E na primeira semana de 2021, tempo de assistir ao primeiro escândalo do ano envolvendo o Governo. Nada mau. A manter-se esta média modesta de uma trafulhice semanal, 2021 pode revelar-se, por comparação com 2020, até bem tranquilo para o executivo de António Costa. O cardápio de trafulhices para os próximos 12 meses abriu com uma clássica marosca documental. O currículo do magistrado proposto pelo Governo para o cargo de Procurador Europeu, José Guerra, foi todo ele martelado, de molde a ultrapassar Ana Mendes de Almeida, primeira classificada na escolha do Comité de Seleção Internacional, que avaliou os pretendentes ao cargo. Ou foi isto, ou estamos perante um caso de pura má fé jornalística. Na verdade, o Governo não enganou ninguém ao dizer que enviou o CV de José Guerra lá para a Europa. Só não terá esclarecido que, neste caso, CV não era a habitual abreviatura da expressão latina “curriculum vitae”, mas a mais lusitana sigla para “Cunha da Van Dunem”.

À boleia deste episódio, precipitados indivíduos não só clamaram incompetência por banda da Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, como trouxeram à liça o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e o caso do cidadão ucraniano morto nas instalações do SEF. Tudo para insinuar um hipotético padrão de inépcia deste Governo. Pasmo perante o grotesco de tal sugestão. É que estes dois casos não são apenas distintos, são diametralmente opostos. Se no caso do procurador José Guerra estamos perante um funcionário público que garante ter feito muito mais do que realmente fez, já no caso do SEF estamos perante funcionários públicos que garantem não ter feito coisa rigorosamente nenhuma.

O que é indiscutível é que esta situação do procurador José Guerra indicia um padrão de comportamento de António Costa. Pura e simplesmente, o nosso Primeiro-Ministro não tolera ficar em segundo lugar. Ficou em segundo nas eleições de 2015, pumba!, trata de inventar a geringonça para passar para primeiro lugar. Agora, o seu candidato ficou em segundo na eleição para Procurador Europeu, tumba!, trata de inventar uma moscambilha para o passar para primeiro lugar. Não tolera ficar em segundo lugar, António Costa. A não ser, claro, em rankings europeus de PIB per capita, ou de investimento público, ou de crescimento económico, ou assim. Aí, tudo bem.

Bom, no meio destas polémicas, terá escapado à generalidade dos analistas, mas não ao olho de falcão — com 2,75 dioptrias na vista direita e 2 dioptrias na esquerda ~- deste analista, o facto da produtividade/hora da função pública em Portugal ter crescido de forma exponencial nestas semanas. Nos últimos tempos, houve quem se tenha fartado de teclar no seu computador por essas repartições públicas fora. Como se não bastasse a extensa informação que teve de ser adicionada para produzir o imaginário currículo do magistrado José Guerra, ainda tivemos o caso dos boletins de voto para as eleições presidenciais, nos quais foi introduzido o nome e a fotografia de um candidato que, afinal, nem sequer pode concorrer. Isto, sim, é dar tudo para que o país não avance.

A propósito das eleições para a Presidência da República, o candidato em destaque, nas entrevistas e nos primeiros 37 de 159 debates, foi, claramente, Vitorino Silva. Num primeiro instante, Tino de Rans esteve impecável ao afirmar, com a autoridade de quem deu ao mundo o êxito o, Pão, Fiambre, Fiambre”, que O nosso Presidente apalhaçou um bocadinho a função de Presidente da República”. Já num segundo momento, o fundador do partido RIR não foi tão bem sucedido. No debate com André Ventura, Tino decidiu fazer uma metáfora sobre a tolerância racial e étnica, mostrando umas pedras de várias cores que apanhou na praia e que depois ofereceu ao líder do Chega. O meu receio agora é que, assim que se cruze com um cigano na rua, André Ventura lhe mande uma calhoada com uma dessas pedras da tolerância.