Há decisões acertadas justificadas com motivos errados. Cavaco Silva deu na noite desta quinta-feira um exemplo claro dessa possibilidade.

A indigitação de Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro era a única decisão que o Presidente da República podia tomar para respeitar de forma inquestionável o resultado das eleições de forma entendível para a generalidade dos eleitores.

A coligação PSD/CDS foi a clara vencedora das eleições, mostrando que o divórcio violento entre o país e o governo ao longo de quatro duríssimos anos foi mais um enviesamento zarolho dos media do que uma realidade de facto. A coligação perdeu a maioria mas renovou o direito a governar. E ficou com a obrigação de governar de forma diferente, trocando a determinação pela negociação. É isso que se espera de um governo que não tem maioria no Parlamento.

A sustentar a acertada decisão de Cavaco Silva está também a inexistência, até ao momento, de qualquer acordo firme, sustentado e coerente entre o PS, o BE e o PCP que permita olhar para as negociações que mantiveram nas duas últimas semanas e ver nelas um programa de governo decente com perspectivas de durar uma legislatura.

Não basta a António Costa sair de Belém a anunciar que tem “as condições para que possa existir uma solução com apoio maioritário que garanta estabilidade” sem ter logo ali, no bolso, o acordo assinado que faz desse seu desejo uma realidade. A prova disso mesmo é que, três dias depois, acordo à esquerda ainda nem vê-lo.

Mas, sobretudo, é no Parlamento que os governos são legitimados, vivem e morrem. Não deixa de ser irónico que os que sustentavam que António Costa devia ser já indigitado primeiro-ministro, valorizando a soberania parlamentar e o apoio maioritário que esta opção terá, eram os mesmos que logo a seguir consideravam uma “perda de tempo” a submissão de Passos Coelho a essa mesma soberania parlamentar. Os votos das eleições contam-se nas urnas tal como os votos dos deputados se contam na Assembleia da República e não em declarações de oportunidade ou em conferências de imprensa.

O Presidente da República sustentou de forma sólida por que tomou esta decisão e fechou bem o discurso, remetendo para os deputados os passos seguintes.

O problema é que, pelo meio, Cavaco decidiu fazer considerações sobre a natureza ideológica e programática estruturais de dois partidos, o PCP e o Bloco de Esquerda, traçando claramente uma linha vermelha que, no seu entendimento, os afastam de qualquer solução de governabilidade.

Não está em causa se esses dois partidos da extrema-esquerda são mesmo como o Presidente os define, que são. Nada do que Cavaco Silva disse é objectivamente errado. É verdade que os “programas eleitorais com que se apresentaram ao povo português, defendem a revogação do Tratado de Lisboa, do Tratado Orçamental, da União Bancária e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como o desmantelamento da União Económica e Monetária e a saída de Portugal do Euro, para além da dissolução da NATO, organização de que Portugal é membro fundador”, como está escrito no discurso que leu.

A questão é que esta avaliação política, ideológica e programática não deve entrar nas contas da decisão presidencial de um possível arranjo governamental que também sai do resultado eleitoral.

Uma coisa seria Cavaco rejeitar um acordo concreto que o PS lhe pudesse levar para formar governo com o apoio do PCP e do BE por considerar que não era consistente e abalava “os fundamentos do nosso regime democrático”.

Outra coisa, bem diferente, foi aquilo que o Presidente da República fez, que foi dizer que independemente do conteúdo programático de um entendimento que possa vir a ser conseguido entre o PS, o PCP e o BE, a natureza histórica destes dois últimos partidos deve afastá-los à partida de qualquer solução de governo.

Cavaco não precisava de ter dito isto para justificar a sua acertada decisão. Num discurso de 28 parágrafos houve dois desnecessários e infelizes, que provocam mais problemas do que abrem a porta a soluções. Houve 122 palavras a mais.

Cavaco dividiu quando devia ter unido. Acentuou divergências quando precisamos de convergência. Extremou posições ideológicas quando a hora é de pragmatismo.

É provável que o discurso de ontem do Presidente tenha feito mais por um entendimento à esquerda do que a sede de poder de António Costa somada à repulsa que todas as esquerdas têm pela coligação PSD/CDS, a única coisa que verdadeiramente as une.

PCP e BE deverão estar agora ainda mais determinados em chegar a um entendimento com o PS para poderem confrontar Cavaco Silva como seu maior pesadelo: ter que optar entre um governo de gestão de Passos Coelho e dar posse a um governo de esquerda; entre uma governação de serviços mínimos até ao Verão do próximo ano e um governo suportado pelos partidos que diabolizou.

Entre a paralisia prolongada e os custos económicos e orçamentais das típicas soluções de esquerda estaremos sempre a falar de controlo de danos. Não são bonitos os cenários alternativos que temos pela frente mas o Presidente ajudou a desenhá-los nesta quinta-feira. A política está de volta mas o bilhete para o espectáculo vai sair-nos demasiado caro.

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com