Leio uma série de ideias e mnemónicas que anunciam ajudar empreendedores, fazedores e outros que querem subir na vida (seja lá isso o que for). Muitas delas têm como ponto focal a necessidade de pensar positivo. Percebo. No entanto, quando o exagero toma conta do receituário em vez de termos uma ideia em mil a funcionar teremos certamente um rácio pior. É que estas coisas das receitas, por um lado, rapidamente passam a clichés e, por outro, deixam-se contaminar à séria por um movimento viral, epidémico, em que todos passam a acreditar no impossível.

Há três dessas ideias (que parecem ter-se transformado em regras) que têm de ser transformadas sob pena de andarmos a enganar-nos. De tanto insistir nelas estamos a prestar um mau serviço a quem empreende e a quem ousa arriscar e, também, um mau serviço ao desenvolvimento que pretendemos.

1 – A regra do copo meio cheio

Isto pura e simplesmente não existe. Uma falácia. Se está meio cheio está também meio vazio. Está a metade. Não há e não deve haver aqui lugar a interpretações e zonas de subjetividade. Ou está abaixo de meio, ou está a meio ou está acima de meio. Meio cheio quando está a meio e meio vazio quando está a meio são linguagem e pensamento desadequados. E errados, na sua natureza, e com impactos mais negativos que positivos.

Explico.

Um aluno tira uma nota de 10. Passou. Lá vem o copo meio cheio. Como passou e ficou a meio entre o 20 e 0 é um daqueles copos meio cheios. Não é. Se o aluno tivesse tirado 9 teria certamente de estudar mais, melhor e ir mais longe. O aluno de 10 tem tendência a procrastinar e a não fazer a melhoria tão a sério como o que teve uma nota de 9 e tem de fazer novo exame. Este caso configura-se como tendência transversal e basta olhar para casos destes ao longo de vários anos. É, portanto, um aparente meio cheio.

Um empresário chega à faturação de 1 milhão de euros. Já nem copo meio cheio é. É quase todo cheio. E pronto, o número mágico do milhão transformou a cabeça do pequeno empresário e fê-lo pensar “já chega”. E o “já chega” leva-nos a milhares e milhares de pequenas empresas e a empresas de vão de escada que não têm como inovar e onde a ambição ficou na metade do copo que se apresentava meio cheio. De novo procrastinação e falta de ambição. Se o copo estivesse a meio (literalmente) ainda faltava a outra metade e, lá está, a luta teria que continuar para o encher. E não é semântica. É realidade.

Quando se vê o copo meio cheio há sempre a tendência, negativa, para o “já chega”, “já está”. Mas usualmente não está e não chega. É preciso mais. Se o copo está a metade, está a metade. Ponto. Sem interpretações e sem subjetividades. E sem pensamentos enviesados.

2 – A regra do não estabeleças objetivos que não apontem à lua

Vejamos a visão de uma empresa ou, mesmo, a visão pessoal. Não importa como lhe chamam mas tem de haver uma estrelinha orientadora. Que nos guie. Que nos una. Que nos faça trabalhar para mais e melhor. Que nos faça saltar da cama e ter vontade de ir atrás. Mas é bom que tenha algum realismo. Porquê? Porque uma visão baseada na realidade é sempre melhor que uma visão de tiro à lua. O tiro à lua tem sempre imensas virtudes, dirão. E eu até posso comprar a ideia mas falta sempre um bom vendedor.  O tiro à lua cansa mais e frustra mais do que alguma dose de realismo.

Explico.

É preferível ter uma visão com um claim do tipo “We expand customers mobility; We try harder” ou uma visão do tipo “Queremos ser a maior escola de Coaching do mundo?”. Escolham. A primeira visão tem um pensamento subjacente de underdog (que usualmente passa bem em termos de comunicação) e de como a Avis, a empresa que a escolheu e usa, se considera a empresa número dois e quer expandir a mobilidade dos seus clientes procurando arduamente ultrapassar o maior player do setor, a Hertz Rent-a-Car. A história é antiga, de resto. Mas boa.

Mas, dirão muitos e eu também, a visão deve ter um quê de utopia. Certo. Mas terá de ser logo a maior do mundo, como o exemplo da empresa de Coaching (e atenção que o exemplo é real)? Para além de ninguém saber o que é ser a maior – número de trabalhadores, faturação, número de geografias cobertas?

É verdade que a visão não pode, não deve, atingir-se todos os dias mas, todos os dias se pode conseguir um bocadinho dela. E esse bocadinho tem de ser materializável. Um novo contrato grande de rent-a-car ou uma nova geografia em carteira. Mensurável. Realista.

Dito isto, não vale atirar à lua. Pelo menos sem mais.

3 – A regra do não te rodeies de perdedores

No absoluto, não há pessoas com mentalidades perdedoras. Há pessoas com receios, com medos. Mas, se há coisa transversal ao homem, aos homens, é a vontade de superação. Tem é de se ir buscar, lá fundo, essa vontade e essa ambição.

E muitas vezes de onde menos se espera aparece, em lugar de um “perdedor”, um lutador, em lugar de “um entre muitos”, um “primeiras linhas”, em lugar de um desacreditado, alguém com vontade de ser ganhador. Onde há amorfos ou desinteressados há terreno para progressão, para transformação. Muitas vezes trata-se de contexto, de condições, de oportunidades. Se não são dadas condições e oportunidades não pode haver evolução e um perdedor pode ser um irremediável perdedor.

Ou seja, isto pode ser tudo menos uma regra: “não te rodeies de perdedores”. O que é isto? Só queremos pessoas iguais e com fome de ganhar? E aqueles a quem não foi ainda mostrado o que é ter fome de ganhar?

Ao contrário. Os putativos ganhadores já mostraram que conseguem e são bons a ganhar. Mas são-no sempre? Em todas as circunstâncias? Ou podem acomodar-se ao que já ganharam? Oiço muitas vezes dizer: “essa pessoa tem um currículo inquestionável”. Ok, é um ganhador, conclui-se. Mas e será, de futuro, um ganhador? Tal qual como nos investimentos: rendibilidades passadas não são garante de rendibilidades futuras.

Não há mentalidades perdedoras. Há pessoas diferentes. Se tivermos o cuidado de regar uma flor, por pequena que seja, amanhã podemos estar surpreendidos com a sua pujança. Se regarmos uma flor grande ela vai ser muitíssimo maior? Está por provar o crescimento comparativo em ambos os casos. Está por provar mesmo.

Mais, não é possível deixar de acreditar que é possível jogar à bola, correr ou levar uma empresa “perdida” a ser maior e melhor.  Isto ilustra-se bem, de forma ligeira, com Kevin Costner em McFarland ou Al Pacino em Um Domingo Qualquer. Tudo menos aceitar que um perdedor é um eterno perdedor porque antes disso, ou acima disso, há um ser humano com intrínseca vontade de ganhar.

Façam então o favor de não cumprir regras. Pelo menos estas 3.

Professor Catedrático – ISCTE – IUL; Presidente Comissão Executiva – INDEG – ISCTE Executive Education