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Nos primeiros dias do ano, os portugueses elegeram “saudade” como a palavra de 2020. A escolha deste vocábulo traduz bem a nostalgia que resulta do distanciamento que tivemos de adotar nas várias esferas da nossa vida para travar a Covid-19. Num misto de presencial e digital, moldámo-nos a novas formas de viver as relações e os afetos, de usufruir da cultura e do lazer e, claro, de trabalhar.

Esta pandemia está a provocar a maior transformação no mundo do trabalho a que assistimos desde a Segunda Guerra Mundial. Acelerou os processos de inovação e transformação digital e acentuou a Revolução das Competências, que já observávamos há vários anos, desencadeando uma profunda redefinição das necessidades de talento de muitos setores de atividade e um ritmo elevado de evolução nas competências mais procuradas.

Segundo o estudo do ManpowerGroup, “What Workers Want: O Futuro dos Trabalhadores, pelos Trabalhadores”, em 2020, aumentou a procura de talento nas áreas de tecnologia e transformação digital, e-commerce, logística e, naturalmente, na saúde. Por oposição, áreas como vendas e marketing ou a hotelaria e turismo e lazer, fortemente impactadas pelos efeitos da pandemia, viram-se na necessidade de reduzir o emprego.

Esta disrupção agravou o desencontro entre o talento existente e as necessidades das empresas e aumentou as desigualdades na força de trabalho: quem possui as competências mais procuradas fica, naturalmente, numa posição privilegiada em termos de segurança no emprego, negociação salarial, conciliação familiar e adoção de modelos de trabalho híbridos.

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A formação surge, por isso, como um ativo fundamental na gestão deste contexto, sendo crucial para ultrapassar o desencontro de competências e para gerar novas oportunidades para os profissionais impactados pelo desemprego. Empresas, sistema educativo e Governo devem empreender um esforço conjunto para capacitar os trabalhadores para um contexto cada vez mais digital, apostando na sua qualificação e requalificação. Também aos trabalhadores cabe um papel ativo na implementação de uma cultura de learnability, através da procura constante do conhecimento e formação que lhes permitam assegurar uma maior empregabilidade ao longo da sua carreira.

A crise da Covid-19, trouxe-nos também um maior reconhecimento dos trabalhadores essenciais – alguns deles com funções anteriormente subvalorizadas e que emergiram como os heróis desta crise sanitária ao manterem-se firmes ao serviço de hospitais, supermercados, fábricas ou centros logísticos. Assistiremos no futuro a uma tradução deste reconhecimento nas condições de trabalho e de retribuição destas funções?

Com o início da campanha de vacinação contra a Covid-19, que deverá permitir repor alguma “normalidade”, este é o momento de traçar o futuro do trabalho. Não há dúvida que a pandemia mudou a nossa visão sobre a forma como trabalhamos. Aprendemos que o teletrabalho é exequível e produtivo, oferecendo uma flexibilidade que os trabalhadores já não querem perder. Esta crise representa, por isso, uma oportunidade para as empresas redefinirem as suas estratégias de talento e construírem, de raiz, um modelo mais equilibrado e focado no propósito, que responda às suas necessidades e à ambição dos colaboradores de melhor conciliar vida familiar e laboral.

Na minha lista de palavras de 2020, escolho resiliência e superação. Já para 2021, aposto por (re)construção, com a oportunidade de começar a desenhar um futuro do trabalho mais flexível, híbrido, seguro e inclusivo.