Eu sempre detestei gente que culpa o ano por tudo aquilo que acontece de ruim. Na verdade, nunca entendi gente que dialoga com as frações do tempo, sejam elas anos, meses, semanas ou dias. Gente que posta coisas como “bem vindo, outubro, que você nos traga muita alegria.” Sinceramente, sempre achei essa gente extremamente irritante.

Até que chegou 2020 e eu me tornei um desses idiotas que conversa com o ano. Aliás, 2020 me tornou uma idiota em muitos aspectos. Eu faço aulas de fitDance na sala de casa. Eu faço smoothies detox, tentando me livrar de pensamentos tóxicos que, em geral, não passam pelo intestino. Eu acendo velas e incensos tentando queimar todas as porcarias que estão no ar, sejam vírus, energias, medos ou quaisquer outras coisas que não sejam minimamente passíveis de serem queimadas por velas ou incensos.

Eu passei, nesse ano, a fazer inúmeras coisas que eu sempre julguei ser coisa de gente idiota. E que realmente são. Mas, agora, creio que sou um deles. Na verdade, acho que ninguém sai de 2020 sem ser meio idiota. Seja por ter começado a procurar socorro em lugares onde o socorro não está, seja por achar que não precisa de socorro. Você precisa sim, meu amigo, vai por mim. Se ainda não percebeu, é porque é ainda mais grave.

A pandemia, com todas as suas infernais decorrências económicas, políticas, sociais, psicológicas, matrimoniais, profissionais, alimentares, familiares e académicas só pode ser resumida numa frase: eu não aguento mais. Ninguém aguenta mais. E já chegámos a um ponto em que os que estão fisicamente bem já não vão mentalmente bem, e a noção de saúde também já não é lá grande coisa.

2020 tem sido tão estúpido, que hoje (6 de Novembro, dia em que escrevo esse texto) meu peito está em festa com a provável eleição de Joe Biden. Mas eu nem gosto de Joe Biden. Seria cómico se não fosse trágico. A simples não reeleição de Trump (que eu realmente espero que se confirme no decorrer desse dia) é provavelmente a coisa mais positiva que aconteceu esse ano. Sim, é algo grandioso. Mas, sim, é uma comemoração ridícula também.

E é claro que tenho consciência de que quando o ano virar, nada vai melhorar. A chegada de 2021 não é nada além do dia seguinte a um dia de 2020. Como diria Drummond, “o último dia do ano não é o último dia do tempo”. Mesmo assim, eu só quero que 2020 acabe. Não tem grande racionalidade nisso. Eu só quero um recomeço, um respiro, uma esperancinha estúpida de que as coisas mudem.

Sabe como é, a gente vai se apegando em coisinhas pequenas. Uma esperancinha na democracia, uma esperancinha na saúde pública, uma esperancinha de frear a extrema-direita, uma esperancinha de poder respirar ar fresco sem máscara, uma esperancinha de poder abraçar nossos pais sem prender a respiração. Enfim. Essas coisas, que num passado longínquo pareciam banais.

E é por isso que eu quero que 2020 acabe. Para poder reaver alguma esperança. Para retirar forças não sei de onde para manter o bom humor, para sentir que temos uma nova chance. Otimistas irritantes me diriam que todo dia temos uma nova chance. Mas agora eu estou de saco bem cheio das chances de 2020 e realmente querendo novas chances (inclusive de me dar mal), mas fora desse ano caótico.