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Em 1953, Ray Bradbury publicou o seu livro mais famoso, que passou a constar de todas as listas distópicas de referência: Fahrenheit 451. A história centra-se num futuro papel desempenhado pelos corpos de bombeiros, que, ao invés de combaterem o fogo, cumprem a missão social de queimar livros. A razão é simples: “Se não queremos um homem politicamente infeliz, não lhe damos duas respostas a uma pergunta que o preocupe; damos-lhe uma. Melhor ainda, não lhe damos nenhuma. (…) Temos de as encher com dados não combustíveis, atravancá-las com tantos “factos” até se sentirem empanturradas, mas absolutamente “brilhantes” com informação. Então, sentirão que estão a pensar, terão uma sensação de movimento sem se moverem.”

Uma das mais importantes virtudes de um grande autor reside na capacidade de analisar perspicazmente a sociedade em que vive e intuir as dinâmicas que estão submersas, e que só mais tarde se revelam com clareza. Bradbury faz isso particularmente bem nesta obra: “As pessoas de cor não gostam de Little Black Sambo. Queima-se. As pessoas brancas não se sentem bem com Uncle Tom’s Cabin. Queima-se. Alguém escreveu um livro sobre tabaco e o cancro nos pulmões? Os fumadores estão a chorar? Queima-se o livro. (…) Queimem tudo, queimem tudo. O fogo é brilhante e o fogo é limpo.”

As implicações desta passagem para a atual discussão em torno da liberdade de expressão e dos movimentos puritanos de censura são óbvias e a luta de Bradbury manteve-se com os avanços do politicamente correto na sociedade norte-americana. A maior ironia talvez seja a retratada pelo próprio autor em relação a Fahrenheit 451, quando conta que foi avisado por estudantes de que algumas edições do seu livro estavam a ser censuradas por receio de contaminarem os jovens. Um romance que trata de censura e de queima de livros estava a ser, ele mesmo, censurado.

Há, claro, muitas formas de queimar livros. Alguns momentos históricos já revelaram essa queima literalmente. Outros, nas últimas décadas, manifestaram-se mais insidiosamente. Cortando passagens sensíveis, substituindo palavras inaceitáveis, retirando clássicos da literatura das listas bibliográficas escolares, impedindo a publicação de certos livros ou defendendo que outros só podem ser publicados se devidamente introduzidos e explicados ao público.

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Em Portugal, assistimos hoje a uma outra forma de incineração com as mais recentes regras adotadas pelo governo no combate à pandemia, que proíbem a venda de livros não só ao postigo, mas até em locais que estão autorizados a funcionar. Num país em que se lê tão pouco (não só por razões culturais, mas também porque os livros são caros) e as editoras e livrarias estão a ter tantas dificuldades para sobreviver, o governo parece empenhado na queima final. Como a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros afirma, as regras adotadas pelo Governo constituem uma política de terra queimada e estão a condenar o mundo livreiro a uma condição proibitiva.

Mas mais do que esta perspetiva económica, importa considerar o mérito do próprio Livro. Para que uma sociedade seja capaz de exercer uma razão crítica, o livro deve ser visto como um bem de primeira necessidade. Para que uma sociedade possa refletir sobre a sua condição em momentos de crise como o presente, o livro deve ter um estatuto de privilégio. Para que uma sociedade possa sobreviver a uma pandemia, tem de saber que não pode sobreviver a qualquer custo. E um governo que não compreende tudo isto deixa evidente a sua visão para o país, que faz ecoar outras visões, mais antigas, da sociedade portuguesa.

Bradbury diz-nos que o papel queima à temperatura de 451 graus Fahrenheit. Em Portugal, tal corresponderia a 233 graus Celsius sob a desculpa de uma pandemia. Não convém, de facto, a este governo que os portugueses leiam, pensem, reflitam. Ainda poriam em causa o que os nobres governantes fazem por nós.