À medida que o mundo começa a emergir lentamente da “hibernação” a que foi sujeito e começa a descobrir como será a nova maneira de trabalhar, uma coisa é bastante clara. Os velhos tempos já eram! O novo mundo do trabalho não pode ter uma abordagem tradicional, única e para todos (nunca poderia, aliás, mas essa é outra história!).

Entre chats que vou tendo com colegas, amigos e com pessoas com quem me relaciono socialmente, todos têm a sua preferência na forma como querem trabalhar no futuro, e todos eles não passam pelo modelo tradicional de trabalho, num escritório das 09h00 às 18h00.

Alguns mal podem esperar para regressar ao escritório e estar novamente com os colegas. O sentimento de produtividade é maior quando estão perto de outras pessoas com quem possam trocar ideias de imediato. Dizem que no escritório há um feeling de pertença e esse environment fá-los sentir mais motivados e no caminho certo. Outros, sentem-se mais produtivos do que nunca a trabalhar de casa. Temem o pensamento de voltar ao escritório, agora que foram capazes de ver o quanto podem alcançar num dia normal e sem interrupções constantes. E referem ainda uma terceira opção, um híbrido entre ambos, porque permite ter o melhor dos dois mundos.

Uma coisa é certa, as equipas de Recursos Humanos e de Liderança estão prestes a ser atingidas (se é que ainda não o foram) por um “ataque” de pedidos de novas formas de trabalhar.

A Covid-19 mudou as nossas vidas e a de muitas empresas, que tinham um pergaminho de desculpas, com todos os motivos descritos, segundo os quais os seus colaboradores não podiam trabalhar a partir de casa. Desculpas como limitações de softwares e servidores, ou problemas de segurança e de proteção de dados entre muitas outras que nem imaginamos. Mas de alguma forma, todas elas foram por água abaixo com a quarentena obrigatória.

O que se impõe na era do trabalho pós-Covid passa por nos colocarmos no lugar do outro. As empresas no lugar dos seus colaboradores e vice-versa.

Para os colaboradores, agora é o momento perfeito para começar a pensar e a projetar o futuro. E isso passa por pensar na melhor maneira de coordenar a semana, quais as reuniões consideradas críticas, alinhando o tempo de trabalho aos picos de produtividade. Mas, também, qual será o impacto para a empresa se não estiver fisicamente no escritório os cinco dias da semana.

Colocar em perspetiva o seu trabalho, nesta fase, é fundamental e vai permitir que reúna um conjunto de informação para quando for chamado a intervir no futuro da empresa.

Para as empresas que neste momento estão a pensar como funcionar e quais os modelos a adotar, a minha primeira sugestão é ouvir os colaboradores. Segundo um estudo recente da JLL sobre Remote Work em Portugal 2020, mais de 60% da força de trabalho prefere os regimes mistos, ou seja, a combinação entre o teletrabalho e o trabalho em escritório. “A maioria dos portugueses considera que a solução ideal no regresso à normalidade pós-Covid é partilhar os dias de trabalho entre o escritório e a sua casa.” Nesse sentido, lançar questionários, agregar, analisar e considerar os resultados para o desenvolvimento de um novo modelo de trabalho é fundamental, mas também é fundamental arranjar um modelo que a empresa possa implementar e alavancar o seu negócio.

Agora é hora de nos adaptarmos e ajustar a abordagem de liderança das empresas e as métricas atuais de desempenho. O desempenho dos colaboradores precisa de ser medido com base nos resultados de entrega e não no tempo acorrentado à secretária.

Como fazer isso remotamente? Muito fácil. O primeiro passo para uma missão bem-sucedida no trabalho remoto, é a Confiança e Comunicação. Confiar no colaborador e conhecer o seu contexto é fundamental para não criarmos expectativas irrealistas quanto à disponibilidade do outro e desentendimentos quando as coisas não correspondem à normalidade. A comunicação vai permitir que alinhe as expectativas e os prazos de entrega com clareza. Esta pode ser feita através de reuniões virtuais, canais de comunicação da empresa ou presencialmente. Hoje em dia, existe uma variedade de ferramentas (viva a tecnologia) que permitem a comunicação constante, mesmo sem estar a comunicar com o colaborador. É importante ter em mente que não é função do colaborador em teletrabalho ou regime misto “provar” o tempo todo que está a trabalhar.

O segundo passo é adotar um regime OKR – Objectives and Key Results, uma ferramenta de configuração de objetivos de equipa ou individuais, para definir metas ambiciosas e desafiadoras com resultados mensuráveis. Os OKR permitem a criação de progresso e alinhamento e incentivam o envolvimento de todos os membros da equipa para o resultado final.

O mundo mudou, gostemos ou não. Empresas e colaboradores precisam encontrar um caminho a seguir para aproveitar os melhores aspetos das “antigas” formas de trabalhar, fundi-los com as “novas” e produzir. Importante, é não manter o novo modelo de trabalho estanque e continuarmos abertos à evolução contínua da maneira como trabalhamos juntos, tanto para nossa própria satisfação, como para o sucesso contínuo da nossa organização.

Patrícia Carvalho é formada em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, iniciou desde cedo o seu percurso profissional na área das organizações. Com foco no lado humano dos negócios, procura valorizar o potencial das pessoas nos diferentes níveis organizacionais para promover o negócio e construir um futuro sustentável para as empresas com as quais trabalha. Fez parte da equipa de Recursos Humanos da Novabase e, atualmente, encontra-se a trabalhar para a Onfido, uma Tech Startup, como People Partner.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.