Holocausto

74 anos depois de Auschwitz

Autor
  • Ana Fernandes
308

Em memória dos que faleceram, seja qual for a nossa religião, a nossa etnia, a nossa orientação sexual, o nosso partido, não podemos esquecer, não podemos deixar que seja esquecido ou desvalorizado.

27 de Janeiro de 2019, data banal para muitos, mas um marco histórico demasiado importante para ser esquecido. O alerta é da UNESCO. Hoje decorrem precisamente setenta e quatro anos. Setenta e quatro anos desde que os soldados soviéticos libertaram o campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polónia.

A recordação desta data é, de certo modo, um tributo à memória daqueles que perderam a vida no Holocausto, mas também uma recordação de que foram comportamentos antissemitas, racistas e intolerantes que levaram a todo o extermínio. Os números não mentem: neste genocídio faleceram aproximadamente seis milhões de judeus, oito milhões de eslavos, dois milhões de polacos, duzentos e vinte mil pessoas de etnia cigana, duzentos e cinquenta mil pessoas com deficiência, trezentos mil sérvios, mil e novecentas testemunhas de jeová, nove mil homossexuais, entre muitos outros. É impossível ignorar, é impossível esquecer.

Decorreram 74 anos, precisamente 27 010 dias, desde que os soldados russos invadiram Auschwitz (e o seu anexo Birkenau) e descobriram, ou tiveram a confirmação, do que lá ocorria. Hoje, faz também 421 dias desde que eu própria atravessei os portões onde ainda se lê Arbeit Macth Frei (ironicamente traduzido como “o trabalho liberta”). Era um dos objectivos presentes na minha bucket list – visitar um campo de concentração, e no ano passado decidi concretizá-lo. Não tenciono fazê-lo novamente. É uma experiência demasiado brutal, no verdadeiro sentido da palavra. É todo um conjunto de imagens, vestígios e, até mesmo, odores, que nos fazem ficar indispostos, que nos fazem desejar sair dali o quanto antes. Mas, ainda assim, é uma visita que todos deveríamos fazer uma vez na vida, porque, tal como indica a frase presente na entrada do bloco 4 (o primeiro em que entrámos no decurso da visita guiada): “Those who do not remember the past are condemned to repeat it” – Aqueles que não relembram o passado estão condenados a repeti-lo.

Numa sociedade como a nossa, em que temos acesso a muita informação, conseguimos facilmente perceber que não é assim tão descabido que algo que reconhecemos como inconcebível possa voltar a acontecer. Diariamente assistimos à ascensão de regimes totalitários, à proclamação de ideologias extremistas, à expressão de comentários preconceituosos, racistas ou homofóbicos, por isso não é completamente despropositado pensar que vivemos na iminência constante de um novo holocausto e que deveríamos repensar os nossos comportamentos intolerantes. Resta-nos confiar na educação, na propaganda e também no julgamento de cada um, porque, os genocídios, as atrocidades, os crimes de ódio continuam a acontecer por todo o mundo, basta prestar atenção e isso, talvez nunca tenha sido tão relevante como hoje.

É assustador, deveras assustador reflectir sequer sobre este assunto que a sociedade tende a ignorar, esquecer e, em algumas situações, até mesmo menosprezar. Foram demasiadas vidas, foram demasiados anos, foram demasiadas horas de trabalho decrépito, foram demasiadas humilhações. Em memória daqueles que faleceram, seja qual for a nossa religião, a nossa etnia, a nossa orientação sexual, o nosso partido político, não podemos esquecer, não podemos deixar que seja esquecido, que seja desvalorizado. Por isso, hoje celebramos, mais um ano, mais uma vez, o International Holocaust Remembrance Day – O Dia Internacional da Memória do Holocausto.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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