Começo este artigo por transcrever uma frase de uma notícia que foi publicada a semana passada no El País: “ (…) O coronavírus surpreendeu a UE com a guarda baixa devido a sete décadas de paz ininterrupta. E tanto na primeira como na segunda fase, os parceiros europeus mantiveram um certo ar de superioridade perante um mal que consideram próprio de outras latitudes. Frequentemente, o aterrar na realidade só chegou quando as morgues saturadas se sucediam aos hospitais superlotados.”

É verdade. A Europa, à guarda dos Estados Unidos e da sua própria revitalização económica e consequente prosperidade, viveu 70 anos num estado de segurança sem precedentes na história. Nem a crise de 2008 – que esteve longe de ser igual para todos os países – lembrou o continente de três valores políticos fundamentais: a resiliência, o sacrifício e o sentido que, afinal, cada país é uma comunidade constituída de comunidades mais pequenas. E que as comunidades existem, não só porque somos seres sociais, mas porque, por mais individualistas que queiramos ser, as sociedades são também sinal de que precisamos uns dos outros. Apaixonámo-nos pela ideia do mundo global e supranacional e esquecemo-nos do nosso vizinho do lado.

Mais: a paz dos últimos 70 anos fez-nos acreditar que estávamos seguros. Fez-nos rejeitar a ideia de que precisamos de exércitos, fez-nos acreditar que a ciência e a tecnologia resolviam tudo e que tínhamos atingido um certo grau de civilização que não tinha retorno. Pandemias, que figuram há anos em todos os planos de segurança nacional, nunca foram levadas a sério. Só aconteciam aos outros. E, por isso, não nos preparámos. Não nos preparámos como continuamos a não nos preparar para uma infinidade de desastres, guerras e coisas que não se comentam nos salões, mas que, como vimos este ano, nos podem acontecer. Porque é muito caro. Mas, principalmente, porque é muito difícil mudar mentalidades e convencer as sociedades ocidentais das suas próprias vulnerabilidades. Mesmo sabendo que os países que tiveram mais êxito em combater o vírus foram os que se precaveram para o que pode nem vir.

A Europa é um continente com séculos de história notável. Mas a ilha de paz e prosperidade onde temos vivido levou-nos a acreditar que tudo tinha solução, e uma solução rápida e fácil. Complexidade era uma coisa que acontecia aos outros. A pandemia mostrou-nos que não é assim. Mostrou-nos que somos vulneráveis e temos que aprender a viver sem estarmos em permanente segurança total. Como, aliás, todos os seres humanos em toda a história da humanidade. Não é tragédia nenhuma.

Mas há lições a tirar. A primeira, é que esta crise obrigou os governos nacionais a lidarem com uma emergência sem precedentes. E se no início houve uma anuência continental quase universal aos estados de emergência e pedidos de cuidados, aos poucos, fomos perdendo a confiança que tínhamos nas instituições. Toda a gente compreende que fomos apanhados de surpresa na primeira vaga. Já é mais difícil percebermos porque é que esta segunda vaga está a correr assim. Se numa primeira fase o Estado e os cidadãos uniram esforços – abrindo a possibilidade de um novo entendimento institucional –, agora os cidadãos revoltam-se nas ruas de Itália, da Alemanha, do Reino Unido, e por aí fora. É cedo para prever. Mas pouco me espantaria que esta desconfiança viesse dar força aos partidos de protesto que, em regra, têm agendas menos democráticas.

A segunda lição, é que os Estados-membros serão responsáveis pela forma como gastam o dinheiro que vem de Bruxelas para a retoma económica. A União Europeia – eu diria a dupla Merkel-von der Leyen – soube estar à altura do desafio, mas a operacionalização do plano de recuperação cabe aos Estados-membros. Há oportunidades que não temos duas vezes. Esta é uma delas.

A terceira, é que a normatividade europeia não é um escudo contra todos os males. Apanhámos dois grandes sustos: a pandemia e o virar de costas dos Estados Unidos. Temos de aprender, em pouco tempo, a competir num mundo que se transformou e não está aqui para nos dar tréguas. Mas a primeira de todas as condições é aceitarmos a nossa vulnerabilidade e insegurança.