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Durante esta crise, e é absolutamente normal que assim seja, tem-se notado uma exponenciação dos enviesamentos à realidade que mostra que, de facto, a ciência comportamental que conhecemos desde, pelo menos, os anos 60 do século passado está mais viva que nunca. Senão, vejamos uma multitude de situações e, neste artigo, pelo menos seis, que estão a dar cabo de nós.

Começa a generalizar-se a ideia de que nunca mais vamos sair disto. É o chamado enviesamento do status quo (status quo bias). Por muito que façamos, por todas as vacinas que haja, por esforços de confinamento que se façam, por mais afastamentos que nos imponhamos, por mais cuidados que tenhamos, nada está ou ficará melhor. E desacreditamos na possibilidade de daqui sairmos.

A verdade é que vamos sair. Não para uma realidade similar à anterior à pandemia. Mas vamos sair desta situação. Porém, se nada fizermos, quer em termos profissionais quer pessoais, no sentido de redesenharmos os nossos contributos e vidas, apenas podemos esperar mais do mesmo. De facto, seremos os maiores contribuintes líquidos para este inferno. E daqui à procrastinação total vai apenas um passo.

Depois, a normalidade que virá não será nunca tão viva e saborosa quanto a que já vivemos. Porque virá acompanhada de pobreza, de restrições e de uma vida que não poderá nunca ser aproveitada como o foi antes (outra vida virá e com os seus enormes sabores, disso podemos estar certos; toda a vida teve pobreza, restrições e formas de aproveitamento que nunca foram totais). Que será disto sem os restaurantes? Que será disto sem as discotecas? Que será disto sem os aglomerados de um estádio? Que será disto sem as filas de espera para um espetáculo? Isto é o que podemos dizer da força da conclusão (tudo será pior) e isso justifica, por si só, os nossos argumentos (que será disto…?). Não conhecemos o futuro e, da mesma forma, desconhecemos o que se nos irá apresentar. Mas enquanto o “futuro pior” é a conclusão, então é evidente que os argumentos hão-de estar lá todos. É patente, nesta fase, que há demasiadas pessoas a preferirem o viés da crença (belief bias).

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Está a emergir também, em paralelo a isto, o já só quero uma vacina, no matter what, ou ter Covid com efeitos levezinhos. Como se a vacina ou o ter Covid nos livrasse para sempre de todos os males e, com um ou outro, a nossa vida não fosse realmente ter que sofrer enormes ajustamentos. Isto designa-se por bandwagon effect ou o efeito do “todos sabemos que ou é de uma forma ou de outra que, pessoalmente, nos podemos livrar e sair disto”. As ideias e os preconceitos, nesta altura, já foram trabalhados pelo coletivo para que deixássemos de pensar por nós próprios. “Todos sabemos que é assim…”

No meio de tudo isto existem as nossas escapadelas à realidade. E sempre que o fazemos não corremos grandes perigos. Está estampado nas caras das pessoas que estão connosco o facto de poderem ser ou não transmissoras de Covid. E com isto vamos criando a nossa sorte e, na nossa bolha, fazendo emergir the gambler’s fallacy ou a falácia do jogador. Os factos passados testemunham a favor do não perigo que cada um de nós corre ao arriscar mais e mais. A verdade é que as nossas asneiras não corroboram a ideia de que dentro da estatística e das nossas probabilidades, versus as dos outros, nos encontramos protegidos. “Outros cairão por nós.”

E como se tudo não bastasse, este inferno está a doer-nos muito mais a nós, em termos pessoais. Talvez a mim, em particular, porque tenho uma realidade especial, particular, que vivo intensamente e bem pior à partida que a dos demais. Precisamente por isso, qualquer facto que contribua para confirmar que vivo num inferno é legítimo. O viés confirmatório (confirmation bias) nasce e, com isso, qualquer facto ou evento adquire proporções desmesuradas para os que acreditam que estão a viver a pior das piores situações porque o seu contexto já estava mais que handicapé.

No final, e para terminar em beleza, falta-nos o risk compensation que, infelizmente, vai tomando conta de todos quantos vão sendo vacinados e/ou já tiveram Covid. Agora que estão “imunes”, então já podem fazer o que quiserem. Sendo que, o seu comportamento compromete o comportamento da sociedade, é desinformado e a nova reinfeção – plausível – que possam contrair e dar a contrair a terceiros não pode justificar o risco.

Em conclusão, importa perguntarmo-nos com frequência se não estaremos a incorrer num enviesamento analítico do contexto, procurando por análise própria sair dele. E, sobretudo, percorrendo a situação de crise que vivemos com a necessária construção e positividade que se requer a qualquer ser humano contributivo para a sociedade.