentos negativos.

    Acima de tudo não deve ser um observador passivo. A intervenção de uma pessoa que veja ou se aperceba que outra é vítima de bullying pode ser o suficiente para acabar com o comportamento agressivo do bully.

    Quem pretende ajudar uma vítima deve incentivá-la a denunciar a situação e a procurar ajuda junto de entidades como a APAV para jovens (Associação de Apoio à Vítima), o Portal Bullying ou o Instituto de Apoio à Criança.

    Ter atenção aos relatos e confirmar com os colegas, professores ou outras pessoas do mesmo meio se os relatos são verdadeiros.

  14. O bullying é crime?

  15. Uma proposta de lei que propunha a inclusão do bullying no Código Penal foi aprovada em 2010 pelo Governo de José Sócrates, mas com a queda do Governo acabou por caducar em março de 2011 sem ver a aprovação da Assembleia da República.

    A ideia era autonomizar o crime (que não está tipificado no Código Penal) e criar molduras penais semelhantes às aplicadas aos crimes de violência doméstica, com penas de prisão de um a cinco anos para os maiores de 16 anos, que podiam chegar aos 10 anos de pena em caso de ofensa grave à integridade física ou morte.

    Desde que a proposta de lei caducou em 2011 não houve novas propostas sobre este tema. Agora há um grupo de trabalho que tem estado a estudar o fenómeno da indisciplina em meio escolar e que vai apresentar as primeiras conclusões na próxima quarta-feira.

    Enquanto o bullying não for considerado um crime público apenas a vítima ou os pais, caso esta seja menor, poderão apresentar uma queixa que leve o Ministério Público a abrir um inquérito.

  16. A agressividade nas escolas é expressiva?

  17. Estes são os crimes registados pela PSP, em ambiente escolar, no ano lectivo de 2013-2014:

    • 34% dos crimes ocorridos dentro e fora da escola estavam relacionados com agressões;
    • média de 185 casos de agressões por mês, num total de 1665;
    • registaram-se 142 casos de ofensas sexuais;
    • 72,5 % das ocorrências (6 693) em contexto escolar foram de natureza criminal – aumento de 5,4% de casos participados à polícia e de 8,1% de crimes propriamente ditos.