72% dos jovens entre os 15 e os 34 anos e que trabalham por conta de outrem recebem menos de 950 euros líquidos mensais. Este dado (2021), proveniente do estudo Os Jovens em Portugal, Hoje, da Fundação Francisco Manuel dos Santos não pode senão constituir forte alarme e tudo quanto não queremos para Portugal.

Há muitas razões para este dado chocante. Muitas.

O que tenho vindo a escrever, sobre educação, parece-me ser uma forma de atacar este problema pela raiz. Parece-me. Evitando as constatações óbvias para passar a soluções.

Constatação: a economia cresce de forma anémica. Verdade. Quem, no entanto, poderá pagar mais aos jovens com crescimentos anémicos e há 20 anos de cerca de 1%? A economia cresce pouco porque a maioria das empresas cresce pouco, ou nada, há anos demais. As empresas não sabem como crescer e os seus empresários não sabem nem como nem para onde crescer.

Constatação: a ambição é pequena. Verdade também. Não consta, porém, que novos portugueses (os recentes) lá fora sejam maus trabalhadores ou tenham pouca ambição (tal como os antigos, muito embora sem formação). Antes pelo contrário. Têm uma ambição saudável para mais e melhor.

Constatação: há um fenómeno também transversal à economia e que, nesta pandemia, fez perder uma oportunidade (mais uma) crítica e a transformar. As empresas portuguesas são demasiado pequenas. Pequeníssimas. Fez-se algum empréstimo ou ajuda ou o que fosse no contexto da pandemia tendo como premissa que as empresas deveriam fundir-se, comprar outras, colaborar para receberem essas verbas? Não. Nada. Depois queixem-se da dimensão.

Nova constatação: no topo disto juntamos os 48% (sem o ensino secundário em 2019, entre os 25 e os 64 anos), de que tenho vindo a falar, isto é, onde se encontram empresários, gerentes de empresas e colaboradores, e a questão é, terá de ser, como querem que se alterem as coisas? Não aponta à solução mas começa a entrar verdadeiramente no cerne do problema.

As causas da não ambição, do não crescimento, dos fracos pagamentos são as consequências da falta de conhecimento a todos os níveis. As faltas de mundo. As faltas de produtos e serviços de valor acrescentado. As faltas de ideias e as faltas de know-how estruturado e, bem assim, as faltas de inovação. E as faltas claras, claríssimas, de dimensão.

De onde vem isto? Das ausências de formação. Das faltas de convívio com outras empresas e negócios pelo mundo fora. Das ausências de conhecimento do que fazem outras empresas e de as visitar. Das faltas de conhecimento estruturado de outras realidades e contextos. Das faltas de estudo. Como tenho dito, quem não sabe é como quem não vê. E não vê mesmo.

Como querem que um empresário pague mais se não sabe como crescer? Se não viu os seus congéneres internacionais nem tão pouco sabe como trabalham?

O ensino, se bem feito, deve chegar a todas estas empresas, empresários e colaboradores para lhes dar mais mundo, mais exposição, mais internacionalização, mais visão sobre o que se passa noutros lados e noutras geografias e contextos. Um pacote de ensino secundário para os 48% deveria proporcionar isto. Não é facilitismo, é exposição, é conhecimento, é inovação.

Não, nós não somos piores. E não, não é preciso licenciar as pessoas todas. É tão só preciso que se expliquem os fundamentos da curiosidade, da ambição, do valor, das diferenças. E que se dê mundo a estas pessoas todas. E que cada um dos portugueses tome a seu cargo pelo menos outro português que precisa de progredir nestas matérias. Completar o secundário? Um objetivo que deveria ser de todos e para todos para que se ganhe conhecimento, experiência, exposição num agregado específico para propiciar um boost a estas pessoas.

E o ensino é experiência, é exposição, tem de ser internacionalização. Isso, meus amigos, faz parte do pacote da boa educação – para lá da matemática, do português, das línguas, da história e geografia – e é por aí que se atacam os problemas que temos. Porque a educação é também isto que sublinho: exposição às formas de criação de valor, ao internacional, à maneira como outros fazem e se desenvolvem. Portugal precisa, urgentemente, de ser formado, educado num novo contexto global, repito global (e sem medos), a bem de todos.

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